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Nos próximos minutos dedicamos a análise aos protagonistas e aos temas que estão a marcar a atualidade no "Eu Venço Doré". Há notas de zero a 20 para distribuir e nesta edição de sábado, nas manhãs 360 de fim de semana, juntam-se a nós Eunice Lourenço, editora de política do Expresso, e a Mafalda Pratas, cientista política e colunista do Observador. A moderação deste "Eu Venço Doré" é contigo, Luís Soares.
Bem-vindas, Eunice e Mafalda, a este "Eu Venço Doré". Bom dia. Hoje vão dar notas ao pós-autárquicas, à saúde, também vamos falar dos resultados das eleições nos Estados Unidos, mas começamos, Eunice, por Cavaco Silva, numa semana marcada pelos 40 anos do primeiro governo de Cavaco Silva e também pela declaração de apoio ao candidato presidencial Luís Marques Mendes. Que notas retiraste desta semana que acaba por ficar politicamente também muito marcada pela presença, de novo, de Cavaco Silva?
Olá, bom dia novamente. Eu achei que a homenagem a Cavaco Silva foi um bocadinho forçada, por assim dizer. Não forçada por não dever ser feita, mas Luís Montenegro parece que alguém às tantas lhe terá dito: "Olhe, se calhar valia a pena fazer uma homenagem ao Cavaco Silva, porque o António Costa também fez uma homenagem a Pinto Balsemão quando foram os 40 anos do governo Balsemão." E por isso Cavaco primeiro teve um almoço organizado por ex-governantes seus, ex-ministros, ex-secretários de Estado, porque parecia que ninguém o ia homenagear pelos 40 anos e depois então Luís Montenegro marcou essa homenagem, que ficou aquém da tal homenagem de António Costa, que foi feita nos jardins e com presença de gente de várias áreas políticas. Esta foi uma coisa um bocadinho mais restrita, mas a nota que me fica é do discurso de Cavaco Silva, porque foi muito entre o reconfortante e o reconciliante, ouvir Cavaco Silva, que sempre teve uma imagem que ficou colada a uma frase que ele nem se recorda de ter dito do: "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas." Afinal, admitir que teve dúvidas, teve angústias até, e até cometeu erros, e deixar esse aviso de que os erros não se escondem. Foi muito curioso o momento que escolheu para partilhar aquilo que foi o seu pior momento na governação e que foi o momento de uma remodelação. Portanto, Cavaco Silva, em pleno debate público sobre se a ministra da Saúde deve sair ou não, partilha as angústias de uma remodelação, e uma grande remodelação que ele fez e que lhe garantiu a segunda maioria absoluta pela renovação do seu governo. E, portanto, o que me ficou foi esse discurso de Cavaco Silva, que tem sido um grande apoiante do Luís Montenegro, mas que pareceu ali deixar recados sobre que é impossível esconder erros e que as remodelações podem custar a fazer, mas por vezes são necessárias. Já o apoio a Marques Mendes é um apoio que não surpreende. Ele já tinha escrito um artigo no Expresso a dizer que era preciso um presidente com currículo político.
A traçar o perfil, não é?
Sim, a traçar o perfil do presidente. Era um perfil em que só cabiam Marques Mendes e António José Seguro. Agora, diz claramente no artigo no Observador que apoia Marques Mendes, mas di-lo com forte ataque a Gouveia e Melo. E eu acho que isso nem faz Marques Mendes ganhar mais um voto e pode até é beneficiar Gouveia e Melo. Portanto, tenho muitas dúvidas sobre a eficácia deste tipo de apoio do Cavaco Silva. Agora, não há dúvida que Marques Mendes é o único candidato que tem apoio de ex-primeiros-ministros e de ex-presidentes da República. Veremos quanto é que isso vale nas urnas. Quanto a notas, a minha nota é 16 pra Cavaco Silva, pelo tal discurso, pelos anos de governação, mas o que pesa aqui no 16 é uma foto deliciosa do fotojornalista do Expresso, Tiago Miranda, de Cavaco Silva a dar um beijo a Maria Cavaco Silva, ou de Maria Cavaco Silva a dar um beijo a Aníbal Cavaco Silva, que é de uma imensa ternura e que nos aproxima ainda mais deste casal, que sempre foi muito presente e presente como casal. E não tenho dúvidas que Maria Cavaco Silva teve uma grande influência e uma grande presença junto a Cavaco, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da República. E é muito bonito ver o amor e a ternura depois dos 80, em público, na residência oficial do primeiro-ministro.
Uma fotografia que potencia o teu 16 pra Cavaco Silva. Mafalda, como ouvimos a Eunice, Cavaco Silva falou nesse discurso até na importância de remodelações numa altura em que tem subido a pressão sobre a ministra da Saúde. Já Luís Montenegro disse ontem à noite no Brasil que mantém a confiança em Ana Paula Martins. Que avaliação fazes da estratégia do primeiro-ministro nesta matéria da saúde, Mafalda?
Sim, bom dia. Eu acho que Luís Montenegro está claramente a sobrestimar A sua capacidade política e até a sua maioria política e a sua estabilidade. É possível que resulte, muitas vezes estas estratégias acabam por resultar, mas também é mais provável que não resulte e que acabe a correr mal. E neste caso, o que me parece relevante, para além obviamente das declarações muito infelizes da ministra da Saúde sobre a grávida que faleceu, sobre as informações que viriam a ser falsas, na medida em que a grávida não tinha chegado recentemente a Portugal e já estava a ser seguida no SNS e, portanto, a sua morte não é de uma grávida que chega de repente e que não sabe falar português ou não sabe pedir ajuda, como a ministra disse, que foram realmente umas declarações muito infelizes, porque de certa maneira sacodem a água do capote, não só de uma maneira bastante indecente do ponto de vista humano, mas também estar a dizer que ela não tem qualquer responsabilidade no estado do SNS, quando já é ministra há mais de um ano. Ela já vem do governo anterior de Luís Montenegro. E de fato, ela tem sido um dos grandes pontos fracos do governo e Montenegro insiste nesta estratégia de não remodelar. E parte da razão é por esta ideia que Montenegro tem de que é um primeiro-ministro forte e de querer emular este seu modelo que esta semana ficou tão bem exposto, que é Cavaco Silva. Mas na verdade, a maioria de Cavaco Silva e a estabilidade dos governos de Cavaco Silva advinham de várias razões. Mas em parte da sua maioria parlamentar e do seu apoio popular absolutamente enorme, e portanto não são comparáveis as vitórias políticas de Cavaco Silva e as vitórias políticas de Montenegro, mas também de um certo período de crescimento econômico em Portugal e internacional que foi muito positivo, e até eu diria, e aqui vem o último ponto, que é a competência de Cavaco Silva não só como líder político, mas também como gestor. E Montenegro, parece-me, nestes anos desde que tomou posse como primeiro-ministro, está a tentar camuflar as suas falhas de gestão política dos dossiês e de conseguir fazer reformas de políticas públicas com pés e cabeça e com sucesso, com esta estratégia comunicacional de se colar um bocadinho a Cavaco e como o grande sucessor de Cavaco Silva, quando não estão claramente no mesmo patamar de liderança política, nem têm a mesma estabilidade de apoio popular e de apoio parlamentar. E Montenegro deveria se calhar olhar um pouco mais para a situação política em que Portugal está e do Parlamento que tem, mas também deveria ambicionar mais do que apenas sobreviver mais um mês no governo, e mais um mês e mês a mês. Isso parece ser um pouco a estratégia de Montenegro neste momento e não uma estratégia de pensar em reformas, por exemplo, mais estruturais.
Uma estratégia de sobrevivência.
Exatamente, não pensa em reformas estruturais, por exemplo, do SNS, que obviamente são muito complicadas, mas parece-me que nem sequer estão a ser tentadas, muito sinceramente, de maneira séria e com um apoio parlamentar majoritário. Portanto, eu vou dar uma nota má a Montenegro, vou dar um sete a Montenegro. Obviamente que a ministra da Saúde esteve mal, mas no fundo a responsabilidade acaba por recair em Montenegro, porque é ele quem decide manter o governo neste tipo de atuação.
Eunice, as autárquicas já passaram, mas continuam a dar muito o que falar, principalmente por causa das alianças para formar vários executivos camarários um pouco por todo o país. Alguma situação que te tenha surpreendido em particular?
Surprendem-me os casos de Cascais e Odivelas, com muita noção de que é preciso garantir estabilidade sem recorrer aos vereadores do CHEGA e portanto em que há alianças com partilha de pelouros entre PSD e PS. Em Cascais, o PSD ganhou, mas perdeu a maioria absoluta. Em Odivelas foi o PS que ganhou, mas também sem a maioria absoluta e portanto quiseram garantir a estabilidade ao centro, como uma espécie de bloco central autárquico, que no caso de Odivelas já tinha acontecido antes. Mas há alianças para todos os gostos, como escrevemos na edição desta semana do Expresso, e Sintra veio aqui fazer estremecer a aliança entre a Iniciativa Liberal e o PSD. Ainda que seja aquela aliança que está a ter mais repercussão política, não é a que mais me surpreende, porque Marco Almeida tinha deixado claro que não teria linhas vermelhas e queria tentar governar Sintra com quem lhe desse essas garantias. Afinal, é com o Chega, como se previa, quando muito aqui surpreende-me a ingenuidade da Iniciativa Liberal, que achou que conseguiria evitar essa negociação de Marco Almeida com o Chega Depois há outras alianças muito curiosas, por exemplo, na margem sul há várias negociações entre PCP e PS para precisamente tentar barrar a influência do Chega, que ficou em segundo lugar em vários municípios da margem sul, mas há ainda outros casos mais fora do que é uma negociação leal, que é presidentes de câmara "roubarem" vereadores ao seu concorrente, que foi o que aconteceu no Porto, com Pedro Duarte a dar o pelouro da Cultura a um vereador eleito na lista de Manuel Pizarro e com isso a desfazer o empate. Havia um empate de seis vereadores no Porto, que Pedro Duarte passou para sete de cinco, indo roubar esse vereador. E o contrário aconteceu em Viseu com o presidente da Câmara Socialista que conseguiu conquistar a câmara a Fernando Ruas e também foi "roubar" um vereador ao PSD. Depois há o caso de Bragança, que é um caso de estudo em que a presidente da Câmara do PS, que ganhou e com maioria, perdeu entretanto um vereador da sua própria lista, mas acabou por ir buscá-lo ao PSD, a um vereador que entretanto se tornou independente. Portanto, há casos muito variados.
Há alianças para todos os gostos.
Há alianças para todos os gostos mesmo, casos muito variados e que nos mostram como de facto as autarquias são muitas vezes um exemplo, se calhar, para o qual o poder central deve olhar. São um exemplo nem sempre bom, algumas vezes mau, de negociação e de estabilidade, porque depois também é muito difícil uma câmara cair, mas são um exemplo de estabilidade para o qual o poder central às vezes deve olhar. E no meio disto tudo, dou um 14 a Mariana Leitão, à líder da Iniciativa Liberal, por ser firme nos princípios que indicou quanto a alianças para o seu partido. E não é uma nota mais alta porque de facto a situação de Sintra mostra alguma ingenuidade dos liberais em matérias de poder.
Fica então esse 14 da Eunice para a Mariana Leitão. E da política interna passamos uma falda para a política externa, mas mais ou menos porque houve eleições nos Estados Unidos, eleições em alguns estados e também locais. São eleições que de alguma forma, para as quais a esquerda portuguesa, por exemplo, deve olhar com particular atenção?
Não creio. Acho que as duas esquerdas são muito diferentes e os sistemas partidários e os problemas que as várias esquerdas enfrentam não são propriamente semelhantes a esse ponto. Eu se calhar acho é que importa retirar aqui algumas conclusões provisórias para a política norte-americana e, portanto, também obviamente com consequências para o resto do mundo. E obviamente que Donald Trump tem tido consequências muito fortes, não apenas nos Estados Unidos, mas também para a Europa e para o resto do mundo. Mas, de facto, eu tenho visto estas eleições a serem apresentadas como um cartão amarelo a Donald Trump. E sendo verdade que os democratas ganharam em quase todas ou em todas as eleições mais importantes que ocorreram nesta passada terça-feira, também é verdade que isto não foram eleições intercalares, isto é, isto não são as eleições que vão ocorrer para o ano em todo o país e que dão um pulso muito melhor ao eleitorado norte-americano e que poderão ter mais influência na segunda parte do mandato de Donald Trump. Estas eleições são eleições pontuais, são eleições locais e a maioria das vitórias, mesmo sendo relevantes e sendo de natureza importante para o Partido Democrata doméstico, nos Estados Unidos não são eleições em estados republicanos, nem em estados minimamente o que eles chamam swing states, portanto, competitivos, para aferir se este Partido Democrata está mais competitivo eleitoralmente do que estava o ano passado, em 2024, com a campanha de Kamala Harris. Portanto, sendo verdade que há algumas indicações importantes de mudança, e eu quero dizer aqui que não é apenas a Mamdani que ganhou a Câmara de Nova Iorque com um discurso bastante diferente, obviamente, do Partido Democrata mainstream. É também, de certa maneira, por exemplo, as duas governadoras eleitas, quer na Virgínia, quer em New Jersey, que representam não só uma renovação geracional, obviamente, mas também uma maneira mais centrista, mais moderada de fazer política e tentar captar o eleitorado que não votou no Partido Democrata o ano passado, com um discurso muito focado em assuntos de custo de vida Acho que essa sem dúvida seria a estratégia vencedora e também foi um pouco por aí que Mapp Danny ganhou, apesar de com um discurso menos centrista. E de fato, estes debates no Partido Democrata vão ter de ocorrer sobre qual é o discurso que deverão ter para o ano e obviamente em 2028, de forma ainda mais importante. Agora, eu acho que é preciso deitar um pouco de água na fervura, porque isto não foram eleições intercalares e eu temo que Donald Trump, sendo verdade que provavelmente este ano foi o ano mais agressivo, na medida em que o ano inicial em que ele entra com a vitória e que entra com o impulso de ter os vários ramos de poder todos controlados, e dá sempre um impulso, uma agressividade e talvez uma sobrestimação do seu apoio popular, e portanto talvez este segundo ano da presidência de Donald Trump seja menos agressivo, mas eu não poria as minhas fichas todas aí, porque de facto, isto esteve longe de ser uma eleição nacional.
Ou seja, acreditas que não é certo que nas intercalares haja tanta tendência a votar democrata como aconteceu nestas eleições que foram mais localizadas.
Exatamente. Eu acho que é possível que o Partido Democrata tenha um resultado melhor do que teve o ano passado no próximo ano. No entanto, ainda não estou propriamente convencida que será, por exemplo, equivalente a 2018, quando o Partido Democrata na primeira administração de Donald Trump, nessas eleições intercalares, teve uma vitória enorme e muito importante, até para tentar travar, de certa maneira, alguns dos impulsos mais extremistas de Donald Trump. Agora, não estou convencida de que isso terá efeitos imediatos, por exemplo, nas decisões, nas políticas e na estratégia de Donald Trump para o próximo ano e portanto acho que realmente, estas eleições servem mais para dar algum fôlego, alguma esperança dentro do Partido Democrata, que tem estado completamente perdido neste primeiro ano e sem capacidade de desenhar uma estratégia de oposição ou uma estratégia eleitoral mais viável. E portanto eu vou dar uma nota positiva ao Partido Democrata, vou dar um 14, porque acho que apesar de obviamente terem sido umas eleições positivas, foram ainda relativamente pouco e representam mais aquilo que deve começar agora a fazer e o caminho longo que ainda tem pela frente do que propriamente já cantar uma vitória que claramente não é suficiente e não é ainda a vitória que eles desejam.
Fechamos então com uma nota positiva da Mafalda Pratas. Mafalda, Eunice Lourenço, obrigado por terem vindo. Este é o "Vencedores", que está de regresso amanhã depois das 10h30. Bom fim de semana.
Bom fim de semana.