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E o vencedor é de segunda-feira, 24 de agosto, da tarde política da Rádio Observador, hoje com a Judite França, o Anselmo Crespo e também o Luís Aguiar Conraria, membro do programa Fora do Baralho, que se junta a nós nesta edição. Anselmo, deixa-me começar por ti, pelo tema da Segurança Social, até porque o Partido Socialista já veio pedir, entretanto, a audição da Ministra do Trabalho. O relatório já gerou críticas da oposição, o governo já veio meter gelo nas intenções de que quer privatizar o sistema de pensões. O que é que o PS quererá agora ouvir da parte da ministra?
O que eu acho é que o PS quer mais saber o que o governo tencionaria fazer se tivesse condições políticas para o fazer, porque eu acho que essa é a questão de fundo, para usar isso politicamente, como já têm vindo a usar nos últimos anos. Eu gostava de começar por dizer a este propósito que eu lamento muito que se tenha perdido, mais uma vez, uma excelente oportunidade em Portugal para se debater um tema tão sério, de uma forma consistente e, sobretudo, condizente com a importância que é este tema das pensões e da sustentabilidade do sistema de pensões. E digo que se perdeu uma oportunidade porque foram cometidos vários erros, desde logo pelo próprio governo, que claramente há uma história dos press este fim de semana que eu acho que explica bem porque que isto aconteceu desta forma. O governo quando mandou fazer este relatório tencionava fazer-se à falta para ir a eleições tentar uma maioria absoluta e depois conseguir, de facto, implementar esta reforma. O tiro saiu pela quatro, o governo não conseguiu essa maioria absoluta e é essa a única razão pela qual este relatório vai pra gaveta. Ninguém tenha nenhuma dúvida. Portanto, isto acabou por sair mal porque o relatório entretanto já estava a ser elaborado.
O calendário não se adaptou ao relatório.
Exatamente. A realidade não se adaptou às expectativas e, portanto, é só essa a razão pela qual este relatório vai pra gaveta. Mas eu acho que é uma pena que o relatório, independentemente dos méritos e deméritos que ele tenha, no meu entendimento, nem sequer sou um grande especialista em Segurança Social, mas acompanho este tema há alguns anos, já colaborei num livro até sobre este tema já há muitos anos. Acho que o relatório podia ser, de facto, o ponto de partida para um debate nacional, que é importante que seja feito, que já agora durante as presidenciais foi tocado ao de leve, muito à boleia do tema da reforma do Código de Trabalho, mas que António José Seguro, por exemplo, sublinhou várias vezes durante a sua pré-campanha e durante a campanha eleitoral. O tema da sustentabilidade da Segurança Social e de como nós temos que garantir essa sustentabilidade, não tanto para as gerações que agora estão a receber pensões, mas sobretudo para as gerações mais novas, para aquelas que mais à frente vão precisar e estão a descontar neste momento e vão precisar de receber essas pensões. E essa oportunidade perdeu-se por dois motivos. Primeiro, porque o governo, de facto, não tem condições políticas para avançar com este debate, muito menos com esta reforma, e, portanto, vai metê-lo na gaveta. Mas em segundo lugar, também, porque os vários partidos da oposição, e não só, mas aqui o que me interessa são os vários partidos da oposição, que acusaram os autores deste relatório de estar a instalar uma política de medo. Curiosamente, o que o PS e os partidos mais à esquerda, e já agora também o próprio Chega, que uma pessoa não consegue enquadrar à esquerda, mas que neste caso pode ir pra dentro do mesmo saco, o que fizeram foi exatamente isso, foi aplicar uma estratégia do medo para assustar as pessoas com este relatório e com as conclusões deste relatório, dizendo: "Vem aí o bicho-papão, eles querem jogar as nossas pensões na bolsa.", que basicamente é o único argumento que a esquerda tem sempre que se quer ter um debate sobre a Segurança Social. O único argumento que a esquerda conhece para rebater as posições dos partidos do centro-direita é dizer: "A direita quer jogar o dinheiro dos descontos das pessoas na bolsa." Que é um argumento, diga-se de passagem, pífio. É uma coisa que foi chão que já deu uvas. Dito isto, a primeira grande preocupação dos partidos à esquerda foi desqualificar os autores deste relatório, que é desde logo um bom início de conversa, que é quando não se quer debater um tema, desqualifica-se o adversário ou desqualifica-se alguém que pensa de forma diferente de nós. Eu ouvi as coisas mais inacreditáveis. Eu não conheço o Jorge Brado do lado nenhum. Portanto, estou muito à vontade pra dizer isto. Enfim, acho que isto é o primeiro sintoma de que não se quer debater o tema. E depois, há um outro aspecto que me deixou muito perplexo na última semana ou nos últimos dias, que foi tentar centrar-se o debate sobre a sustentabilidade da Segurança Social, não nas reformas futuras, mas nas reformas atuais. A estratégia política dos partidos à esquerda e sobretudo do Partido Socialista, que disse ser o porta-estandarte da defesa do sistema de pensões, foi dizer às pessoas que agora recebem pensões que o PSD e a AD querem reduzir o valor dessas pensões. Quando, na verdade, o debate sobre a sustentabilidade da Segurança Social não é tanto sobre as pensões que estão atualmente em pagamento, mas é sobre as pensões que no futuro o Estado vai ter que pagar. E é exatamente aí que eu acho Que a única forma de fazer isto, eu sei que a expressão está um bocadinho caída em desgraça, é de facto haver um pacto de regime entre os principais partidos para se olhar para o sistema de pensões, porque o tema é demasiado sério. Nós estamos a brincar com um tema que não é passível de ser apenas um joguete no jogo político-partidário, em que a esquerda usa sempre os mesmos argumentos e a direita também usa sempre os mesmos argumentos, dizendo: "É preciso encontrar novas fontes de financiamento." Não, está bem, mas quais? Como? Como é que se garante que na realidade que nós projetamos que venha a acontecer, porque nós estamos sempre a falar de uma realidade projetada, mas também tendo em conta a realidade atual, em que nós dizemos: "Bom, mas agora há um superávit no sistema." Sim, há um superávit no sistema devido a um fator chamado imigração, porque estamos numa situação de pleno emprego. Mas 2011 não foi assim há tanto tempo. Nós lembramo-nos o que é que aconteceu em 2011. E portanto, a não ser que a esquerda e sobretudo o Partido Socialista estejam convencidos de que as crises não são cíclicas e que não voltarão, e possam garantir às pessoas que este superávit que existe atualmente vai durar para sempre, então eu gostava muito de saber como é que o Partido Socialista, nomeadamente, que é o partido que eu acho que é mais responsável, não apenas porque já teve funções governativas, mas também porque presumo que queira voltar a ter, como é que o Partido Socialista vai explicar às gerações que agora estão a entrar no mercado de trabalho, e às gerações que já estão no mercado de trabalho, como é que vai explicar daqui a uns anos, daqui a umas décadas, que as circunstâncias mudaram e que quem estava no poder na altura, em que podia ter tomado decisões a pensar no longo prazo, preferiu jogar taticamente para ter ganhos políticos imediatos.
E as pensões sagradas, se calhar, já não o são daqui a 20 ou 30 anos, que é o que tem sido sempre garantido, até pelo Presidente da República.
Repara.
Eu acho que o Presidente da República foi mal interpretado. Eu acho que ele estava a dizer que as pensões atuais são sagradas. Acho que ele não pode dizer que as pensões futuras são sagradas, ninguém pode dizer. E não têm sido.
Mas esse é o ponto, é que nem as atuais têm sido sagradas. Precisamente porque quando vem uma crise, quando vem um choque externo, nós aprendemos todos, nós também achávamos que um Estado não podia ir à falência. E descobrimos em 2008, 2009, 2010, 2011, que não só pode, como foi. Não fechou as portas. Porque não pode. Mas objetivamente, o que aconteceu a Portugal, à Grécia e à Irlanda foi três Estados que foram à falência e não foram mais, porque eram demasiado grandes para poder ir à falência. E portanto, no momento em que nós estamos a assistir à Alemanha com os juros da dívida nos níveis de 2011, a França no estado em que está, a Itália no estado em que está, nós achamos o quê? Que Portugal é um oásis e que nada nos vai voltar a acontecer? E portanto, claro, eu também acho que as reformas que estão agora a pagamento, o debate que deve existir sobre a Segurança Social não é sobre as reformas que estão agora a pagamento. O debate que deve existir sobre a Segurança Social é como é que o Estado vai garantir que, no médio e longo prazo, vai continuar a conseguir pagá-las. E já agora, a pagá-las condignamente. E isso leva a um debate sobre a economia portuguesa, sobre o crescimento da economia portuguesa e sobre os salários da economia portuguesa. Mas como nenhum partido, aparentemente, está muito interessado em ter esse debate, e estão todos muito mais interessados em fazer campanha política em torno de um tema que eu acho que não é para ser debatido desta forma, então eu só posso lamentar, e termino como comecei, que se tenha perdido mais esta oportunidade. Acho que não há condições políticas, de facto, para ter este debate, muito menos quando o segundo maior partido do país não só não está preocupado como é que se vai pagar as reformas daqui a 30, 40 ou 50 anos, como está preocupado em baixar a idade da reforma, borrifando-se literalmente para as gerações mais novas.
E é uma ideia que André Ventura já disse que vai insistir no Orçamento de Estado. Não sei, Judite, se só queres complementar aqui algo sobre esta oportunidade perdida para este debate.
Eu já falei bastante do estudo da Segurança Social. Acho que, de facto, não correu bem ao governo esta ideia de dizer mais rápido do que a própria sombra que não era para mexer em nada, que não era para fazer nada, que o estudo era para pôr na gaveta de forma liminar. Acho que não foi uma decisão acertada. Eu percebo que, do ponto de vista político, discutir isto seja muito complicado, eu entendo. Mas acho que quem não o fizer vai ser penalizado no futuro. E espero que seja penalizado no futuro, porque de facto este é um tema que tem que ser discutido. Podia ter sido discutido já no final do governo de António Costa, mas o governo caiu e o livro verde que tinha sido feito caiu com ele, acabou por não ter qualquer tipo de eco. Também é pena que o trabalho que é feito fique pelo caminho e que nunca seja reaproveitado.
Começa-se do zero.
Começa-se logo do zero. E acho que, para mim, a parte mais curiosa, já agora em relação àquilo que Jorge Bravo foi dizendo a propósito do trabalho que foi feito. O Jorge Bravo, para quem não está por dentro, foi o coordenador do grupo de trabalho que fez o estudo. Foi desaconselhar ao governo distribuir bónus nas pensões, que eu acho sempre que é curioso, porque é aquilo que normalmente este governo costuma fazer. E foi, aliás, aquilo que mais uma vez o Luís Montenegro disse no discurso do Pontal, que se houver condições, fará isso novamente.
Anselmo, só antes de passarmos aqui ao tema do Luís, que nota é que dás a esta discussão política à volta da Segurança Social?
À discussão política eu dou um zero, mas com muita pena, e só complementando o que a Judite estava a dizer, há uma razão simples: é que daqui no futuro não há Luís Montenegro, no futuro não há José Luís Carneiro, e no futuro provavelmente não haverá André Ventura, nem sabemos se há Chega sem André Ventura. E esse é exatamente o problema do país, é que está toda a gente a pensar no imediato E na sua própria sobrevivência política. E, portanto, nós nunca temos os debates que devemos ter por causa disso.
Luís Aguiar Correria, bem-vindo aqui ao painel do Observador. Não sei se queres acrescentar algo sobre este tema.
Quero.
Força.
Queria dar três notas. Primeiro, estou largamente em acordo com quase tudo que foi dito, mas queria chamar a atenção pra duas coisas. Uma é que se houvesse interesse do governo em discutir este assunto, ele tinha uma forma muito simples de desarmar o Partido Socialista, que era dizer: "Então não discutamos este relatório, vamos discutir o relatório da comissão que vocês encomendaram à comissão anterior, onde estava o Manuel Caldeira Cabral, a Susana Peralta e outras pessoas." Porque, na verdade, se formos ver esse relatório, o Livro Verde, que escreveram pra Segurança Social, tirando o fato de não terem incluído a Caixa Geral de Apresentações, as conclusões não são assim tão diferentes. E, portanto, isto era uma forma totalmente de desarmar. "Vocês não gostam dos mensageiros? Então vamos pegar no estudo dos vossos mensageiros." E a partir daí desarmava completamente o Partido Socialista e que teria de vir a terreno discutir o relatório que eles próprios tinham encomendado e, volto a dizer, as conclusões não são assim tão diferentes deste. Aliás, diria que são muito mais os pontos de acordo do que de desacordo. Este é um ponto. O segundo ponto tem a ver com a questão do mensageiro. Eu compreendo e concordo largamente com o que a Anselma estava a dizer de não se poder destruir aqui os mensageiros, mas também convenhamos que houve algum pouco cuidado. O Jorge Brava é uma pessoa conhecida na área e é um especialista, de fato, na Segurança Social, e as posições dele já são conhecidas há muitos anos. Desculpem, como é que chamava a número dois?
Carla Castro.
A Carla Castro. Ela foi candidata à liderança da Iniciativa Liberal. O que nós diríamos se na apresentação do Livro Verde da Segurança Social estivesse lá um ex-líder do Bloco de Esquerda também a tomar a palavra? Eu queria ver o que é que nós diríamos sobre isso. E de certeza absoluta que aqui no Observador muita gente se dedicaria a destruir o mensageiro, caso não tivesse gostado das conclusões de um estudo sobre Segurança Social em que, por exemplo, Mariana Mortágua ou Francisco Louçã ou Pedro Soares tivessem tido um papel preponderante. Portanto, eu também acho que aqui houve algum pouco bom senso na escolha da equipa.
Luís, queres nos falar dos rankings de acesso ao ensino superior, em particular daqueles que se baseiam nas notas de entrada?
Sim, eu devo dizer que as críticas que vou fazer agora à discussão geral também se aplicam a mim, ok? Portanto, isso também é um mea-culpa. Mas, por exemplo, ainda há cinco horas estivemos aqui a ouvir a entrevista do coordenador do curso de Engenharia Aeroespacial do Porto, que basicamente é o curso do país com média de entrada mais elevada. E eu acho que essas discussões dão mesmo uma ideia errada. Por exemplo, no caso da Faculdade de Engenharia do Porto, o curso de Engenharia Aeroespacial tem 30 vagas. O do Minho tem 31, que era o que vinha em segundo. O Instituto Superior Técnico de Lisboa tem 135. Portanto, é evidente que não é possível comparar a nota do 30º classificado do Porto com a do 135º do Instituto Superior Técnico. Essa comparação simplesmente não é válida. Mas eu agora vou largar a engenharia e vou falar dos meus casos, que é pra não estar aqui a ofender ninguém. Mas, por exemplo, nos cursos de Economia e Gestão deste país, aquele que teve média mais elevada no país foi um da minha escola, que é uma licenciatura dupla de Economia e Gestão, que é uma novidade deste ano, em que os alunos, ao seguirem este curso, se inscrevem simultaneamente nos dois cursos. Mas quer dizer, aquilo tem 20 vagas. Como é uma novidade, queríamos ver se os alunos estavam interessados, se não estavam, portanto, não arriscamos, mantivemos poucas vagas. São 20 vagas. É comparável com um curso onde entram 150 ou 200 alunos? Não é. Claro que há uma informação que pra nós é importante, que é saber como aquele é o curso com a média mais alta, nós sabemos que todos os alunos que ali estão, estão porque quiseram ir pra aquele curso. Pronto, ponto final. Se estão naquele curso é porque quiseram, porque podiam ter entrado em qualquer outro. Essa informação é relevante, mas isso é uma informação pra nós. Pra comparar cursos, obviamente que não é possível, teria de comparar com o 20º aluno da Nova, com o 20º aluno do Porto, com o 20º aluno de outros cursos de Economia da Universidade do Minho. Só assim é que a comparação seria razoável. E nisso tudo, ainda me apercebi de outra coisa que faz ruído. É que muitas vezes estamos a comparar coisas diferentes. Este ano, aqui nos rankings de Economia e Gestão, que são aqueles que eu sigo de perto, de repente apercebi-me de dois cursos que não costumavam estar lá em cima. Os cursos que costumam estar lá em cima são os da FEUP e os da Nova. E depois vem a seguir o do Minho, do ISEG, do ISCTE, digamos assim, logo abaixo. De repente, apareceram lá dois cursos novos que eu não costumava ver e achei estranho. Fui ver o que se passava e depois descobri: eram cursos de gestão que não exigiam matemática como exame de entrada. Aqui faço uma crítica direta aos meus colegas, aqui vou ser mesmo implicado. Eu nem consigo perceber como é que se faz um curso de gestão sem ter a matemática como requisito obrigatório, a matemática mais avançada. Mas pronto, deixando essa crítica de lado, obviamente que não é possível comparar aqueles cursos que não exigem matemática com os outros. Quando compara os cursos, tinha ainda de estar a fazer outra filtragem, que era estar a olhar para as condições de acesso Era bom que nós deixássemos de andar a fazer rankings com base em indicadores tão precários e tão maus, porque isso tem efeitos nefastos. Eu agora, por motivos óbvios, não posso dizer quem é, mas dou a minha palavra de honra de que isto é verdade. Eu falei com o presidente de uma faculdade este ano, que teve a possibilidade de aumentar o número de vagas e não aumentou o número de vagas desse curso, apesar de o reitor o ter autorizado a isso, porque teve medo de baixar nos rankings. Precisamente, porque obviamente, um curso quanto mais vagas tem, se em vez de entrarem 60 alunos, entram 70, a nota de entrada vai ser do septuagésimo, então vai ser um bocadinho mais baixa. E ele não quis aumentar o número de vagas porque queria subir nos rankings. Portanto, objetivamente, há um conjunto de miúdos que foi prejudicado, que não entrou naquele curso porque não aumentou o número de vagas e, portanto, não entraram no seu curso de eleição e tiveram de ir para segundas escolhas, porque o presidente daquela faculdade estava preocupado com estes rankings que são tão mal feitos. Isso bateu-me e, de facto, acho que está na altura de melhorarmos a nossa discussão e não consigo dar uma boa avaliação a estas discussões com rankings. Os rankings se tudo bem, são importantes, mas não com base nesses indicadores tão mal feitos. E mais, nós se quiséssemos, temos informação. Não tive esse cuidado, mas podia, por exemplo, ter aqui preparado a informação e saber qual era a nota do trigésimo aluno a entrar em Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico. Eu poderia facilmente ter obtido essa informação. A comparação já seria um bocadinho mais justa. Mas acho que devíamos elevar o nosso nível de discussão e evitar estas discussões de rankings tão básicas, ainda mais somos todos universidades públicas, na verdade, nem devíamos estar em concorrência uns com os outros.
São mais ferramentas de marketing do que propriamente de avaliação.
Mas mau marketing. O marketing tem de ser verdadeiro e eu acho que aqui transmite uma informação falsa e, como aquele exemplo que eu vos contei, tem consequências nefastas. Na hora de aumentar o número de vagas ou diminuir o número de vagas, em vez de se estar a pensar no interesse geral e no interesse da população e do país e dos alunos, está-se a pensar no prestígio de ser o curso com uma das notas mais elevadas de entrada.
Não sei se querem aqui só discutir aqui a nota, Luís.
Queria só a este propósito, e concordando também com o que o Luís disse, eu acho que o país é viciado em rankings. Eu não tenho nada contra os rankings, acho é que quando se cai no exagero de medirmos tudo com base em rankings, depois muitas vezes dá asneira. Queria falar do caso de Medicina, porque por falar em rankings e notas altas, mais uma vez, um dos grandes debates que eu vi desde o momento em que foram conhecidas as colocações, foi em torno das notas de Medicina e qual foi a nota mais alta e qual foi a nota mais baixa. E sabendo nós que a saúde em Portugal carece, como nós sabemos todos, de profissionais de uma forma brutal. Se calhar o Luís vai achar um erresio o que eu vou dizer.
Arrisca.
Vou arriscar na mesma, ele está longe. Eu tenho há muitos anos esta convicção de que os melhores médicos não são necessariamente os que tiveram melhor média. E portanto, para além do número de vagas, pelo menos visto de fora, me parecer ainda curto, para aquilo que são as necessidades do país e tendo em conta que um médico não se forma propriamente em quatro anos, são seis anos, mais a especialidade, se os médicos optarem por ir pra especialidade, porque isso é outro problema, que agora os médicos recém-licenciados não querem enveredar pela especialidade. Mas mais do que isso, e não estando a desqualificar aqueles que entram em medicina com uma excelente nota e aqueles que acabam o curso de medicina com uma excelente nota, podem dar excelentes médicos, não digo que não, mas eu não acho que um bom médico se possa avaliar apenas pela nota com que entrou na faculdade ou pela nota com que sai da faculdade. E mais uma vez, no caso da medicina, eu acho que nós não estamos ainda a adequar o ensino superior àquilo que são as necessidades do país. E mais uma vez, este ano o debate foi muito em torno também das notas com que se entrou em medicina e eu acho que é uma pena.
Luís, que nota é que dás a este processo ou a este método destes rankings?
Tenho que dar má nota, portanto um seis. Mas eu estou incluído no seis. Há aqui um mécu assumido.
Judite França, queres nos falar das declarações do presidente da República, António José Seguro, ontem sobre Luís Neves. Disse António José Seguro que espera que, primeiro, disse um bocadinho em jeito de suspiro, que já é a terceira vez que fala sobre este assunto e que espera que cada um assuma as suas responsabilidades. Que mensagem é que o presidente da República quis passar?
Eu antes de mais, já que estamos aqui a fazer meia mea-culpa, eu também faço a minha, porque eu na sexta-feira disse que apesar do presidente da República já ter falado, o facto de não ter ainda comentado as últimas novidades, digamos, ou não ter falado sobre depois de se ter conhecido mais um caso da novela Luís Neves, agora com o dito automóvel Golf GTD da Polícia Judiciária, disse aqui na sexta-feira que o silêncio do presidente da República era excessivo, mesmo para um presidente da República que se diz muito e que se apresenta como muito contido. Portanto, tenho aqui uma correção a fazer, porque de facto, o presidente da República falou no domingo sobre o caso Disse o seguinte, eu vou ler só uma declaração: "Espero que os inquéritos, auditorias e investigações que estão a ser feitas decorram o mais rapidamente possível para nós conhecermos as conclusões". E disse também que deseja que cada um assuma a sua responsabilidade. Eu acho bem o presidente da República marcar terreno em público e exigir celeridade, mandar um recado claro ao governo, foi um recado claro ao governo para tomar uma decisão política sem ter de andar a intervir todos os dias. Esse, de facto, não é o papel de António José Seguro, não é o papel que António José Seguro quer ter. Mas também nos disse, essa frase não tirei, mas é qualquer coisa como: "Falo com quem devo, onde devo". E portanto, eu acho que nós podemos ficar com a certeza que falou com Luís Montenegro, com o primeiro-ministro. Há uma tese que circula, que não é nova, que é a de que Luís Neves está a prazo e o prazo é época de incêndios.
Ia dizer, setembro é já amanhã.
Setembro é já amanhã, mas veremos se isto se confirma. O que nós sabemos é que o presidente da República não pode ser um mero espectador passivo, sobretudo quando as instituições estão sob escrutínio. E ao exigir celeridade à Justiça, ao lembrar que cada órgão de soberania tem que assumir a sua responsabilidade, eu acho que António José Seguro cumpre o papel constitucional de garante do regular funcionamento das instituições, como se costuma dizer. E eu acho que na questão da exigência da celeridade, objetivamente, o país não pode ficar paralisado em especulações. Processos que se arrastam no tempo desgastam a imagem do governo e da própria administração interna, administração interna essa que tem sob a sua alçada a segurança do país. Portanto, como é evidente, não faz muito sentido. Depois há um recado político. Eu acho que sinalizou ao primeiro-ministro que sabe que a avaliação compete ao executivo, acho que isso ficou claro, mas que a decisão não deve ser adiada indefinidamente, e acho que isso também ficou claro. E portanto, eu acho que em momentos de dúvida ética e política, o silêncio de Belém seria uma espécie de cumplicidade e portanto acho que a intervenção, que é cirúrgica do presidente da República, é a forma de defender o prestígio das instituições.
Anselmo, não sei se sobre este recado de António José Seguro.
Eu acho que António José Seguro tem andado bem neste processo, no sentido em que tem usado a palavra pública, naturalmente, com contrapeso e medida. E eu prefiro este registo do que o registo de andar todos os dias a opinar sobre a última notícia que saiu.
Já há quem tenha saudades de Marcelo Rebelo de Sousa.
Pois, eu escrevi um artigo seis meses antes de Marcelo deixar a presidência a dizer: ainda vamos ter saudades de Marcelo. E isso vai acontecer em várias coisas. Mas é da nossa natureza, é da natureza humana, não há volta a dar. Sobre este caso Luís Neves, gostava de apenas dizer o seguinte: neste momento, se Luís Neves atravessou a estrada fora da passadeira, eu acho que isto já deixou de ser sobre os casos em si, sobre o outro lado, sobre a piscina, ou sobre o tanque, ou sobre os e-mails, ou sobre o carro. Repara, isto só vai ser notícia enquanto Luís Neves for ministro.
Claro.
Vamos só deixar isto claro. Portanto, Luís Neves cometeu um conjunto de ilicitudes, informalidades, o que lhe quisermos chamar, mas isto só vai ser notícia enquanto ele for ministro. No dia em que Luís Neves deixar de ser ministro, tudo o que aconteceu no passado de Luís Neves deixa de ser relevante para o país. Provavelmente, até a comissão de inquérito deixa de ser relevante. E portanto, há vários tipos de autoridade. Luís Neves pode ainda ter autoridade junto daqueles que tutela, mas depois há uma autoridade política que está claramente diminuída neste momento, e eu acho que é impraticável que o primeiro-ministro ande a arrastar o ministro pelos cabelos só por uma questão de orgulho ou só por uma questão qualquer que lhe pareça útil. Eu digo isto com muita pena, porque eu acho que nós vamos assistir a Luís Neves vir a outro, não tem que ser necessariamente ministro da Administração Interna, virá outro ministro qualquer, será objeto exatamente da mesma estratégia. A estratégia neste momento é muito simples: sai uma notícia, André Ventura fala automaticamente sobre ela ou toma uma iniciativa qualquer, pode ser falar com o presidente da República, pode ser lançar uma comissão de inquérito, pode ser a última, era incrível, era apresentar uma moção na Assembleia da República pra destituição de Luís Neves, como se a Assembleia da República pudesse destituir ministros. Portanto, neste momento André Ventura já está sem ferramentas, já não sabe muito bem que ferramenta é que há de usar para mandar abaixo o ministro Luís Neves, mas a seguir a Luís Neves virá outro e nós vamos continuar neste relambório. E, portanto, acho que mais vale o primeiro-ministro resolver este assunto de uma vez. Setembro é já amanhã e eu acho que isto não passará muito deste tempo.
Nem um bom score no combate aos incêndios poderá salvar Luís Neves desse fim.
Não só por isto, porque é como te digo, ou é o e-mail, ou é o carro, ou atravessou fora da passadeira, ou pisou o traço contínuo. Neste momento, eu acho que não há nenhum português que saiba exatamente qual foi o grande crime que Luís Neves cometeu. Sabe que há ali um conjunto de coisas. Há uns que provavelmente se lembram do tanque, outros lembram-se do outro lado, outros lembram-se do carro agora que ele conduz. Mas na verdade, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com Marcelo Rebelo de Sousa, no caso das gêmeas, que era uma coisa mais ou menos evidente. Toda gente sabia exatamente o que é que estava ali em causa, ou ao contrário do que aconteceu com Azeredo Lopes no caso de Tancos, ou ao contrário do que aconteceu com Eduardo Cabrita no caso do atropelamento Eu acho que todo o país sabia exatamente do que estávamos a falar. Eu acho que no caso do Luís Neves já é difícil saber do que estamos exatamente a falar. O ponto aqui é: o Chega não vai descansar, e já agora, as pessoas da PJ que andam a alimentar o Chega, porque não estou a dizer nada que André Ventura não tenha assumido em televisão nacional. As pessoas da PJ que estão a alimentar o Chega e os jornalistas que estão a dar as notícias não vão descansar enquanto Luís Neves não cair. É simples. Luís, não sei se queres acrescentar alguma coisa.
Eu não quero comentar as palavras do presidente. Provavelmente nos próximos anos haverá alguma altura em que violarei este princípio.
Vamos procurando adiar.
Deixa-me só contar uma história engraçada. Eu a tentar perceber a história do Golf, do carro arrestado. Tentei perceber se isso era normal, se não era, porque eu concordo com o Anselmo no sentido em que neste momento qualquer coisa é notícia. Isto é um bocado como no tempo do Correio de Campos, em que todos os dias nascia uma criança na autoestrada ou na ambulância. Aqui não é todos os dias que nasce uma criança, mas todos os dias há uma notícia nova sobre assuntos que muitas vezes eu não consigo avaliar a relevância das coisas, como esta, por exemplo, do Golf. Não sei se isto é normal, se não é. E a tentar averiguar se isto era uma coisa normal ou não, fiquei a saber que o melhor Falcon da Força Aérea Portuguesa resulta de um caso de droga e era usado para transportar droga. E achei piada. Portanto, estes arrestos, pelo menos, são normais. Agora, se depois são atribuídos ao ministro ou não são, isso já não sei dizer. Mas o nosso melhor Falcon foi apanhado com 600 quilos de cocaína.
E ficou depois ao serviço dos principais responsáveis políticos. Salvo erro, Miguel Relvas disse aqui na Rádio Observador que esta questão de atribuir carros para utilização pessoal dos ministros terminou na altura no governo Pedro Passos Coelho, mas enfim, Miguel Relvas estará também a defender esse legado do governo do qual fez parte. Aproveitou a bola. Exatamente. Judite, o tema é teu, peço só uma nota para a intervenção do Presidente da República.
Eu vou dar um 15 a António José Seguro, acho que foi uma boa intervenção.
E para terminar, a questão das avarias intermináveis do metro de Lisboa.
Sim, porque eu acho que pouca coisa testa tanto a paciência de quem vive ou trabalha em Lisboa e que usa o metro, que é aquela placa que diz: "Equipamento fora de serviço", mesmo ao sair da plataforma do metro. E se para a maioria significa só encarar uma subida a pé e suspirar, para muitos outros significa a interrupção total da viagem ou, tendo em conta o facto das avarias, há muitas que duram há anos, o facto da utilização do metro não ser sequer uma hipótese. O Observador fez um artigo, um especial sobre o tema, que eu aconselho, porque ficamos com uma visão muito clara do que tem sido a vida dos utilizadores do metro nos últimos anos. Tenho tempo, não é? Trouxe aqui só dois ou três números que acho que vale a pena. Por exemplo, nos elevadores, a indisponibilidade chegou aos 25% no ano passado. Um quarto dos elevadores no metro não funcionavam.
Imagina a vida de uma pessoa em cadeira de rodas.
Não há.
Ou com carrinho de bebê.
Ou com carrinho de bebê, ou uma pessoa de muita idade. E lá está, isto não é só uma questão de incômodo, isto é a negação pura e dura de usar o metro de Lisboa. Há o tópico do absurdo, que para quem anda em Lisboa sabe, que pertence ao Cais do Sodré, eu não sabia há quanto tempo, mas as escadas rolantes estão paradas desde 2019. Isto porque há um impasse burocrático sobre a responsabilidade de quem é que é a reparação, se é entre o metro, se é as infraestruturas de Portugal. Enfim, é inaudito. Desde 2019 que não há escadas rolantes. Sabemos agora pelo artigo que a estratégia do metro mudou, ou seja, havia uma lógica de contratos rígidos. Esta administração decidiu modificar isso, fracionar em vários contratos. Foi adjudicada a uma outra empresa, uma espécie de um projeto piloto, que passou a ter um piquete técnico dedicado 24 horas por dia, sete dias por semana, que era uma coisa que não existia, nas estações do metro do aeroporto e da Baixa-Chiado, e os resultados práticos começaram a ser vistos logo nos primeiros 20 dias de julho. Há um mapa que aparece limpo, com zero escadas mecânicas avariadas nestas duas estações de metro que têm um grande afluxo. E passa a haver um acompanhamento diário, não havia um acompanhamento diário das avarias. Há um membro da administração que passa a acompanhar diariamente os relatórios das avarias, com recurso a sensores de alerta em metade do parque mecânico. Isto traduz-se numa recuperação do total de equipamentos parados na rede, que caiu para 11 elevadores e nove escadas, quer dizer, caiu drasticamente, e agora há um acompanhamento diário, portanto, rapidamente se sabe se está avariado ou não. Eu sei que isto tem custos, é evidente, tem um custo anual superior àquele que existia, mas eu acho que o aumento dos custos é um detalhe financeiro, tendo em conta que ter uma rede de metro que realmente funciona é uma vitória para as pessoas da cidade, obviamente, para as pessoas que trabalham na cidade, mas também para as questões ambientais das quais o governo, as administrações, toda a gente enche a boca para falar das questões ambientais, e depois o metro não funciona. Portanto, não há questão ambiental que resista a isso.
Nota também negativa, doze.
Eu, por acaso, vou dar uma nota positiva ao trabalho de Ana Espirito.
Só para contrariar.
Não, porque acho que merece pelo trabalho de Ana Espirito, está muito bom.
Vocês já repararam a quantidade de coisas que acontecem neste país quando sai uma notícia? De repente, acontecem coisas. Mudaram os contratos, passou a haver um administrador a acompanhar. É uma coincidência, daquelas coincidências incríveis. Eu só fiquei preocupado, confesso, é que a nova estação da Estrela vai ter seis superelevadores, portanto, de carga elevada e de velocidade mais rápida. Se já com os normais os problemas são os que são, com estes superelevadores, nem quero imaginar. Nunca estamos satisfeitos. Agora que temos um superelevador... Judite de França, Ação Criança, e o Luís Aguiar Correria, muito obrigado por se terem juntado a esta edição de "IOV Estória".