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E o Vencedor É, na Rádio Observador, também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com o seguinte elenco: Judite França, Anselmo Crespo e Alexandre Borges. A questão das lajes está a provocar turbulência interna no PS, depois dos ralhetes de Francisca Assis e Paulo Pedroso à forma como o partido veio reagir às declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. É um dos temas para este E o Vencedor É, em que vamos ainda falar da visão de Luís Montenegro sobre uma maioria. Mas começamos por um tema inédito aqui no Vencedor. Estou a ser irônico, Anselmo, e é mesmo pra ti: a proposta da ministra do Trabalho sobre a amamentação.
Ainda bem que vamos a esse tema, que eu já estava com algumas saudades.
Não é de propósito.
Há 24 horas que eu não falava sobre isso.
Exato.
Já estava a ressecar um pouco. Primeiro, tenho que fazer aqui um ponto prévio, que é: vocês têm que deixar de pôr o Miguel Santos Carrapatoso no Vencedor no mesmo dia que eu, porque depois corremos o risco de estar a dizer exatamente a mesma coisa. Passa a publicidade ao Vencedor É da manhã, que não é tão bom como o da tarde, como é evidente, mas é o que se pode arranjar.
Eu não posso avaliar.
Para citar uma outra figura quase ao nível do Miguel Santos Carrapatoso, Hermano José: eu não sei qual era a necessidade. Qual é a necessidade de cometer o mesmo erro duas vezes? Qual é a necessidade? A ministra começou mal, depois endireitou-se, mais com a ajuda da UGT do que propriamente dela própria, mas as coisas começaram a lhe a correr um pouco melhor do ponto de vista da gestão deste processo, até do ponto de vista da defesa da reforma e da forma como ela foi negociada. Sabendo que não há um consenso, longe disso, em torno da reforma no seu todo, e que esta medida da amamentação era provavelmente uma das medidas mais polêmicas e, já agora, mais difíceis de explicar por parte do próprio governo.
E provavelmente menos produtivas de tudo isto.
E a menos relevante.
Exatamente.
E a menos relevante. O melhor argumento que a ministra tem pra dar é: não há um único país na Europa que não tenha um prazo para a amamentação.
Não tem um limite.
E então? A produtividade nacional vai mudar por causa desta questão? Atenção, isto não encerra a minha opinião sobre a amamentação, que na verdade, em primeiro lugar, respeita a individualidade de cada um. Acho que as pessoas, concorde eu com elas ou não, são livres de tomarem as decisões que bem entenderem. E em terceiro lugar, por que a insistência nesta medida? Eu percebo que o governo tenha levado ao Parlamento a sua versão mais próxima do original, porque convictamente o governo acha que as suas propostas iniciais são aquelas que melhor contribuem pra produtividade do país, porque é no fim do dia, espero eu, aquilo que estamos a falar. Uma reforma laboral tem aqui como objetivo aumentar a produtividade e foi essa sempre a narrativa da ministra. Mas a sério que ela vai colocar em causa toda a discussão do pacote laboral agora no Parlamento, depois de ter acontecido o que aconteceu na concertação social por causa desta medida? A sério que hoje, em vez de estarmos a discutir o banco de horas, o alargamento dos contratos a prazo, o despedimento injustificado, estamos a discutir outra vez as horas da amamentação e até que idade é que se pode amamentar em Portugal? Podíamos lhe chamar teimosia, mas eu acho que é um pouco pior do que teimosia. Isto é burrice, não tem outro nome. Porque sob o ponto de vista político, atenção, mais uma vez, a ministra pode estar absolutamente convicta, e eu também não percebo como é que se está tão convicto com uma coisa da qual não se tem números, não se tem dados, não se tem factos, não se diz: "nós estivemos aqui a ver e há aqui um conjunto muito alargado de mães que estão a aproveitar-se da ideia da amamentação pra poderem ir trabalhar menos", que é no fundo, o que está implícito. Há aqui uma acusação implícita de que há pessoas a aproveitarem-se desta fase da amamentação para poderem trabalhar menos. Mas se se faz essa acusação implícita, tem que se conseguir demonstrar isso. A ministra não consegue fazê-lo, já reconheceu que não consegue fazê-lo, porque pura e simplesmente não existem esses dados. Isso não existe. E, portanto, pra quê estar a inquinar uma negociação que vai pro Parlamento, que já se sabe que vai ser difícil, que o CHEGA não quer, o PS não quer? Com um tema destes, não havia necessidade. Acho que é uma burrice por parte, não sei se é só da ministra ou se é do governo no seu todo. No limite, a ministra diz que isto é sempre uma decisão do Conselho de Ministros, portanto, temos que assumir que é uma burrice do governo no seu todo, porque também não houve alguém acima da ministra que lhe dissesse: "tira lá isso daí, porque já temos sarna pra nos coçar, não precisamos de mais um problema na negociação no Parlamento." E termino com isto: nem que a ideia fosse pôr isto aqui para depois poder deixar cair, nem desse ponto de vista isso faz sentido. Por quê? Porque todo o debate público agora está outra vez contaminado com o tema da amamentação e com a irritabilidade que isto está a provocar, não apenas nos partidos de oposição, mas imagino eu, em muitas mães deste país.
Judite.
Eu só queria acrescentar duas coisas. Uma é: não havia dados que o comprovassem, e pior, os dados que existiam apontavam exatamente na direção oposta. A ACT registava advertências, mas contra os empregadores que não respeitavam o direito das trabalhadoras e, portanto, não contra as mães a abusar do sistema.De facto, em abril deste ano, numa versão do acordo tripartido que acabou por falhar, o governo aceitava que a trabalhadora só precisasse de apresentar atestado médico a comprovar que estava a amamentar depois do primeiro ano de vida do bebê, e não logo aos seis meses. E depois sim, a partir daí, teria de renovar de seis em seis meses. Era um recuo com sentido. Depois, a proposta que chega esta semana ao Parlamento desfaz isso tudo outra vez e é exigido atestado médico desde o primeiro momento, desde o dia um. Portanto, eu acho que utilizar exatamente a mesma matéria que desferrou a controvérsia em julho do ano passado, é muito difícil de explicar que se cometa o mesmo erro duas vezes e se esteja à espera de um resultado diferente, porque isso não vai acontecer. O resultado está a ser exatamente o mesmo. É olhar para a mãe que amamenta, que tem o direito de o fazer e tem direito à dispensa do trabalho para o efeito, durante o tempo que durar a amamentação. Neste momento, já é obrigatório apresentar o atestado a partir do primeiro ano.
A partir do primeiro ano.
Do primeiro ano.
E aqui será a partir do primeiro ano de seis em seis meses.
Não, aqui será a partir de seis meses. Ou seja, aqui será a partir do momento em que volta ao trabalho.
Eu não percebi isso, mas confesso que não era muito claro em lado nenhum. Ou seja, eu fiquei com a sensação que é depois do primeiro ano, então passa a ser de seis em seis meses, porque na prática-
Isso é que não tem sentido
E tem o limite de dois anos. Dos dois anos, que na prática é entregar mais um atestado. Que hoje não existe esse limite.
Não existe.
Esse limite de dois anos. Isso nunca mexeu. Isso o governo nunca admitiu. Correto? Penso que o governo nunca, já sabíamos que iria ficar com os dois anos de limite.
Na proposta que passou em abril era.
No projeto entregue ontem, ficamos a saber que recuperava a questão dos seis meses do atestado.
Sim.
Exato. O que me parece refletir-se não em um só ou dois, é ao fim de um ano e meio e, portanto, depois nos dois anos extingue-se. É outra guerra assim meia...
Não faz sentido nenhum.
Difícil de entender para quê. Exato. Só mais uma dúvida: vocês ouviram alguma empresa, alguma confederação patronal queixar-se disto? Ouvimos uma.
Ouvimos.
Tu e eu, Judite. Ouvimos aqui o Manuel Lemos, lembras-te?
É verdade, não foi confederação patronal, foi a Associação das Misericórdias.
Apresenta as Misericórdias queixar-se de que tinha casos.
Sim.
E nós perguntamos quantos. É meter as Misericórdias na concertação social, que assim já fica lá alguém. Legitimado. Assim já se percebe o que é que estamos a debater. Foi a única voz que ouvimos sobre estes alegados casos, foi o Manuel Lemos. Ouvimo-lo aqui na "Tarde Política". Alexandre, ainda não te ouvimos a ti sobre esta. Sim, eu claro, concordo totalmente com a Selma e com a Judite e é mesmo difícil de entender, porque o que aconteceu da primeira vez foi a ministra queixar-se de que tinham pegado neste assunto. Apresentaram ontem o projeto em julho, ela dá uma entrevista nessa altura, fala de várias coisas. Claro que se pegou neste assunto. Claro que lhe foi perguntado e depois ela queixou-se: "Bem, eu falei de uma data de coisas e só falaram disto. Pegaram nisso e podiam ter pegado noutra coisa qualquer". O que já é um bocado ingénuo do ponto de vista da comunicação, de não perceber que tipo de coisa poderá ser chamada pra título ou pra destaque, ou que vai ter um follow-up qualquer. Mas isto ter acontecido uma vez, já seria mau o bastante pra não se perceber que aconteça uma segunda. Eu acho que a ministra até podia dizer: "Nem me interessa se são muitos ou poucos destes casos, um caso destes eu não o quero admitir. É uma ilegalidade, é um abuso, não deve acontecer. Agora vamos falar de outras coisas, está lá para os confins da lei, agora temos X, Y, Z pra falar." Mas também não teve o cuidado de tentar fazer esse controle de danos. A gente simplesmente recebe o projeto ontem e volta a perceber que isto está lá. E está lá num dia em que tem outra vez aquele efeito, porque o projeto traz coisas novas. Entre outras coisas, traz pela primeira vez medidas sobre a IA, sobre a inteligência artificial e sobre outras coisas. E sobre passar a haver uma passagem automática ao lay-off em situação de calamidade, prevê possibilidade de despedimentos por baixa fraudulenta, traz outras coisas que garantidamente vão ter mais impacto do que estes no mercado de trabalho, ou que poderiam ter, e de que não se está a falar, porque se está outra vez a falar sobre esta questão mínima, sensível e que na prática até parece passar é um sinal contrário em relação a uma questão muito mais fundamental, que é um país à procura de políticas de apoio à natalidade. E achas que se podem ter pura e simplesmente esquecido e deixar- Que isto estava lá, na versão anterior do Word.
A julgar por aqueles nove meses de negociação, em que a determinada altura já ninguém sabia de que papel é que estávamos a falar, a própria UGT levava papéis às reuniões que não eram aqueles, não era a última versão.
Assinou, punha coisas, depois não vinha no papel. Exatamente. Portanto, eu já admito que, se calhar, foram à pasta errada e puxaram- Que ainda não tinha os comentários da- Mas estão lá medidas novas, como diz o Alexandre. E essas medidas, nomeadamente a inteligência artificial, por exemplo, isso era uma reforma laboral verdadeiramente importante. Provavelmente teria que ser atualizada daqui a um ano ou dois, porque as coisas estão a avançar a um ritmo tal que eu até admito que seja difícil estar a prever o que é que vai acontecer ao mercado de trabalho daqui a dois, três, quatro, cinco anos. Essas medidas que deviam ter sido debatidas durante nove meses e não foram, e que agora tínhamos uma oportunidade pra debater, até porque pra alguma coisa teria que ter servido a concertação social, e eu quero acreditar que essas medidas entraram lá por contributos dos parceiros sociais, quero admitir isso. Acho que foi a UGT a sugerir a questão da IA. E sim, valia a pena que agora o Parlamento se estivesse a debruçar sobre isso e que, claro, eu percebo que quando se apresenta uma proposta, estão lá medidas que são pra cair, que é pra poder dar em moeda de troca
Mas que diabo esta? Tinha que ser esta. Só falta o luto gestacional, que também havia duas leis. Era o luto gestacional e a amamentação.
Mas não pode dar aqui ao Chega uma vitoriazinha, Judite?
Pode. O Chega pode vir dizer que é de facto o partido da família e é o partido que se preocupa com estas questões e pode obrigar o governo a mudar. O Anselmo há pouco dizia isso, que se é para ter uma medida que possa ser alterada, temos aqui uma medida que já sabemos que vai ser alterada e, portanto, fazemos a pior versão para depois alterar para uma coisa que faça sentido. Pode ser essa a estratégia e aproveitar e dar de bandeja esta ao Chega. Pode, por exemplo, ser essa e fazerem um número com isso. Não sei do ponto de vista conspirativo.
Com tanto barulho. Eu gosto sempre das explicações mais simples.
É na Vale de El Khomri.
Esquecimo.
É possível.
Vamos às notas? Anselmo.
Não vou ser tão duro como o Miguel Santos Carrapatozo, mas vou dar um quatro a isto. É um disparate, é inquinar todo o debate daqui para frente.
Sim.
Judite.
Eu também dou um seis a isto, que acho que não faz sentido, já que são seis e seis meses.
Vou ser ligeiramente mais simpático. Continuo a achar que o projeto tem méritos e, portanto, ao projeto vão 12, à ministra oito por ingenuidade.
Estás a ser mãos largas.
Estou. Há aqui um bonzinho. A questão das Lajes está a provocar turbulência interna no PS, depois daqueles ralhetes de Francisco Assis e de Paulo Pedroso, à forma inflamada como alguns dirigentes do Partido Socialista reagiram às declarações de Marco Rubio, Judite.
É verdade. E curiosamente, a contra resposta vem do arquivo. Aparentemente, a edição da Ação Socialista de março de 2003 andou a circular e vê-se Paulo Pedroso em cima do palco, ao lado de Ferro Rodrigues, a anunciar a moção de censura a Durão Barroso pelo que aconteceu na Base das Lajes relativamente ao Iraque. E o Observador faz notícia desta questão, que é, no fundo, aqueles que hoje criticam o excesso de reação e o excesso de palavreado do partido, foram há 23 anos fazer mais ou menos a mesma coisa. Nomeadamente Paulo Pedroso, que agora é crítico, mas há 23 anos estava do lado dos que reagiram com firmeza contra o governo. A questão aqui é que o baú das memórias tem este problema, que é um problema complicado, que em geral na política, não só, mas sobretudo na política, é muito eficaz quando é bem usado. E de facto, há 23 anos, as pessoas já não se lembram.
Eu estou só a ter percebido que 2003 foi há 23 anos, mas continua.
É verdade.
És daqueles que diz que a década de 90 foi há 20 anos, não é?
Exato. A esticar.
Sim.
Não. Foi há 30.
Temos de mudar de assunto.
Mas isto para dizer-
Eu não estou a gostar deste tema.
Vamos falar da Cher.
Sim. Parabéns à Cher.
Pelo menos a Cher tem 80 anos e tu não.
Faz 80 anos.
Sinto-me um jovem.
Estavas a falar no uso da memória.
É isso, o uso do arquivo. O arquivo quando é bem usado traz destas coisas e faz parte.
Anselmo. Tu sabes o que é Lajes? Tu és o nosso maior especialista vivo.
Exato.
Em Base das Lajes.
Sou o José Milhazes. Gostas de comer cracas.
Adoro. Podemos falar sobre isso. Gosto de comer cracas também. Tenho sempre a teoria de que se chegasse um alien e não soubesse o que eram os Açores, eu dava-lhe a comer uma craca, porque tu ao comeres a craca tens o mar e a terra.
Está lá tudo.
Está lá tudo, exatamente.
O nosso abraço para as cracas.
O nosso abraço para as cracas. Disto ninguém fala. Sobre a Base das Lajes e disso fala há três dias, mas vamos continuar, até porque de facto parece que há sempre matéria. E tentando ser o mais justo possível que consigo sobre isto. O que está em causa não é que, por exemplo, o PS tenha sido oposição. Aqui a única pessoa que fica, conto muito mal nisto, poderá ser Paulo Pedroso, que é apanhado nesta pequena contradição, mas esse é um problema que fica para o PS ou para a relação pessoal de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso, porque evidentemente o PS não era governo em 2003. Ou seja, mantém-se a questão levantada por Francisco Assis, que é: o PS diz uma coisa quando é poder e diz outra quando não é. Ou, nas minhas próprias e imortais palavras, citando-me a mim mesmo, há uma versão gratuita e uma versão paga ou uma versão Pro do PS. A Pro está no governo, tem responsabilidades e atua de acordo com os interesses do Estado português e dos acordos que tem. E a gratuita dá só luz, tem uns anúncios de virtude ideológica. Calhou, por sorte, que em 2003 e agora o PS não era governo. Será que a administração americana pensa antes das suas atuações internacionais: "Espera, deixa-me ver quem é que está no poder em Portugal neste momento. Espera, é o PS, não vou. Não vou, porque eles iam levantar-se contra mim." Não temos o menor sinal de que algum dia o PS se tenha insurgido enquanto governo contra o uso da Base das Lajes pelo governo americano. Isto não significa que, e isso daria pano pra mangas e provavelmente não me vais deixarE com razão, porque há mais coisas para falar e ainda está aqui o Anselmo. Mas que questão? Que 2003 é um erro histórico? É, andamos a pagar por ele até hoje e vamos continuar a pagar. Não nós, Portugal, Ocidente. É em 2003, com a intervenção no Iraque, que os Estados Unidos perdem toda a sua legitimidade em termos de direito internacional e é ouvir qualquer entrevista de um político com responsabilidades atuais ou recentes da Ásia ou da África, quando fala sobre a cena internacional. Nesse dia, perdeu-se a superioridade moral do Ocidente para dizer o que quer que fosse a uma quantidade de países do mundo. E esta ação atual também, evidentemente, levanta a maior quantidade de questões. Agora, o que é que o governo português faz perante isto? O governo português, qualquer que ele seja, gosta de se gabar da importância geoestratégica da Base das Lajes. Sem os Estados Unidos, essa base teria que importância? Ou, dito de outro modo, que alianças internacionais quer Portugal ter? Ou Portugal acha que pode não ter alianças internacionais? Ou Portugal está preparado para ser militarmente um baluarte qualquer autossuficiente, que eu não sei onde é que existe, julgo que não existe em lado nenhum. Existe uma neutralidade como a Suíça e que é muito cara, que também não estou a ver como é que nós vamos ter. Portanto, neste momento, infelizmente, o mundo obriga-nos a isto e obriga há muitos anos, mas agora talvez mais do que nos tempos que conseguíssemos ter na memória recente. Nós temos que escolher um lado. E apesar de tudo, neste momento, com todos os pecados que existem, ainda é preferível estar do lado americano e não do lado chinês. Ou vale a pena recordar a Ferro Rodrigues que em 2016, quando António Costa foi em visita oficial à China e se andava a tentar renegociar o acordo das Lajes e pairava no ar a ameaça de que os Estados Unidos sairiam de vez, António Costa estava preparado para oferecer a Base das Lajes à China. E deu entrevistas à Bloomberg, porque os Estados Unidos ficaram preocupados com isto, a tentar temperar a coisa e dizer: "Não, isto será para fins científicos, exploração, mineração do mar profundo." É uma coisa que a mim me descansa imenso, deixar a mineração e exploração do mar profundo à China. E aqui não se levantou a Ferro Rodrigues, com certeza, alguma questão de consciência sobre se este país faz ou não atentados aos direitos humanos. Portanto, temos que escolher de que lado estamos. Neste momento, acho que ainda estamos aqui e vale a pena só dizer uma coisa final, Ricardo, desculpa, que é: também não podemos arcar com o peso do mundo e todas as responsabilidades morais de uma guerra, quando o que recebemos em troca é ser uma espécie de estação de serviço dos Estados Unidos. Vale a pena dizer isto. A Base das Lajes serve fundamentalmente para ser uma estação de serviço e que tem um determinado retorno económico e humano disto. Pequeno. É sobre este preço e sobre este valor que recebemos que devemos responder. Não enquanto autores morais do que se possa estar a passar no Irão.
Anselmo.
Eu quero começar por animar isto um bocadinho e discordar da Judite. Não sei se é discordar, mas tem a ver com a posição de Paulo Pedroso. É que eu não acho que seja comparável a cimeira das Lajes, que houve durante o governo Durão Barroso, com o que se está a passar agora com aeronaves americanas a aterrar nas Lajes, em princípio, em escala, por uma guerra que não é no âmbito da NATO, que é uma guerra unilateral dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Tudo certo. Mas o que aconteceu durante o governo Durão Barroso foi que Durão Barroso, enquanto primeiro-ministro, decidiu ser o anfitrião, e já agora, sem dar cavaco ao presidente da República na altura, que era Jorge Sampaio, decidiu ser um anfitrião de uma cimeira que depois levou à guerra, à invasão do Iraque. E é por isso que eu não vejo propriamente uma grande contradição na posição de Paulo Pedroso. Sobretudo se tivermos em conta que ninguém está a falar das escalas que as aeronaves americanas fizeram durante os governos socialistas de António Guterres ou de António Costa. Eu não me lembro de ver Ferro Rodrigues rasgar as vestes entre 2023 e 2025, quando aviões americanos fizeram escala nas Lajes, vindos do Médio Oriente, em apoio a Israel. Não me lembro. Não me lembro desta indignação toda. Lembro-me do Bloco. Lembro-me do PCP.
Lembra-se da Ana Gomes.
Lembro-me da Ana Gomes. Não me lembro destes socialistas, por quem eu tenho muito respeito, estarem indignadíssimos porque António Costa e o governo de António Costa permitiu.
O governo de Cócoras.
E agora reparem neste detalhe: permitiu que os americanos utilizassem uma base que, na prática, lhes está cedida a eles há muitos anos. Podemos discutir se deve continuar. Está cedida. Mas eu, se bem me lembro, quando a administração norte-americana, da última vez, quis reduzir, e reduziu substancialmente aquela que era a sua operação na Base das Lajes, eu lembro-me que parecia o fim do mundo em Portugal.
É isso.
Como é que a Terceira vai sobreviver? Como é que os Açores?
E quando tivemos o shutdown agora.
Como é que o país vai sobreviver sem os americanos nas Lajes? E era uma comoção que só não atingiu o Bloco de Esquerda e o PCP mais uma vez, mas que atingiu o Partido Socialista e o PSD. E portanto, eu, com franqueza, faço a mesma pergunta desde o início: se o governo não fosse da AD, fosse do Partido Socialista, um governo do Partido Socialista teria dito ao senhor Marco Rúbio, ou senhor Donald Trump, não sei com quem é que eles falam, deve ser com o senhor Marco Rúbio: "Não, vocês aqui não param os vossos aviões. Mas é que nem pensar. Ou então, fazem controle de fronteiras e vão lá ver onde é que vão os aviões e o que é que está lá dentro." Alguém acha que isto aconteceria com o governo do Partido Socialista? Eu tenho a certeza que ninguém acha isso e eu acho que a posição de Francisca Assis, como a posição de Paulo Pedroso, era a dizer o óbvio, que é: não foi nada de extraordinário. Mais uma vez, eu tendo a acreditar mais em Paulo Rangel do que em Marco Rúbio, por razões evidentes. Mas independentemente disso, acho absolutamente normal que todos os partidos da oposição queiram fazer perguntas a Paulo Rangel. Acho normal. Apesar de eu não levar muito a sério o que diz qualquer elemento da administração norte-americana, não deixa de ser um elemento da administração norte-americana e, portanto, acho queEvidentemente, a oposição tem toda a legitimidade para fazer perguntas, mas este rasgar de vestes de uma parte do Partido Socialista e, sobretudo, esta tentativa de dar a volta ao texto, porque claramente há aqui um erro inicial. Que é Eurico Brilhante Dias faz aquela declaração patética.
Entusiasmou-se.
Entusiasmado é o mínimo que se pode dizer, em reação à entrevista de Marco Rúbio. O secretário-geral do PS fica claramente atrapalhado com aquilo, não sabe como é que há de sair daquilo e, portanto, saiu de fininho. Saiu à francesa, que é não vou falar sequer do assunto.
Mas falou.
Sim, também falou.
Falou ontem e já reduziu a importância.
Falou para dizer isto.
Falou, mas sem falar. Falou para dizer: "Temos que fazer perguntas ao governo."
Sim, mas Paulo Rangel...
Mas reconheceu que sabia, o José Luís Carneiro. O José Luís Carneiro reconheceu que sabia, que é uma coisa que aparentemente Eurico Brilhante Dias não.
Como Paulo Rangel tinha dito.
Exatamente, como Paulo Rangel tinha dito. Não está nada numa comissão de inquérito e diz que não vê razão para tanto nervosismo. Portanto, descalou, para usar uma destas palavras da moda, descalou totalmente a indignação. Logo no arranque da ofensiva, foram feitas essas perguntas e José Luís Carneiro diz que as explicações que tinha tido na altura do ministro eram suficientes. Temos que avançar. Queres dar nota, Judite?
Eu vou dar uma nota ao baú das memórias.
Ao baú?
Sim, vou dar um 15 ao baú que nos permite isto.
Anselmo?
Eu dou um oito aos indignados do PS.
E o Alexandre ainda quer falar sobre a moção de Luís Montenegro e a sua visão para a maioria absoluta.
Mas virá o dia de ouvir.
Não tenho dúvida.
A visão de Alexandre.
Não tenho dúvida.
Só para dizer que agora, perfeitamente ao contrário em relação há bocado, a base era número quatro, eu tinha um quatro para dar ao moralismo barato destas proclamações. Sobre a moção de Luís Montenegro e as suas declarações a propósito da mesma, referindo que ainda tem a maioria absoluta na mira. Enfim, não temos muito tempo, isto pode dar para mais.
Temos dois minutos.
Temos dois minutos. Então vamos a isso. Portanto, a versão sintética disto. É isso, obrigado. É por essas e por outras que és fundamental. A visão curta disto é: Luís Montenegro muitas vezes parece querer, ou nós próprios o comparamos, parece ter Cavaco Silva como modelo.
Parece? Só parece.
Só parece. Porque defendeu, jogou com o seu primeiro governo e com a possibilidade de uma moção de censura ou de uma moção de confiança para depois conquistar uma maioria maior, na altura, nas suas palavras, não chegou de facto à absoluta, porque há dias se comparava justamente e dizia que vai ser mais reformista do que ele, indiretamente do que os governos de Cavaco Silva, porque ainda agora a moção se chama o deixem Luís trabalhar, claro, o deixem Luís trabalhar, que se confundiu muito com o deixem-me trabalhar de Cavaco Silva e ainda agora a moção chama-se.
Fica com essa música na cabeça.
Desculpa, queres axé outra vez? Bom. O teu nome está em cima da moção. Trabalhar, fazer Portugal maior. E Portugal maior era a assinatura da primeira campanha de Cavaco Silva às presidenciais. Isto somado a outras coisas. Por exemplo, há dias quando Luís Montenegro dizia que tinha estado a falar horas aos empresários alemães a explicar como fazer, acho que era mais ou menos isso. Luís Montenegro, de facto, quer a comparação com Cavaco Silva, mas eu continuo a achar que o mais parecido é António Costa. Em duas questões: na sua forma como vai gerindo o dia a dia, justamente, aquela coisa muito pragmática da pessoa que não faz realmente reformas, que vai gerindo o dia a dia, e num ponto assinalado pelo nosso brilhante ex-presidente da República, que é o otimismo irritante.
Que susto, estás a dizer que Montenegro é mais parecido com António Costa do que com Cavaco, é isso?
É isso.
De repente achei que estavas a dizer que António Costa era parecido com Cavaco.
Não, espera lá. Não, isto foi as músicas aqui, a passagem de uma música para outra confundiu. Não, é muito mais parecido com António Costa, no fundo, e particularmente nisto, no otimismo irritante que continua a passear, particularmente agora ainda em ter uma maioria absoluta na mira, com todas as dificuldades que se avizinham para este governo.
Mas há eleições daqui a seis meses. Por que nós estamos a falar de maioria?
Ele próprio falou nisto ontem.
Eu já não digo nada.
Eu acho que isto a mim cheira-me a eleições que tresanda por todo lado, porque Luís Montenegro vem falar de maioria absoluta. O Congresso do CDS passou o fim de semana a discutir se devia acabar com a AD ou não devia acabar com a AD, com o líder do CDS a dizer: "Se a AD acabar, o PS chega ao poder mais rápido." Mas quê? Daqui a três anos?
Eu acho que nós estamos a cair naquela coisa em que caem os workaholics, não conseguimos estar sem eleições.
É, já estamos a ressacar.
Ou então é a crise nas relações. Já não há aqueles casamentos para a vida.
A estabilidade. Nós não gostamos da estabilidade.
Não, nós estamos aditos à novidade. Diz-me.
E nota?
Estamos aditos à crise. Para o otimismo irritante de Luís Montenegro, um 18.
Um 18. E fica dada a nota e amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360, amanhã com o Paulo Ferreira, o José Manuel Fernandes, o Bruno Vieira Amaral e a Ana Sanlís.