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Iven Loureiro na Rádio Observador, também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o António Costa. Vamos falar sobre uma iniciativa da Ministra da Cultura que vai acabar com algo que este governo tinha criado: uma entrada grátis por semana nos museus nacionais. Já lá vamos. Também temos o congresso do Livre e a polêmica dos exames. E claro, a polêmica que envolve o ministro da Administração Interna, Luís Neves. António Costa, começo por ti. Está tudo esclarecido sobre Luís Neves?
Não, não está tudo esclarecido. Eu acho que há, evidentemente, uma enorme imprudência do atual ministro e ex-diretor da PJ, ponto um. Há algumas contradições que não são muito razoáveis passados estes dias e há falta de evidência dos pagamentos que foram feitos, porque lamento, ao ministro não basta ser, é preciso parecer e, portanto, não basta dizer que pagou. Nesta fase, tem que mesmo mostrar.
Ao ministro ex-diretor da Polícia Judiciária.
Não basta dizer que pagou e que tem nota e fatura, tem que mostrar, porque é para isso que tem uma função pública. É isso que se exige a um titular de um cargo político que fez os devidos pagamentos. Ora, vamos ver, onde é que está a imprudência? A imprudência está, sendo benigno na análise, na decisão de, por amizade, contratar alguém que trabalhou durante anos e que ganhou concursos pra própria Polícia Judiciária, alguns dos quais, diz o atual ministro Luís Neves e anterior diretor da PJ, que a maior parte já estava ganho quando lá chegou, mas que esta empresa tem uma percentagem relevante de concursos públicos, nomeadamente já atribuídos quando Luís Neves era diretor da PJ. Não interessa se é um, se são cinco, se são 10. Foi uma empresa que ganhou concursos públicos, seguramente de acordo com as regras. Não ponho isso em causa, desde logo, porque não tenho dados para discutir isso nesta fase. É evidente que há uma enorme imprudência em contratar para a sua residência, com o seu estatuto, na altura diretor da PJ, a mesma empresa. É uma imprudência, no mínimo, imprudência. Depois, há uma enorme contradição. Esforça-se muito por dizer duas coisas: que a empresa está certificada pelo Gabinete Nacional de Segurança e que isso explica a escolha de uma pequena empresa de Barcelos para fazer uma obra no Alentejo, perto de Odemira. Mas a este cuidado não existe o cuidado de um contrato, porque se é de tal forma importante garantir uma empresa que está certificada, e eu percebo que obviamente tem que estar para obras num serviço de segurança do país, para obras na segurança da casa de um diretor de um dos serviços mais importantes do país, no mínimo, teria que haver um contrato, uma verificação e um acompanhamento, porque a casa do diretor da PJ não é uma casa qualquer, não é a nossa casa.
Teria de haver um contrato para arranjar uma casa de banho?
Um contrato, sim, formalizado, para ser verificado, até para ser auditado pelos serviços da própria PJ. Repara, vamos pôr estes cenários, porque quem ouve e já ouviu, por exemplo, o atual secretário-geral dos Serviços de Informações, embaixador Vítor Sereno, disse-o em público mais que uma vez, os riscos de país, nomeadamente um país como Portugal, dentro da NATO, com relações com os Estados Unidos, são muitos e variados. Vamos admitir que alguma força internacional, já não digo nacional, utilizava estas obras para pôr escutas na casa do diretor da PJ. Mas isso é possível? É possível que haja uma obra em casa do diretor da Polícia Judiciária em Portugal que não seja auditável por serviços que garantam que aquela obra está feita, digamos, garantindo que há uma manutenção da segurança que obviamente uma pessoa com estas responsabilidades e com este nível de informação tem? Não é possível. Portanto, não haver contrato, não haver verificação, não é aceitável. Vamos admitir que seja imprudente. Depois, o ministro da Administração Interna diz: "Isto são umas obras pequenas, não era preciso." Vamos lá ver. Se são umas obras pequenas, custa a perceber que estejam há dois anos, eu nem se percebe muito bem as datas, mas no mínimo há dois anos para serem feitas. Se são pequenas, são pequenas. São coisas menores. Tanto tempo para se fazer? Também é um bocado contraditório. Não joga uma coisa com a outra. Depois, em cima disto tudo e desta imprudência, ou destas imprudências, dizer: "Não é fatura, mas mostro as faturas e os comprovativos das transferências quando for necessário." Já é necessário! Porque é isso que está em causa, é mostrar que pagou o que tinha a pagar, de acordo com o que tinha a pagar e que vai pagar, seguramente, o que tem a pagar pela obra, que aparentemente é tão pequena, mas ainda vai ter continuidade e só no final da obra é que vai ser feita. Uma visão benigna de um facilitismo que não é adequado à função de diretor da PJ.
Recria a desadequação, na tua opinião.
Deixe-me só terminar dizendo que o que foi revelado sobre a intervenção de um filho, à data, diretor da PJ, atual ministro, sobre jornalistas, também é de uma gravidade imensa. A jornalista Felícia Cabrita disse-o numa televisão, que houve uma perseguição, foram encostados. Vamos lá ver, eu admito que não haja provas disto, que não haja gravações. Mas não pode haver uma acusação destas, ou uma denúncia destas, como se fosse uma coisa menor. Como se fosse normal o filho de um ministro meter-se num carro atrás de uma jornalista porque foi lá ver as obras. Portanto, das duas, uma: o ministro e o filho do ministro deveriam vir esclarecer, afinal, o que é que se passou e prestar esclarecimentos sobre isso, mesmo não havendo provas materiais do que se passou, porque obviamente não há.
Estava a ouvir o António e percebendo o ponto fundamental do António, há duas ou três coisas, apesar de tudo, que não tenho a certeza de concordar. Isto é, o ministro, de facto, ou melhor, Luís Neves explica a questão da exigência da filtragem que houve sobre esta empresa. Obviamente, tem a ver com as obras que fez na PJ. Não tem a ver com as obras que fez para ele. Se existe uma exigência legal, eu julgo que não existe.
Não existe.
Isto é.
Mas a prudência de um diretor da PJ deveria obrigar a isso. Acho que não.
Nem sequer é a residência dele, ele próprio explicou, é uma coisa que ele está a fazer para turismo rural, como se percebe. Ou seja, se existir esse procedimento legal, que eu creio que não, ainda o ano passado era tema a casa do primeiro-ministro e as obras que estava a fazer. Isto é, penso que nem para o primeiro-ministro haverá. Mas julgo que ali a questão não se põe assim tanto. A questão de vir uma empresa de Barcelos fazer uma obra à Odemira, eles ganharam concursos na PJ para fazer obras na Guarda e em Évora. Portanto, acho que começa por aí. Isto é, supostamente, Luís Neves conhece-o no contexto destas obras e, portanto, aí também a distância já não parece assim tão absurda. O tempo ele também explica como uma coisa que me parece, desse ponto de vista, bastante credível. Ele diz: "Isto é uma obra tão grande, é uma coisa tão..." Há aqui tanto para ver que ele passa meses sem lá ir. Vai lá aos fins de semana e vai fazendo uma coisa. É claro que Luís Neves está a tentar reduzir a dimensão das coisas. É claro que ele diz: "São três paredes e um tanque." O tanque a gente percebe, ele não fez um tanque de lavar a roupa para os turistas. Provavelmente, é uma piscina ou qualquer coisa.
É um tanque para regar, não dá para tomar banho.
Deve estar com receio.
Não digas que nunca tomaste banho num tanque de rega.
Ora bem. E estar a reduzir, claro. E está sempre a dizer: "Pronto, mas eu não o conhecia, eu até só lhe pedi um conselho. Olhe, você tem ideias, o que você acha disto?" E depois o homem é que disse: "Olha, eu vou lá e faço-lhe a obra e vou fazendo." Acho que Luís Neves está, obviamente, a tentar controlar o estrago.
Seja isso facilitismo.
Exatamente. E parece-me que sim.
Para obras deste valor, normalmente, não se faz contratos.
Vamos ser honestos. E normalmente as pessoas fazem contratos.
Estamos a dizer quais valores?
Ele já falou em valores que rondam os 20 e tal mil, será o preço final da obra, mas que isso ainda está em aberto.
Porque ainda não terminou, como ainda está a fazer obra, há de lhe pagar no fim. Foi-lhe dando dinheiro para materiais e há de lhe pagar no fim. Ou seja, eu acho que é olhar com benignidade para a questão, mas parece-me que neste momento, isto é, não tenho a menor dúvida de que ele precisa de apresentar as faturas. Eu acho que as faturas não provam nada.
Não é faturas, é provas de pagamento.
É verdade.
Das respetivas faturas.
Exatamente.
E sendo isto simples, eu não percebo.
Por que está a adiar.
Isto às vezes faz-me lembrar, andamos anos, aliás, o governo caiu por causa de uma coisa de maior montante, mas por causa disto.
Eu concordo.
Lembremo-nos do primeiro-ministro, ainda líder do PSD, ainda primeiro-ministro, com uma pasta.
Com várias pastas.
Várias pastas, dizendo: "Eu mostro tudo, está aqui tudo."
Sim.
E depois passamos meses, aliás, dois anos.
Exato. Mas o Luís Neves precisa de mostrar essas faturas, o que ele diz: "Aí está tudo na fatura, esta questão surgiu quinta-feira, eu não tenho as faturas, está no contabilista." Pronto, ok. Quanto mais ele se tenta explicar, apesar de tudo, é pior. Pior fica. Portanto, assim que mostrar, já comemorou três entrevistas num dia e está feito. Agora, quando eu marco três entrevistas num dia, vou terminar, Ricardo, e dizer isto, há muito a dizer, mas naturalmente dar a palavra à Judite. Só dizer isto, o dar três entrevistas num dia acho que mostra não só vontade de esclarecer, como coragem, porque era muito fácil marcar só uma, ter três jornalistas a perguntarem coisas mostra alguma coragem. Mas vamos ver onde isto fica. Agora, se calhar, preciso só de mais uma coisinha para terminar. Confesso que preocupa-me mais uma certa perseguição que parece estar aqui a haver. Isto é, alguém está a tentar arranjar um problema a Luís Neves. Alguém que grava uma conversa. Aquilo que nós vimos transcrito é, pelo que eu percebo, a conversa de um almoço em alguém que depois recebe uma chamada do ministro. Mas isso depois veremos. Mas por enquanto, acho que o ministro tem de dar todas as explicações que forem necessárias. Agora, num país que caíram governos por negócios de centenas de milhões de euros, estamos aqui a falar de € 5 mil de uma obra de um ministro. Não sei, há aqui uma certa desproporção. Judite.
Mas eu, por exemplo, gostava de saber como é que esses € 5 mil foram pagos. E acho que isso não é difícil de provar. Foi por transferência bancária ou foi dinheiro? Já agora, saber.
Pois, ele diz que por transferência bancária e pagamentos no Multibanco.
Então é muito fácil provar. E se é fácil provar, está à espera de quê para mostrar? Porque pode não haver nada de ilegal, mas a imprudência que o António falava tem que ser de alguma forma debelada, e ela pode ser debelada assim, se está ou não é fatura. Se está ou não é fatura também é fácil de mostrar. Acho mais difícil prolongar, e acho pior para o ministro prolongar isto no tempo, está ali a ferver em lumbrando, sem razão, porque se tem tudo para mostrar, então deveria mostrar. Só uma questão.
Não é muito.
Não é muito.
Apesar de tudo, o primeiro-ministro veio com três pastas. Se calhar uma daquelas com uns agrafos.
Exato. Os agrafos também são uma palavra muito de regresso à atualidade política.
Nas entrevistas que hoje faria de forma diferente. E portanto, ele próprio assume que há dúvidas.
Na altura não era ministro.
Não era ministro, mas era diretora nacional da PJ, quer dizer que é um cargo muitíssimo importante.
Em certo sentido, até acho mais importante que ser ministro, aliás, de duração. Ele seguramente não será ministro tanto tempo quanto foi diretora nacional da PJ.
Isso garantidamente. E portanto, eu acho que se ele acha que isto podia ser feito de forma diferente, tem de mostrar tudo, acabar com as dúvidas. E eu percebo o que estás a dizer, Alexandre, mas este ministro tem boa imprensa.
Tem.
Porque eu acho que se tivesse má imprensa, o caso já estaria noutro patamar. Tem boa imprensa, chegou há pouco tempo, vai com uma aura de querer mudar.
Boa capacidade de comunicação.
Tem ótima capacidade de comunicação.
Também por oposição às suas duas antecessoras, beneficia deste contexto. Beneficia, também é justo dizê-lo, do trabalho excelente que fez na PJ, isso é inquestionável.
Sem dúvida.
Transformou a Polícia Judiciária. Mas isso vamos lá ver.
Querem deixar nota?
Eu dou-lhe um nove para ir à oral.
Eu vou acompanhar o nove do António.
Alexandre?
Eu, pelas mesmas razões, dou-lhe um 10.
Ainda temos tempo agora para ir ao fim de semana, ao Congresso do Livres.
Podíamos ir para o fim de semana, não importava nada.
Exato. Ok, quer dizer, Congresso do Livres. Sim, o Congresso do Livres foi em Sintra, no Hóquei Club.
Hóquei Club.
De Sintra, acho chique. Tinha uma tarja à entrada também com uma citação de Almeida Garrett: "A umbrosa Sintra, a formosa Sintra, quem não te ama?" Estava assim a dizer. Porque Almeida Garrett também é uma figura lírica, literalmente.
O homem das folhas caídas.
O homem das folhas caídas, e que também tinha grandes projetos políticos para o país e que censurava o ancien régime, e que depois também se contentou. Saiu assim, ele e outros deste tempo, Herculeano, retiram-se. Particularmente ele saiu com um título qualquer de conde ou barão. Portanto, é uma figura que eu acho que encerra um certo idealismo que depois se perdeu, mas lá estava. E então o Livre reuniu-se em Congresso. A lista A, que tem as pessoas que nós conhecemos, fundamentalmente, ganhou com quase 68% dos votos, ainda reforçou em mais um na direção. Eles são 15 na direção, tinham 10, passaram para 11 lugares, a oposição ficou com quatro. E portanto, nada de novo ali. As críticas que se ouviram no Congresso, basicamente tiveram a ver com a falta de pluralismo e de democracia interna que nós já conhecíamos. Isto é, a crítica àquele que está sempre centrado nos mesmos. Depois houve algumas frases, algumas tiradas para o país, naturalmente, e críticas ao governo e sobretudo tentativa de pressionar o PS a ser oposição a qualquer tentativa de revisão constitucional por parte da direita. Mas sabíamos que aqui íamos sobretudo perceber se Rui Tavares saía, de facto, e se dava lugar a Jorge Pinto. E de facto, ouvimos na abertura Isabel Mendes Lopes e no fim Jorge Pinto, ambos a falarem com uma enorme ambição de que o Livre vai ser poder. Vai ser poder, é inevitável, é a palavra que usam, é já no próximo ciclo eleitoral. Isabel Mendes Lopes diz: "Ouvimos muitas pessoas a clamar por uma refundação da esquerda. Ora bem, está aqui a refundação da esquerda." Nada menos, está aqui. Pronto, em princípio, eles nem mudaram muito eles próprios, mas segundo Isabel Mendes Lopes, esta é a refundação da esquerda. Jorge Pinto já diz coisas mais curiosas. Diz, por exemplo: "Vamos mostrar que há uma maneira de esquerda, ecologista, libertária e europeísta de fazer política em Portugal." E eu não sei se Rui Tavares não vai ter que voltar assim rapidamente, é porque da outra vez que ele deixou Joacine Katar Moreira falar por ele, era o feminismo radical que tinha chegado ao poder, quando ela conquistou o lugar de deputada. Agora, Jorge Pinto, pelos vistos, e foi aplaudido, acha que o Livre é um partido libertário. O libertarismo, para quem não possa bem saber, é assim, em termos simples, uma coisa mais à direita do que a Iniciativa Liberal.
É o Milei.
É o Milei, exatamente, é isso mesmo. É a ideia de que o Estado pode existir talvez para ter tribunais ou para assegurar a justiça e muito pouco mais. É basicamente mercado livre e o Estado não se mete nisto.
Se calhar era noutro sentido.
Achas que era noutro sentido? Agora este a ser benigno. Este a ser boazinho.
Estamos todos muito benignos.
É verdade, estamos todos muito boazinhos. E portanto, o Livre fala sobretudo desta sua ambição de governar. Jorge Pinto diz que é inevitável e que o Livre nasceu para isso. E o Livre apresenta-se sempre, acho que há um lado positivo no Livre, que é um partido que tenta fazer uma oposição de esquerda, apesar de tudo, construtiva. O Livre, tipicamente, nos assuntos, apresenta medidas, apresenta propostas. E é um partido com quem se pode falar à esquerda e à direita, e acho que isso é positivo para a política portuguesa.
Vamos à tua conclusão e à tua nota?
Agora, exatamente, a minha conclusão é Receio que o maior projeto do LIVRE, muitas vezes, seja mais o chegar ao poder, isto é, manter uma certa flexibilidade que lhe permite a chegada ao poder, do que propriamente uma questão de convicção. E se olharmos para os resultados eleitorais, continuo sem perceber de onde é que vem este otimismo. Terminaria com este número: falo muito do crescimento nas últimas legislativas, fui rever, foram 50 mil votos, tiveram mais 50 mil votos, é disso que estamos a falar. Zero eurodeputados, nas presidenciais já estão sempre a bater em Jorge Pinto, escuso de ir lá outra vez. Portanto, receio que o LIVRE possa nunca passar de ser uma espécie de Bloco descafeinado. A minha nota, esperando para ver, é o 10. E uma sugestão: visita ao Hóquei Clube, em Sintra. Segunda parte de "You Vence or É", hoje com a Judite de França, o Alexandre Borges e o António Costa. Vamos ainda à mais recente polêmica nos exames. Está a ser um caminho atribulado este, com o porta-voz do PSD a anunciar o pagamento de horas extraordinárias aos professores. Judite, há vencedores neste ponto?
Eu acho que há uma enorme confusão aqui, e há uma enorme confusão entre PSD e governo, porque tivemos um porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, a falar em nome do governo, e não um porta-voz do governo a falar em nome do governo, que era uma coisa que fazia mais sentido, pelo menos pra mim. E fez-me confusão ver Sebastião Bugalho anunciar um tema que é apenas e só do governo. E essa confusão entre governo e partido parece-me pouco positiva, sobretudo para Fernando Alexandre, porque a notícia seria uma boa notícia: pagar horas extraordinárias. Já lá vamos em relação a isso. Se Sebastião Bugalho viesse falar dos imprevistos, de como o tema é delicado, que as mudanças não existem sem algumas dores no processo, etc., eu acho que isso fazia sentido, ficava com essa despesa, no fundo, ficava com a despesa da dificuldade. Mas não, veio falar de horas extraordinárias. Ora, mal seria se os professores não recebessem o que está na lei, só pra começar. E, portanto, não foi uma boa notícia, mas a questão é que Sebastião Bugalho e o PSD achavam que estavam a anunciar uma boa novidade. E na cabeça do governo e do PSD, isto era algo bom. E não vai o ministro fazer o anúncio? Não é preciso reabilitar a imagem de Fernando Alexandre? Eu fico na dúvida se isto foi feito sem o ministro sequer saber. Provavelmente, o ministro, se lhe dissessem, diria: "Mas as horas extraordinárias já são pra ser pagas, qual é a dúvida?" Portanto, eu acho que ou não há comunicação entre o PSD e o governo, ou há comunicação e o PSD quis ficar melhor na imagem do que o seu próprio ministro. Alguma explicação tem de haver aqui, não sei qual é, pode ser uma delas. Agora, o ministro que precisa dar boas novidades como pão pra boca e fica o porta-voz do PSD com essa sorte, eu acho que é estranho. Depois, ainda tivemos o primeiro-ministro a falar de imprevistos e de que tenha havido um aproveitamento daqueles que tentam exacerbar, estou a ler, quase mesmo exagerar, tudo entre aspas, que tudo corra mal.
Será que ouviu o ministro da Economia?
Há uma coisa que é fatal: os partidos fazem oposição. É fatal, como o destino, acontece, não há nada que mude isso. Também dou voz aos professores e às famílias que estão aflitas e a sofrer de uma enorme ansiedade neste momento. Só quem não passou por um processo de entrada pra faculdade é que acha que isto é simples. E se a isso se juntam os problemas deste ano, é normal que as pessoas estejam muito preocupadas. Mas isto não é aproveitamento, como diz o primeiro-ministro.
É claro que não. Os filhos do primeiro-ministro já têm emprego, nós sabemos.
Sabemos.
Não têm este problema.
E já entraram na faculdade, pelo menos.
E já saíram.
Um deles não sei se já saiu. Um deles já saiu, o outro ainda não.
Mas pra quem tem filhos a entrar na faculdade, isto é obviamente um problema que não pode nem deve ser desvalorizado, desde logo, pelo primeiro-ministro.
Claro. Mas o primeiro-ministro, nestas coisas, gosta muito de fazer de Calimero. Eu acho que é uma coisa que acontece a este governo.
Alexandre, queres dizer alguma coisa sobre isso? Mais isso.
Queres falar?
Além de deixar de estudar de exames e de trabalhar. Ora bem, por exemplo. Sim, nada a acrescentar em relação ao que disse a Judite. A confusão é evidente e não se percebe. E não é como se Fernando Alexandre fosse propriamente uma pessoa muito distante do PSD. Não é todo o caso, portanto, não se percebe o que é que aconteceu ali. Mas vamos ver. Cada vez que falamos deste assunto, tudo o que eu consigo ouvir é um relógio. Tic tac, tic tac, tic tac. Até à sexta-feira. Até sexta-feira, exatamente. Mas, aparentemente, estão 95% dos exames corrigidos. Exato, mas aparentemente sábado ainda havia professores a serem chamados pra corrigir provas. Aparentemente, o ministro diz que é pra substituir os que puseram baixa e que estava tudo previsto. Acho que veio bem hoje pedir desculpa aos professores. Já o devia ter feito, mas mais vale tarde do que nunca. Pedir desculpa pelos erros que foram acontecendo no processo. Agora, não há, de fato, como desvalorizar isto. E depois de tudo o que foi sendo dito, o ministro também tentou muitas vezes falar nos alarmismos e nos discursos, e não sei o quê. Não, o assunto é obviamente muito complicado e gostaria que no fim disto, de fato, se assumissem as responsabilidades. Não falo de demissões, porque isso, de fato, não ia resolver nada, a menos que se concluísse que se houver, no fim disto, erros graves com consequências pra os alunos. Mas fora isso, no processo, gostaria que, de fato, que o ministro reconhecesse os erros da responsabilidade política de ter dado este passo, no mínimo, claramente antes do tempo. Temos que ver na sexta-feira também. Haverá um debate, em princípio, no Parlamento
O PCP quer que o ministro vá ao Parlamento. A ver vamos. Queres dar uma nota aos exames ou queres uma nota suspensa?
Me quer dizer qualquer coisinha sobre .
Sim, já vou ter, porque o próximo tema é teu.
Eu vou dar uma nota a Sebastião Bugalho, porque acho que ele devia saber que os professores recebem horas extraordinárias quando fazem horas extraordinárias.
Alexandre?
Eu concordo, mas qual foi a tua nota?
Dou-lhe um oito.
Bom, acho que sim. Temos e vamos continuar o falado Fernando Alexandre, portanto, acho que importa seccionar aqui em Fernando Bugalho oito também.
Pois, eu estava a ler a declaração do primeiro-ministro: os ministros, como os secretários de Estado, como o primeiro-ministro, estão no governo para resolver problemas. Ora, a verdade é que nós percebemos que quem criou este problema foi o ministro da Educação. Isto é, que está a resolver um problema que o próprio criou. Eu devo dizer que acho que o ministro da Educação é mesmo daqueles sobre o qual cai uma infelicidade, que é um erro do próprio, mas que é uma infelicidade, porque é dos ministros que tem mesmo uma visão. Depois podemos discutir, não é isso que está em causa. Uma visão pra educação, uma visão para pôr o aluno em primeiro lugar. E nós sabemos que a discussão tantos e tantos anos no ensino superior, como no ensino secundário, os alunos são a última das prioridades, discute-se tudo, menos o aluno.
Mesmo quando se fazem horários.
Mesmo quando se fazem horários, é mesmo. E, portanto, o ministro tem uma indicação. Entrou, mexeu com um certo corporativismo, que há em todas as profissões, também na educação.
Não, mas o Ministério da Educação é um colosso.
É um colosso. E isso, obviamente, é uma pena que num ministro que queira mesmo reformar o sentido. Aliás, nesta semana vai haver uma conferência importante internacional, que tem a ver com a fusão da FCT com a ANI, com a Agência Nacional de Inovação, que é ela própria uma reforma importante, com seguramente resultados a ver a prazo. Agora, isso não invalida que tenha cometido um enorme erro de avançar sem ter manifestamente a garantia de que aquilo estava tudo a funcionar em condições pra fazer este teste, com um formato que, na verdade, é a digitalização de uma burocracia, não é digitalização, é digitalizar testes. Se eles tivessem sido feitos de forma digital, como estiveram para ser feitos, e não foram, porque o ministro à data percebeu que não havia condições técnicas pra assegurar o processo, o que está aqui em causa é a digitalização de um processo feito como sempre foi feito. O que resulta, e vamos ver, porque o dia 17 o tic tac do dia 17 é muito importante, mas infelizmente, nós sabemos, não vai acabar aí, porque vai haver muita gente a querer fazer a revisão de prova.
A revisão de prova, sim.
Porque o sistema criou-se uma suspeita e minou a confiança, infelizmente, sobre um processo que não existia.
António, se queres ir ao teu tema, temos que acelerar.
Eu dou um 10 ao ministro da Educação, com muita pena, porque, de fato, isso pode vir a minar o que é a sua autoridade política pra continuar alterações profundas que estava a fazer na educação.
E tens um outro tema de uma entrevista ao Eco.
É, uma entrevista da ministra Margarida Balseiro Lopes ao Eco, em que a ministra revela que o governo está a reequacionar o modelo de gratuitidade que existe hoje nos museus. Parece-me elementar, por uma razão simples, porque uma das fontes de receita importante dos museus-
É uma entrada semanal, não é? Por mês.
São 52 entradas por ano gratuitas. Enfim, até enquanto à adesão dos portugueses aos museus, diria que isto é virtualmente dar entrada gratuita a todos os portugueses. Enfim, contar sempre realmente por poucos.
E ainda sobram.
E ainda sobram os portugueses que vão mais de 52 vezes.
Nos museus nacionais.
Nacionais. Ora, a ministra vem dizer, diz nesta entrevista ao Eco, e quanto a mim bem, que está a rever, por quê? A primeira explicação, na entrevista, devo dizer, não diz tudo. Esta tarde já veio acrescentar um ponto, que há um problema de financiamento dos museus e é preciso diversificar. Ainda por cima há museus que estiveram fechados por causa das obras do PRR, o que obviamente cria mais pressão sobre os museus. Foi criada, de resto, uma empresa na altura do ministro Pedro Adão e Silva, Museus e Monumentos de Portugal, pra gerir o orçamento dos museus. Mas qual é a estranheza e a contradição? É que a ministra vem pôr fim, ou anuncia, pré-anuncia o fim de uma medida que este governo tomou. Nós já ouvimos falar de reversões de governos, de mudança de governos, mas agora há reversões de mudanças do mesmo governo. É certo, foi do governo anterior da AD com a ministra Dalila Carvalho, se a memória-
Rodrigues.
Rodrigues, se a memória não me falha, exatamente. Falhava, mas leu lá depois. E agora esta tarde a ministra vem acrescentar que é uma imposição da Comissão Europeia. Por quê? Porque esta gratuitidade que foi decidida em 2024, já com o primeiro governo de Luís Montenegro, era limitada aos portugueses residentes. Ora, é evidente que no espaço europeu que nós vivemos é difícil justificar isso mais tarde ou mais cedo, mas o governo tinha a obrigação de saber isto há um ano e meio, há dois anos.
Portanto, tem que ser pra todos os europeus.
Pra todos os europeus. Enfim, eu dou um 14 a esta ministra pela decisão, pela reversão. Às vezes as reversões fazem sentido, mas dou um sete ao primeiro-ministro e um sete à ministra anterior, Dalila Rodrigues, que tomaram uma decisão manifestamente sem perceber. Por um lado, o impacto financeiro na atividade dos museus não está quantificado, ninguém sabe.
Mas terá assim tanto impacto?
Tem, porque obviamente num país com pouco dinheiro pra cultura, nós sabemos. Obviamente que dois, três, quatro, cinco milhões de euros de receita anual é dinheiro muito significativo pra comprar obras, pra fazer gestão dinâmica do museu. Nós não sabemos, não foram revelados esses dados, seria interessante que se conhecessem, quanto é que os museus, por comparação, deixaram de receber este último ano e meio, dois anos com esta gratuitidade. O processo, no mínimo, de averiguação que a ministra acaba por revelar esta tarde, já depois da entrevista publicada da Comissão Europeia, só vem tornar mais grave a decisão de há dois anos. Há dois anos não se fizeram contas. Agora sabe-se que não só não fizeram contas, como não quiseram saber de uma coisa que obviamente devia ter sido avaliado, que é o direito europeu pra possibilidade de tomar esta medida.
Fica por aqui este "Ivens Touré". Amanhã há mais, nas manhãs 360, a partir das 08:30 da manhã, o Rui Pedro Antunes junta-se ao Bruno Vieira Amaral, ao Jamel Fernandes e à Helena Matos.