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Começa agora o "E o Vencedor É..." das manhãs 360. Ao João, ao Paulo e ao Júlio, que está no Porto, juntam-se para análise aos protagonistas do dia o José Manuel Fernandes, como sempre, e hoje também o Miguel Pinheiro e o Nuno Vinha. João Alexandre, estou rodeada de homens. Vamos lá.
É verdade, mas sempre em boa companhia. Muito bom dia a todos. Hoje vou começar pelo Nuno Vinha, editor de economia do Observador. Nuno, temos falado de futebol e futebol envolve cargas de ombro. Não sei se será falta ou não, mas Rui Rio fala de um encontrão para cair se o resultado das eleições autárquicas este ano for pior para o PSD do que o resultado de 2017. Isto quer dizer que há aqui um vencedor ou um vencido?
João, eu não sei. Agora estavas a falar dessa analogia do futebol e o Rui Rio tem uma má pata com futebol. Ele detesta futebol, já se pegou com o futebol clube do Porto na câmara. Ainda agora teve um problema com um dos candidatos que também é um homem ligado ao futebol. Eu acho que ele não distingue o que é um cartão amarelo de um cartão vermelho, pelo menos não me parece.
É daltonismo, então.
Ou então é taticismo, é a força da tática. Eu fiquei com dúvida sobre o que ele considera um resultado pior, porque, na verdade, o que ele está a referir? Está-se a referir à percentagem? Está-se a referir ao número de câmaras conquistadas? Em 2017, o PSD conquistou 98 câmaras, 19 em coligação. O que ele considera um mau resultado? É o número de votos? É o número de eleitos? Eu acho isso um pouco difícil. Por outro lado, acho que ele também surge um pouco tarde a dizer isto. Coragem era dizer isto há quatro ou cinco meses, não é agora, quando se tem provavelmente uma sondagem no bolso a indicar algum resultado em algumas das principais câmaras do país. Aliás, uma outra coisa: o que é um bom resultado? É recuperar algumas das câmaras que eventualmente terá perdido de 2013 para 2017? Não sei. Acho que é um encontrão, uma frase que pega bem, que parece de alguma responsabilidade, pelo menos de algum compromisso perante os resultados, mas acho um pouco difícil de acreditar.
Sinceramente, acho uma frase que pega muito mal. É mais ou menos eu dizer que vou competir para o salto em altura e vou pôr a fasquia a metro e meio. Mais ou menos é isso.
Mas percebeste qual era a fasquia? Porque eu não percebi qual é a definição dele de um mau resultado. É pior do que?
Ou então vou competir para o metro em altura, mas não tenho fasquia. A fasquia é tão baixa que o PSD teve em 2017 o seu pior resultado sempre. O PS teve o melhor resultado sempre. Fazer pior do que em 2017 é que é difícil. Difícil é fazer pior que em 2017, porque vamos reparar: em 2021 há presidentes de câmara do PS que começam a acabar o seu ciclo. Há uma fase de renovação natural de mandatos. Não são muitos ainda, porque este ciclo começou em 2013, mas apesar de tudo, já há um período de renovação de ciclo. Segundo, em 2017, quando foi a derrota do PSD, o governo estava no princípio. Agora não, temos um governo que já leva sete anos.
Seis anos e uma pandemia pelo meio.
Seis anos, quase sete anos na altura, e leva uma pandemia pelo meio. Há mais do que razões para as pessoas poderem ter algum voto de protesto. Em condições normais, seria o que iria acontecer. Neste quadro, o PSD não consegue fazer nada de melhor. Isto foram as condições que Durão Barroso teve em 2002, ou 2001, penso eu. Já não estou a lembrar exatamente qual é o ano.
2001. Foi a do Pântano do Cutérris.
2001. Do Pântano do Cutérris, 2001. Foram estas condições. O que o Durão Barroso fez de diferente do que está a fazer o Rui Rio? Durão Barroso fez uma coisa bastante diferente, que foi aplicar-se muito nas autárquicas, no sentido de andar a escolher os candidatos pelo país inteiro para ver realmente quem eram os melhores candidatos. Provavelmente o PSD estava numa fase muito diferente daquela que está hoje, conseguiu mobilizar pessoas que hoje já não consegue mobilizar, mas conseguiu levar, de alguma forma, água ao seu moinho. Desta vez, isso claramente não sucedeu com Rui Rio, onde algumas das suas apostas pessoais caíram fragosamente. António Oliveira em Gaia, ele tentou Pedro António Lopes em Sintra e falhou. Praticamente todos os casos mais sonantes de Rui Rio falharam. Já viram o que vai ser se alguns dos melhores resultados do PSD, porque o que eu vou dizer pode acontecer, forem, por exemplo, Loures? Loures não, perdão, Odivelas.
Era isso que eu ia perguntar, qual é que era a tua aposta?
Amadora? Onde a candidata é Susana Garcia e aí tiveram um dos seus melhores resultados de sempre. Até agora, o melhor resultado de sempre do PSD na Amadora foi uma candidatura in memoriam de Passos Coelho. E aí agora Susana Garcia pode ter melhor resultado que Passos Coelho. É isso uma vitória para Rui Rio, é isso que o fará ficar contente e achar que eu fiz melhor que Passos Coelho.
Já agora, José Manuel Fernandes, deixa-me só aqui recordar palavras de Rui Rio em Loures, na apresentação do candidato a Loures, foi há mais ou menos duas semanas. Rui Rio dizia mesmo que havia uma necessidade de aumentar nas autárquicas o número de eleitos, referindo que, e passo a citar: "Só isso irá garantir a sustentabilidade do PSD enquanto grande partido." Portanto, Rui Rio coloca mesmo aqui em questão essa sustentabilidade do PSD enquanto partido de alternativa ao PS e partido de governo.
Ele diz isso desde o princípio.
8600 eleitos na altura, acho eu.
Ele diz isso desde o princípio, para Rui Rio é muito importante o número de eleitos.
O número de eleitos é o total de mandatos variadores que está nas autárquicas? Câmaras ganhas?
Não é só câmaras ganhas, é câmaras ganhas, número de vereadores e número de presidentes de junta e eleitos para as assembleias de freguesia. É isso tudo. Mas atenção, isto pode ter uma componente que eu não vou tomar isto só pelo lado mau, vou tomar também pelo lado bom, vamos ver, que é apesar de tudo, Rui Rio foi um autarca e sabe que esta rede no terreno é importante e é importante para o PSD. Mas isto tem um lado mau, é que isto tem muito também a ver com o aparelho, com sustentar o aparelho, com dar de comer ao aparelho, literalmente dar de comer ao aparelho, dar palha ao aparelho para que ele se mantenha alimentado. E nós sabemos que este aparelho o que quer é, neste momento, fundos, e os fundos vêm aí a caminho.
Basicamente, somos nós que pagamos a palha, não é?
Exatamente, somos nós que pagamos a palha. Não são os militantes do PSD que pagam as quotas, somos nós que pagamos e que mantêm essas centenas de autarcas.
São cargos públicos, para todos os efeitos.
Eu ontem fiquei siderado quando vi um presidente de junta do PSD de Lisboa anunciar um concurso, recebi no meu e-mail, na minha caixa de e-mail, anunciar um concurso. Eu tenho o maior respeito pelas pessoas que recolhem o lixo. Aliás, já escrevi crónicas sobre isso. Agora, ele anunciou um concurso para fardas desenhadas pela Ana Salazar. E achou que assim, em ano de eleições, é que as coisas vão bem. Portanto, vamos ter fardas de uma junta de freguesia de Lisboa para o pessoal da limpeza, desenhadas pela Ana Salazar. E é nisto que estamos.
O Nuno vinha há pouco...
São estas as prioridades. É evidente que eu acho que não fará seguramente mais felizes aquelas pessoas, aquelas pessoas serão mais felizes se ganharem mais dinheiro e se terem melhores condições de trabalho. Não é seguramente por terem uma farda desenhada pela Ana Salazar.
Paulo Ferreira.
O Nuno vinha há pouco perguntar qual é o critério. Eu acho que é um pouquinho diferente, Nuno, se estamos a falar do somatório de votos nacionais. Depois é difícil porque há muitas coligações também nas autárquicas, é muito difícil traçar depois, separar nas coligações aquilo que é de um partido e do outro, ou se é o número de eleitos, o número de câmaras, enfim, seja como for. O que Rui Rio está a dizer é que se ele tiver um resultado igual ao pior resultado que o PSD já teve desde sempre em autárquicas, que foi 2017, para ele está tudo bem e vê condições. Se não fizer pior do que isso, para ele está tudo bem para continuar a liderar o PSD. Bom, isto é colocar a fasquia tão lá embaixo que está ao nível da falta de exigência que nós-
É dar um salto de metro e meio.
Exato. A falta de exigência do PSD neste momento-
Só alçar a perninha
...e de Rui Rio só está ao nível da falta de exigência do governo. Isto é um cancro nacional, de facto. E esta pandemia, este ciclo de governação, vem nos recordar que para um país, para uma democracia é tão importante um governo competente, mas também uma oposição competente e combativa que se afirme como alternativa, porque a falta de uma alternativa visível neste momento, basta olhar e ver, quer dizer, o que é que é o PSD neste momento? O que é que ele propõe? O que é que ele proporia diferente na pandemia? Na pandemia que já se está a perceber há muito, mas é evidente que a gestão é um desastre, basicamente, de incompetência, de falta de planeamento. Reagimos muito bem há um ano, na primeira vaga, aqueles três, quatro meses, quando o improviso, não só cá como em todo lado, era de facto a única resposta, ninguém sabia o que ia, não é? E nós aí fomos bons. Quando passamos à fase do planeamento, da organização de uma máquina do Estado que responde assertivamente, começou tudo a falhar. E desde então tem tudo falhado.
Já agora, Paulo Ferreira, Rui Rio que disse também que a cada dia que passa se nota o desgaste do governo e que é preciso mudar de rumo. Mas a verdade é que isto mesmo dizem muitos militantes do PSD sobre Rui Rio, que já se nota o desgaste de Rui Rio e que é preciso mudar de rumo.
Mas para qual rumo, não é?
Mas nesta questão que o Paulo estava a dizer, basta pensar quem é o especialista em saúde do PSD.
É Ricardo Baptista Leite.
Não, certo, mas desde que foi para Sintra, para se candidatar à Câmara Municipal.
Desapareceu quase, tem mais que fazer.
Obviamente, está a tratar da vida dele. Quem é a pessoa no PSD que está a olhar para a pandemia
De manhã à noite a ver o que o governo faz e a pensar em alternativas. Quem é? Não há ninguém. O principal partido da oposição não tem uma única pessoa. Neste momento, a oposição às decisões do governo são feitas pelos tweets de Rui Rio. Não há ninguém no PSD que esteja seriamente a olhar para isto e a propor alternativas e a pensar no futuro.
Nos intervalos dos tweets sobre Rui Moreira.
Sobre Rui Moreira. Rui Rio é mais motivado pelas quesílias pessoais que ele tem, e tem todo o direito a tê-las, todos nós temos as nossas, se calhar. Tu não tens, não é, Miguel?
Eu não.
Pronto, claro. Tirando o Miguel, toda a gente tem quesílias pessoais.
Não pus pela língua que eu começo aqui a falar.
Começas a desbobinar. Do que propriamente pela consistência. E o PSD, obviamente, tinha a obrigação como alternativa, porque acontece qualquer coisa ao governo, cai-lhe o poder no colo, sem saber como. Tinha a obrigação, como partido de alternativa do governo, de ter uma mini equipa que estivesse dedicada à questão da pandemia, às alternativas, aos riscos.
O PSD tinha tentado o Conselho Estratégico Nacional especialmente ativo para trabalhar estas matérias setoriais, como por exemplo, a saúde.
Tem feito alguma coisa na área da economia, das finanças públicas, com o Joaquim Miranda Sarmento, mais do que isso não há nada de consistente.
Mas aí eu tinha equilibrado um bocadinho, Paulo.
Claro.
Joaquim Miranda Sarmento e não vês ninguém a falar para a Segurança Social.
Não, Nuno Vinha, porque nessa altura ninguém quer saber muito de equilíbrio orçamental. Estamos na fase do desequilíbrio orçamental. Daqui por dois ou três anos, provavelmente vamos pôr as mãos na cabeça e regressar à fase das contas em ordem. Lá terá que ser quando os juros começarem a subir e a dívida pública começar a pesar e esta folga dada pelas regras comunitárias por causa da pandemia desaparecer.
Com o programa de compra de dívida.
Exatamente. E portanto, nessa altura, sim. Mas para já as pessoas, ninguém está a olhar para o déficit se subiu para 4%, 5%, que é normal também que o faça, como é evidente, é para isso que servem os défices elevados também para quando é necessário.
Mas eles estão lá para aparecer e dar propostas, porque senão ninguém sabe que existem.
Os erros de combate à pandemia são tantos, são tão evidentes, estão à vista, são tão arrastados no tempo. E Rui Rio ou está comprometido com eles, veja-se o que aconteceu no Natal, em que ele assinou de cruz e por baixo também aquela abertura feita para o Natal, ou então ele completamente distraído, não tem um discurso coerente, não tem uma marcação taco a taco, dia a dia, daquilo que o país devia ser. Tirando a vacinação, tudo vai falhando.
Paulo Ferreira, temos de ir às notas, para irmos também às notas do Nuno Vinha e do José Manuel Fernandes e avançarmos também para o Júlio Magalhães e para o Miguel Pinheiro. Quem é o teu vencedor ou vencido?
Eu dou a Rui Rio, precisamente por isto tudo, por esta falta de exigência, dou-lhe um sete. Com fasquias destas para as autárquicas, vai se prolongar no cargo seguramente e não tem uma estratégia visível, dou-lhe um sete.
Nuno Vinha, tu que começaste com este tema.
Eu acompanho o Paulo no sete.
A mesma nota. José Manuel Fernandes.
Nós vamos para o triplo sete. Vamos para um triplo sete.
Isso está um jackpot, uma daquelas máquinas de cassino.
Então vamos avançar. Júlio Magalhães.
Já é injusto dar um jackpot ao Rio, é injusto, mas pronto.
Júlio Magalhães, queres também dar aqui um toque neste tema de Rui Rio e a questão das autárquicas, mas também a propósito da pandemia?
Quero, só para dizer que acompanho as críticas que têm feito aí, embora eu acho que vou fazer aquilo que a seleção fez, que é uma bola ao poste, ou se quiserem uma bola ao lado, se calhar é mais ao lado, não tanto dentro da linha que estão a pensar em relação a Rui Rio. Eu acho que Rui Rio já está fora do PSD. E acho mesmo que se ele pudesse, fazia o mesmo que António Oliveira fez, batia com a porta. Rui Rio teve uma posição coerente ao longo deste ano, que foi ele tentou um governo central. E há um mês e tal, António Costa deu-lhe a estocada final e elevou até o tom de linguagem em relação a Rui Rio, foi quando Rui Rio percebeu que afinal o governo central está fora de questão e portanto não podia ir por aí. E por essa tentativa de querer um governo central, perdeu metade do partido, ou seja, Rui Rio nunca agregou o PSD, tem metade do partido contra ele, já percebeu isso. Nestas autárquicas tentou de novo agregá-lo, não conseguiu, porque as concelhias têm muita força e esta declaração de dizer: "Em relação a H, agora é a concelhia que resolve, eu tentei resolver, não quiseram, não faço mais comentários nem sobre a saída do António Oliveira, que já devia ter feito e não fez. E por isso, deixo para a concelhia." E ao colocar esta fasquia tão baixo, é a primeira rampa para se colocar fora do partido. Eu estou convencido que o Rui Rio não bate já com a porta porque há umas eleições autárquicas que é ele que tem que as gerir e tem que as assumir e tem que assumir a responsabilidade dessas autárquicas, mas a não ser que tenha uma vitória estrondosa nas autárquicas, que isso não está nos horizontes e nas previsões de ninguém, Rui Rio mesmo que faça um pouco melhor que Passos Coelho, a seguir no Congresso, sai do PSD. Eu acho que ele já está mesmo fora do PSD e que vai mesmo bater com a porta de estar cheio da política, na minha opinião, e sobretudo já percebeu que não consegue tomar conta do partido, nem sequer agregar o partido, e portanto esta declaração é mesmo uma declaração de intenção de sair do PSD. Mas como vos disse, isto pode ser uma bola ao lado ou pode ser uma bola mesmo ao poste e não ser nada disto, mas é mesmo a minha convicção.
Como aliás na política acontece quase sempre.
Claro, como acontece quase sempre.
Júlio Magalhães, vamos então às notas. Não sei se queres ainda falar sobre o tema da pandemia. O Miguel Pinheiro quer falar sobre isso já a seguir também.
Quero só dar uma nota. Ontem também vi a entrevista de Marta Temido. A determinada altura, a Júlia Pinheiro pergunta-lhe: "Acha que a comunicação tem sido boa?" E Marta Temido respondeu: "Dizem que não E como é que vai ser agora com a variante Delta? A variante Delta não vamos conseguir suster. Ela vai generalizar-se a todo o país. Se se vai generalizar a todo o país, estamos à espera de quê? Porque a determinada altura também diz: "Nós vamos indo, tomamos decisões, mas depois o vírus prega-nos umas partidas, já não é bem assim e portanto temos que tomar outras." Ora, há uma coisa que se sabe, que ela ontem afirmou e que Marques Mendes ontem também disse à noite no seu comentário, que é: em julho 70% do país está com a variante Delta e em agosto está com 90%. Há países como a Austrália e a Tailândia, absolutamente assimétricos em questões culturais e políticas, que já determinaram o confinamento geral e não têm ainda uma prevalência da variante Delta. Estão com medo da variante Delta. Ora, nós já sabemos que a variante Delta vai alastrar-se ao país inteiro. E então não há medidas para tomar, não há decisões para tomar. Vamos esperar outra vez. É o que ela disse ontem: "Pronto, o vírus agora à medida que vai entrando por cada concelho e por cada cidade, nós vamos tomando as medidas como tomamos em Lisboa." Esta cerca que o José Manuel Fernandes já falou que é uma minicerca ou uma pseudocerca, e pelo que visto é isto que vai acontecer com o país todo. E a mensagem que estão a passar é que este ano não vai haver verão, nem vai haver agosto, nem férias e os portugueses que se preparem para isso.
Gil Magalhães, nota?
Nota sete.
Nota sete. Então avançamos para o Miguel Pinheiro, que esteve também atento à entrevista de ontem. E já agora, Miguel Pinheiro, faço essa referência: passam mais ou menos nove meses desde que Marta Temido foi ao programa da Cristina Ferreira, agora com Júlia Pinheiro.
Sim, a ida de políticos a estes programas, ou seja, a programas que não são entrevistas a jornalistas, são entrevistas em programas de entretenimento dirigidos a pessoas muito concretas, a públicos muito concretos, são muito úteis para os políticos, mas só são muito úteis se os políticos souberem aquilo que estão a fazer. Dou sempre o exemplo do Barack Obama, quando era presidente e lançou o Obamacare, o programa de saúde. Ele estava com um problema, que era os mais jovens não estavam a aderir, como achavam que nunca iam ter problemas de saúde e nunca iam morrer e nunca iam para o hospital, não estavam disponíveis para pôr dinheiro e fazer um seguro de saúde. E sem toda essa faixa a fazer seguros de saúde, a matemática não funcionava e o Obamacare ia abaixo. E por isso ele precisava de convencer os jovens a fazerem seguros de saúde. E então o que ele fez foi dar entrevistas a uma série de programas. Até foi dar uma entrevista a um dos principais YouTubers do país na altura. Sentou-se, deu a entrevista, fez umas piadas, alinhou numas brincadeiras e depois chegou ao fim e disse: "Bem, mas agora vais ter que me deixar falar aqui um bocadinho do Obamacare, que foi para isso que eu cá vim. Eu queria aqui falar a todas as pessoas que estão a ver este programa e queria explicar-lhes: vocês vão precisar, mais cedo ou mais tarde, ir a um hospital, vão precisar de um seguro de saúde. Por favor, façam um seguro de saúde." O objetivo dele era este, falar com os mais novos e levá-los a fazer um seguro de saúde e entrar no Obamacare. E isto é fazer política com cabeça. Aquilo que Marta Temido fez ontem não tem nenhum sentido. Aquela entrevista foi para quê? Com que objetivo político? Serviu para melhorar a sua imagem junto de um determinado público, isso sim. Mas vamos esquecer os benefícios pessoais de Marta Temido. O que é que o país ganhou com aquilo?
Miguel, mas há um defeito logo aí. Tu dizes: vamos esquecer os benefícios pessoais, popularidade. O que é que o país ganha? É só o benefício pessoal, de popularidade pessoal.
Neste momento, o problema que nós temos na pandemia é com as faixas mais jovens. E Marta Temido vai dar uma entrevista a um programa dirigido não às faixas mais jovens, é às pessoas que veem televisão generalista à tarde. São pessoas que já estão vacinadas ou a caminho disso. São pessoas que não andam em festas ao fim de semana, seguramente. Portanto, Marta Temido, neste momento, se quer fazer alguma coisa de útil e se quer dar uma entrevista que não seja a um jornalista, para não ter que responder a perguntas difíceis, devia estar a dar uma entrevista a um programa visto por pessoas mais novas, pelas pessoas que é preciso convencer a que se vacinem.
Devia estar nas redes sociais.
Por exemplo, e devia levar uma mensagem clara, que é: cuidado, vejam, há muitos jovens a serem hospitalizados, há pessoas mais jovens sem doenças que estão a ter problemas. Vocês têm que se vacinar por vocês próprios e também, claro, por razões altruístas. As festas têm este problema. Isto devia ter um objetivo. Quando a ministra vai lá mostrar as suas fotografias na Queima das Fitas, o objetivo até poderia ser, se fosse num programa dirigido a este público, eles identificarem-se: "Olha, a ministra também fez a Queima das Fitas." Eu sei lá. Agora, se é só para olharmos para a fotografia da Queima das Fitas e pensarmos: "Ai, que giro, a ministra na Queima das Fitas." Isso tem utilidade política para o país zero. E portanto, esta entrevista da ministra não teve propósito político nenhum que não seja a pura propaganda. E portanto, mais uma vez mostra que a ministra não faz ideia do que está a fazer, não faz ideia dos problemas que tem, nem faz ideia de como é que os deve resolver. A solução deste problema não está nas pessoas que veem televisão generalista à tarde. O problema neste momento está nos mais jovens que não veem programas como o da Júlia Pinheiro. E por isso a ministra o que foi ali fazer é passear.
Mas esquecemos rapidamente, 30 segundos.
A ministra já anda a passear.
Ela podia ter perfeitamente ido à MTV Portugal.
A ministra já anda a passear. Ela basicamente desapareceu há uns tempos porque o seu lugar, já percebemos, já foi ocupado por, como eu dizia há pouco, a ministra de todas as pastas. Mas aqui a ideia do Governo e das ministras é safarem-se, ponto. Dia após dia, safarem-se. Quando acontece qualquer coisa, agora fecharam as escolas no Algarve, vão tentar safar-se. Provavelmente não há computadores ainda, safam-se. Um dia após o outro. E com esta oposição é mais fácil. E a ministra, quanto menos vezes aparecer, melhor. Alguém deve ter explicado ao Governo que neste momento já não era muito útil. E estamos à espera que passe.
E vamos ver o que se passa também nos próximos dias. Não temos mais tempo. Fica por aqui este "E o Vencedor É..." de hoje, à boleia dessas declarações de Rui Rio, mas também da entrevista da ministra da Saúde, Marta Temido.