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Bem-vindo ao "Porque SIM não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos do caso de um ouvinte que nos escreve preocupado com um menino de nove anos que tem dislexia, não transitou para o quarto ano, vive entre duas casas de pais separados e passa horas no telemóvel. Olá, Eduardo. É um menino de nove anos que ainda não lê, tem esta dislexia diagnosticada, faz terapia da fala. Como é que se recupera daqui?
Olá, Judite. Em primeiro lugar, eu acho que é importante que se diagnostique de forma inequívoca a dislexia, por uma razão simples, Judite: porque em muitas circunstâncias atribuem esses diagnósticos que nem sempre acabam por ajudar a justificar toda uma dificuldade e, portanto, às vezes, numa dificuldade, acabam por se entrecruzar vários caminhos e é importante que se esclareça de forma inequívoca o diagnóstico. Segundo aspecto: eu não deixei de ficar muito preocupado com as horas ao telemóvel. E não deixei de ficar muito preocupado com as horas ao telemóvel, porquê, Judite? Porque tenho noção da relação custo-benefício que isso pode ter. Portanto, não traz seguramente tantos benefícios quanto os custos que pode trazer a qualquer criança. Segundo, fico sem perceber muito bem quais são as regras que esta criança acaba por estar, de alguma forma, exposta, porque tenho medo que ao passar tantas horas esteja eventualmente a mandar muito mais no jogo do que devia. Não pondo em dúvida o diagnóstico, mas ainda assim querendo refletir ponderadamente sobre ele. Mas se for assim, não temos só um problema, já passamos a ter dois, que concorrem um para o outro e que, portanto, não ajudam. Terceiro: resta saber o que esta criança faz quando está ao telemóvel, Judite. Porque vamos imaginar que quando está ao telemóvel, esta criança tem acesso a videojogos, como tantos telemóveis acabam por proporcionar. Se uma criança tem essa capacidade de discernir, de entender, de discorrer, de responder em tempo real, entre várias hipóteses, escolher aquela que logicamente é a mais adequada, etc. Então tem um conjunto de competências de natureza cognitiva que precisam de ser muito bem esclarecidas, porque quem tem essas competências, estranhamente, não pode não ler, ou seja, o que se está aqui a passar nesta criança para que isto se manifeste desta forma. Portanto, eu tenho um bocadinho de medo que, às vezes, nos diagnósticos, no que diz respeito às crianças, Judite, se corra um risco que pra mim é o maior de todos. Eu não vejo mal nenhum em que se coloque um diagnóstico. Às vezes eu já vejo um mal muito grande, quando esse diagnóstico não é feito com a consistência devida, e eu vejo um mal enorme, e vejo um mal ainda maior quando, apesar da inconsistência do diagnóstico, isto é apresentado aos pais como um facto consumado. Por quê, Judite? Porque eu já perdi a conta ao modo como estas crianças, ao transitarem de apoio em apoio, de instituição em instituição, vão sempre com esse diagnóstico colado à pele. E são raras, Judite, não devia ser, mas é. São raras as circunstâncias em que ao chegar de novo a um sítio qualquer, alguém que a avalie de novo, etc., haja quem se proponha fazer uma avaliação nova, de maneira a confirmar ou não tudo aquilo que é o diagnóstico que se traz, porque depois isto funciona um bocadinho como slogans na política. Repete-se, repete-se, repete-se e de repente até pode parecer que o único problema desta criança pode ser uma dislexia, quando horas e horas e horas ao telemóvel significa o que está a acontecer no comportamento dela e quem é que está a gerir o comportamento dela, para que isto depois pareça fugir por entre os dedos de uma forma preocupante. Portanto, primeiro conselho: reavaliar. De uma forma robusta e como deve ser. E de uma reavaliação tem, inevitavelmente, Judite, que resultar uma estratégia sensata, que naturalmente envolva os pais, como não podia deixar de ser. E se essa estratégia for sensata e se as mãos que mexam nesta criança forem mãos, de alguma forma, competentes, claro que se vira tudo isto e põe-se uma criança que traz imensos problemas e que já tem nove anos, já é uma situação um bocadinho preocupante. Põe-se esta criança a crescer como ela tem que crescer, porque este standby é que não pode ser.
Há aqui uma série de alterações de vida, com a separação dos pais, a mudança de casa, de escola, uma guarda partilhada que implica deslocações longas Isto tudo tem peso no rendimento escolar e no cansaço da criança.
Ós Dite, tudo tem peso na nossa vida. É verdade que sim. Claro que sim. Não vale a pena estarmos a iludir. Mas eu às vezes também tenho medo que nos enganemos com a verdade. Basta que o pai e a mãe se tenham separado, e nós todos sabemos que há separações e separações. Há separações que são muito sangrentas, muito violentas, às vezes são muito mais do que duras e, portanto, tudo isso se repercute inevitavelmente no estado psicológico de uma criança. Se se repercute nas pessoas crescidas, quanto mais numa criança que coloca inúmeras expectativas sobre os pais. Mas tudo isto se pode repercutir. Claro que quanto maior a turbulência, mais isto acaba por ter efeitos secundários. Não há como não ser assim, pelo menos num momento transitório. Mas eu tenho medo que às vezes nós nos enganemos com a verdade, Dite, porque basta que haja uma separação e de repente já estamos todos a pôr o acento tónico, a culpa, às vezes não de uma forma transparente, mas velada, a culpa na separação ou às vezes em quem a desencadeou. E às vezes não é a separação que desencadeia isto. Voltemos às horas intermináveis ao telemóvel. Ós Dite, eu imagino que não tenha sido a separação que tenha desencadeado isto, o que significa que se calhar há aqui já alguma lacuna na gestão de comportamento desta criança, que porventura será anterior a isso. Sendo anterior a isso, é claro que uma separação e tudo o resto potencia uma dificuldade, mas não é a razão que justifique que a dificuldade tenha passado a existir.
O ouvinte quer sensibilizar o pai. Como é que se aborda um pai que parece que tem outras prioridades, não está muito atento?
Ós Dite, tenho tanta dificuldade em imaginar isso. Eu acho que os pais querem tudo, menos que os filhos estejam em sofrimento ou em dificuldades. Às vezes os pais fazem de conta que não estão muito sintonizados com esse comprimento de onda. Por quê? Porque no fundo, acabam por ter muito medo que de uma forma ou de outra os venham a responsabilizar de coisas que não estejam a correr bem naquele momento com aquela criança. E, portanto, é muito importante que, tratando-se de sensibilizar um pai ou uma mãe, que se perceba que as dificuldades das crianças não caem de paraquedas, tirando raríssimas exceções, e eu sublinho raríssimas, não são defeitos de fabrico. Nós todos contribuímos para as dificuldades dos nossos filhos. Verdade seja que contribuímos também para todas as competências e, portanto, somos muito mais responsáveis pelas coisas boas do que aquelas que às vezes não correm bem. Este tipo de dissonância entre um pai e uma mãe, ou às vezes um clima crispado, tudo isto às vezes acentua as dificuldades. Agora, eu não vejo pais que não sejam suscetíveis de ser sensibilizados para uma dificuldade. Não é um tribunal, muito menos um tribunal sumário. Trata-se de dizer assim, vamos voltar à hipótese dos jogos, só como hipótese. Se porventura uma criança é exímia a jogar videojogos, por favor, não tem como não aprender a leitura e a escrita. Não tem como não aprender. E se há ali uma dificuldade circunstancial, cabe-nos perceber qual é, como se resolve, para que finalmente a possamos ajudar.
Eduardo, vamos de fim de semana. Voltamos na segunda-feira com mais um tema. Até lá, um grande abraço e obrigada.
Outro para si, Dite. E até segunda.