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Começa agora a edição de domingo de "Ivens Douré" na Rádio Observador, todos os dias com notas para dar de 0 a 20, notas que vão ser dadas pela Mafalda Pratas e também pelo Vítor Matos. A condução deste "Ivens Douré" é do Luís Soares.

Bem-vindos, Mafalda e Vítor. Hoje vamos olhar lá para fora, mas também cá para dentro. Vamos falar da cimeira da NATO que marcou a semana, mas começamos com o caos na correção dos exames nacionais. Vítor, aquilo que se tem passado mostra o quê? Falta de confiança no Estado? Como é que avalias aquilo que se tem passado? Vítor? Ou ele não nos está a ouvir, estamos a ouvi-lo, mas ele não nos está a ouvir. Portanto, Mafalda, como também escolheste este tema, vou já a ti para a tua análise também este tema do caos na correção dos exames. O que mostra esta polêmica que temos vivido nos últimos dias?

Sim, bom dia. Esta polêmica parece-me bastante grave, em primeiro lugar, porque caso se venha a prolongar para além da data que o ministro já afirmou que ia cumprir, mas caso se venha a prolongar, e não falo aqui apenas de novos atrasos, falo também caso haja problemas graves de pessoas que, por exemplo, recebem notas bastante erradas ou que houve secções de exames que não estejam corrigidas, coisas desse gênero. E importa relembrar, há o direito dos alunos pedirem uma reavaliação dos exames caso considerem que não estejam bem avaliados e, portanto, podemos ter aqui também este ano, apesar de geralmente apenas uma pequena percentagem de alunos pede estas reavaliações, e este ano, devido a este problema, pode acontecer que mais alunos ou muito mais alunos peçam estas reavaliações e que, não sei muito bem, vai ser usado o mesmo processo para fazer as reavaliações? Vai haver aqui talvez um entupimento dessa nova fase também dos exames? Tudo isso é muito importante. E depois, as duas coisas que me parecem mais fundamentais é que de facto, isto retira confiança das pessoas no Estado, nomeadamente, no Estado como organizador deste modo de se standardizar ou de pôr todas as pessoas no mesmo pé de igualdade. Por quê? Porque as pessoas passam a ter desconfiança não só no processo de exames, mas no próprio processo de avaliação. E portanto, a partir desse momento, se as pessoas começarem a perder confiança no Estado como garante de uma certa igualdade de justiça entre alunos para dar estas notas, que são importantíssimas depois para a entrada na universidade, isso pode vir a constituir-se uma crise grave para o governo em setembro. Para já, eu creio que ainda não podemos dizer que estamos nessa fase, porque não sabemos, de facto, se isto será, por exemplo, apenas um atraso de três dias ou não, mas as informações que temos não são muito abonatórias, nomeadamente a gestão toda deste processo parece-me que foi um bocadinho amadora, por um lado. Os relatos que nós temos das caves ou das salas em que se fazem as digitalizações dos exames em papel, etc, parece-me que está um bocadinho caótica. E por outro lado também, parece-me que este ministro, provavelmente com boas intenções, mas tentou mudar demasiadas coisas ao mesmo tempo. E aqui falo não apenas desta questão da digitalização dos exames, mas também da questão das reformas dos institutos dentro do ministério, como o IAVE, que agora passou a ser o EDUCA, com fusões de organismos, etc. E tudo isso cria atrito na burocracia destes organismos públicos e parece-me que tentar mudar demasiadas coisas em simultâneo muitas vezes acaba por ser contraproducente, e vamos ver como é que o ministro vai sair desta questão. Agora, de facto, parece-me que se é verdade que a intenção original até pode ser positiva, nomeadamente esta ideia de que ter um único professor a corrigir um exame inteiro pode levar a enviesamentos significativos entre alunos e, portanto, nesse aspecto, é mais justo se, por exemplo, cada professor corrigir uma ou duas questões e portanto um exame completo nunca terá os mesmos enviesamentos completos de apenas um corretor. Agora, a verdade também é que me parece que, por um lado, não havia grandes queixas em relação ao modo como funcionava esta questão, a correção dos exames anteriormente, e não sei se esta necessidade de alteração não foi um bocadinho excessiva. Resolver um problema que não parece existir, exatamente, não existia propriamente este problema. E por outro lado, muitas vezes também é importante ver que parece-me que há uma grande décalage entre os avanços da sociedade e que nós todos experimentamos quando lidamos com tecnologias como o ChatGPT ou internet como um todo. Mas muitas vezes as plataformas do Estado não estão de todo tão avançadas como as plataformas privadas que nós usamos no nosso dia a dia e o Estado não as pode simplesmente utilizar, porque depois há questões enormes de privacidade, de dados, etc. E o Estado não pode simplesmente usar as plataformas privadas que nós usamos na nossa vida diária. Tem que ter plataformas autónomas. E muitas vezes em Portugal, essas plataformas autónomas estão muito pouco avançadas relativamente ao avanço tecnológico que nós próprios estamos habituados na nossa vida. E, portanto, se calhar Era preciso esperar mais uns anos, desenvolver estas competências tecnológicas do Estado um pouquinho melhor e não mexer neste processo, que me parece que ninguém se queixava propriamente do modo como os exames eram corrigidos em Portugal. Eu pelo menos nunca ouvi queixas relativamente a essa matéria. E quando há, são queixas individuais que podem ser corrigidas através do tal pedido de reavaliação dos exames.

Vítor, houve aqui precipitação por parte do governo em avançar para esta forma de correção digital dos exames?

Bom dia. Talvez tenha havido precipitação no sentido de que, pelos vistos, isso está comprovado, as coisas não estavam preparadas, nem suficientemente testadas, nem organizadas para que o processo corresse bem. Porque neste tipo de operações não é suposto ir experimentar learning on the job, quer dizer, é suposto as coisas avançarem quando já é certo que vão correr bem. Eu concordo basicamente com tudo o que a Mafalda disse, não quero estar a repetir o que ela teve a dizer agora, mas no fim do dia, o que é que nós todos pensamos sobre isto? Primeiro, o governo pode pedir aos estudantes exigência e diferenciação com base no mérito, quando o próprio Estado não consegue garantir a confiança básica no sistema? Há aqui, mais uma vez, uma enorme falha do Estado, mas que daquilo que me tenho estado a perceber, é uma falha do Estado com enorme responsabilidade política, porque a responsabilidade é de quem decidiu e tomou decisões no sentido de se fazer a correção das provas digitais, sem as coisas comprovadamente estarem a funcionar como deve ser. O Expresso escreve na edição desta semana que a empresa, só para se ver aqui a diferença das coisas, que está a fornecer este serviço foi contratada por €50 mil e a empresa que foi contratada para fazer a fusão das plataformas do ministério, portanto, para isto tudo funcionar como deve ser em 2027 e não ser um sistema provisório, é de 1,5 milhões. A pergunta é: por que não se esperou quando as coisas estivessem todas feitas e consolidadas? E portanto, há aqui questões técnicas e questões administrativas e políticas, porque quem toma as decisões de avançar com o sistema para o qual, pelos vistos, a organização não está preparada, tem que responder sobre isto. O ministro já veio reconhecer que as coisas não correram bem, mas por outro lado dizer que não há caos. Isto é uma enorme insegurança para as famílias e para os jovens e pode ter enormes implicações na vida de pessoas que se andaram a esforçar a estudar para tirar notas altas, para poder entrar por décimas e depois, independentemente da justiça do resultado, por causa deste processo todo, as pessoas não vão ter confiança no resultado final que saiu. Apesar do ministro dizer agora que por causa da digitalização, toda a gente vai ter acesso à correção das suas provas e do critério de avaliação que cada resposta teve. Vamos ver, porque depois deste problema todo, vamos ter um entupimento nos pedidos de revisões de provas, como a Mafalda estava a dizer. Depois há aqui uma questão política adicional que eu achei muito estranha e não parece de todo que seja aconselhável, que é ser a São Caetano, nomeadamente o novo porta-voz do PSD, Sebastião Galho, a anunciar uma decisão do governo. E uma decisão do governo que não parece que seja uma decisão do governo, porque ele basicamente o que foi anunciar é que os professores vão receber horas extraordinárias pelo esforço na classificação dos exames. Ora mal seria se os professores não recebessem horas extraordinárias, que é uma coisa que está na lei. Fez-se um bocado de confusão nisso tudo. E se em vez de haver um porta-voz do governo que fale em nome do governo, haver um porta-voz do partido que fale em nome do governo, não parece correto. Contratem o Sebastião Galho para ser então porta-voz do governo. Inventam como secretário de Estado da Informação ou do que quer que seja. Atalhando aqui razões.

Já para a tua nota.

Exatamente, é isso mesmo. Vou dar aqui um seis ao governo, que é nota para chumbo direto, porque espero que isto depois não prejudique os estudantes. Eu tenho dois filhos, um que já está na universidade e outro que há de querer ir e portanto já vivi o que é que são estes estresses e acho que os jovens não merecem isto.

Claro. Mafalda, acompanhas este seis do Vítor, sobes, desces?

Sim, acompanho o seis, em particular para o Ministério da Educação e claro, a responsabilidade política do ministro da Educação, mas também do governo como um todo, obviamente. O primeiro-ministro tem também sempre que garantir que os desejos dos seus ministros têm depois capacidade para ser executados e têm que obviamente dar a cara também quando há falhanços grandes e portanto eu estou Vamos esperar pelo dia 17, que é o dia previamente anunciado, mas com aquilo que já se sabe, não me parece que foi um capítulo bastante mau.

Mafalda, continuamos contigo. O outro tema que vocês querem trazer é a cimeira da NATO, que marcou esta semana. Que balanço faz desta cimeira? Correu melhor do que poderias esperar ou nem por isso?

Sim, a cimeira da NATO foi, em primeiro lugar, na Turquia e parece-me que isso é uma das principais notas a anunciar e que a Turquia também tem sido, de acordo com os analistas, um dos principais vencedores desta cimeira, porque parece que houve uma série de proibições, sanções à Turquia, incluindo sanções militares, como a questão de eles poderem comprar jatos F-35, mas também outras sanções que os Estados Unidos tinham em relação à Turquia. Houve também alguns relatos que em privado Donald Trump estaria mais receptivo à defesa ucraniana, digamos assim, face à invasão russa, e nesse sentido houve essa vitória. No entanto, em termos de discurso, importa lembrar que Donald Trump é altamente instável e eu não sei até que ponto é que estes ziguezagues baseados na nossa leitura do que ele diz em privado e em público, são muito relevantes no fundamental, que é que ele não respeita propriamente a NATO, nem os seus aliados, que são membros da NATO. E voltou a falar da questão da Groelândia ser dos Estados Unidos, etc. Parece-me que o grande vencedor acaba por ser Erdogan, que importa relembrar, tem na NATO uma estratégia muito deliberada, que é a seguinte: Erdogan sabe que se a NATO tivesse a ser constituída hoje, a Turquia nunca entraria na NATO. E também sabe que caso, por exemplo, Israel entrasse em conflito com a Turquia e a Turquia decidisse acionar o artigo quinto, os Estados Unidos não iam apoiar a Turquia e nesse aspecto, toda a gente sabe, apesar de ninguém o dizer publicamente, que a Turquia é um membro da NATO um bocadinho a meio pau, que talvez agora com outros, como a Dinamarca, mas que é um membro da NATO que está muito na fronteira entre ser um aliado total dos Estados Unidos ou não, que não parece ser, especialmente se, por exemplo, houver um conflito no Médio Oriente ou um conflito com Israel. E o que é que Erdogan quer fazer? Quer fazer com que o divórcio seja o mais difícil possível. Quer fazer com que a NATO dependa o máximo possível da Turquia e eu acho que nisso ele está a conseguir essa estratégia bastante bem. E importa relembrar que muitas vezes estes presidentes instáveis como Donald Trump são ótimos para quem tem estratégias um bocadinho mais de longo prazo, como é o caso da Turquia, como é o caso noutros campeonatos de Xi Jinping na China, que acabam por aproveitar-se desta falta de experiência e falta de estratégia mais de longo prazo dos Estados Unidos atualmente para conseguirem avançar os seus objetivos geopolíticos. Eu vou dar uma nota positiva a Erdogan, porque ele está a ser bastante inteligente. Vou dar aqui um 14 a Erdogan.

Vitor, qual é a tua análise àquilo que se passou na Turquia?

Olha, eu estive lá e de certa maneira acompanho o que disse a Mafalda.

Tens conhecimento direto.

No sentido de que eu nunca tinha sido tão bem tratado numa cimeira destas. Eu, aliás, todos os jornalistas internacionais, já não é o mesmo que se passa com os jornalistas turcos. Aquilo foi uma enorme operação de media washing. O nosso centro de imprensa era uma coisa absolutamente incrível, uma biblioteca gigantesca, onde havia belíssimas condições de trabalho. Por exemplo, a colega da Lusa teve um problema, num cabo, em menos de cinco minutos apareceu um técnico com o cabo de rede para ela ligar o computador. Havia um catering de hotel de luxo, de manhã à noite, para os jornalistas tomarem pequenos-almoços, almoços, jantares, lanches, kebab, um gelado cortado tipo kebab, depois as televisões turcas a fazerem perguntas aos jornalistas estrangeiros sobre se estavam contentes com a organização. Isto tudo depois de terem prendido uma série de ativistas preventivamente, proibido manifestações e não ter dado acreditação a uma série de jornalistas turcos que pediram para lá estar. Passando à parte da cimeira propriamente dita. A cimeira foi importante porque a NATO sobreviveu a mais uma cimeira da era Trump 2. E basicamente, eu acho que a cimeira só foi um sucesso exatamente pelo fato de não ter sido uma desgraça, porque aquilo foi tudo muito bem preparado pelo senhor Rutte, que passe os exageros que se tornam absurdos de elogios a Donald Trump. É assim, nós estamos em suspenso de tratar o mais importante líder mundial como se fosse uma criança de cinco anos. E foi isso basicamente que se faz nestas coisas. Chega-se lá, diz coisas lindas sobre o Donald Trump, ele chega lá, faz uma birra grande, ameaça outra vez conquistar Ficar com a Gronelândia, diz mal dos maiores países europeus, do Reino Unido, da Alemanha, da Itália, da França. Depois diz que os países pequenos só deixaram os aviões passar pelas bases porque são muito vulneráveis. Leio aqui que Portugal poderá estar eventualmente neste rol, embora não tenha sido explícito sobre isso. E depois, o que é que os outros líderes fazem? Metem gelo nos pulsos, tentam não irritar o menino e depois, no fim, ele vai à sala onde as declarações estão todas calibradas para toda a gente estar ali a debitar o que gastou em defesa, o que comprou e o que vendeu, para Donald Trump perder o foco e distrair-se, porque ele não consegue estar concentrado durante muito tempo, e começar a bocejar, nomeadamente quando a Espanha fala, é interessante. Acho que ele ficou impressionado com o que a Espanha diz que gastou na área da defesa e os jornalistas espanhóis estavam um bocado impressionados, porque aquilo basicamente é o que toda a gente lá sabe, mas aquilo caiu bem no gosto do Donald Trump, que em seguida, depois de ter ameaçado cortar relações comerciais com a Espanha, coisa que não pode fazer, porque está a falar da União Europeia, veio dizer que afinal eles agora portaram-se como jogador de equipa. E na última declaração já não foi tão agressivo, nem sequer para os espanhóis. E rematou, para se perceber a falta de equilíbrio e o bipolarismo, como funciona aquela cabeça, ele entrou a jogar com os pés, a dizer mal dos aliados, a criar mau ambiente e mau clima pra cimeira, e acabou a dizer que havia amor na sala e que era gente bondosa, cheia de bondade no coração e nenhuma maldade, e que aquilo era maravilhoso e fantástico. Deram as mãos, cantaram um kumbaya, assinaram uma declaração. E no fim, na verdade, a declaração tem ali coisas que são bastante importantes, que é aquilo que tem a ver com Ucrânia. A última cimeira não teve declaração sobre a Ucrânia, de apoio à Ucrânia e de gastos dos países europeus e do Canadá na Ucrânia. E também uma declaração sobre o Irão, em que os países se manifestam contra a existência de um Irão nuclear e a favor da abertura do Estreito de Ormuz, o que pode significar no futuro algum comprometimento de alguns países, ou seja, haver aqui uma possibilidade dos países poderem apoiar de alguma maneira os Estados Unidos, se houver necessidade, no Irão.

E então a tua nota vai para o catering ou vai para a nota dos próximos da cimeira?

Vou assim distribuir as notas. 18 ao catering, vou virar a nota ao contrário em benefício do Erdogan, ao contrário, vou dar um nove ao Erdogan pela magnífica organização em contraponto com o fato de ser uma autocracia pouco recomendável, apesar dos ganhos que ele teve. E vou dar um 12 ao resultado final, porque conseguiu-se mais ou menos voltar a sobreviver ao senhor Trump, apesar de tudo continuar na mesma. Tudo mudou pra tudo continuar na mesma, mas enfim, vai se andando.

Vítor Matos, Mafalda Pratas, muito obrigado pela vossa análise em mais um "Ivens Toré". Um bom domingo. O "Ivens Toré" está de regresso amanhã, depois da síntese das 20h30.