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Jornalista de rádio e televisão, foi a voz do 25 de Abril, repórter especial, diretor da RTP, foi ainda fundador da Informação 2, é o responsável pela série documental "A Guerra", mas há muito mais. Joaquim Furtado, hoje em "40 Minutos" aqui na Rádio Observador. Bem-vindo. Eu nem tenho a oportunidade de me levantar para o cumprimentar, que isto aqui nas nossas manhãs 360 é sempre a correr. Joaquim Furtado, como é que se vê?
Agora vejo-me um pouco longe. Esta mesa faz-me lembrar aquela que o Putin usa para as suas conversas.
Pois, estamos afastados, a nossa mesa é grande.
Tira um bocado da intimidade.
Do que eu pretendo, não é? Numa conversa mais intimista.
Esta obra foi projetada no tempo da pandemia.
Sim, vamos em frente, como você disse. Aliás, estas cadeiras são confortáveis, mas empurram-nos um bocado pra frente. Deve ser por isso.
Para aproximarem os nossos convidados dos microfones.
Como é que se vê, Joaquim Furtado?
Como é que eu me vejo?
Sim, nesta altura.
Eu vejo-me na condição em que estou, aposentado, que é uma coisa que aqui há uns anos, quando tinha a vossa idade, achava muito longínquo, e era, mas depois foi se aproximando gradualmente e agora é assim que me vejo. Vejo-me uma pessoa que está retirada da atividade a que dedicou toda a vida como jornalista e a procurar fazer outras coisas.
Que coisas?
Que coisas? Escrever, ler, basicamente é isso. E participar em eventos para que sou convidado para falar, como por exemplo aqui, ou para falar de jornalismo.
E tem tanta coisa para partilhar.
É mais ou menos isso.
E tem pena, por exemplo, de já não estar no ativo?
Quer dizer, sim. Uma pessoa só pode ter pena daquilo que é recuperável. Isso já não é, ou pelo menos não é nos termos em que eu gostaria. Portanto, não vale a pena ter pena, porque essa questão já está ultrapassada. Mas sim, gostava de continuar a fazer algumas coisas que julgo que podia fazer.
E acha que, e isto não tem só a ver na parte de jornalismo e se calhar não tanto só centrado em Portugal, aqui o fator idade conta ou há aqui outras coisas por trás?
Várias coisas, mas o fator idade conta, sim. As gerações que chegam tendencialmente vão empurrando as outras pra fora. Isso é um dado adquirido, é uma questão histórica.
Faz parte e aceita?
É sempre assim. Sim, mas a minha geração também fez isso de alguma forma. Pode ser mais influenciado pelo ambiente, isto é, as circunstâncias podem empurrar mais as gerações a empurrar as outras, mas de uma forma geral, isso é natural. Os mais jovens chegam e tendem a ocupar os outros lugares e com outros valores, com outras ideias e com uma capacidade de inovação que as gerações mais velhas já não têm.
Mas são capazes de ir buscar às gerações mais velhas aquilo que as gerações mais velhas têm, que é a experiência, a chamada memória de que se fala muito no jornalismo, com muita frequência.
Capazes são, mas eu penso que inicialmente a tendência dos mais jovens é achar que o que está pra trás não interessa muito. E só um pouco mais tarde começam a reconhecer que há alguns valores que valia a pena recuperar.
E sobem com a idade, não é, Joaquim?
Eu acho que sim, porque quando os jovens chegam, chegam com uma energia e com uma sobranceria e até uma arrogância, que tem um lado positivo, mas também tem lados negativos.
E se não tivesse sido jornalista, teria sido o quê, Joaquim?
Talvez tivesse sido alguma coisa que é mais ou menos incompatível com o jornalismo. Por exemplo, publicidade ou coisas desse tipo.
Mas sempre foi a sua escolha?
Não, a minha escolha com o jornalismo sempre foi a minha escolha.
Sempre foi a sua, nunca equacionou?
Não, essa questão nunca se pôs. Eu digo que podia ter sido publicitário no sentido em que acho que podia ter alguma capacidade para desenvolver esse tipo de atividade, mas essa questão nunca se me pôs como hipótese de escolha. Aliás, eu comecei a trabalhar na rádio, de certa forma, quando tinha uns 15 anos, quando o meu pai me ofereceu um transistor. O transistor era uma novidade nessa altura e eram pequenos aparelhos. E ao ouvir a rádio, eu de alguma forma integrei também aqueles programas e de certa forma comecei a trabalhar na rádio aí como ouvinte, mas como um ouvinte que se sentia dentro do estúdio e que acompanhava. E por isso, mais tarde, não muito mais tarde, mas alguns anos depois, entrei num concurso para a Rádio Universidade. Foi aí que eu comecei depois a minha atividade profissional. Profissional na altura, ainda como amador, mais tarde saí da Rádio Universidade e comecei então como profissional no Rádio Clube Português, concretamente.
Esse momento do transistor identifica como o momento em que talvez tenha decidido querer ser jornalista? Ou não, ou foi anterior a isso?
Jornalista é um pouco mais tarde. Primeiro é a rádio em geral A rádio em geral, e também um pouco motivado na altura por achar, quando se é adolescente há alguns valores que talvez se sobreponham a outros e não há uma visão tão completa talvez como mais tarde. Mas, por exemplo, a voz, eu achava que tinha voz para fazer rádio. Na altura. Hoje em dia isso está bastante desbatido, não tem muita importância. É mais importante a dicção do que propriamente a voz, mas na altura eu ouvia os locutores e achava que podia fazer aquilo porque também tinha voz para fazer aquilo. Depois da voz vieram as outras coisas todas que me permitiram, nomeadamente o Rádio Universidade, contactar com um meio que eu, na verdade, desconhecia e onde pude usar a voz, mas em coisas que eu, na altura, nem racionalizava muito, sobre as quais não pensava muito, mas também rapidamente percebi que o meio era aquele. E nós estamos antes do 25 de Abril, estamos em 1968. 67, 68. E uma das primeiras conclusões que eu tirei é que não se era livre de dizer o que se queria dizer. E no Rádio Universidade, que era aliás uma instituição da Universidade Portuguesa, portanto, uma instituição do regime, eu tive o primeiro contacto com uma instituição que se chamava censura, não a própria instituição, havia uma comissão de censura, etc, mas através do diretor da estação, que me censurou. Um primeiro trabalho que eu fiz lá, que era uma coisa sobre o Natal. Era uma peça sobre o Natal, em que eu usava um poema do António Gedeão, que penso que se chama "Dia de Natal", em que ele chama a atenção para a contradição entre as loas do dia da paz universal e o Pedrinho recebeu no sapatinho uma metralhadora. Ele chama a atenção nesse poema para essa contradição, para essa ideia de uma certa hipocrisia social, etc. Havia a guerra colonial na altura e provavelmente por essa razão, o diretor proibiu o poema, pura e simplesmente. E essa foi a minha primeira experiência.
Mas quando faz esse trabalho, já tem noção de que ele pode dar problemas ou de que é pouco enquadrado naquele registo daquele momento?
Não, quanto me recordo, não tinha essa ideia. Achava natural.
Alguma ingenuidade até nesse aspeto.
Sim, além do mais, eu estava até a usar um texto de um poeta que na altura ainda não seria tão-- ele é um poeta tardio, como se sabe, ele começou a publicar já muito tarde, mas não tinha a projeção que teve mais tarde e, portanto, estava até a usar um texto que não tinha sido eu que tinha escrito, que para mim era uma pessoa que estava já consagrada no espaço público. E, portanto, não tinha essa ideia. Que eu me lembre, eu não tinha a ideia de que aquilo era qualquer coisa que podia ser subversivo, como era a expressão que se usava na altura. Eu julgo que não tinha essa ideia. Achava que era pertinente levantar aquelas questões, refletir à volta das questões que o poeta levantava naquele seu poema. Portanto, que eu tenha ideia, eu nem sequer refleti, que me lembre, sobre o facto de haver guerra, da guerra colonial, que aliás era um tema tabu em Portugal antes do 25 de Abril.
Quando ouve aos microfones do Rádio Clube Português o comunicado do Movimento das Forças Armadas, o que é que sentiu, lembra-se?
Catarina, você fez-me a pergunta que toda a gente me faz.
Pois, eu sei. É a curiosidade.
O que é que eu senti? Senti várias coisas. Uma é que senti que estava à frente de qualquer coisa, e estava, mas virtualmente. Ou seja, estava com um megafone a falar para um país, que aliás, grande parte do qual estava a dormir.
Eram quatro da manhã, qualquer coisa à volta disso.
E dormir aqui também pode ter mais do que um significado.
Sim, exato.
E, portanto, é uma sensação de poder, que não é um poder próprio, mas é sentir que se está ali a representar qualquer coisa, que aquilo que eu estou a dizer tem por trás todo um mundo, que eu, aliás, não conhecia, mas que é a voz de uma força qualquer que está ali a levantar-se e que pode correr bem ou correr mal, porque nessa altura não tinha noção nenhuma. Na verdade, do que ia passar-se a partir dali, de como iria decorrer toda aquela operação, de que eu não tinha informação e, portanto, tudo o que eu sabia sobre o 25 de Abril foi aquilo que aqueles militares que ocuparam o Rádio Clube Português me disseram quando ocuparam a estação.
Mas havia nessa fase já uma ideia do que é que podia acontecer nesse dia ou havia, de facto, muito medo que as coisas pudessem descambar?
Na fase dos comunicados? Dos primeiros comunicados?
Neste comunicado, que foi de madrugada, como dizia.
Sim. O comunicado foi às 04h26min, segundo está registado, e aquilo que eu sabia nessa altura Repare, eu estava a fazer o noticiário, como vocês estavam há pouco a fazer o noticiário. Eu tinha entrado à 01:00 a.m. no Rádio Clube Português, rendendo o diretor, que era o Luís Filipe Costa. Portanto, eu naquele período estava a fazer as madrugadas. Havia um roulement e nem eram jornalistas, eram noticiaristas. Só mais tarde é que nós passamos a fazer parte do Sindicato dos Jornalistas. Eu entrei para fazer o noticiário das 14:00. Preparei o noticiário das 14:00, que aliás, eram noticiários muito limitados. Eram noticiários feitos a partir dos telexes, que também é outra expressão já obsoleta, que chegavam das agências. As agências mantêm-se, era a France Presse e a Reuters. Basicamente, os noticiários, tirando algumas exceções, eram feitos com base nas agências.
Isto também é uma curiosidade, porque o noticiário era feito em direto.
Sim.
Portanto, não era censurado, não havia uma censura prévia daquilo que o noticiarista ia dizer.
Havia. Quer dizer, essas agências enviavam, neste caso concreto-
Aquilo que já podia ser.
Sim. Não, nós recebíamos a informação da Reuters e da France Presse e também da ANI. Mas por acaso a ANI, sim, era a agência estatal e governamental, portanto essa não contava para esse campeonato da censura. Essas duas agências, Reuters e France Presse, enviavam os seus telegramas para os nossos terminais, como enviavam para outros lugares. O que estava estabelecido é que nós, em princípio, só poderíamos divulgar as notícias que chegavam por essas agências depois de elas terem sido visadas, porque essas notícias também chegavam ao sítio onde estavam os censores. E os censores liam aquelas notícias e mandavam também pelo mesmo terminal, informação a dizer: "Estão vistos". A expressão que usavam: "Vistos os telegramas do 122 ou 135. Autorizados estes, autorizados parcialmente, proibidos". Era assim. Ou seja, essa censura era feita, depois competia-nos a nós respeitar ou não essas decisões da censura. E eu digo respeitar ou não, por quê? Porque nessa altura, estamos em 1973, quando eu começo a trabalhar no Rádio Clube Português, e não apenas eu, certamente, mas também colegas meus, tendencialmente desrespeitavam muitas dessas notícias.
Eu ia perguntar isso, se alguma vez tinha.
Sim, eu desrespeitava bastante. Mas por quê? Porque também para os jornais havia uma censura tipificada. Os diretores tinham que enviar as provas para a censura, e a censura cortava e informava o diretor, o jornal: "Estas notícias não podem sair", etc. E portanto, se elas saíssem, era muito fácil, no dia seguinte, os censores verificarem que não tinha sido respeitada aquela ordem. No caso da rádio, eu partia do princípio que não havia uma escuta tão perfeita e tão capaz que estivesse a cotejar aquilo que tinha sido proibido e que depois tinha sido lido aos microfones.
E os censores depois também não iam ouvir o podcast.
Não, acho que não.
Exatamente. Portanto, havia essa censura, isto para informação. E isto existia no Rádio Clube Português e na Rádio Renascença, que só já em 73, se não estou em erro, começou a ter noticiários. Para informação, para os programas, havia uma comissão interna, também na Renascença e no Rádio Clube Português, uma comissão chamada Comissão de Fiscalização, que ouvia os programas que nós gravávamos e depois diziam se podia ser divulgado, se não, e muitas vezes negociava-se: "Ai, tirar aqui esta coisa e tirar aquela". Eu devo dizer que no Rádio Clube Português, eu na Rádio Renascença não tenho essa experiência, embora eu tenha participado, eu fiz parte da primeira redação dos noticiários da Rádio Renascença. Mas no Rádio Clube Português, nós já estamos num período já muito avançado em relação à ditadura, estamos em 73. Mas a comissão era dialogante, era possível encontrar ali soluções que pudessem não serem muito problemáticas. Mas pronto, era assim que funcionava a censura. E depois também podia funcionar proibindo a posteriori, que foi o que aconteceu, por exemplo, no caso do programa onde eu comecei a trabalhar antes dos noticiários, que se chamava Tempos e.
Que foi suspenso.
E esse programa foi suspenso e o Página Um também foi suspenso. Eram dois programas que eram emitidos na Rádio Renascença. Mas pronto, isso é toda uma história que talvez não venha agora. Não sei.
Não, até porque ainda temos muito para conversar. Nós agora vamos fazer uma pequena pausa para ir às notícias, mas já voltamos à conversa. Joaquim Furtado, hoje em 40 Minutos aqui na Rádio Observador. Jornalista da Rádio e Televisão Portuguesa, hoje Joaquim Furtado em 40 Minutos na Rádio Observador. Temos estado aqui a falar um bocadinho de rádio. Voltamos agora para a televisão. Se bem que se tivesse que escolher sempre um, dá para escolher? Às vezes fazem-me esta pergunta porque eu também já fiz televisão e eu acho que quem faz rádio, e a magia da rádio, sobrepõe-se sempre à magia da televisão. Mas sendo jornalista.
Sim, eu acho que isso é um lugar comum. Não sei. Depende dos projetos que se tem. Há projetos que são muito interessantes fazer na rádio que talvez não tenha-
E nem sequer dá para comparar.
Não, são meios diferentes. Desde logo, um é frio, outro é quente, segundo McLuhan. Os teóricos da comunicação hoje em dia estão um bocado esquecidos com esta turbulência, com esta reconfiguração toda da comunicação social, dos meios e das fake news. Mas para voltar à rádio e à televisão, eu na rádio fiz coisas que não faria, nem fariam talvez sentido fazer na televisão. Na televisão fiz coisas que não poderia fazer na rádio. E em ambos os meios é possível fazer bons trabalhos e trabalhos menos bons, sendo que as características são diferentes. O que eu posso dizer sobre a rádio é que a rádio tem se mantido com uma vitalidade que em vários momentos foi posta em causa. As previsões apontavam sempre que a rádio era agora que ia desaparecer quando foi a televisão. E não, a rádio continua a ter uma vitalidade que, aliás, eu saúdo. E a televisão já não tenho tanta certeza que seja assim. Vamos ver.
Mas o Joaquim Forgotten costuma acompanhar estes desenvolvimentos, sei lá, através dos podcasts. É um segmento que acompanha?
O quê?
Os podcasts, por exemplo.
Pouco. Os podcasts só quando perco alguma coisa que eu queria mesmo ver, então vou ouvir, vou então lá, mas não sigo assim regularmente, não.
Estávamos a falar da televisão, precisamente, e o Jornal 2 foi considerado pela Sociedade Portuguesa de Autores como o melhor programa de informação da televisão portuguesa. E o Joaquim Forgotten foi, de resto, um dos muitos rostos de referência da informação da RTP 2, desde a primeira emissão, de 16 de outubro de 1978. Lembra-se da primeira emissão?
Da primeira, não me lembro. Agora, lembro-me muito bem da Informação 2 e aliás, ainda bem que me faz essa pergunta. Já faltava aqui este jargão. Ainda bem que me faz essa pergunta. A Informação 2 teve um papel que eu acho, e não é por ter de alguma forma estado lá ou estado envolvido nisso, que eu valorizo, mas acho que teve um papel importante na televisão. Nós estamos em 1978, portanto, o 25 de abril apanha o país com uma única estação de televisão, que era a RTP 1, e que foi rapidamente disputada pelos vários partidos, pelas várias forças que se criaram a seguir ao 25 de abril e, portanto, o espaço da RTP era disputado dia a dia pelos vários partidos. O que significava que o poder, à medida que ia mudando, ia tomando conta da televisão. A televisão era muito importante, tinha um impacto que outro meio não tinha e, portanto, o poder do dia, e como se sabe, na altura mudavam muito os governos, conforme os partidos, havia a tentação, que o Doutor Almeida Santos chamou de tentação do demônio, de tomar conta, de influenciar a RTP. E isso aconteceu desde logo a partir do 25. Antes do 25 de abril, a RTP era controlada totalmente pelo governo de então. Mas depois do 25 de abril, o quadro era este. E este quadro era composto também por uma introdução sucessiva de jornalistas ou de pessoas que queriam fazer televisão, conforme os partidos estavam no governo. Se era o partido X, entravam pessoas para a RTP. Portanto, a redação da RTP era uma espécie de uma rocha sedimentar com muitas camadas de várias pessoas, mas muitas delas mais ao serviço do próprio partido ou da força que o tinha lá posto propriamente pelo amor ao jornalismo. O que acontece, esta introdução para dizer o quê? Que a Informação 2 veio quebrar isso, neste sentido em que foi possível criar. Primeiro, foi possível fazer um canal autônomo. Programação e informação. Mas particularmente em relação à informação, foi possível criar uma redação de raiz. O diretor do canal era o Fernando Lopes, o diretor da informação era o Hernani Santos. E o Hernani Santos pôde constituir uma redação. Uma redação de raiz, em que ele foi convidar jornalistas de várias origens, nomeadamente de jornais da RTP e do Telejornal. Eu acho que foram só dois, foi o Joaquim Vieira e eu, penso eu. Mas aquela redação era uma redação de raiz, que era muito diversa do ponto de vista ideológico ou do ponto de vista das orientações de cada jornalista, mas que se encontravam num ponto central, que era quererem fazer a informação isenta ou o mais isenta possível, e independente. E isso foi possível. Foi possível fazer isso. Uma disputa interna entre o próprio Telejornal e a Informação 2. Havia uma expressão muito curiosa, porque a agenda era a mesma e os meios que nós precisávamos para fazer as reportagens eram pedidos ao mesmo departamento de planeamento. E portanto, a Informação 2 procurava esconder do Telejornal os seus projetos, as suas reportagens, etc. E uma das formas que se usava muito, quem esteve nesse tempo e me esteja a ouvir vai lembrar-se disso, havia uma expressão que era: vários de Lisboa. Isto é, enquanto uma requisição dizia: "Ir ao Palácio da Independência fazer não sei o que", nós quando não queríamos dizer onde é que íamos, punha vários de Lisboa, vários sítios de Lisboa, vários lugares de Lisboa. Portanto, havia essa disputa e a Informação 2 teve um papel realmente importante. Desde logo, eu acho que de alguma forma influenciou o Telejornal, mas sobretudo, e mais importante, penso que durante muitos anos da Informação 2, porque realmente provou que era possível fazer uma informação contra o Portugal sentado, como na altura se dizia, teve até uma influência, acho eu, mais ou menos longínqua, mas sim, em relação aos próprios operadores privados que vieram a surgir e à informação que esses operadores privados passaram a ter possibilidades de fazer. Isto é, lá longínqua ou menos longínqua, na memória, a Informação 2 está nesses projetos.
Acha que é a maior marca que deixa na RTP ou tem outras?
Eu pessoalmente?
Sim.
Eu não sei se deixo alguma marca na RTP, mas este é um trabalho coletivo. Eu fazia parte da redação.
E enquanto diretor da RTP, deixou marca?
Isso é outra coisa. Se calhar, a marca que eu deixo na RTP talvez seja a série "A Guerra". Talvez. Algumas grandes reportagens que fiz, mas a guerra pela sua dimensão, pelas circunstâncias, podemos falar disso, em que vai para o ar, no momento em que vai para o ar, o tema que trata, talvez seja, mas não me compete a mim fazer o meu próprio epitáfio.
E que marca deixa enquanto diretor da RTP?
Quando eu morrer, o que aparece nos jornais vai ser: morreu a voz do 25 de Abril. Isso é mais que certo. Portanto, o resto não sei como é que vai ser valorizado ou desvalorizado.
Mas a série, que demorou imensos anos a fazer.
Uma década.
Terá demorado outros tantos depois a ser consolidada e a ser vista por muitas pessoas. Ficou satisfeito com o resultado final? Era aquele trabalho que queria fazer quando o começou?
Sim, considerando as condicionantes, as capacidades financeiras de uma estação como a RTP, que não é a CBS. Considerando todos esses fatores, sim, era aquele projeto, que veio a ser um projeto que não era inicialmente. Inicialmente, eu tinha proposto meia dúzia de episódios sobre a guerra. Isto é, eu achava que a guerra colonial era pouco conhecida, aliás, isso comprovou-se pela minha própria experiência ao fazer a série, que era pouco conhecida. Portanto, tinha esse projeto de fazer uma série sobre a guerra colonial. E modestamente propus meia dúzia de episódios. E quando comecei a investigar mais e a ver os arquivos, a ler coisas escritas, a investigar o máximo que podia sobre o que já tinha sido publicado, percebi que iria destruir uma ideia e, portanto, seis episódios ou 10 que fossem, não seriam, de modo nenhum, suficientes para contar aquela história nas suas diversas dimensões. Dimensão militar, dimensão diplomática, dimensão até cultural, dimensão política, e portanto, seria estragar uma ideia. E nesse sentido, eu continuei sempre a trabalhar e a RTP teve uma atitude muito correta, que foi aceitar sempre as minhas novas condições. 12 episódios, mas não vai ser possível, 20 episódios. E fui até aos 42 episódios. E assim eu pude, acho eu, tirar o melhor partido das 360 entrevistas que fiz, das 5 mil horas de filmes que vi, de um acervo imenso das entrevistas que fiz gravadas, porque fiz outras tantas em conversas telefônicas ou pessoais. Portanto, é o resultado dessa investigação e dessa recolha com esta dimensão, que vai proporcionar fazer 42 episódios em vez dos iniciais modestos, uma dezena, seis ou 10. E a RTP teve essa compreensão, que é justo sublinhar, que foi sempre aceitando. E por isso é que a série acaba por ser emitida em momentos diferentes. Primeiro, há uma série de episódios, depois há uma segunda, e depois há uma terceira, e depois há uma quarta, com números variáveis de episódios, que em princípio era a solução adequada às circunstâncias, porque já se falava muito da série e nunca mais ninguém via a série. Portanto, essa foi a razão principal, não era uma razão muito boa do ponto de vista editorial, digamos assim, mas acabou por se revelar importante nesse plano também, porque foi possível manter o tema da guerra durante seis ou sete anos Em permanência. Quando saíam um grupo de episódios, havia à volta comentários, discussões na net de todo o tipo, críticas televisivas, etc. Portanto, periodicamente a questão da guerra ficou no espaço público em debate. Nesse sentido, acabou por ser positiva essa fórmula, que no fundo foi um expediente para resolver uma questão prática.
E é dos trabalhos que mais se orgulha?
É aquele que tem maior dimensão. Você perguntou-me o que é que vai ficar. Ficarão algumas coisas. Os mais jovens vão aos arquivos e encontram lá coisas que eu fiz, como colegas meus fizeram. Com esta dimensão, encontrarão este trabalho, porque trabalhos maiores, o que eu fiz foram grandes reportagens que têm a dimensão que têm e que, aliás, cada vez há menos.
E de tantos anos de carreira, arrepende-se de alguma coisa?
Carreira é mais camionetas. As pessoas dizem sempre: "Não, eu hoje fazia tudo o que fiz, eu não me arrependo de nada". Eu arrependo-me de várias coisas, mas por que as pessoas não hão de arrepender-se? As pessoas não são perfeitas de maneira nenhuma. Se fossem perguntar: "Mas de que é que se arrepende?" Se calhar tenho dificuldade em enumerar. Mas, por exemplo, gostaria de ter ido para o estrangeiro. É uma coisa que eu gostaria. Arrependo-me de não ter ido. Não quer dizer que não voltasse e que não seguisse o mesmo tipo de trabalho, etc. Mas isso, por exemplo, arrependo-me. Gostava de ter ido e não houve condições, as circunstâncias não proporcionaram. Agora, coisas concretas, de que eu me arrependo? Não me lembro de nada verdadeiramente especial, mas isso não significa que tudo o que eu fiz são coisas que eu me orgulhe, que são extraordinárias. Nada disso.
Estava a dizer de ir para o estrangeiro. É uma coisa que, por exemplo, hoje em dia, se calhar teria feito. Aconselha os jovens hoje em dia? Fala-se muito nisso.
Você agora deu uma volta nesta questão dos jovens irem para fora e é inevitável que eu me lembre das declarações de Passos Coelho, que mandou os jovens para fora e que isso tornou-se uma coisa política, e que o Costa também já disse qualquer coisa sobre isso.
Que eu própria, às vezes, penso que se calhar hoje teria feito as coisas também de outra forma e se calhar também teria ou gostava de ter tido a experiência de ter ido para fora.
Uma coisa é ir para fora por necessidade, outra coisa é ir para fora por achar que ir para fora permite, depende do que for o para fora.
Sim, é uma experiência.
Permite uma visão mais ampla do mundo e dá uma experiência que será sempre útil, seja qual for a atividade. E nomeadamente no jornalismo, ter estado fora, num país que tivesse um grau de desenvolvimento maior que Portugal, evidentemente que tinha que trazer vantagens. É nesse sentido que eu digo que gostava de ter ido para fora. Outra coisa é dizer: "Nós não temos condições, os jovens têm que ir para fora". Isso é uma coisa completamente diferente.
Não, e não era nesse sentido, era mais no sentido da experiência de ser rica.
Sim, é nesse sentido que eu digo que gostaria de ter feito esse percurso. Isso teria sido certamente vantajoso até para o meu próprio desempenho profissional, de certeza.
E na sua vida pessoal, qual é o seu maior orgulho?
O maior orgulho da minha vida pessoal são as minhas filhas.
Como é que é a vossa relação atualmente? Encontram-se muitas vezes?
Muitas vezes. Sim, é excelente e encontramo-nos muitas vezes.
E partilham o quê? Refeições?
Nomeadamente.
Eu estive a ler quando estávamos a fazer a pesquisa, uma história muito engraçada que a Catarina contou, a dizer que na altura, quando se inscreveu no Senhores, optou por não pôr precisamente o apelido, Furtado.
Pois, ela tem contado essa história.
E que não lhe disse nada, precisamente porque às vezes o apelido abre portas ou às vezes fecha.
Sim, isso passou-se e ela tem contado esse episódio, que de alguma forma também define o seu caráter e eu congratulo-me com isso. Não gosto que ela me esconda assim coisas importantes, mas neste caso, congratulo-me com o facto de ela não ter falado disso, porque sim, provavelmente contaminava a pureza com que ela apareceu num concurso. O nome podia contaminar. Eu acho que ela fez bem.
Em tomar essa decisão?
Sim.
E se tivesse um convite agora para voltar à televisão, voltava?
Dependia. Se fosse para uma entrevista ou se fosse para fazer uma série que eu propus, provavelmente voltava. Eu propus uma série a seguir a esta série, A Guerra, que vai desde o início da guerra, com um flashback até à Conferência de Bandung, portanto, anos 50, e termina no 25 de abril de 1974. E eu gostaria de ter feito depois, até pela sequência natural, uma série que se ocupava do período entre o 25 de abril de 74 e as independências, porque esse período é muito rico de acontecimentos sociais, políticos, etc. E gostaria de ter feito. Isso não foi possível na altura. Inicialmente, parecia que sim Houve respostas muito positivas nas direções da altura, mas depois, penso que por razões dessas que foram invocadas, de ordem financeira e orçamentos, etc., isso acabou por não ser possível na altura.
Acha que agora não está-
Não sei. Penso que sim, que terá prejudicado esse projeto. Penso eu.
Há pouco, o Joaquim Furtado já disse que aceita a passagem do tempo, também se existisse um convite para voltar, que voltava. E eu volto só aqui a outra pergunta, há pouco, por causa das marcas que o Diogo fez. Enquanto diretor da RTP, que marca é que acha que deixou?
Era preciso fazer aqui um contexto do tempo em que eu estive nessas funções. Na altura, as televisões privadas tinham uma existência ainda bastante limitada no tempo e houve aquela ascensão muito rápida da SIC, que aliás ultrapassou até as próprias projeções dos seus responsáveis. Daí a RTP ter feito uma série de transformações na altura. Inicialmente, a ideia que me julgo eu, da própria SIC, era concorrer com a RTP2, mas rapidamente passou a concorrer com a RTP1, com a RTP em geral. E, portanto, quando eu chego à direção e os meus colegas que faziam parte, havia uma predominância da SIC em termos de audiência, que eram números muito elevados. E, portanto, o contexto em que nós entramos é um contexto de perda, digamos assim, de dificuldade em concorrer com uma estação que tinha atingido um nível de audiência, que era praticamente 50% do mercado, uma coisa desse tipo. E, portanto, o que havia a fazer na altura era muita coisa e muito diversa, desde regularizar situações de trabalhadores da RTP, jornalistas, etc., que estavam a recibos verdes, desgovernamentalizar a imagem da RTP, isso era prioritário. Hoje em dia, essa questão já não se põe, mas houve todo um percurso para que essa questão deixasse de se pôr. E de alguma forma, a nossa direção iniciou esse percurso de desgovernamentalização, portanto, de tornar a estação numa estação que não dependia do governo, embora o estatuto da RTP de alguma forma favorecesse uma situação desse tipo. Porque a administração era nomeada pelo governo, desde logo estabelecia-se ali uma cadeia, e depois a administração nomeava o diretor, neste caso eu, e a essa administração eu pus as condições que achava aceitáveis para mim, que era não haver interferência da esfera da administração na esfera da direção e regularizar uma série de situações. Isto era o essencial. Ou seja, para dizer que o facto de eu ter posto como condição sine qua non não haver interferências da administração na direção, permite perceber quão importante era este tema da intervenção das administrações na direção. Dá-se a circunstância, que de alguma forma faz o arco desta questão, que eu acabo por sair, eu demito-me, na sequência de uma intervenção exatamente da administração. Portanto, dois anos depois, a administração, que já não é a mesma, quer dizer, o presidente da administração fazia parte da administração anterior, mas não era presidente. O presidente aceita uma intromissão do governo, através do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, no sentido de impedir que a RTP fosse fazer uma reportagem a Angola sobre a UNITA. A UNITA, na altura, era uma força que combatia o MPLA, combatia no terreno, tinha forças militares no terreno e estava a acontecer que iam jornalistas que eram convidados pela UNITA, mas como a UNITA era uma força hostil ao governo, não era possível ter os vistos através da embaixada de Angola. Portanto, os jornalistas dos vários meios, das televisões, etc., só podiam entrar em Angola por vias, digamos, mais ou menos clandestinas, para chegarem aos sítios onde a UNITA fazia os seus congressos, as suas iniciativas. E, portanto, eu e a direção achamos que devia ir lá um jornalista. Isso a administração proibiu e eu achei que isso era uma ingerência que era inaceitável. A minha surpresa foi que depois isso foi considerado, foi comentado, mas os jornalistas não deram, os jornalistas em geral, estou a falar agora da comunidade jornalística, não deu assim tanta importância ao facto. A questão da governamentalização da RTP era uma questão permanentemente comentada, mas este episódio acabou por depois não ter assim tanto impacto como eu achava que devia ter tido. E foi isso, esta foi a gota d'água, mas já havia divergências, porque a administração, com o estatuto que havia na altura, tinha uma prerrogativa importante, que era, para além de haver algumas zonas de sombra entre as competências, tinha a grande competência de gerir os dinheiros. E a partir do momento em que se pode usar esse argumento dos dinheiros, pode ser usado para vários efeitos, nomeadamente para impedir que se façam certas coisas.
Joaquim Furtado, estes nossos 40 minutos passam a voar. Já está. Foi um prazer tê-lo aqui hoje na Rádio Observador. E sempre que lhe apetecer, pode voltar. Tem muitas histórias para partilhar e nós com toda a certeza, muita vontade para as ouvir.
Muito obrigado.
Obrigado.
Obrigado.