Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Não há nenhum cozinheiro que eu conheça, nem nenhum chef de cozinha que não tenha um ego grande. Nós todos somos seres altamente vaidosos e somos seres com egos.
Como é que se lida com o ego?
Eu acho que tem que se lidar com inteligência. Primeiro, base da inteligência, nós temos noção do que nós somos. Ou seja, uma pessoa dizer que é supervaidosa, supercuidadosa, e depois não admitir isto. Por isso temos que reconhecer.
Tu és vaidoso?
Eu sou vaidoso. Sou vaidoso, tenho um ego grande, gosto de ser reconhecido, gosto que me deem palco, gosto de uma série de coisas. Agora, se eu aceitar isto, eu mais facilmente percebo que às vezes tenho que dar palco aos outros. Vejo miúdos novos a vir. Eu tenho é que lhes dar palco a eles, tenho que mostrar que eles estão bem. E outra coisa muito importante, que é noção de quem nós somos e daquilo que nós fizemos. Olhar para trás e dizer: "Eu não sou assim tão bom, mas também não sou assim tão mau". Se calhar há aqui um meio-termo. Às vezes, uma pessoa de repente vê: "Isto agora é só putos novos". Não, espera aí. Está bem, estou com 46 anos, estou nisto há 25. É normal que a comunicação social procure estes miúdos novos. Mas eu já cozinhei com o Gordon Ramsay, eu já ganhei este prémio, já tive o restaurante do ano, continuo cheio. O Talho tem 16 anos e continua cheio todos os dias. E é importante isto, é importante este equilíbrio. Mas este equilíbrio é fruto de maturidade, é fruto de tempo, é fruto de vida. E de outra maneira é impossível. Não se constrói isto a ler livros de gestão.
Nasceu no Rio de Janeiro, mas carrega no ADN o rigor transmontano de uma família numerosa. Em miúdo, descobriu que a cozinha era o território perfeito para negociar a paz com os irmãos mais velhos. Mais tarde, percebeu que o bolo de chocolate que vendia aos vizinhos já era o prenúncio de um bicho que nunca mais o abandonaria. Licenciou-se em Gestão, mas foi o apelo do fogo e das facas que o levou a Paris. Quem o conhece destaca a capacidade de trabalho avassaladora, uma criatividade que recusa fronteiras e um carisma mediático que o tornou um rosto querido dos portugueses. Agora despe-se das vaidades corporativas para arriscar tudo num novo espaço ultraexclusivo. Já vamos saber aquilo que aí vem. Hoje, sem o habitual avental mediático, vamos conhecer o homem por trás do império, Kiko Martins, ou simplesmente Kiko. Bem-vindo.
Simplesmente Kiko chega.
Também era um bom nome, simplesmente Kiko.
Simplesmente Kiko.
Agora nesta era de nomes, dá sempre valor à marca.
Sim, agora estou com uma que é o Formidável. Gosto de dizer Formidável. Acho que é uma palavra bonita, Formidável.
Ao longo desta entrevista, Formidável.
Não sei, vou tentar me conter.
Vou começar por te provocar nesta entrevista. Quero saber, para alguém que tem uma profissão que nós olhamos e achamos que é muito romântica esta devoção à cozinha, onde é que tu és um homem mais romântico? É na cozinha ou em casa?
Eu acho que em casa é mais fácil e é mais natural sê-lo. Na cozinha, tenho que me forçar a encontrar esta paz que nos possibilite ter sensibilidade, porque muitas vezes a cozinha e a confusão e as dificuldades do dia a dia, que começam nos produtos, nos fornecedores, depois nos colaboradores, nos clientes, nos horários, no rigor, leva-nos a transformar-nos em bichos mecânicos, que temos que responder às coisas com muita rapidez e com pouca sensibilidade. Por isso, há que nos educar a encontrar este lado mais sensível para nunca nos esquecermos que estamos a trabalhar com alimentos e estamos a trabalhar com a natureza. Um tomate não é sempre igual, uma carne não é sempre igual e por isso temos que ter esta leveza de conseguir ir ajustando. Não é que a minha mulher e os meus filhos sejam sempre iguais, porque eles também são bichos que se transformam rapidamente.
Ia te perguntar isso também.
Mas é mais fácil e mais natural para mim tentar ser mais romântico, mais transcendente em casa do que numa cozinha. Numa cozinha é preciso não deixarmos que as chatices do dia a dia nos consumam e que percamos a sensibilidade para praticar uma boa cozinha e para ambicionar sempre algo mais bonito.
E quando isso acontece, ou seja, quando chegas ao trabalho num dia não, que deve acontecer muitas vezes, que tipo de exercício é que fazes? Tens algum ritual? Não sei.
Não, não tenho. Devia ter e até devia me preparar melhor antes de entrar na cozinha nesses dias. Mas depende das unidades, depende muito dos restaurantes. Ainda agora acabei de dar o serviço na Cevicheria e a Cevicheria é impossível nós estarmos tristes. Eu acho que aquilo é literalmente um antidepressivo. Não existe antidepressivo melhor do que estar a dar um serviço na Cevicheria. Ver a reação das pessoas, a alegria das pessoas. Ainda agora tive um americano que me deu €60 de gorjeta. Ele estava tão contente que de repente chegou ao final e depois de comer imensos pratos, ele na altura só dizia: "Chef, dê-me o que você quiser, alimente-me". E eu depois fui-lhe dando e ele no final atirou o dinheiro, tipo €60, e disse: "Nunca tinha comido tão bem". E aquela alegria e a própria equipa faz com que nunca consigas estar mal. É uma cozinha aberta, é uma cozinha diferente. Por isso tem este lado mais fresco que me emociona muito e que gosto muito. Mas não tenho nenhum ritual, mas tenho a sorte de já ter pessoas que trabalham comigo há muito tempo. Por isso, essas pessoas que trabalham comigo há muito tempo também já perderam algum pudor de me dizer algumas verdades. Por isso dizem-me as verdades, dizem: "Chef, tenha calma, chef, vamos conseguir". E eu rapidamente caio em mim e percebo o mais importante, que é isto, de não esquecer o cuidado naquilo que estamos a entregar, o carinho naquilo que estamos a entregar e não deixar que Os procedimentos e o rigor, e muitas vezes aquilo que nos irrita, porque vemos coisas desorganizadas ou mal feitas, ou alguém que fez uma coisa de uma forma mais displicente ou menos cuidadosa, que isto cria em nós, que nos começamos a transformar num Hulk. É muito fácil entrarmos na cozinha.
Nesse loop.
Nesse loop. Encontramos uma, duas ou três coisas mal feitas e de repente estamos a transformar-nos num monstro e queremos basicamente destruir toda a gente.
Falaste aí da emoção. Tu és um homem emotivo? Emocionas-te muitas vezes?
Eu sou um homem muito emotivo, que gostava de às vezes ser um bocadinho menos emotivo.
Achas que precisas ser mais racional para gerir até uma cozinha, por exemplo.
Eu até a ver o detetive Rex, do cão Rex, eu costumo chorar. É muito fácil pra mim cair uma lágrima e deixar-me comover pelas coisas. Acho que é uma questão de sensibilidade. Ao longo da minha vida fui ganhando ombros para conseguir estar mais forte, conseguir enfrentar as dificuldades do dia a dia. Porque um colaborador que trabalha comigo há três, quatro, cinco anos, de repente há um dia que vai-se embora. Isto magoa, dói, mas faz parte da vida. Ele vai seguir a carreira dele, vai abrir um restaurante dele, vai fazer o que quer que seja, mas são coisas que nos vão magoando, que nos vão dando este calo. Eu acho que hoje em dia tenho mais calo, tenho 46 anos, não quer dizer que as coisas não me custem e eu gosto sempre, inevitavelmente, de ter as pessoas sempre felizes ao meu lado, sabendo que isso é uma premissa bastante utópica, porque é impossível estarmos sempre felizes. Eu não estou sempre feliz e faz parte da inerência do ser humano ter dias bons, ter dias maus e também queixar-se muito. Faz parte de algum ADN de alguns portugueses, deste constante fado.
Como é que vais? Vai-se andando.
Vai-se andando, "chefe, isto está complicado, chefe, falta isto, chefe, não sei o quê, não estamos a conseguir, chefe". A minha mulher tem a frase: "Os meus filhos cansam o meu nome" e eu às vezes digo que os meus colaboradores cansam o meu nome também, porque há dias que temos que encontrar aqui um lado mais zen para conseguir enfrentá-los.
E como é que tu fazes isso? Como é que se encontra esse lado zen todos os dias com equipas diferentes?
Eu uso algumas coisas importantes no meu dia a dia. Tenho aprendido o desporto, é uma coisa que me ajuda muito, mesmo. O desporto, seja a corrida, a natação ou a bicicleta, são coisas que me ajudam muito. Muitas vezes até fazê-lo sozinho, de enfiar-me em casa com uma bicicleta estática e estar ali durante uma hora e meia, duas horas só a gastar energia.
A ouvir música?
A ouvir música. Gosto muito, tenho as minhas playlists no Spotify.
O que é que têm essas playlists? Agora estou curioso. Quando falamos de música.
Tem muita música. Eu posso te mostrar aqui a última que eu criei, que está mesmo gira e que é uma coisa que eu pus aqui bike. Começa com o Born Slippy do Underworld, depois tem Franz Ferdinand, depois tem Radiohead, que é sempre uma coisa muito importante, tem Blur. Tem The Killers, tem Foo Fighters, tem umas coisas do Aerosmith.
Daqui a nada temos aqui um cartaz para um concerto.
Guns N' Roses. Tem Buraka, tem várias coisas diferentes que eu vou gostando. Tem Tiago Tencu, que é meu amigo e que eu gosto muito. Tem Ramones, tem muita coisa diferente, que eu sou um apaixonado, apesar de perceber pouco de música e ter zero voz. Gosto de música.
Então alguém pode entrar na sala, não sendo é que tens a bicicleta, e pode dar por ti a berrar uma dessas músicas.
Pode, mas eu estou sempre com fones, por isso ainda fica pior. Só ouvo a minha voz em vez de ouvir a música, por isso ainda fica mais esquisito. É quase como se físsemos uma discoteca a dançar, mas sem música.
Aquelas silent disco que agora existem muito.
Exatamente. Estranhíssimo.
Relembra-me: bicicleta, natação. São desportos que não têm muito...
É o triathlon. São estas coisas de começar a nadar, andar de bicicleta, depois correr. Agora começo também a gostar bastante de paddle, que acho que é o desporto da cerveja, como se diz.
Está na moda?
Está na moda. Já está na moda há alguns anos. A malta vai jogar pra depois beber umas cervejas e aquilo tem um lado social. Eu ainda não tenho usufruído das cervejas, tenho só usufruído do jogo. Ainda sou um grande nabo, porque jogo paddle como se estivesse a jogar ténis, por isso faço os movimentos todos errados, mas agora tenho uma pessoa que me está a corrigir e que me está a ajudar. Mas gosto muito, acho um desporto que é bem pensado, é divertido, é um desporto sozinho, que é outra coisa também que me faz bem, mas nunca vou querer perder isto da natação e da bicicleta, e da corrida, principalmente a natação no mar, que é uma coisa que me faz mesmo bem.
Dás uma de professor Marcelo também.
Vou. Eu por acaso encontrava o professor Marcelo quando fazia bodyboard no Guincho, muitas vezes. Mesmo muitas vezes, é curioso isto.
E falavam ou não falavam?
Falávamos. Eu conheci até um sobrinho dele, que estudou comigo, o Luís, e encontrávamos e ele levava sempre a sua prancha de bodyboard e apanhava umas espumas e eu achava aquilo o máximo, achava mesmo de um rigor, uma coisa mesmo gira. E natação tem isto, de estarmos no mar. Noutro dia cheguei a Cascais, parei o meu carro na praia e fui a nadar até ao Estoril e voltei. E depois uma pessoa está sozinha no mar e o mar tem esta coisa que é mesmo bonita. Eu acho que tenho uma atração muito grande pelo mar. O mar é uma coisa que nós desconhecemos, não vemos, e tem tanta água o nosso mundo. É muito superior a quantidade de água que tem.
E o que sentimos lá dentro é quase como se fosse um confessionário, mas é também uma terapia, não é?
Eu acho que é terapêutico. A água é terapêutica, o mar é terapêutico, os peixes, as rochas, as ondas, entender as várias camadas do mar. Desde onde há mais luminosidade até à parte mais profunda, até as espécies de peixe, das planctônicas, que vêm cá em cima, até as demersais, que são aquelas que já não precisam de luz e que circulam pelo fundo dos oceanos, os atuns, os tamborís, estes peixes mais de águas profundas, estes predadores. Eu acho encantador entender o mar e ler o mar à luz das suas profundidades. Mas é uma coisa que aquilo que sabemos é quase que uma porcentagem que nós usamos do nosso cérebro, é muito pequenina. Aquilo que eu conheço do mar até é ridículo dizer que se calhar são 9, 8, 10%. Mas é mesmo muito pequenino, porque é uma coisa tão grande e tão vasta. Mas a mim atrai muito, é um misto de atração e de medo ao mesmo tempo. É uma coisa que eu gosto. Se eu tivesse que escolher, noutra vida, não sei se não teria sido alguma coisa que estivesse dentro d'água, um bicho. Talvez seria um atum.
Se calhar numa outra vida.
Numa outra vida.
Olha, Kiko Martins, adicionamos aqui mais um desporto à lista, o paddle, que eu não sabia, não tinha conhecimento.
Nem eu, eu comecei agora.
Tu tens quantos restaurantes neste momento?
Neste momento tenho cinco. Tenho o Talho, o El Mar, a Cevicheria, o Las Dos Manos e o Boteco.
E mais quatro filhos, uma mulher.
Mais quatro filhos, uma mulher.
Como é que se concilia tudo isto na tua vida?
Concilia com bons sócios. Tenho uma empresa sólida com dois sócios que são mais do que sócios, são dois meus melhores amigos, os meus irmãos nesta vida, não só profissional, mas também de tudo aquilo que nós precisamos. Sabemos que podemos muito contar uns com os outros, quer o António, quer o João. Isso é a coisa mais importante. E sabemos bem o papel de cada um dentro da empresa. Cada macaco no seu galho. Tentamos não interferir com os galhos de cada um. Puxamos muito uns pelos outros, que é uma coisa ótima. Com uma supermulher e com algum caos sempre à mistura, que faz parte. Isto não é tão poético assim quanto possa parecer na tua apresentação.
Tu consegues ver um jogo de futebol agora, por exemplo, do mundial, quietinho no teu spa?
Consigo andar de bicicleta. Eu não gosto de estar quietinho, por isso ponho-me na bicicleta e fico ali. E muitas vezes até nos jogos do Sporting, especialmente nos jogos da Liga dos Campeões.
É para combater a ansiedade também, não é?
É, eu digo assim: "Se eles estão a sofrer, eu também vou sofrer. Eles vão sofrer duas horas, eu vou sofrer duas horas". E faço aquilo porque gosto, porque preciso também. Eu sou um bocadinho hiperativo. Hoje em dia há umas palavras mais pomposas para descrever isto, mas tenho ali um lado de hiperatividade e por isso gosto de gastar e preciso de gastar. Eu acho que preciso sempre de fazer pelo menos uma hora, uma hora e meia de exercício todos os dias. Se eu não fizer, mais facilmente me transformo num Hulk e fico mais ansioso e mais chato no dia a dia.
Qual é a melhor parte do teu trabalho?
A melhor parte do meu trabalho. Não sei, acho que é ver a reação das pessoas e poder perceber que aquilo que nós fazemos tem uma influência imediata na felicidade das pessoas. Vamos imaginar um projeto de arquitetura. Eu começo um projeto de arquitetura, se eu fosse arquiteto, eu ia para o ateliê, desenhava, fazia os esquissos, ia visitar, falava com os engenheiros, via materiais. Daqui a cinco anos, quatro anos, três anos, na melhor das hipóteses, via a obra feita. E depois também não teria muito contacto. Teria contacto no dia da entrega aos donos e pronto. Sempre passava por lá, admirava aquilo, aquilo podia aparecer nas revistas.
Eu acho que este trabalho é tão ingrato, porque eu se fosse arquiteto, ia querer partilhar da felicidade com as pessoas e se calhar semana a semana ia querer saber: "Estão a gostar? Está bom? Melhoravam alguma coisa?"
Claro que sim. E depois é difícil eu melhorar. Na cozinha, não, na cozinha aquilo é imediato. Eu saltei uns espargos, confito um bocado de alho, faço um molho branco, uma coisa qualquer e de repente entrego aquilo e recebo logo o feedback. E por isso tem este lado imediato de alegria, logo, que é uma coisa que é muito boa, que é mesmo muito imediata. E por isso este é o feedback mais importante, que é o que eu possa ter no dia a dia.
Uhum. E a pior?
A pior coisa são muitas variáveis para as coisas correrem bem. É o produto perfeito, é os fornecedores que entreguem a horas, é os colaboradores, são todos os equipamentos de uma cozinha a funcionar. E muitas vezes, no somatório das variáveis, às vezes é fácil algumas coisas não funcionarem bem e termos que saber ter jogo de cintura para contrariá-las. É um bocado isto.
Aos 46 anos, qual foi a maior lição que aprendeste no meio dessas adversidades?
Maior lição que eu aprendi. É uma lição que não aprendi, que tento vivê-la. Ter calma, controlar. Eu sou uma pessoa às vezes ansiosa e quero tudo muito rapidamente e às vezes temos que ter calma, temos que abrandar e temos que saber esperar. E quanto mais nervoso nós estivermos, pior as coisas correm. Não é imediato. Por isso temos que, às vezes, respirar fundo. Vamos imaginar um serviço supercomplicado. Faltam-me três colaboradores, estou numa cozinha sozinho com mais um miúdo no fogão e temos 60 jantares para dar, estão mesas atrasadas, acontece um problema, o prato vem para trás. Se nós começamos a ficar muito nervosos, aquilo tem tendência para descambar.
E passa também para a equipa que está contigo.
E passa para a equipa, por isso temos que manter a serenidade. Eu acho que isto é um exercício feito diariamente, é um exercício que vem também de muita maturidade e de cálio ganho. Não é imediato isto.
É uma das grandes lições. Kiko Martins, convidado desta semana do "Em 40 Minutos". Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos para a segunda parte. Segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Kiko Martins. Cresceste no Rio de Janeiro, ficaste até lá até por volta dos 11 anos, penso eu. Depois, há aqui uma realidade também muito portuguesa, uma família transmontana, com muitos irmãos. Já aqui na introdução falava que tu se calhar eras um bocadinho o saco de boxe de alguns deles. Havia mais liberdade no Brasil do que em Portugal quando voltaste para cá aos 11 anos? O que é que sentiste das grandes diferenças entre estes dois países?
Eu vivi no Brasil até aos 11 anos. Por isso chego a Portugal nos anos 90. 1990 aterro em Lisboa, tinha nascido em 79, e senti uma diferença muito grande no trato humano. As pessoas aqui eram mais frias, mais reservadas, mais comedidas nas manifestações da afetividade. Eu era muito pequenino, tinha 11 anos. Hoje em dia consigo discernir isto de uma forma um bocadinho diferente. Até acho que este lado mais comedido é um lado muitas vezes mais verdadeiro, que quando abraça, abraça mesmo, não abraça por conveniência Pelo que quer seja, a impulsividade muitas vezes. Mas doeu-me, magoou-me chegar a Portugal. Eu vivia no Rio de Janeiro, vivia na Gávea, ou seja, a praia fazia parte do meu cotidiano. O Flamengo.
A paixão pela praia e do mar também já vem de lá.
Se calhar vem muito daí. Eu tinha aulas à tarde e, por exemplo, as minhas manhãs eram muitas vezes passadas no Flamengo a ter natação, judô, futebol, várias coisas. Depois chegava a casa, via o "Clube da Xuxa", bebia um suco de abacate, umas torradas e depois é que ia para a escola. Mas custou-me chegar a Portugal. Tenho muito boas memórias do Brasil, tenho muito boas memórias da minha infância. Tive uma infância muito feliz, com muito amor por parte dos meus pais, por parte dos meus irmãos. Fui um felizardo. Não conseguiria desenhar uma infância tão agradável. Claro que com 11 anos, quando começamos ali, se calhar foi melhor aos 11 do que aos 14. Porque chegar aos 14 era ali no pico do início da adolescência.
Tu deixaste lá muitos amigos, por exemplo, já com essa idade?
Deixei, mas não mantenho contato com eles. As coisas foram se perdendo, já passaram muitos anos, já passaram-se 35 anos.
E naquela altura também, tu com 11 anos, possivelmente nem terias telemóvel, mesmo sendo hoje, 2026.
Sim. Por acaso tenho a minha filha com 12 anos, que por acaso já tem um telefone, ao contrário daquilo que eu queria, mas já tem um telefone e temos sempre de estar a controlar o tempo de telefone dela e fazer ali algumas restrições naquilo que ela possa fazer ou não com o telemóvel. Mas é isto. Ou seja, eu perdi o Brasil. O Brasil já não faz parte do meu dia a dia, são memórias da infância. Tenho três irmãos no Brasil ainda, um em São Paulo, um em Minas Gerais e outro em Brasília, mas não tenho um contacto com o Brasil no dia a dia. Não acompanho os jogos de futebol das equipes brasileiras.
Tinhas uma equipa de futebol?
Tinha o Flamengo, gostava muito do Flamengo, porque eu morava relativamente perto do Flamengo.
Flamengo que é vermelho e...
É rubro-negro. Aqui devia ser do Benfica, mas por acaso não, sou do Sporting.
Chama-me a atenção essa diferença.
Sim, sou um sportinguista ferranho. Mas ali no Brasil eu era do Flamengo e gostava muito do Brasil. Depois a minha vida levou-me a que o Brasil ficasse distante, fosse uma memória hoje em dia para mim.
Já lá voltaste ou não?
Já voltei, já levei os meus filhos. Levei a primeira vez a Maria, antes de termos filhos, fomos os dois, fui fazer aquela visita de: "Olha aqui, foi onde eu estudei. Isto parecia muito maior do que é hoje em dia. Esta porta era gigante, agora realmente isso só tem dois metros. Esta era a montanha", depois a montanha é um montezinho.
Passaram-se 30 anos.
35 anos. Quando eu fui lá, não se tinham passado tantos. Eu fui com a Maria em 2010, penso eu, a primeira vez, há 15 anos. Por isso tinham-se passado 31 anos. E já foi diferente. E voltei com os meus filhos. Aliás, levei os meus filhos todos, os meus quatro filhos, ao Brasil há dois anos e foi incrível.
Mas para o Rio também?
Não, não fomos ao Rio, fomos a dois casamentos. Teve um irmão meu que se casou em Minas Gerais, fomos ao casamento dele e tive um sobrinho meu que também se casou em Brasília. Por isso fomos mais para o interior, para outras partes menos turísticas do Brasil. E foi uma viagem incrível para eles verem e conhecerem um país diferente, um continente diferente. Foi absolutamente incrível.
Mesmo vindo muito cedo, com 11 anos, o Brasil deu-te mundo e histórias agora também para contares. Isso também se reflete no teu trabalho, na tua cozinha.
Eu acho que independentemente da profissão de cada um, a nossa história contribui muito para aquilo que nós somos e aquilo que nós fazemos e a maneira como nós lemos o dia a dia e ambicionamos. A cultura gastronómica que nós temos é fruto de uma herança. Eu digo sempre o exemplo máximo, se eu agarrar aqui num balde de café americano e der a um português e a um italiano, o português vai dizer: "O que é esta água suja?" Se eu fizer o oposto, entregar um espresso italiano e português a um americano, ele vai dizer: "O que é esta coisa tão intensa, tão desagradável, tão amarga?" Por isso nós somos consequência de uma história. E por isso é que aquilo que nós comemos transforma-nos muito naquilo que nós somos. E obviamente que este lado mais tropical, do coco, do açaí, da manga, do biscoito de polvilho, do pão de queijo, da feijoada, das carnes.
Que agora já está muito presente em Portugal.
Está muito presente em Portugal. Isto teve muita influência na minha educação de paladar e na minha educação de gosto. No entanto, como tu dizias, a minha mãe é transmontana, nós muitas vezes em casa não comíamos alheiras, porque não tínhamos acesso a comprar alheiras, mas comíamos algumas coisas da cozinha portuguesa. Muitas vezes, em vez de um quindim, era um toucinho do céu, um doce que a minha mãe fazia muito e que ainda hoje faz. Eu acho que conheci Portugal primeiro pela barriga e só depois pelo olhar, só depois pela estética. Mas Portugal esteve sempre muito presente na minha vida desde pequenino. Eu já tinha comido bolinhos de bacalhau, já tinha comido patanisca, já tinha comido os arrozes de tomates, já tinha comido esta gastronomia portuguesa no Brasil. Por isso, talvez do ponto de vista alimentar, foi mais fácil a adaptação a Portugal.
Tu falaste aqui da tua mãe. Eu sei que a tua mãe é uma das tuas maiores fãs. Ela faz questão de ir a muitos sítios e dizer que tu és filho dela. Como é que ela lida com essa mudança? Porque tu tinhas um caminho pela frente que te levava se calhar mais pelo mundo da gestão. Não é que agora não esteja a acontecer Mas houve aqui uma inversão de papéis na tua vida. Como é que ela também na altura, sabemos que agora é fã do teu trabalho, como é que ela encarou essa decisão?
Penso que com desconfiança. Todos os filhos foram para engenharia, medicina, todos tiveram profissões pomposas e que faziam parte do cardex das profissões habituais. E um filho dizer que: "Olha, quero seguir cozinha".
Ser chefe não era visto como algo pomposo.
Não, isto foi há 23 anos, 24 anos. Há 24 anos dizer: "Quero ser chefe de cozinha", na altura não era cool, não havia programas de rádio com chefs de cozinha, nem televisão. Isso só veio mais tarde. E por isso olhou com alguma desconfiança, mas eu estava a estudar na altura, demonstrei que realmente queria isto. Comecei a estagiar num restaurante ali no Jardim Botânico, na Estufa Fria.
Aliás, o teu estágio do curso foi numa cozinha, não foi?
Foi exatamente isso. Estava a estagiar e fui para a cozinha para fazer um estágio. Fiz até a minha tese de final de curso ligada à gastronomia. E acho que a partir daí começaram a perceber que era mesmo uma coisa mais séria. Dentro da seriedade que uma pessoa com 20 e poucos anos pode ter. Porque uma pessoa com 20 e poucos anos pode se enganar naquilo que quer. É perfeitamente normal. Mas lá consegui ir para Paris estudar. Ao mesmo tempo estava a estudar, estava a trabalhar na escola, ia ganhando créditos para também poder pagar o curso ou o curso tornar-se mais económico. Realmente o curso foi uma coisa que eu adorei. Adorei poder estar numa cidade como Paris, poder estudar na escola onde estudei e depois poder ficar lá a trabalhar. E depois foi chegar a Portugal e ingressar nesta vida. Entrar no Eleven, fui trabalhar para o Eleven ali no Parque Eduardo VII.
Estiveste lá quanto tempo?
Estive lá oito meses, com o grande chef Joaquim Corber e o subchefe dele na altura, que era o Cyril. Duas grandes pessoas que ainda hoje são minhas amigas e estimo muito. E depois abri o meu primeiro restaurante, saí do Eleven porque queria ter uma coisa mais simples, mais corriqueira, em que pudesse receber os meus amigos. Ter um restaurante com DJ, com mais onda, mais cool. Foi um grande sucesso o restaurante. Mas depois conheci a Maria e sempre tive aqui duas grandes paixões na vida, que foi a área social e a área da gastronomia. E quando a conheci, começamos a namorar e percebemos que tínhamos este sonho de poder dedicar um primeiro ano de vida como casados para os outros. E por isso fomos trabalhar como missionários para Moçambique. Tivemos um ano na cidade da Beira a trabalhar numa coisa que são os Leigos para o Desenvolvimento, que foi um ano incrível, um ano superduro, mas superbom a nível de casal e a nível do nosso projeto em si. E também de outra coisa, porque nós hoje em dia vivemos num mundo em que nos consome muito. Nós estamos sempre constantemente bombardeados de várias coisas que nos tiram de viver o presente.
E às vezes quase não temos tempo para pensar nessas questões.
E vivemos pouco o presente. Estamos sempre preocupados com o passado, com o futuro, ansiosos, telemóveis, televisão, rádio, tudo. E de repente, ali em Moçambique, tinhas tempo para pensar, tinhas tempo para sonhar, que eu acho que é uma coisa que é uma palavra que, apesar de a pronunciarmos algumas vezes, caiu no desuso esta coisa de sonhar. E sonhámos o projeto Comer o Mundo, que é um projeto que parece meio louco. Vamos passar por 26 países, morar com 26 famílias diferentes, como é que isto é possível? Viver com uma família no Japão, outra na Nicarágua, outra no Canadá, outra na Cochinchina, e montar este projeto, explicar este projeto, na altura foi o Expresso que nos patrocinou, explicar este projeto e conseguir que as pessoas acreditassem nesse projeto. Porque parecia uma coisa meio: "O que estes dois miúdos querem?" E foi um projeto muito pensado de uma forma muito naïf. Nós nem tínhamos uma máquina de fotografar, nem uma câmera de filmar. A minha mãe ofereceu-nos uma câmera de filmar dois dias antes, e que foi superimportante, porque depois fizemos imagens incríveis pelo mundo inteiro. E foi uma coisa que foi mesmo bonita e que eu às vezes olho para o livro que fizemos e para os filmes que produzimos e onde estivemos, eu às vezes nem me sinto protagonista da minha própria história. Eu olho para aquilo e digo assim: "Bem, eu realmente vivi isto. Eu realmente estive aqui, eu realmente estive com esta família no Japão, realmente passei por isto na fronteira com Tijuana". E de uma forma sinto: "Ai, bem, eu já vivi, já ganhei este mundo", que foi superimportante depois para quando cheguei a Portugal, aquilo que tenho vindo a fazer em termos de restaurantes. Eu não viajei com nenhum propósito de montar restaurantes inspirados no mundo, nada disso. Mas quando cheguei, depois foi mais fácil entender algumas coisas da cozinha portuguesa e da própria atualidade que nós passávamos naquela altura em Portugal. Eu chego também numa altura de crise, agora parece que a palavra crise acompanha-me sempre. Mas chego ali em 2008, 2009, até havia malta que dizia: "Então não vais para o Brasil, para Angola, não sei o quê. Isto de Lisboa está péssimo, troicas e afins." Eu disse: "Não, mas tenho saudades de estar aqui." E abri o Talho e na altura foi um grande sucesso, tive a hipótese também de começar a fazer televisão. Passei num casting de uma forma muito engraçada, que nem me tinha preparado para o casting, tinha lido o casting na diagonal. Fiz um casting assim mesmo engraçado, lembro que era o Hélder e a Raquel, duas pessoas da Shine Iberia que me faziam perguntas e eu ia respondendo a pensar. Lembro-me de ter saído do casting, ligar ao meu sócio e dizer: "Não te preocupes que eu nunca serei o Henrique Sá Pessoa, nem nunca serei o Avilez."
Nunca ser escolhido.
Nunca vou ser conhecido, vais continuar a ter alguém anônimo. E de repente ligaram-me a dizer: "Tu foste a nossa primeira escolha." E eu disse: "Que engraçado!" Nunca tinha pensado que pudesse ter algum jeito para falar, até porque, em boa verdade, sempre fui muito tímido. No colégio era tímido, na escola era tímido, na faculdade era tímido.
Ninguém diria aqui.
É verdade, mas é mesmo.
Hoje aqui a falar na Rádio Observador.
Sim, hoje em dia já falo tranquilamente, não meço muito as palavras.
Aliás, estiveste num programa de rádio também durante seis anos.
Durante seis anos, por isso já ganhei algum traquejo. Mas lembro-me de ter ganho
Alguma noção de que falar em público não era assim tão difícil, quando eu era mais novo, antes de conhecer a Maria, eu fiz alguns projetos em Cabo Verde, como missões de dois meses. E aquilo que nós fazíamos pra angariar dinheiro era vender t-shirts no final das missas. Imagina, íamos a uma missa, no final o padre dava-nos o púlpito, nós íamos lá à frente falar e eu nunca queria ir. Não queria, até porque havia um rapaz, que era o Pedro Barbosa, que falava super bem, tinha tido um programa na televisão, na RTP2. Então ele assumia.
Ele assumia, ele era um grande craque, era o grande comunicador, punha as velhinhas todas a chorar e a comprar t-shirts. E houve um dia que ele faltou.
Ah, foi mesmo?
Foi mesmo. E estávamos na Igreja São Sebastião da Pedreira. Ninguém se fez ao vagalho, é um bom português, todos ficaram cá atrás, eu tive que ir apanhar a onda. Fui lá pra cima e de repente comecei a falar e ninguém percebeu nada daquilo que eu disse. E o padre de repente diz assim: "Como é que tu te chamas? Kiko, não é? Olha, vamos esquecer as pessoas que estão ali e fala só pra mim e conta-me aquilo que fazes". E eu estava super nervoso, a suar, e de repente deixei de olhar pras pessoas e comecei a falar pra ele, a contar. E ele: "Agora me faz um favor, que é: vais outra vez lá abaixo, sentas-te, voltas a subir outra vez e contas tudo outra vez". E foi uma aula, 200 pessoas na missa. E eu fiz aquilo, falei. Esse dia foi um super sucesso, batemos recorde de vendas de t-shirts e tudo mais. E a partir daí eu disse: "Deixa-me tentar outra vez". E comecei a ir e ganhei ali uma noção de que isto, afinal, não é tão difícil. E eu nem sei quem é esse padre, já nem me lembro, acho que nunca soube o nome dele.
E se calhar foi aí que se fez um grande comunicador.
E se calhar foi aí que foi o início. E depois tive a sorte também, acho que quando entrei pra televisão, gravei um programa com o chef Cordeiro e com a Catarina Furtado. E a Catarina, na altura, não era minha amiga, era a Catarina Furtado, uma pessoa da televisão que eu tinha imensa admiração, e ela me ajudou imenso. Foi uma pessoa que me ajudou muito, o Manuel Amar também, que era o realizador. Essas duas pessoas depois tornaram-se muito minhas amigas, mas me ajudaram muito. Aquelas pequenas coisas que um pessoa não sabe. Não dar as costas à câmera, postura pra trás, aprender a projetar a voz.
Nós vemos tudo muito bonitinho, mas há um trabalho por trás.
Mas há um trabalho grande por trás. E foram duas pessoas que me ajudaram muito. Acho que tive a sorte de ter ali dois grandes professores nesta arte, que é também saber comunicar.
Esta experiência que tu falaste, 26 famílias, que viveste com a tua mulher, a Maria, há a hipótese de termos uma versão 2.0 deste projeto ou nem por isso?
Eu nunca digo que não há hipótese. Não é agora o momento, não é que eu não gostasse de fazer isto. Ainda outro dia encontrei um amigo meu que deu agora uma volta ao mundo durante dois anos de barco, o Lufinha, com a mulher e com os dois filhos, e ele contava-me as peripécias de ter andado de barco durante estes dois anos pelo mundo. E eu olhava pra Maria e olhávamos um pro outro e dizíamos: "Fogo, temos que fazer isto outra vez algum dia, não de barco, obviamente."
É que vocês são os dois aventureiros nesse sentido.
Sim, eu adorava fazer isto com os nossos filhos, de poder viajar com os nossos filhos. Agora, não sei, o mundo é mais complicado, eu tenho muitas responsabilidades, tenho outras ambições neste momento. As minhas ambições é montar ainda um projeto que seja o meu projeto de restauração, que seja o máximo espelho da minha pessoa, seja o meu projeto mais pessoal. Ainda quero muito fazê-lo, e isto sim, é a minha ambição grande neste momento.
É nesse que estás a trabalhar neste momento? Já vamos falar disso, mas é esse que estás a trabalhar?
Eu neste momento ainda não estou 100% dedicado a ele, porque ainda estou a reorganizar todo o resto que tenho. Ainda acabei agora de fazer uma ementa nova na Cevicheria, fiz uma ementa nova no Talho, que devo lançar agora pra semana. Estou a arrumar um pouquinho a casa. Fiz uma ementa nova no El Mar, no Corte Inglês, e quero arrumar bem a casa pra depois, quando me lançar a isto, não deixar pontas soltas e conseguir estar 100% focado neste projeto.
Tu numa entrevista aqui no Observador, foi há um mês e pouco, disseste que gostava que fosse um dos restaurantes mais giros de Portugal, sem medo. Como é que se lida com essa gestão de expectativas? Porque estamos nesse processo, não é? E tu estás a arrumar a casa. É frustrante nesse processo, nesse caminho que estás a fazer?
Eu não sei se a palavra melhor é frustrante. É um processo um pouquinho, às vezes, solitário, é um processo de alguma angústia, é um processo de alguma dor, mas frustrante eu não sinto. Não sinto como frustrante porque não concretizei e não falhei. Eu sinto que é um processo moroso. Eu sou muito insatisfeito comigo mesmo, eu acho que nunca é suficiente. Acho que consigo sempre mais e que acho que consigo que as coisas sejam sempre melhores. Por isso, há sempre um lado de insatisfação constante, mas acho que essa insatisfação também é aquilo que nos faz mover. Mas é um processo difícil, porque se olharmos a restauração e os restaurantes nos últimos 30 anos, 20 anos, evoluíram de uma forma louca. Nós temos coisas inacreditáveis pelo mundo inteiro. E se nós nos quisermos bater com os melhores, é mesmo difícil. Nós vamos, por exemplo, a Copenhague, vamos ao Alquimista, vamos ao País Basco, encontramos coisas incríveis. Ou até mesmo em Portugal. Vamos ao Alma, vamos ao Belcanto, vamos à Casa de Chá da Boa Nova, vamos à Mesa d'Lemos, vamos a tantos e tantos restaurantes que nós temos em Portugal, que já têm um nível muito alto. Nós seguimos à Torre, Vasco da Gama, ao 50 Seconds e aquilo já é uma experiência inacreditável. E se nós queremos jogar esta liga, acho que é importante várias coisas. Primeiro, é não ter medo, ter noção da nossa qualidade. Eu já ando aqui há 20 anos, tenho muita noção daquilo que sou, não há nenhuma opinião que me possa destruir. Eu sei aquilo que consigo fazer. E ter ambição, mas saber que isto é um processo como uma maratona. Vamos ter que fazer as coisas quilômetro a quilômetro. Há quilômetros que vão custar, há quilômetros que vão ter alegria. Vamos ter a dopamina numa eternada ajuda pra nos alegrar o físico, mas outras vamos chegar a casa e vamos verter lágrimas. Mas é isto que também tem que me mover. Se eu chegasse aos 46 anos e dissesse: "Agora estou-me também, quero agora uma casa na praia", não, acho que não é isto.
E sinceramente, achas que isso vai acontecer? Achas que aos 70, 80 vai-
Talvez não, talvez nunca.
Também contra aquilo que conhecemos de ti, da tua ambição.
Acho que se calhar nunca vai acontecer. E talvez eu espero que se calhar nunca aconteça. Eu gostava que quando ligasse a televisão para ver a novela da minha vida, sentisse que tivesse vivido e não tivesse estado num estado amorfo durante a vida. Alheio, reativo, passivo. Não, vamos fazer. Com todas as dificuldades e neste momento passamos dificuldades muito grandes nesta indústria.
Quais são as grandes dificuldades neste momento do setor?
Hoje em dia é uma junção de várias coisas muito evidentes. Os portugueses têm menos dinheiro, a matéria-prima aumentou imenso, há um excesso de oferta, o turismo está mais polarizado, há muitas coisas que nos levam a isto. Depois, claro, há os problemazinhos do dia a dia. Ou está muito calor, ou está a chover. Ou há um mundial ou não há um mundial, ou joga o Benfica ou não joga. Depois há estas explicações, estas teorias das conspirações, que é sempre muito engraçado no meio da restauração. "Não está a funcionar porque é o último dia do mês, as pessoas ainda não receberam." Há sempre muitas teorias pequeninas, mas há as grandes. Estas questões mais macro, que são muito objetivas, e que nós não podemos fugir delas. Nós tivemos duas guerras que teimavam em não acabar, ainda tivemos alguma instabilidade. Esta questão da inteligência artificial, nós sentimos que o nosso trabalho e que o nosso futuro pode ser posto em causa e que o mundo vai receber uma mudança muito grande.
De que forma é que se sente essa questão da inteligência artificial na restauração?
Em tudo. Acho que qualquer empresa, hoje em dia, sente que consegue ter menos trabalhadores utilizando a inteligência artificial. Talvez na cozinha seja mais complicado, mas talvez nas redes sociais, talvez em muitas outras áreas que não exijam dois braços nem duas pernas, mas que exijam apenas um motor de pensamento por trás, faz com que nós consigamos perceber, de uma forma objetiva, que talvez com 7 bilhões de pessoas na Terra, se calhar algumas delas vão ficar sem trabalho. É difícil sentir isto. É uma coisa de uma magnitude muito grande. Isto é uma nova revolução industrial, mas com uma força muito grande e com uma imprevisibilidade muito grande. Por isso acho que é ir dando os passos de uma forma serena, percebendo que pode vir aí uma onda grande, que pode mudar um bocado isto tudo, mas enquanto houverem ondinhas pequenas, é ir passando a rebentação de uma forma inteligente, mas com garra, sem queixume e sem esta teoria do coitadinho.
Não és um homem de reclamar.
Eu sou um homem de reclamar para mim. Tendo de reclamar para mim e para as pessoas que estão próximas. Ou seja, acabo por, com os meus sócios, às vezes, desabafo, com a minha mulher e comigo, mas tendo sempre a não passar isso para os outros. Acho que os outros não têm que carregar isto. Os meus colaboradores nunca sabem dos meus problemas, acho que não podem saber, não têm que levar com a minha energia quando ela não está no ponto mais alto. E eu acho que o reclamar às vezes é importante, porque é importante nós formos cá para fora algumas coisas.
Liberta. Acima de tudo.
Liberta, mas não nos agarrar a isto. E não nos agarrar ao reclamar, porque é muito fácil nós conseguirmos ligar a televisão e de repente vermos uma guerra no mundo e vermos pessoas tristes e dizemos que a nossa vida é melhor, mas é por comparação. Acho que também faz muito pouco sentido isso. Acho que o que faz realmente sentido é talvez a segunda coisa que eu há bocado não te disse, que disse que quais é que eram as minhas bengalas para viver o dia a dia. Eu disse que o desporto era uma delas e a segunda não disse, que é encontrar um tempo para pensar ou para não pensar. E acho que uma das coisas que eu tenho vindo a descobrir muito nos últimos dois anos, chamar-lhe-emos meditação, chamar-lhe-emos o que quisermos, mas é encontrar um espaço no nosso dia a dia, seja ele de 20 minutos ou de 30, para não pensarmos. Para criarmos algum espaço vazio para conseguirmos ler-nos a nós próprios e lermos o mundo. Não é um espaço de oração, de nada assim muito organizado, mas é um espaço de silêncio. E acho que o silêncio é algo que nos escasseia e nós precisamos muito de silêncio.
Tu sentes-te bem no silêncio?
Eu sinto-me bem no silêncio, mas às vezes não me sinto. Às vezes o silêncio incomoda imenso. Há uma frase muito bonita, já não sei quem é que dizia esta frase, entre um casal, quando o silêncio é confortável, um casal está bem.
Quando ambos se podem dar ao luxo de estar em silêncio e confortáveis.
Sim, e confortáveis, sem estar preocupado com o telefone tocou, mas quem é que era e estavas a falar com quem e não sei quê, e ainda gostas de mim, aquelas coisas meio patéticas. E conosco próprio, quando o silêncio é-nos confortável, quando nós estamos bem no nosso silêncio, também é sinônimo que nós estamos bem na vida. E acho que isso é manifestamente importante. E criar este hábito, criar isto com disciplina, encontrar no nosso calendário do dia a dia, na nossa rotina, encontrar um espaço para isto, preferencialmente quando não se está cansado e num lugar sereno, pode ser no carro, pode ser parado, pode ser a andar, pode ser no sofá, pode ser onde quer que seja. Mas isto tem sido uma coisa muito importante para mim. Aprender a encontrar este espaço para encontrar silêncio. O nosso querido Tolentino Mendonça dizia isto e várias coisas da importância de ouvir-nos a nós próprios, da importância de ouvir um barulho ensurdecedor que às vezes existe no silêncio. Que é mesmo, às vezes o silêncio tem muito ruído, tem muito barulho, tem muita agitação. E por isso é aí que nós temos que também saber encontrar as notas desta música no silêncio.
Tu há bocadinho falavas e usaste aí uma bela metáfora sobre a novela da tua vida. Acreditas que num dos capítulos vamos ter, um dia, quando formos ver essa novela, a consagração com a estrela Michelin que tu tanto queres e estás a trabalhar para isso?
Não nego que não gostasse de ter uma estrela Michelin, uma ou mais, de maneira nenhuma, mas não é esse o objetivo da minha vida. Não posso nunca reduzir um trabalho de 20 anos a um restaurante só. Ou seja, para mim, esta questão da consagração não vem de um prêmio. A consagração vem de eu acabar, como estava te dizendo há bocado, de sair da Cevichería e emocionar-me. Demos 70 almoços e continuar cheia, e clientes dizerem que vimos a Portugal há 15 anos e o primeiro espaço onde nós vimos almoçar ou jantar é a Cevichería. Estavam outros clientes madeirenses lá fora que diziam: "Nós sempre que chegamos a Lisboa, o primeiro espaço onde vimos comer umas ostras com leite tigre é na Cevichería". Isto pra mim já é uma consagração, uma felicidade extrema. Ao longo da minha vida fui recebendo alguns prêmios, restaurante do ano, chefe do ano, chefe d'avenir, mas foram prêmios que eu não sei se o momento de uma estrela Michelin ou de um prêmio é um momento estático. Ou seja, pra mim vale muito mais o processo pra lá chegar e o caminho pra lá chegar do que propriamente isso. E já tive muitas consagrações na minha vida, muitos sentimentos de consagração. Agora, se ter um dos melhores restaurantes de Portugal também leva a que tenhamos uma estrela, tivemos esse galardão, que a receberemos com todo o gosto. Agora, o objetivo máximo é trabalhar para que a experiência de alguém neste espaço seja verdadeiramente única e que ele saia de lá e dizer: "Fogo, fui ao restaurante novo do Kiko, comi muito bem, aquilo foi uma experiência única, aquilo marcou-me, eu gostava muito que tu fosses lá". Isto pra mim é top. Essa é a verdadeira consagração. Acho que não vou cingir a uma, com todo o mérito, e eu tenho muito respeito pela Michelin, daquilo que vou conhecendo, parece-me um método de avaliação supersério, superdigno, o trabalho que eles fazem acho que é de um rigor enorme. Claro que com as suas imprecisões aqui e ali, com os seus ajustes aqui e ali, mas é de uma seriedade enorme aquilo que eles fazem e de uma dificuldade enorme, por isso, se recebê-la, receberei-a de braços abertos e se receber uma, lutarei pra duas e por aí em diante. Mas é muito isto, é de conseguir, acima de tudo, criar um espaço em que se a minha mãe for lá, se tu fores lá ou qualquer ouvinte for lá, ele conseguir dizer: "Olha, estive aqui três horas, estive aqui quatro horas, isto foi incrível. Estes gajos pensaram isto da A a Z, pensaram a comida, pensaram a luz, pensaram tudo. Está tudo bem pensado e isto é ótimo". Isto pra mim já seria uma supervitória, mesmo.
Diz-se muitas vezes que no sucesso temos sempre muitas pessoas ao nosso lado, amigos, conhecidos. Como é que tu lidas com os fracassos?
Acho que lido mal. Acho que um fracasso nunca se pode lidar bem. Acho que quem disser o oposto ou é um grande poeta ou então não sei, mas eu lido mal com o fracasso quando sinto que as coisas não estão a correr bem, mexe comigo, não durmo bem, fico inquieto, fico com vontade em dar a volta às coisas. Não sinto nada aquela máxima que existe nos livros de gestão, que é um grande homem vê-se na gestão dos fracassos. Não sei, acho que uma pessoa vê-se na gestão dos fracassos e dos sucessos e no dia a dia. Não é nenhum momento particular, a vida é um somatório de várias coisas. Por isso aquilo que o fracasso me leva é a vergar a mola e partir. Seja falhar numa maratona ou falhar num restaurante ou falhar em alguma coisa com um amigo. O falhar, no que quer que seja, leva-me a pôr a mão na consciência e tentar perceber: "Estou a fazer isto mal e tenho que fazer isto bem. Tenho que me entusiasmar mais, tenho que pensar mais, tenho que trabalhar mais". Mas às vezes nós podemos pensar tudo bem, tudo na nossa cabeça. Esforçamos e as coisas podem não correr bem, porque às vezes é isto. Às vezes há restaurantes que caem no gosto e outros tantos não caem no gosto. Às vezes há dias que correm bem, outros dias não correm bem. Outro dia a minha mulher mandou uma entrevista de um jogador de basquete que respondia a um entrevistador, porque ele dizia-lhe: "Esta época pra si foi um fracasso". E ele punha as mãos na cabeça, o jogador de basquete, e dizia: "Olha, o Michael Jordan jogou 15 anos, ou 12 anos, já não sei. E ele foi campeão quantas vezes? Seis anos. Então e os outros seis? Foram seis fracassos que ele teve?" E ele dizia: "Às vezes a vida é isto, às vezes não temos sucesso".
Temos um exemplo mais próximo também, o Cristiano Ronaldo, por exemplo.
Tantas vezes. Mas aquilo que nós vemos é o Cristiano, quando ele é criticado, quando ele é posto à prova, quando ele reage. E tem vindo a reagir, já nos deu tantas alegrias a Portugal. Agora, eu não tenho nem um décimo da força do Cristiano, mas ambiciono tentar ser melhor no dia a dia, nas várias valências que eu sou. Que sou pai, que sou marido, que sou sócio, que sou cozinheiro, que sou chefe, que sou líder de equipas, que tenho uma responsabilidade também pública. Nestas várias valências, tento sê-lo melhor. E pra ser o melhor, recorro àquilo que te falava há pouco, das minhas bengalas, de conseguir parar no dia a dia, de pensar, ao desporto. Essas são as máximas da minha vida, mas que muitas vezes são percorridas também com desânimo, com tudo aquilo que faz parte do ser humano. Ou seja, não vivo sempre num estado utópico de alegria extrema, isso é meramente balelas pra quem nos ouve. A vida é isto, a vida é este confronto entre o desânimo e a garra. E nós temos que procurá-la onde quer que seja. E eu, pra mim, consigo encontrá-la na cozinha, consigo encontrá-la nos amigos, na fé, no desporto. E é isto que me leva A querer continuar a viver e a fazer projetos, que é o que me dá pica. E servir estas pessoas. Eu teria muita dificuldade em ter a vida de um arquiteto. E o arquiteto foi um exemplo que encontramos há pouco, que é montar uma coisa para daqui a três anos alguém ver. E esta comida tem esta coisa fantástica, de cozinhar, mudar, entregar. "Não gostei por isto", então o cliente seguinte já pode levar um-
E a instância também de ver a reação das pessoas.
Sim.
Vives muito disso.
É muito único. E acho que é uma coisa também que me alimenta o ego, que me alimenta o umbigo, que é sempre uma coisa importante. Eu acho que não há nenhum cozinheiro que eu conheça, nem nenhum chef de cozinha que não tenha um ego grande. Nós todos somos seres altamente vaidosos e somos seres com egos.
Como é que se lida com o ego?
Eu acho que tem que lidar com inteligência. Primeiro, a base da inteligência é nós termos noção do que nós somos. Ou seja, uma pessoa dizer que é supervaidosa, supercuidadosa, e depois não admitir isto.
Tu és vaidoso.
Eu sou vaidoso. Sou vaidoso, tenho um ego grande, gosto de ser reconhecido, gosto que me deem palco, gosto de uma série de coisas. Agora, se eu aceitar isto, eu mais facilmente percebo que às vezes tenho que dar palco aos outros. Vejo miúdos novos a vir, eu tenho é que lhes dar palco a eles, tenho que mostrar que eles estão bem, que estão a fazer um bom trabalho. Não posso é dizer o contrário. E tenho que ter noção que tenho validades. Nós todos temos validades na vida. O Zidane não continua a interferir. Esta semana ele não interferiu no jogo. Já estava no banco, na arquibancada, no estádio a ver o jogo. Nós temos validades e por isso temos que ter esta noção. Primeira noção de quem nós somos, noção da nossa validade. E outra coisa muito importante, que é noção de quem nós somos e daquilo que nós fizemos. Olhar para trás e dizer: "Eu não sou assim tão bom, mas também não sou assim tão mau. Se calhar há aqui um meio-termo." Às vezes, a pessoa de repente vê: "Isto agora é só putos novos." Não, espera aí. Está bem, tenho 46 anos, estou a lidar isto há 25. É normal que a comunicação social procure estes miúdos novos. Mas eu já cozinhei com o Gordon Ramsay, eu já ganhei este prémio, já tive o restaurante do ano, continuo cheio. O Talho tem 16 anos e continua cheio todos os dias. E é importante isto, é importante este equilíbrio. Mas este equilíbrio é fruto de maturidade, é fruto de tempo, é fruto de vida. E de outra maneira é impossível. Não se constrói isto a ler livros de gestão.
Kiko Martins, tu vês muito de ti nesses jovens, muitos deles que se calhar trabalham contigo e que estão agora a dar esses primeiros passos. Quando tu começaste, por exemplo.
Vejo, vou encontrando alguns, vou ficando superorgulhoso. Não te disse isso há pouco, mas às vezes vejo miúdos que trabalharam comigo, que depois seguem os seus caminhos, que abrem os seus restaurantes. Isso dá-me imenso orgulho. Custa-me a saída, alguém que trabalhe comigo seis anos, sete anos.
Vem a emoção, que falávamos aqui no início da conversa.
E de repente vai-se embora. "Agora vou montar um restaurante", depois já tem três, já tem quatro e aquilo funciona bem e é uma grande máquina. E fico supercontente. Há uma cena daquele filme do "Thomas Crown Affair" em que, já não me lembro se era o Pierce Brosnan, que era o ladrão, que a uma altura ele vai mostrar um quadro, era a Renée Russo que vai mostrar um quadro à prisão de um pintor e pergunta se era dele, que era um pintor que estava preso. E ele olha para o quadro e faz assim um olhar, e ela não percebe o olhar dele, só o detetive. O detetive é que diz que o olhar dele não era por ele ter reconhecido que o quadro era dele, mas sim da filha dele. Foi a filha dele a pintar aquele quadro e o orgulho profundo que ele tinha, que ele tinha conseguido passar a habilidade dele, a genialidade dele, a elegância dele a pintar para a filha. E acho que isto é a coisa mais fixe. Quando nós conseguimos que os outros façam por nós, que nós não tenhamos que pegar na faca, que nós não tenhamos que pegar numa colher para empratar e que os outros consigam reproduzir ipsis verbis aquilo que nós fizemos, é giro, é motivo de orgulho.
Pai de quatro filhos, já aqui falámos muito da família, da Maria também, a mulher que está ao teu lado. O que achas que eles estão a aprender contigo?
Tens que perguntar isso à Maria e a eles. Acho que não, acho que os meus filhos ainda não sabem responder a essa pergunta. Talvez o Sebastião e a Gabriela têm 14 e 13 anos, conseguirão responder melhor a isto.
Eles vão entrar na fase da adolescência.
Sim, estou a ficar tramado. Os mais pequeninos dizem que aprendem a jogar futebol e a fazer panquecas japonesas e crepes e bolos de chocolate. Os outros não sei, eu tento lhes ensinar que a vida não é tão fácil quanto a geração deles acha, apesar de ser muito difícil.
É uma geração muito TikTok, não é?
É uma geração muito imediata. Nós hoje em dia temos uma dificuldade: "Quem é que foi aquele ator que fez aquele filme?" Pumba, ChatGPT responde logo. "O que é preciso para não sei o quê?" ChatGPT responde. Temos a vida, neste caso, e esta constância de poder ter tudo. Ou seja, eu cresci numa casa com sete irmãos, não tinha fiambre, não tinha Coca-Cola, não tinha uma série de coisas no frigorífico. Tinha que lutar pelas coisas. Hoje em dia há esta abundância, há mais coisas. E nós crescemos nesta abundância, nesta facilidade do dia a dia, o que é mais difícil. Tempos difíceis criam pessoas mais fortes. Tempos mais fáceis criam pessoas mais moles. E por isso acho que é difícil-
Fazer essa gestão no dia a dia.
Fazer a gestão. Mas também é outra geração. Porque não são os meus filhos. Eu acho que sinto que há uma grande franja da geração que acha que já nasceram e o mundo já lhes está a dever uma série de coisas e o mundo tem obrigações para com elas, e não o oposto. E acho que isso é que é difícil.
Kiko Martins, para terminar, o que te inquieta?
O que me inquieta neste momento é um pouquinho a inteligência artificial. Como é que nós vamos conseguir ser únicos e ser criativos e não deixar que as avenidas da liberdade, num sentido lato da palavra, tenham todas as mesmas lojas, ou seja, que sejam todas iguais. Vejo o mundo a caminhar para um lado muito igual. Os mesmos carros, as mesmas cores, a mesma forma de pensar, tudo muito igual. Parece que começamos a perder algum lado mais único. Esta cultura que se possa perder. Esta homogenização do pensamento, da forma de estar. Isto preocupa-me e preocupa-me várias outras coisas ligadas à inteligência artificial. Não sei se estaremos preparados para tantas mudanças que possam vir a ocorrer, nomeadamente amigos, pessoas a ficarem sem trabalho. E não é que venha aí o tempo das cavernas, mas na minha lógica de pensamento, acho que virão tempos mais difíceis. Não sei se demorará dois anos, ou 10 ou 20, mas acho também que somos um bicho que já demonstrou à Terra e ao planeta que sabe se adequar, mas vamos ver.
Estaremos cá para isso.
Estaremos cá para isso.
Kiko Martins, chef Kiko, simplesmente Kiko, como começámos. Muito obrigado por teres vindo aqui ao Observador e ao "Em 40 Minutos". Um grande abraço.
Obrigado.