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Acho que estamos todos muito perdidos. E em privado. Trazer estas conversas para o de cima, parece que sentimos uma liberdade de: "Afinal, eu não estou sozinho, posso falar sobre isto. Afinal, não é só da minha cabeça." Ou seja, eu ao longo destes anos sempre fui, pézinho a pézinho, descobrindo até onde é que eu posso, quais são os meus limites, até onde é que eu quero partilhar. E estes temas que me são mais sensíveis, sempre foi uma coisa que eu deixei mais para mim, porque eu não sei qual vai ser o impacto, não sei qual vai ser o feedback. Por exemplo, eu tive esta marca de roupa durante quatro anos.

A Flare.

A Flare, que entretanto optei por encerrar este negócio. E eu estava com muito medo na altura de fazer esta partilha, porque tinha medo do que as pessoas vão pensar, o que as pessoas vão dizer, vão achar que eu sou um fracasso.

Esse é o primeiro pensamento sempre, não é? As pessoas pensam: "Correu mal. Está a expor que correu mal."

E na altura, eu tinha, por exemplo, muito estoque da marca antes de encerrar, que eu queria me desfazer dele. E se eu não tivesse feito esta partilha honesta e vulnerável sobre o encerramento da marca, eu neste momento estava com esse peso em cima de mim. E como fiz essa partilha, senti logo um apoio gigante e consegui, em poucos dias, vender o estoque todo que tinha. Portanto, a vulnerabilidade é mesmo uma força. E isso foi uma coisa que eu fui descobrindo, que não veio logo, porque é difícil nós sermos vulneráveis e abrirmos para as nossas inseguranças.

Não começou a sua jornada a pensar em números, marcas ou alcance. Começou a comunicar para não se sentir sozinha, a falar para uma câmera como quem fala para um diário. Pelo caminho, percebeu que quanto mais se mostrava real, mais pessoas ficavam do seu lado. Ao longo do caminho, transformou exposição em trabalho, vulnerabilidade numa linguagem simples e empática. Criou uma comunidade sólida, em que cabem todas as dúvidas. Hoje constrói pontes entre o digital e o humano. Em breve leva conversas para o palco e lembra-nos que aquilo que sentimos não é um defeito. Faz parte. Mariana Ribeiro, em "40 Minutos". Bem-vinda, aqui é Rádio Observador.

Obrigada. Adorei esta introdução. Amiga, faz parte.

É verdade, já está aqui presente. É um podcast observador, João Miguel. É verdade, amiga, faz parte com Mariana Ribeiro. Olá, Mariana.

Olá.

Mariana, como é que uma economista ou uma futura economista acaba influencer digital?

Olha, uma economista que também tem um lado criativo e um lado da comunicação e que sempre quis explorar isto. E começou, principalmente, quando eu fui estudar para o estrangeiro, fazer Erasmus. Na altura, foi a minha primeira rampa de lançamento.

Em Budapeste, não foi?

Budapeste, exatamente.

Começaste a contar as primeiras histórias para o mundo digital lá?

Sim, foi no YouTube. No fundo, foram vlogs a contar a experiência no estrangeiro e na altura, há muitos anos atrás, isto foi há oito, nove anos, que não havia tanta gente a partilhar estas experiências no estrangeiro em português.

Quem eram as tuas referências na altura? Porque já haviam algumas, penso eu.

Era na altura de Sofia Barbosa, que estava muito em alta em Portugal, Inês Rochinha, estavam assim a começar, e principalmente pessoas também do lado de fora, que já faziam este estilo de vlogs. E eu achava aquilo um piadão. Eu estava a estudar na faculdade, coisas muito técnicas, muito teóricas, e queria explorar a minha criatividade e foi um bocadinho por aí. E também ter companhia, porque fui viver para fora sozinha e queria explorar um bocadinho também estas companhias virtuais. E acabou por ser uma coisa muito natural, sem segundas intenções. Nunca eu pensei que isto seria, no futuro, o meu trabalho.

Quanto tempo durou o teu Erasmus, Mariana?

Foram seis meses. Só que eu depois voltei para Portugal e como eu gostei tanto da experiência, eu fui tirar um mestrado em Barcelona. Estive lá um ano e meio e também foi a minha segunda rampa de lançamento, contar um bocadinho dessa experiência e mostrar todos os detalhes no YouTube do que é que era viver em Barcelona, o que é que era tirar um mestrado no estrangeiro.

Gostaste da experiência Erasmus?

Adorei. Cresci imenso, sinto que consegui crescer de uma forma que aqui em Portugal tinha sido impossível, porque nós éramos lançados aos leões, com imensas culturas diferentes, trabalhos de grupo muito na prática, que aqui em Portugal, pelo menos na faculdade que eu estava, sentia que era muito mais teórico. E senti que saí de lá muito preparada para a vida.

Aqui estudavas na Faculdade de Economia do Porto, não é?

Sim, exatamente.

Ainda que em Budapeste, Hungria, é isso?

Eu estudei na faculdade e fiz Erasmus, portanto, foram seis meses no estrangeiro. Depois uma mestrada, que foi um ano e meio, e depois acabei por ficar a trabalhar mesmo em Barcelona durante um ano.

Começaste há oito, nove anos. Quando é que tu sentiste que a tua comunidade começou a ser construída? Ou seja, tu já fazias vídeos, partilhavas. Quando é que sentiste que essa comunidade se começou a cimentar e tinhas mesmo pessoas do teu lado e fascinadas por aquilo que tu fazias, publicavas e partilhavas?

Eu sinto que eu nunca tive aquele momento de boom, de viral. Eu sempre tive um crescimento muito sustentável ao longo dos anos e sinto que acompanharam todas as minhas fases de estudar fora. Depois lancei também uma marca de roupa, também acompanharam muito esse processo. Inclusive lancei vários eventos, tive muito contato com o público e percebia que as pessoas acompanhavam mesmo aquilo que eu estava a fazer. Eu acho que a diferença e a ligação mais forte aconteceu quando eu criei o podcast, porque aí conseguiram conhecer outra camada minha ainda mais profunda, mais íntima, em que eu me comecei a abrir sobre outros temas que nunca tinha pensado falar na internet, como por exemplo, mais ansiedade ou distúrbio alimentar, coisas que eu própria estava a passar ao longo dos anos, mas que nunca partilhei muito na internet, porque partilhava sempre de uma forma mais leve em termos de vlogs e de lifestyle. E quando comecei a explorar esses temas, sinto que criei uma ligação muito maior com as pessoas. Portanto, foi a partir do momento em que o podcast passa para a Amiga Faz Parte, que eu acho que aconteceu um bocadinho dessa ligação mais forte.

Portanto, deixa-me ver se percebi. Deixaste de falar das coisas que tu vias no mundo para falar de ti no mundo.

Como é que eu via o mundo, exatamente. Acho que cresci, amadureci, e as pessoas acompanharam esse crescimento, e com o amadurecimento vêm também outras temáticas que eu quero explorar e outro tipo de ligação ou outro tipo de impacto que quero ter no digital.

Que tipo de impacto? E que tipo de temas? Ou que ligação, Mariana?

Eu acabo por partilhar muito daquilo que eu estou a viver. Por exemplo, falei também durante muito tempo da fase de dating, de estar solteira, de explorar todo esse lado e de fazer coisas sozinha, de conseguir aproveitar a vida e não deixar de fazer nada, explorar viagens sozinha. E acho que há muita gente, principalmente raparigas, que acabam por acompanhar mais o meu podcast, que a minha audiência é 90% mulheres, que acabam por acompanhar essa fase, a fase em que eu também passo por uma transformação em que começo a correr a nível de transformação desportiva.

Já vamos falar sobre isso, que eu estou muito curioso.

Descobrir o meu caminho no desporto, emagrecimento, descobrir o meu espaço também em termos de desenvolvimento pessoal. E acaba por acontecer essa mudança e sinto que as pessoas também se foram identificando comigo. E à medida que eu vou crescendo, também vão surgindo outros tópicos.

Interagem muito contigo os teus seguidores?

Eu acho que a partir do momento que eu lancei o podcast, essa interação aconteceu muito mais e muito mais profunda. Portanto, mensagens muito mais densas, comentários muito mais elaborados, porque acho que também se nós partilhamos e abrimos o livro, as pessoas também sentem mais vontade de entrar e partilhar as suas experiências.

Aliás, deixa-me só referir isto, João, porque tu há bocadinho falaste sobre isto. Tu fizeste um episódio sobre distúrbios alimentares e tu própria falaste do impacto que isso teve ao nível de mensagens que recebeste de pessoas que se identificaram contigo e com aquilo que passaste e que qualquer pessoa não está livre de passar. Esse impacto sente-se de que forma? E depois isso tolda também os passos a seguir, o facto de saberes que cada vez mais pessoas te ouvem?

É assim, nesse episódio específico, eu costumo comentar este fato que eu acho que é engraçado, que é: quase todos os episódios têm muitos comentários públicos e muito feedback público. E este episódio em específico foi dos episódios que eu senti que teve menos impacto em termos de comentários, mas mais mensagens.

Mensagens privadas dirigidas a ti.

Porque é um tema tão sensível que as pessoas não gostam, muitas vezes nem sequer comentam com amigos e família, mas como eu partilhei de forma vulnerável a minha experiência, sentiram-se à vontade de mandar uma mensagem privada e dizer: "Eu nunca comentei isto com ninguém, mas também passo por isto e senti-me identificada e obrigada pela tua partilha". E acho que este tipo de temas é que cria uma ligação ainda maior e que eu sinto que está tendo um impacto. Que estou mesmo a chegar às pessoas e que eu própria também me sentia durante muito tempo sozinha em relação a estes assuntos e sinto que estou a ter esse papel também nas outras pessoas.

Mariana, o "Amiga Faz Parte" é um conjunto de podcasts, conversas descontraídas para ajudar jovens adultos a enfrentar esta fase da vida. A descrição é minha, está correta, certo?

Perfeito.

Que problemas? Entre os 20 e os 30 não somos todos imortais? Não vamos viver para sempre? Oh, João Miguel. Que problemas é que tem um adulto com 20 anos, Mariana?

Esse discurso é de uma pessoa que provavelmente já passou por isso e agora já não se lembra das dúvidas que tinha na altura.

Já foi há muito tempo. Não parece, mas já foi há algum tempo. Não somos imortais aos 20 anos?

Acho que é uma fase em que nós podemos ser tanta coisa, em que nós seguimos aquele caminho certinho de escola, faculdade, e depois, de repente, qual é o caminho certo? Eu já não sei, eu agora posso ir para todos os lados e mais alguns.

O caminho é o que tu quiseres.

Mas isso pode ser bom, mas por outro lado, qual é o caminho certo? E para onde é que eu vou?

Tu sentes que os jovens entre os 20 e os 30 anos, os jovens adultos, andam meio perdidos, é isso?

Acho que estamos todos muito perdidos. E em privado. E trazer estas conversas para o de cima, parece que sentimos uma liberdade de: "Ah, afinal eu não estou sozinho, posso falar sobre isto. Afinal, não é só da minha cabeça".

A insegurança alguma vez te tramou de alguma forma nesse teu caminho que tens construído e tens dito aqui ao longo da conversa que tem sido muito consolidado esse crescimento? Ou o medo do desconhecido.

Ou seja, eu ao longo destes anos sempre fui, pézinho a pézinho, descobrindo até onde é que eu posso, quais são os meus limites, até onde é que eu quero partilhar. E estes temas que me são mais sensíveis, sempre foi uma coisa que eu deixei mais para mim, porque eu não sei qual vai ser o impacto, não sei qual vai ser o feedback. Por exemplo, eu tive esta marca de roupa durante quatro anos.

A Flare.

A Flare, que entretanto optei por encerrar este negócio. E eu estava com muito medo na altura de fazer esta partilha, porque tinha medo do que as pessoas iam pensar, o que as pessoas iam dizer, vão achar que eu sou um fracasso.

Esse é o primeiro pensamento sempre. As pessoas pensam: "Ah, correu mal".

E na altura, eu tinha, por exemplo, muito estoque da marca antes de encerrar, que eu queria me desfazer dele, e se eu não tivesse feito esta partilha honesta e vulnerável sobre o encerramento da marca, eu neste momento estava com esse peso em cima de mim, e como fiz essa partilha, senti logo um apoio gigante e consegui, em poucos dias, vender o estoque todo que tinha. Portanto, a vulnerabilidade é mesmo uma força e isso foi uma coisa que eu fui descobrindo, que não veio logo, porque é difícil nós sermos vulneráveis e abrirmos para as nossas inseguranças.

Mas a força não virá do fato de tu teres uma conexão muito direta com milhares de pessoas, sei lá, os teus números, tens mais de 100 mil seguidores no Instagram, por exemplo. Isso é um poder imenso, não é?

Eu não sinto tanto isso. Não consigo ter bem essa noção, porque números são números.

É mais do que um estádio do Benfica.

Pois, mas eu não consigo ter essa noção. Eu sinto muito mais o impacto. Por exemplo, eu já organizei alguns eventos presenciais, e quando elas vêm ter comigo e há pessoas que vêm e começam a chorar e contam histórias de impacto de que algum episódio teve, aí é que eu percebo: "Bem, isto é mesmo uma cena". Mas no dia a dia não consigo olhar para aqueles números. Posso ter 100 mil e ser um 100 mil. Não consigo.

Ou seja, não consegues atribuir rostos e pessoas aos números que tens nas redes sociais.

É mais os mensagens que vou recebendo, nos comentários que vou recebendo, aí é que eu percebo o impacto.

Deixa-me só voltar um bocadinho atrás, aos jovens entre os 20 e os 30 anos. Não tenho nenhuma fixação com este segmento, mas gostava de perceber: o que tu achas que inquieta as pessoas com 20, 21, 22, até os 30 anos?

Eu acho que as redes sociais vêm aqui extrapolar muitas questões, seja a comparação de acharmos sempre que nós devemos estar mais à frente que os outros à nossa volta. A comparação sempre existiu e conseguimos comparar com as pessoas, com os nossos amigos, com os nossos familiares, mas nas redes sociais ainda leva tudo a uma outra dimensão, seja a comparação corporal, depois associarmos muito à distorção de imagem, a estarmos sempre a competir com ter aquele corpo ideal, quando se calhar nas redes sociais nem sequer é realidade, nem sequer representa a realidade. Comparar-nos com: aquela pessoa já casou, aquela pessoa já teve filhos, eu já devia estar ali, está com aquele emprego. Portanto, eu acho que é um bocadinho da comparação, um bocadinho de nos sentirmos perdidos, qual é a decisão certa, para onde eu devia estar a ir, onde eu já devia estar. Isto tudo causa ansiedade, ansiedade do futuro.

Portanto, tu estás a falar para uma geração ansiosa e angustiada.

Sim.

É?

E eu faço parte dela.

Como é que lidas com essa ansiedade e com um termo que nos últimos anos temos vindo cada vez a falar mais, a terapia. Está cada vez mais presente e há cada vez mais jovens, e ainda bem, a fazer terapia porque sentem essa mesma ansiedade que tu falas.

Sim, a mim ajudou-me muito e ajuda muito. Ainda continuo em terapia hoje em dia, porque acho que é fundamental. E tenho várias ferramentas, não é só a terapia, tenho também a escrita, o journaling acaba por também me ajudar no meu dia a dia. O próprio desporto acabou por me ajudar muito a limpar a cabeça, a corrida, que eu descobri que é a minha melhor ferramenta para também estar constantemente alinhada. Mas a terapia também apareceu numa fase em que eu estava também um bocadinho a questionar tudo, o que eu quero fazer, para onde eu quero ir, que decisões eu quero tomar. E também a minha ligação, como já falamos aqui, do distúrbio alimentar, de curar esta minha relação com a comida, com o meu corpo, lidar com estas comparações que eu tanto aqui falo. Acho que é um apoio que é importantíssimo, principalmente para um jovem adulto que se sente perdido nesta fase.

Estamos agora na altura do Natal. Estamos a gravar este episódio dia 18 de dezembro, sai no dia 21. O Natal é sempre uma altura um bocadinho mais problemática, em termos de frases que são ditas às vezes por familiares e se calhar vais te relacionar com aquilo que eu digo: estás mais magra, estás mais gorda. Isso chegou a acontecer contigo de alguma forma?

Várias vezes.

Isso também te instalou algumas inseguranças.

Várias vezes, principalmente como eu não morava em Portugal, quando eu voltava, havia sempre comentários: "Estás mais gordinha, estás mais cheinha". E já era uma coisa que mexia comigo, ouvir aqueles comentários. Eu estou no Natal, se calhar já não vou comer aquilo que me apetecia comer, porque aquela pessoa vai estar a olhar para mim e já me vai estar a julgar. Isto na nossa família é difícil de lidar, porque são pessoas que gostam de nós e que a opinião também valorizamos e estão a julgar a minha aparência que já me incomoda no meu dia a dia, portanto, estão a trazer ao de cima uma das minhas maiores inseguranças. Isso também foi um processo de eu mostrar às pessoas à minha volta que isto que estás a fazer está me a incomodar, por favor, não o faças. Só que educar as gerações mais velhas acaba por ser mais complicado. Portanto, temos de fazer as pazes conosco próprios muitas vezes e não estar à espera que as pessoas à nossa volta mudem.

Tu achas que é possível educar as gerações mais velhas?

Acho que podemos chamar a atenção, mas acho que é difícil.

Se tivesses o poder de educar já rapidamente ou de mudar o comportamento das gerações mais velhas em Portugal, o que é que farias, Mariana Ribeiro?

Olha, punhas a ouvir o "Amiga Faz Parte".

Eu estava à espera de algo mais transformador para o mundo. Não desfazendo o podcast do "Amiga Faz Parte", obviamente.

Não, mas acho que é principalmente chamar a atenção. E estamos a falar aqui do caso do corpo, mas também comparação de gênero. "Porque é que ainda não tens namorado?" Eu tenho imensas amigas que também sentem muito esta pressão dos avós.

Isto é só um exemplo, no fundo.

"Porque é que não tens namorado? Olha a tua prima que já tem namorado." Estamos constantemente a ouvir estas coisas que parecem inofensivas e parecem na brincadeira, mas que ficam ali a moer na cabeça. E que se já é uma insegurança tua, então vai trazer isso ainda mais ao de cima.

A Mariana na infância já era esta pessoa que temos aqui à nossa frente hoje, muito interventiva, que gostava de também falar e posicionar-se contra as injustiças, ou era mais retraída?

Eu era a menina mais tímida da sala, sempre fui. Eu acho que foi por aí que também fui pra internet, porque queria revelar aqui esta Mariana que estava escondida. Mas sempre fui a pessoa mais tímida de sempre.

Qual foi o primeiro filme que realizaste ou o primeiro vídeo que fizeste pra internet?

Foi a ir fazer as malas pro meu Erasmus em Budapeste.

Portanto, já era uma coisa premeditada isso, desenvolver o vlog.

Comecei a acompanhar pessoas no YouTube e achei piada. Por que não fazer? E é num espaço seguro, é no meu quarto, no meu espaço seguro, na minha câmera, porque é uma coisa que eu ainda hoje em dia sinto muito mais confortável em fazer o meu podcast e os meus videozinhos em casa do que estar aqui. Estou bem.

Boa!

Mas ainda é uma coisa que não é assim tão confortável, porque não é o meu espaço seguro, não estou a controlar.

Como é que tu convives com o teu historial digital, Mariana? Convives bem? Há pessoas que apagam os vídeos antigos e dizem: "Eu não sou esta pessoa mais, não quero que vejam mais."

Gosto de rever algumas coisas.

Mas estão disponíveis todos os teus vídeos?

Não, não estão todos. Alguns eu arquivo.

Sim, por quê?

Porque há ideias que eu não me identifico tanto.

Desculpa a provocação, porque podiam destruir a persona Mariana Ribeiro, autora do "Amiga Faz Parte"?

Não, acho que não iam destruir nada, mas acho que é um bocadinho isso, de alguns valores, se calhar, já não estão tão refletidos ali naqueles vídeos, algumas ideias que já não acredito tanto.

Diz-me uma coisa que tenhas apagado e tenhas pensado: "Não, eu não posso..." Vou arquivar isto que eu não quero que vejam mais. Eu não quero mostrar-me ao mundo assim.

Um exemplo muito concreto que nos primórdios do meu YouTube fiz um vídeo que era com uma marca, eu não vou dizer a marca, mas uma marca de fast fashion de lá fora em que mandavam em muita quantidade e faziam um round de imensas coisas. Hoje em dia não é uma marca que eu consuma, nem um tipo de moda que eu queira consumir, não me faz sentido ter aquele vídeo online.

Ok.

Portanto, é mais por aqui.

Tu falavas da questão da insegurança, que eras uma menina muito retraída, podemos dizer assim. Não tiveste medo quando começaste a publicar esses primeiros vídeos da opinião alheia, daquilo que se ia gerar à volta das tuas publicações? Porque esse é sempre um medo que surge, não é? Trancaste a caixa de comentários.

Não, eu tinha medo era mais da reação das pessoas que já me conheciam, mas eu achei que as pessoas não iam ver, que não ia chegar lá.

Ops.

Só que depois comecei, na altura na faculdade, comecei a receber alguns comentários, mas por acaso continuei na mesma. Afetava-me e era difícil lidar com as pessoas fisicamente.

Às vezes há muitas pessoas que desistem nesse primeiro obstáculo, nesse primeiro confronto com a opinião pública.

Eu acho que no final do dia eu gostava tanto daquilo, sempre gostei muito, que foi: "Eu vou fazer na mesma".

Mas o primeiro feedback foi positivo?

Não, porque era ridícula, na net a falar. Na altura era ridículo.

Sim, há oito anos havia muita resistência.

Não havia essa profissão e eu própria era uma miúda a falar na internet para dizer umas coisas.

Para ti é uma profissão?

É a minha profissão, sim.

Muito bem. Mariana Ribeiro, do "Amiga Faz Parte", está aqui conosco na Rádio Observador. Já vamos falar a seguir do teu espetáculo ao vivo, que é uma grande novidade para 2026. Já lá vamos. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e já voltamos. Até já. Segunda parte do Em 40 Minutos. Esta semana estamos com Mariana Ribeiro, "Amiga Faz Parte", mas também já deste casa, "Amiga Dá as Casa", não é? Foi a primeira versão deste podcast.

Exatamente.

Consegues transpor aqui uma linha entre estes dois projetos ou eles acabam por se fundir um no outro?

É assim, o "Amiga Dá as Casa" inicialmente surgiu porque eu estava a viver em Lisboa, sou do Porto, e recebia muitos amigos constantemente em minha casa e tinha tantas conversas que eu pensei: "Estas conversas eram giras de ir online". E foi numa ótica de uma coisa muito descontraída, era superamador, era eu que gravava com três telemóveis, superamador. Mas aquilo começou a correr bem, eu comecei a gostar daquele formato e comecei, curiosamente, a explorar dentro do "Amiga Dá as Casa" episódios a solo, em que eu ia explorando um tema mais profundo aqui, um tema mais profundo ali, e eu comecei a sentir que esses episódios até estavam a ter mais feedback e mais impacto. E eu comecei a pensar: "Ok, se calhar isto daqui podemos explorar outros temas ainda mais relevantes". E decidi apostar e ir para estúdio, e foi aí que fez sentido fazer a mudança para o "Amiga Faz Parte". E a partir daí comecei a não trazer tantos amigos, mas mais pessoas que me inspiravam, que eu queria ter outro tipo de conversas, e ser um mix entre eu, miúda de 26 anos, a ter dilemas e a explorar estes temas, com também conversas com outras pessoas que eu acho interessantes.

E esse "Amiga Faz Parte", pelo que sabemos, aliás, é um podcast que faz parte aqui do catálogo do Observador, vai ter um espetáculo ao vivo.

Sim.

E eu quero muito perceber como é que tudo isto vai acontecer. Sei que vais trazer convidados, mas qual é o objetivo deste espetáculo?

O objetivo é trazer, finalmente, para um espaço, para uma experiência física, aquilo que as pessoas têm acompanhado ao longo deste último ano. Portanto, vamos ter várias temáticas que impactam os jovens adultos entre os 20 e os 30. E mais.

O João Miguel Santos vai, estou aqui a garantir.

Não é só 30, porque eu tenho muita gente que vem sempre criticar, dizer: "Não é 30, que eu tenho 35 e também ouço".

Sim, porque há jovens adultos de 40, 40 e mais.

Claro. Portanto, vamos ter estas temáticas todas. Quero trazer um bocadinho também do meu espaço a solo, como eu faço também no podcast, um bocadinho de espaço de amigas e um bocadinho de espaço com convidados. Portanto, vamos ter um bocadinho das várias dinâmicas que vamos tendo ao longo do ano com o "Amiga Faz Parte".

Portanto, será um espetáculo multissegmento, é isso?

Exatamente, com vários segmentos, que vai pôr as pessoas também a pensar, a refletir sobre a sua própria vida. Estamos mais ou menos no início do ano, portanto, acho que mais do que um podcast ao vivo, é uma experiência.

Olha, um dos territórios mais populares nas redes sociais é o humor. Tu não te sentes muito bem nesse território ou sentes?

Não é a minha praia, mas também nunca tivesse essa intenção de entrar pelo humor. Portanto, o espetáculo é entretenimento, é reflexão, mas não é humorístico, não vai ser. Porque a minha vibe também no "Amiga Faz Parte" nunca foi nessa ótica.

Ok, portanto, não te veremos a fazer stand up comedy, nem nenhum segmento de stand up comedy, é isso?

Do todo. Eu a fazer stand up e a falar de terapia.

Era uma estreia. As pessoas que vão a este espetáculo vão ter também um papel importante, podem interagir de alguma forma? É isso que tu queres também?

Sim, vão haver momentos em que elas próprias vão poder refletir sobre elas mesmas e alguns exerciciozinhos para envolver também. Que eu já fiz alguns eventos com a minha audiência e sempre foi nessa ótica de fazer as pessoas pensar, refletir e também trocarmos ideias, no fundo.

E como é que estamos ao nível de bilhetes? Isto está quase esgotado.

Olha, eu acho que temos uns quatro na plateia.

Pronto, não sabemos. Quatro disponíveis.

Quatro disponíveis.

Pronto, é um para mim.

E temos alguns no balcão lá em cima, portanto, se quiserem manter-se

Não sabemos se no domingo, quando passar este episódio, ainda vão estar disponíveis estes bilhetes. Fazemos aqui a ressalva, porque entretanto... E imagina, tu podes ser a prenda de Natal para muitos jovens.

Sim. Por acaso recebi hoje uma mensagem que era a pedir, queriam oferecer no Natal e queriam que eu enviasse um vídeo a contar a prenda. Achei engraçado.

Muito giro. Muito bem. Olha, eu tenho muita curiosidade em saber mais coisas sobre ti, sobre a pessoa Mariana Ribeiro. O que é que inquieta a cidadã Mariana Ribeiro, que faz o "Amiga Faz Parte"?

O que é que inquieta? Isto vai mudando ao longo do tempo, vai mudando dia a dia. Mas hoje em dia eu sinto que o ano passado me inquietava muita coisa e eu falava sobre todas essas inquietações e ao longo deste ano fui mudando muita coisa e as pessoas foram acompanhando todas estas minhas mudanças e hoje em dia sinto que estou uma pessoa muito mais calma, com uma rotina muito mais estabelecida. Mudei-me para o Porto também e fez parte dessa Dessa mudança. E hoje em dia consegui construir uma rotina, uns objetivos e uma motivação no meu dia a dia, que acho que está cada vez mais alinhada comigo, que sempre foi o meu objetivo.

Mas o que te inquieta como cidadã? Olhas para o mundo e que reflexões te provoca o mundo? A fome em África, o ambiente, a urgência climática, Mariana? Explica-nos.

Inquieta-me muito a questão das redes sociais e da inteligência artificial. É um tema que eu acabo por abordar muito também no meu podcast.

As redes sociais, o que é que te provoca inquietação?

A nossa prisão e o vivermos tanto no online. E estarmos a crescer agarrados a isto. Eu, por exemplo, fiz um projeto há pouco tempo em que estávamos com a Comissão Europeia a discutir a inteligência artificial e o impacto que isso tem nos jovens.

Nos jovens.

E nas crianças que estão agora a entrar para o sistema de ensino. E eu própria estava a falar com crianças de 10 anos e a perguntar-lhes: "O que vocês acham sobre isso? Vocês usam no vosso dia a dia para trabalho?" E eles: "Claro que sim, usamos. Temos noção de que é errado, mas nós usamos."

Mas sobre as redes, e eu sou o agente provocador aqui desta conversa, tu és uma influencer digital. Sentes que também fazes um bocadinho parte desse problema ou não? Essa reflexão que tu fizeste provocou em ti uma mudança na forma como estás hoje nas redes?

Antigamente, sinto que partilhava muito mais e estava constantemente nas redes sociais e não tinha bem limites, porque também era uma criança. E com o crescimento e com o amadurecimento, estou tendo melhor cada vez mais os meus limites. E acho que o meu papel, tanto também o podcast, passa um bocadinho por aí, por trazer conversas e nos fazer refletir. E esse é o tipo de impacto que eu quero ter. E trago muitas vezes psicólogos para falar sobre este assunto. Mesmo com amigas, debater este assunto: "O que tu vais fazer quando fores educar os teus filhos? Que impacto achas que vai ter?" Portanto, é trazer estas conversas ao de cima. Obviamente que eu estou a fazer nas redes sociais, mas hoje em dia, onde é que o vamos fazer? É o meio de comunicação em que as pessoas estão. Se queremos chegar às pessoas, também temos de lá estar e trazer as conversas certas para o cimo.

Alguma vez passou pela tua cabeça fazer televisão, por exemplo?

Não, nunca passou. Nunca passou porque, lá está aquilo que eu estava a dizer no início, porque eu gosto do meu ambiente seguro. Gosto muito de controlar aquilo que estou a fazer, as conversas que estou a ter. E ser muito descontraída. Aquilo que eu sinto nas conversas que tenho é que estou no sofá com amigas a debater um tema.

Gostas de controlar porque és uma pessoa controladora ou insegura, Mariana Ribeiro?

Um pouco dos dois, diria.

É?

Sim.

Ia te perguntar há bocadinho quais são os limites que tu definiste para ti própria nessa questão de não partilhar nas redes sociais.

Cada vez mais a minha vida privada, tudo aquilo que é a minha família, relacionamentos, amigos, eu tento que isto ao máximo seja privado. Aquilo que eu quero trazer para as minhas redes sociais é algo que tenha conteúdo, que tenha impacto nas outras pessoas e não precisam ter acesso a todo esse meu lado para causar impacto.

Isso foi um processo de amadurecimento da tua parte, consideras?

Sim. E acho que também está a haver uma transição nas redes sociais para isso mesmo, em termos de conteúdo.

Sentes que há uma espécie de cansaço?

100%. Ainda hoje estava a debater isto com uma amiga, porque acho que nós, estando aqui deste lado, conseguimos sentir um bocadinho dessa frustração. É tudo muito rápido.

Sentes como os números são mais baixos, as interações são diferentes, como é que medes isso, Mariana?

Não é assim tão mensurável, mas conseguimos perceber em termos de impacto. Para mim, um episódio ou uma conversa que gere mais comentários e mais mensagens, para mim é mais relevante do que um vídeo que tenha mais likes só por ser mais viral e mais partilhável. Acho que depende do posicionamento de cada um nas redes sociais, mas pelo menos para mim, em termos de impacto, gerar conversa, para mim, é sempre o objetivo.

Tu nunca te sentiste demasiado, vamos dizer assim, com a imagem pesada, entre aspas, por estar sempre numa montra, vamos dizer assim, por causa das redes sociais? Porque tu apareces, posso dizer, diariamente para o teu público, não é? Nunca sentiste: "Se calhar devia fazer aqui uma pausa, se calhar estou demasiado cansada, a minha imagem." Nunca sentiste isso?

Várias vezes. Várias vezes e tento, quando sinto isso, perceber e fazer uma pausa, e fazer um detox e parar mesmo de publicar, desaparecer um bocadinho das redes. É difícil, porque este trabalho também é um comboio que está sempre a andar e não para, mas tento fazer isso porque tenho que preservar, aquilo que eu mais comunico é também saúde mental, tenho que preservar a minha própria saúde mental também.

Claro, não podemos pregar para os outros se a nossa não está boa. As redes sociais tiram-te, de alguma forma também, voltando aqui à questão da saúde mental, alguma parte do silêncio? Tu precisas muito de silêncio ou nem por isso?

Preciso de um equilíbrio. Eu sinto que recarrego energias em termos de estar com outras pessoas e socialmente, mas também preciso muito do meu espaço. Por isso é que eu também fui descobrindo outras formas na minha rotina de o fazer e de ter coisas só para mim, como a corrida, que também já falei aqui algumas vezes, como a escrita. Ter esses momentos que são só para mim e que são 100% offline.

Falaste aqui da corrida. Sei que tu fizeste um HIROX agora há muito pouco tempo, em Verona. Correste uma meia maratona, não fazias ideia do que era um HIROX antes de te inscreveres. De onde é que vem esta vontade e esta, como é que eu hei de dizer, esta...

Este masoquismo um pouco.

Sim.

Porque fazer um HIROX é um ato de masoquismo.

Sim, porque a gente-

É um bocadinho, eu descobri isso depois

...é uma vontade muito acérrima para algo que, pelo menos para mim, e daquilo que eu vi, é um pouco violento.

Antes de mais, explica aos nossos ouvintes o que é que é um HIROX.

Exato.

Então o HIROX, por acaso vai chegar a Lisboa para o próximo ano. Pela primeira vez vai chegar a Portugal.

Tu vais lá estar?

Não sei, estou a decidir. Mas um HIROX é uma prova de fitness que envolve corrida e musculação, são 8 km de corrida e oito exercícios de musculação em que tu fazes 1 km de corrida, um exercício, 1 km de corrida, um exercício. É muito violento, porque é tudo muito rápido, é mais ou menos uma hora e meia em tudo muito acelerado, com muito peso, meio que uma vibe de crossfit, mas com corrida também misturado. Em termos de desafios, por que eu me meti nas corridas e no Iron Rocks? Eu precisava me mexer, precisava perder peso, mudar a minha vida de alguma forma. E foi na corrida que eu descobri ali um bichinho que eu acho que estava escondido na altura, porque eu fiz ginástica acrobática de competição da Seleção Nacional durante muitos anos. E foi a minha vida durante muitos anos. E acho que esse bichinho estava escondido. Quando eu saí da acrobática, foi tipo: "Acabei, não quero ver mais isto à frente".

Saíste com que idade?

Tinha 20, ainda fiquei lá três. Entrei aos dois anos, até aos 20. Portanto, foi a minha vida durante muito tempo, ainda fiquei treinadora dois anos.

Desculpa a ignorância, mas isso é público?

Sim.

Ok.

Na altura não estava nas redes, mas já partilhei sobre isto algumas vezes. Até já fiz um episódio sobre isso, porque o distúrbio alimentar também segue da ginástica, vem um bocadinho daí. E na altura eu vivia para aquilo, eu treinava, era uma miúda que estava a estudar, sempre melhor aluna, mas a treinar quatro horas por dia e a viver para a ginástica. E esse bichinho da competição sempre esteve ali comigo e sinto que ficou um bocadinho escondido quando eu saí da ginástica. E descobri na corrida uma motivação para: eu quero mais, eu quero alcançar coisas diferentes. E a partir daí, eu acho que quem entra no mundo da corrida vai por dois caminhos: ou vai para o Iron Rocks ou vai para o Ironman, e eu não sei nadar direito, nem andar de bicicleta.

Então, Ironman, por que não? É mais um desafio para 2026.

Nem pensar. Gosto muito da corrida e acho que vai ser por aí que vou continuar.

Sim, mas corres todos os dias? É um hábito?

Corro três a quatro vezes por semana. Passou a ser mesmo um hábito.

É próximo, mas achei que tu ias dizer três a quatro vezes por dia.

Credo! Não, não estamos aí.

Aliás, eu vi um vídeo teu muito recente. Estiveste há pouco tempo em Barcelona e também foste correr.

E agora o meu desafio é todas as cidades que eu for visitar, eu vou ter de fazer uma corrida lá.

Boa. Estás em Lisboa, já correste em Lisboa?

Não, Lisboa é segunda casa, não é visitar.

Muito bem. Mas agora vives no Porto. Que diferenças encontras entre viver em Lisboa e no Porto, Mariana?

É o ritmo. Essencialmente, é o ritmo. É muito mais calmo no Porto. A forma de trabalhar, toda a gente é muito mais chill, muito mais descontraída. E eu gosto da vibe acelerada de Lisboa.

Mas poucas vezes por mês.

É isso, venho aqui, estou aqui três dias, está bom, volto para casa, na minha calma.

Pronto, o suficiente para perceberes que o trânsito aqui é caótico e que se perde muito tempo, é isso. Se bem que lá em cima... enfim.

Não, o trânsito também está mau no Porto.

Ainda bem que és tu a dizer e não eu. Também se ouve muitos palavrões no Porto, como aqui em Lisboa, no trânsito.

Sim, mas eu acho que é um ambiente mais descontraído, no geral. E eu também tenho a minha família toda no Porto, que ajuda a ter um suporte que eu aqui em Lisboa não tinha.

Exato. O que te dá esse suporte e o fato de teres a família tão perto para alguém que já esteve em Lisboa e que já vivenciou essa realidade de estar longe de casa, até mesmo no Erasmus e nesse mestrado que fizeste em Barcelona. O que te traz neste momento, tu tens 27 anos, o que te traz este suporte familiar nesta altura da tua vida?

Olha, essencialmente eu estar a meia hora de casa e se me apetecer e estar a ter uma noite mais sozinha, poder ir à casa jantar, é poder ir almoçar ao domingo a casa. Fazia muita confusão eu estar aqui a passar um domingo sozinha e a minha família estar toda junta lá no Porto. Mas essencialmente é isso. Eu sentia que aqui em Lisboa vivia muito para o trabalho e cresci muito em termos profissionais e continuo a crescer quando venho cá, mas no Porto é casa, que eu sentia que não tinha.

Já falámos aqui logo no início desta conversa da questão da economia. Como é que os teus pais olharam para o facto de deixares essa questão um bocadinho de parte agora e assumires-te como criadora de conteúdos a full time?

Os meus pais são os dois empreendedores. Eu sempre os via trabalhar nos negócios deles, ir até tarde, e estamos a jantar, e estamos a discutir isto e aquilo. E eu já estava a estudar, já estava a trabalhar e a criar vídeos e a partilhar com eles todas as conquistas. Mas na altura é uma decisão que é difícil de tomar e é difícil de partilhares com os pais. Portanto, na altura, eu estava com tanto medo de lhes contar que eu tomei a decisão sozinha e só passado um mês é que eu fui contar aos meus pais. Cheia de medo, mas quando lhes contei, a reação foi incrível, foi de apoio, que obviamente que eu tenho muita sorte em ter o suporte que tenho e a rede que tenho e pude tomar essa decisão, porque sabia que se acontecesse alguma coisa, podia sempre ter aquele apoio deles, mas foi incrível, do gênero: "Estás na altura certa para isso, estás na idade certa, está a correr bem e só tens pernas para correr ainda melhor. Portanto, nós suportamos em tudo."

E são críticos?

Não, apoiam-me em tudo, 100%. E são muito fãs.

São muito?

São muito fãs.

Ah, fãs.

Fãs, do gênero. Qualquer coisa que eu partilho ou conquistas, eu gosto sempre de lhes contar e ficam muito felizes por mim em tudo. Podem até não perceber 100% deste mundo, mas foram aprendendo comigo.

Desculpa, João, quem é o teu maior crítico? Pode nem ser da tua família, mas aquela pessoa que está mais ali contigo e se for preciso vai dizer: "Olha, aqui se calhar não estiveste tão bem." Quem é essa pessoa?

É o meu agente que está aqui sentado. Diria que sim, mas no bom sentido.

Sim, claro. Quando estou a referir é mesmo no bom sentido. Aquela pessoa que te aconselha e é aquela rede de segurança.

Sim, estou na Talents com o Miguel há dois anos e é um bocadinho desse apoio que eu tenho com ele, no dia a dia, de avaliarmos o que está a fazer sentido, o que não está, a gestão de carreira. É um trabalho que acaba por ser muito solitário, ter este apoio acaba por ser um braço direito.

Mariana, qual foi a tua maior conquista nestes oito anos enquanto criadora de conteúdos digitais?

Ai, não sei, não consigo resumir a uma. Mas eu estou muito contente com o espetáculo ao vivo, acho que é uma grande conquista. Também estou muito contente por estar no Observador, também é uma boa conquista. Tenho várias que me deixam muito contente.

Há metas já para, eu sei que se calhar não vais querer revelar aqui, mas se calhar levantar assim a ponta do véu, metas, objetivos que queiras mesmo atingir em 2026?

Estivemos mesmo a reunir agora a falar sobre esse assunto.

Que bom. Já podes partilhar, então.

Não tenho nada que possa partilhar, porque acho que aquilo que nós estamos a fazer neste momento, estamos a fazer bem. Eu fiz uma mudança muito grande a nível pessoal e profissional no ano passado e acho que hoje em dia é continuar aquilo que estou a fazer Apostar as fichas todas também no Amiga Faz Parte, que é um projeto que eu gosto muito, levar a palcos, ver como é que a experiência corre, se gosto, se não gosto, se é para repetir ou não, mas de resto, é continuar aquilo que tenho estado a fazer.

Eu vi muitos comentários de pessoas a pedir noutros locais do país, nomeadamente o Porto. Isso pode acontecer?

Espero que sim. Se correr bem, espero que sim.

Falamos muito ao longo desta conversa da questão de um crescimento sólido e tu agora estás a ter também essa oportunidade com a tua agência, falaste aqui do Miguel. Acreditas que é o segredo para esta tua longevidade? Porque estar oito anos no digital é algo de relevo.

Eu acho que o segredo é a consistência, ser muito fiel àquilo que eu sou, porque eu ao longo destes últimos anos, eu sempre fui mudando de gostos e o digital sempre acompanhou as minhas diferentes fases. E acho que as pessoas sentem isso. Portanto, nada é forçado. Eu neste momento estou a gostar de correr e partilho muito sobre isso. Quem gosta, gosta, se não gostam, veem daqui a uns tempos, se calhar já é outra coisa. Acho que o segredo está muito na autenticidade e ser o mais vulnerável possível.

Portanto, é possível que daqui a dois ou três ou meia dúzia de anos, o Amiga Faz Parte ser outra coisa completamente diferente do que é hoje.

E está tudo bem.

É?

E faz parte.

Pode ser, por exemplo, um vlog sobre- Vamos dar ideias.

Brainstorm, adoro isto.

É um projeto muito pessoal, que está muito agarrado à tua pessoa e todas as transformações que vão acontecer na tua vida vão plasmar-se no Amiga Faz Parte. Não estou a impor nenhum modelo para futuro, mas se fores mãe, o Amiga Faz Parte vai ser outra coisa, não é?

Sim, exatamente.

Passa por aí.

Acho que nesta fase é o que está a fazer sentido. Portanto, eu estou a passar por isto e as pessoas estão a acompanhar, a seguir o caminho comigo. Mas o engraçado é que a maior parte das pessoas que me seguem hoje em dia e que já vêm de trás, também têm crescido e também entram nas mesmas fases que eu. Isso é que é giro, porque também estavam há uns anos atrás, se calhar noutra fase de vida, mais a sair à noite, mais a só querer viajar e a viver muito para isso, e hoje em dia, se calhar, já estão numa fase mais de bem-estar e à procura de desenvolvimento pessoal e acabam por crescer comigo.

Tu convives com os teus seguidores, vais beber café com eles.

Já tenho vários. Olha, a pessoa que fez comigo o iROCS é uma seguidora minha.

Boa, muito bem. A questão da tua comunidade, das tuas redes sociais. Sentes que há um objetivo limite, ou seja, acreditas que um dia vais chegar ao fim ou isto é sempre um caminho que se vai fazendo ao longo do tempo? Temos falado muito sobre isso, mas o que eu queria perceber aqui é se tu, por exemplo, no final deste 2025, fazes uma lista dos teus objetivos para 2026 e vês ali tudo cumprido, ou és uma pessoa que não tem problema em não ter esses objetivos todos cumpridos?

Não tive todos os meus objetivos cumpridos este ano.

E estás bem com isso.

Não me aflige nada, porque as coisas mudaram para outra direção e está tudo bem. As coisas mudam, as coisas adaptam-se. Em termos de limites, eu acho que o digital e a criação de uma comunidade é o centro e vai ser sempre o centro. E a partir do momento que tens uma comunidade forte, tu podes fazer o que tu quiseres com ela. E o meu objetivo disto é eu conseguir criar outros projetos e outros negócios a partir daqui, para que no futuro, se não me apetecer estar no online e me expor dessa forma, não o ter de fazer.

Mesmo para terminar aqui a nossa conversa no "Em 40 Minutos", se tivesses de dar um conselho a uma jovem, possivelmente, que nos esteja a ouvir agora e que se calhar até queira começar a ingressar neste caminho pelas redes sociais, ser criadora de conteúdos, qual era o melhor conselho que tu davas agora final de 2025, início de 2026, adaptado à realidade que nós vivemos?

Eu acho que é muito aquilo que falamos, de seres 100% tu, seres muito autêntica e consistente. É muito importante, principalmente numa fase inicial, seres consistente e focares-te em cumprir com o calendário e levares isto também a sério como um trabalho. Que acho que foi um ponto que eu sempre também fui uma pessoa muito pragmática, muito organizada e muito direcional, e acho que isso ajudou ao meu crescimento ao longo do tempo.

Portanto, quando dizes consistente, é ter uma cadência certa de criação de conteúdos, é isso?

Exatamente.

Não defraudar a expectativa da tua comunidade.

Sim, porque se formos muito perfecionistas e lançarmos um vídeo uma vez por mês, não vai ser isso que vai revolucionar e fazer uma conta crescer. É preciso mesmo estar consistente.

Ser focado. O Amiga Faz Parte vai ter espetáculo ao vivo já em fevereiro de 2026. Os fãs do Porto ficam à espera de uma data para lá. É dia 24 de fevereiro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, que é aqui pertinho.

É.

Exato, aqui pertinho de Algolar. Mas como eu estava a dizer, fãs do Porto e de outras zonas do país ficam à espera de novas datas, Mariana Ribeiro.

Vamos ver.

Muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador e ao "Em 40 Minutos".

Obrigada.

Obrigado.