Eram sete e meia da tarde, fim de Verão, o sol punha-se sobre os botes. Curvei a esquina do Clube Naval, pensando que tinha medo de estar ali àquela hora. Nunca se sabe o que esconde o fim da curva. Foi quando dei com a mulher sozinha, sentada à beira-rio, olhando as águas.

Não tinha medo de ali estar no lusco-fusco, pensei, o que me deu confiança. Estava tão completamente perdida nos seus pensamentos, tão distante das pessoas que passavam na marginal.

Pensei, porque o parecia, que tinha saído há pouco tempo do trabalho. Então, imaginei que tivesse aquele hábito: que antes de regressar a casa, se sentava sozinha nas margens, a pensar na vida.

À beira do rio, ao fim da tarde, observo outras mulheres como ela, que aparentam ser divorciadas: bebem um copo de vinho, sentadas na esplanada. Admiro-as na sua independência, as costas descobertas dos vestidos de linho preto, as sandálias douradas.

Sempre que chego a um lugar e vejo mulheres sozinhas por ali, entregues aos seus prazeres e ao seu próprio tempo, concluo que é um lugar relativamente seguro.

A mulher sozinha talvez não tivesse dinheiro para estar na esplanada. Mas não se privou da vista nem do murmúrio das águas. Absorta, sem telefone por perto ou outra distracção, olhava a corrente, olhando para dentro de si mesma.

Deu-me força que estivesse sozinha no meio dos outros, sem lhes prestar atenção. A mim, que não me abandono à solidão fora de casa, afligida por receios e demónios, a mulher sozinha diante do rio deu-me coragem.

Lá fui, dando passos tímidos, tentando não me desequilibrar na areia e nas pedras, a pensar que não havia razão para ter medo.

É esta a magia que ninguém consegue destruir: a de os estranhos se poderem ajudar uns aos outros sem saber que se ajudam. A possibilidade de nos encorajarmos mutuamente mesmo sem nos conhecermos, mesmo sem falarmos, apenas em virtude de nos observarmos e de nos reconhecermos.

Muitas pessoas enveredam, por vezes, em discursos grandiloquentes a favor da humanidade, perdendo de vista que a humanidade reside também no entendimento silencioso entre estranhos. Eu ia com medo e a mulher ao pé do rio tirou-me o medo.

Não me ocorreria interromper o seu silêncio, os seus minutos. Não fiquei a conjecturar como se chamaria, nem em que pensava.

Apenas a vi profundamente, como profundamente ela olhava as águas. E reconheci-a desse modo íntimo como alguém a par de mim, viva como eu, presa na sua circunstância, abalada pelas suas dores que não conheço, inteira e livre como gostaria que todas fôssemos.