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Hoje em dia eu gosto muito e sou muito orgulhosa do corpo que tenho. Agora digo até das minhas mãos. Eu tenho as mãos todas deformadas. Tenho muito. E durante muitos anos, usar anéis ou pintar as unhas, nem pensar, porque isso chamava a atenção para as mãos. Hoje em dia eu olho e penso: "Estas são as mãos que me fizeram ganhar todas as minhas medalhas." As cicatrizes no corpo fizeram todas parte da minha história. Os braços grandes e o corpo musculado, eu tenho muito orgulho. Eu estou sempre a gozar. Eu chegava e fazia bíceps para minha avó e dizia: "Avó, já tinhas visto algum braço assim tão grande?" E ela: "Filha, tu és mesmo musculada." E eu tenho imenso orgulho, mas não foi sempre assim. Com 16, 17 anos, eu lidava mal com meu corpo, não tanto pela questão do músculo, porque eu sempre gostei de ser grande e de ser musculada, mais pelo contrário, de me achar gorda, destas questões de perder o peso. Tinha alguns transtornos alimentares, lidava muito mal com a comida, tinha compulsão. E isso, especialmente numa rapariga, numa jovem adolescente, são coisas que causam grande impacto.

Aprendeu cedo a arte de cair e levantar. Na infância, em Tomar, começou por rejeitar o tatame logo na primeira semana. Foi preciso a teimosia dos primeiros anos para perceber que a sua vocação não estava na fuga, mas sim no confronto. Numa modalidade desportiva habituada a atrair os seus maiores talentos para as luzes e infraestruturas da capital, Lisboa, foi audaz e recusou o caminho óbvio. Preferiu continuar no clube da sua terra natal, treinada pelo próprio irmão, erguendo um modelo de preparação familiar e fiel às suas origens. Licenciou-se em Ciências da Comunicação enquanto preparava os maiores palcos do desporto internacional e recusou sempre o deslumbramento, mantendo intacto o hábito de voltar todos os dias para a mesa e casa dos avós, mesmo depois de atingir o topo do mundo. Superou cirurgias, dores crônicas e as melhores judocas do planeta para conquistar um bronze olímpico nos Jogos de Paris, o título de campeã da Europa e a liderança absoluta do ranking mundial da sua categoria. Hoje, no "Em 40 Minutos", João Miguel Santos, vamos ter que ter cuidado. Temos aqui uma verdadeira atleta que é bem capaz de dar cabo de nós. Patrícia Tambay, seja muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Muito obrigada, boa tarde. Foi uma introdução muito boa. Eu estava aqui a ouvir isto e a sorrir. Fiquei orgulhosa da pessoa que estavam a falar.

É a imagem que temos de ti. Mas sabemos também, de fonte segura, que também és uma pessoa teimosa. Nomeadamente nos teus treinos, quem te está a treinar se calhar reconhece mais isso. É só do desporto ou na tua vida também és uma pessoa mais de convicções firmes, às vezes até um bocadinho insuportável, não somos nós a dizer.

Meu Deus, insuportável é uma palavra forte. Não, mas sou muito teimosa, tenho um feitio complicado, tenho bastante noção disso. Acho que a culpa não é inteiramente minha, porque isso é de família. Em casa somos todos assim, mas também acho que esse feitio, essa maneira de ser mais marcada e mais decidida, me tem ajudado muito no meu percurso.

Nomeadamente na tua competitividade e quando entras a jogo.

Sim, na competitividade, na persistência. É preciso sermos teimosos nesta vida e neste desporto, neste mundo competitivo e do desporto de alto rendimento. É preciso sermos teimosos e termos umas convicções muito fortes para nos mantermos aqui depois de tanta coisa que nos acontece.

Porque as adversidades são muitas, é isso?

São desafios. Adversidades e desafios, principalmente desafios.

És positiva.

Uma palavra mais positiva, exatamente.

Boa. Essa boa perspectiva de olhar para o desporto como um desafio foi sempre assim, porque ainda na introdução falávamos disto, tu treinas no clube da tua terra, ou seja, sabemos de muitos desportistas que começam realmente os seus primeiros contactos no desporto da sua terra, mas depois fazem essa transição para um clube maior. Tu sempre mantiveste essa ligação muito forte ao teu clube. Aliás, eu estou me a lembrar que quando ganhaste essa medalha de bronze, nós aqui na Rádio Observador fizemos uma emissão especial e falámos com esse clube da tua terra, com a tua mãe também, estou a lembrar disso.

Do pouco que ela conseguia falar.

E foi um momento muito emocionante, porque se percebia muito bem essa ligação que tu tens a essas tuas raízes, a Tomar.

Sim, o meu clube é muito familiar, a cidade é pequena, o clube também de dimensões e de capacidade é pequeno, então é um contexto muito familiar. A minha turma de treino somos como irmãos. À sexta-feira, acabamos o treino, juntamo-nos todos, vamos jantar, vamos pôr a conversa em dia, porque alguns estão na faculdade ou alguns estão a trabalhar durante a semana, então à sexta juntamo-nos todos. É tudo um contexto familiar. Os aniversários, somos nós juntos outra vez. Passagem de ano, passo com eles. É realmente uma família e foi uma das razões, para além de ter lá família, efetivamente, com o meu irmão enquanto meu treinador, o facto de sermos uma grande família unida foi uma das grandes razões para nunca ter querido abandonar o clube, fora tantas outras que eu acho que esses desafios que nós falávamos, são coisas que eu e o meu irmão sempre fomos aprendendo a ultrapassar e a aproveitar isso como etapas que íamos subindo e coisas que nos desafiavam a sermos melhores. Cada coisa que nós conquistávamos e que víamos que conseguíamos fazer A seguir podemos fazer ainda melhor e assim vamos crescendo em coisas mínimas, nas condições do clube. Ele tem trabalhado todos estes anos e o tapete não é o mesmo quando começamos a trabalhar juntos em 2013. O ginásio tem sido completamente diferente. Até as paredes do clube estão diferentes por estruturas que eles foram colocando. E acho que isto tem sido um grande objetivo nosso de fazer o judo e fazer o clube crescer ali na cidade sem nunca virarmos costas.

E tem crescido?

E tem crescido.

Portanto, tu és uma inspiração para os judocas de Tomar e da região de Tomar, é isso?

Especialmente depois dos Jogos Olímpicos, eu senti muito isso, eu tive essa noção. Nós tivemos um boom muito grande a seguir aos jogos, ali para outubro, mais ou menos, de meninas, especialmente. A turma abaixo da minha, dos 11, 12 anos, é maioritariamente constituída por meninas. Meninas grandes, meninas que gostam de andar à porrada, que eu vejo muito quando eu tinha 11, 12 anos também, olho para elas e vejo uma Patrícia, isso é giríssimo.

Portanto, boas atletas ou bons atletas e com reconhecimento internacional puxam por outros atletas.

Acredito que sim. E não só o reconhecimento internacional.

Não sejas humilde, Patrícia.

Não.

És uma atleta medalhada nos Jogos Olímpicos. Aliás, deixa-me explicar isto aos nossos ouvintes, tu tens a tatuagem da data da tua medalha olímpica no teu bíceps.

É a data da medalha com o dia em que nasceu o meu sobrinho, que foi 10 dias a seguir.

Feliz coincidência.

Foram os dias mais felizes da minha vida.

Está tatuada no teu bíceps esquerdo.

Sim. E elas vão para lá e eu acho que não é só ter a foto daquela pessoa no clube. Nós temos lá no clube um mural das conquistas e está a minha foto, estão os meus dorsais olímpicos, que eu dei para o meu irmão fazer um quadro para lá. Não é só isso. Elas veem-me lá. O meu irmão quando está fora, eu dou os treinos. O treino delas é antes do meu, portanto, eu estou lá a preparar-me para o meu treino enquanto os mais novos estão. É uma presença muito presente, digamos assim. E eu acho que isso ainda atrai mais. Ainda há pouco tempo tive uma senhora que me mandou mensagem no Instagram a pedir os horários, a dizer que a filha dela gostava muito de ir e se eu dava treinos. Eu disse: "Olha, eu só dou treinos quando o meu irmão está fora." E ela: "É que ela queria muito que a Patrícia fosse sua treinadora". Eu: "Pronto, mas está entregue em boas mãos, está com o Igor e eu também estou lá muito." E a rapariga anda lá e está a gostar imenso.

Tu aos nove anos foi quando entraste definitivamente neste mundo do judo. As crianças na escola tinham medo de ti quando sabiam que tu praticavas judo ou nem por isso?

Não, acho que não havia essas conversas. Também ainda não sabia fazer muito judo. Eu comecei a fazer um judo melhorzinho mais tarde.

Exato. Quando é que começou a ser mais a sério, digamos assim? Quando é que começaste a olhar para o desporto como uma alternativa forte? Porque tu ainda tiraste o curso de Ciências da Comunicação e já vamos falar sobre isso também.

Sim. Acabei muito recentemente, foi um curso que demorou bastante. Quando é que eu percebi? Eu acho que o judo começou a fazer parte da minha rotina quando entrei. Aos sete não gostei, quando voltei a entrar aos nove, começou a fazer parte da rotina quase sem pensar. Na altura, se calhar, segundas, quartas e sextas, este é o horário do treino. Acabou a escola, vamos lanchar, vou com a minha amiga, depois a minha amiga desistiu, vou sozinha, vou lanchar ao café da minha mãe, depois vou a pé para o treino. Fim de semana, há sempre torneios. Não havia muito o que pensar, é: "Vamos". E começou a ser parte da rotina. Quando é que começou a ser a sério? Eu acho que quando começamos a ter campeonatos nacionais, aos 12 anos, começamos a ver a coisa assim, porque já há torneios ao longo do ano, depois há o campeonato zonal, que é de apuramento para o nacional, e depois há o campeonato nacional, que apesar de não haver competições internacionais, aquilo é o auge do que nós podemos ganhar. Acho que começa a ser assim um bocadinho mais sério. E eu perdi o primeiro em que participei. Tinha ganho todas as competições desse ano, então ia para lá toda confiançuda, e perdi o primeiro em que participei, que era juvenil de primeiro ano.

Primeiro nacional.

Sim. E depois, no segundo ano, já ganhei.

Perder é não fizeste pódio, é isso?

Perdi o primeiro combate.

Ah, perdeste logo o primeiro combate.

Perdi logo. Uma rapariga que eu não conhecia. O meu pai lembra-se muito bem dessas coisas, diz que ela era das ilhas.

Ela agora deve se lembrar de ti.

Não sei.

Bateu o bronze dos olímpicos. Foi traumático para ti? Foi?

Tive uns combates, passado uns anos, perdi com outra menina nesses campeonatos de apuramento, no campeonato zonal. Eu era cinto castanho, perdi com uma menina de cinto amarelo. Chorei tanto.

Porque ao termos essa, pode-se chamar divisão, por categorias?

As categorias é nos pesos, sim. Os cintos representam supostamente aquilo que nós sabemos e o tempo também que fazemos, que praticamos a modalidade.

Nível de sabedoria da arte.

Conhecimento, mas não há divisão na competição pelos cintos. É pelas idades e pelos pesos.

E perder com essa menina de cinto amarelo, o que te fez sentir na altura? Porque percebemos que nessa altura já eras muito competitiva e tinhas mau perder.

Foi um abre olhos. Tinha mau perder. Chorava e choro até hoje, é o fim do mundo. Mas foi para abrir os olhos, porque entrei assim à confiança e ela, no susto, contra-atacou-me e ganhou.

Acabou contigo em três tempos.

Sim, e depois aquilo com a questão dos pontos, eu até acabei por ficar em primeiro. Mas mesmo assim, depois o treinador dela veio dizer: "Não fiques assim, agora posso dizer que a minha atleta ganhou à futura campeã nacional." Mas eu perdi. Estava a dizer isso. Depois fui campeã nacional e esse foi o último combate que eu perdi em Portugal, já foi em 2014.

Com que idade é que alcançaste?

O último combate que perdeu em Portugal, 2014.

Portanto, tens vindo sempre a ganhar desde aí.

Sim, os campeonatos nacionais já vão 20 títulos.

20 títulos?

Acho que sim.

Quando é que alcançaste o teu primeiro título nacional, Patrícia?

Foi a juvenil de segundo ano, acho que com 13.

13 anos. Portanto, dos 13 para a frente veio sempre a ganhar.

O campeonato nacional, sim. Também somos muito poucas na minha categoria, sempre.

Menos de 78 quilos, não é?

Sim, o meu último nacional éramos três. É uma grande lacuna de raparigas e especialmente de raparigas mais pesadas em Portugal.

Por quê? Por que isso acontece?

É algo que eu não sei explicar.

Isso acontece em imensas modalidades.

Sim.

No judo temos a Patrícia Sampaio, também já tivemos a Telma Monteiro, ou seja, há inspiração.

Mas é difícil chegar a senior. E para já, não somos uma Alemanha, uma Holanda, em que as raparigas sejam culturalmente muito grandes, muito desenvolvidas. Nunca houve muitas raparigas, mesmo a mais nova, eram mais baixinhas e um bocadinho mais cheinhas, não eram tanto grandes e desenvolvidas. O país propriamente não é um país que tenha raparigas assim.

No judo isso faz diferença. Ter braços longos para agarrar no adversário.

Faz, e eu até sou pequena para a minha categoria.

1,70m.

76.

Então está mal. Tens que pedir ao Wikipedia para corrigir.

Vou corrigir. Mas eles também têm lá o meu peso um bocadinho mais baixo, portanto eu não vou dizer nada. Mas faz-me diferença, eu tenho adversárias que têm 1,35m e têm braços que nunca mais acabam. A pessoa está a querer chegar, os braços delas já estão aqui. É complicado. Tem de se arranjar estratégias. Quando são muito baixas também é difícil. É sempre difícil. Portanto, tem de se arranjar estratégias para tudo, soluções para todos os problemas.

O judo é um desporto de combate, de contacto. Já sentiste medo em enfrentar uma adversária? Aquele medo mesmo. "Eu tenho medo desta mulher ou desta rapariga que está aqui à minha frente."

Independentemente da adversária, eu sinto muitas vezes medo quando volto de lesão.

Quando regressas à competição depois de um período chamado "no estaleiro", é isso?

Exatamente. Medo especialmente da repetição de padrões. Por exemplo, eu estou agora a voltar de uma lesão em que estava a lutar com uma rapariga no treino e outra rapariga ao lado caiu em cima da minha perna e eu fiz uma rutura total do ligamento do joelho. E agora eu estou a treinar, cheguei agora do Brasil, de um estágio internacional. Na minha visão periférica, eu estou a olhar à volta quem é que está perto de mim, quem é que me pode cair em cima outra vez. E há este medo quando volto de lesão. Há uns anos parti a perna a fazer um ataque em que a rapariga me contra-atacou e me prendeu. Durante muito tempo, eu tive medo de fazer esse ataque. Depois magoei o ombro a fazer outro movimento, que durante anos deixei de fazer esse movimento. Então, há esse medo, mas que gradualmente se vai ultrapassando. Medo de adversárias, especificamente. A francesa com quem eu lutei nos Jogos, uns meses antes eu tinha lutado com ela e assim que começou o combate, ela, mesmo para esse efeito de me meter medo, me assustar, gritou-me na cara e eu congelei. Fiquei com medo dela e depois até bloqueei no combate, não consegui racionar e perdi.

Isso é permitido nos combates?

Gritar? Sim.

E falar?

Falar não.

Não é permitido.

Não, isso não. Mas há assim um kiai, um grito de guerra, de força.

Como é que se treina aquilo?

Eu gritei imenso.

Tu gritas?

A caminho do combate, lá dentro, não.

Eu tenho muito presente essa tua imagem nos Jogos Olímpicos. Tu tinhas uma cara muito trancada. Qualquer pessoa que olhasse para ti naquele momento, ia sentir a tua raiva a sair-te pelos poros de alguma forma. Isso treina-se?

Acho que não era raiva, era concentração. Eu sentia-me muito concentrada. Não tinha essas emoções fortes como raiva, ou felicidade extrema, ou tristeza. Nesse dia não me estavam a passar essas sensações, esses sentimentos por mim. Estava só muito concentrada. E acho que isso treina, sim.

Mas não é muito ao espelho.

Não. Trabalhei muito tecnicamente, taticamente, mas também trabalhei muito com a minha psicóloga ao longo de vários anos. E eu tenho dito muitas vezes: eu só senti esse efeito no dia dos Jogos Olímpicos. E foi a maior sorte, porque foi o dia mais importante e o dia que era preciso. Mas só nesse dia é que eu senti todo esse trabalho que nós fizemos para trás, de estar concentrada, não estar a pensar na adversária, estar a pensar naquilo que eu tenho que fazer. Realmente, não ficar presa a emoções. Nós trabalhamos uma coisa que era termos a emoção, por exemplo, temos o nervosismo os dias antes, temos a tristeza quando perdi a meia-final, mas não ficar agarrada à emoção. A emoção é uma onda que passei ali por ela, mas segui em frente o meu caminho. E nesse dia estava muito concentrada em deixar de lado as emoções e só ficar tipo robô, concentrada naquilo que eu tinha de fazer.

Em que se pensa quando se faz aquele percurso do balneário até ao tapete do combate, Patrícia?

Eu tento pensar maioritariamente na estratégia que eu tenho de fazer. Para controlar os nervos, para controlar a ansiedade, para me manter concentrada, eu mexo as mãos a estudar a pega que eu quero fazer Imagino a nossa aproximação, a entrada para o combate. Eu treinei muito também com a minha psicóloga a imaginar uma pessoa à minha frente que não tinha cara, ou seja, eu não estava a lutar com uma adversária específica, eu estava a lutar com uma estratégia que eu tinha de impor.

Para quê? Para não sentir empatia pelo adversário?

Mais para não sentir aquela coisa que falávamos do medo e até associar a experiências passadas. Lutei com a francesa que, como eu disse, tinha perdido uns meses antes.

Portanto, é encarar a adversária não como uma pessoa, mas como um objetivo.

Exatamente. Um obstáculo a ultrapassar. Sim.

Nós chegamos por aqui nesta nossa primeira parte, mas já voltamos a seguir no "Em 40 Minutos", esta semana com uma atleta. Quantos campeonatos já disseste há bocadinho?

20.

20. Nacionais. Nacionais, imaginem só. Pois, tudo o resto. Patrícia Sampaio no "Em 40 Minutos". Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Patrícia Sampaio. Tu tocaste em algo muito importante. Nós muitas vezes quando estamos a falar com atletas, esquecemo-nos desta parte do acompanhamento que há. Neste caso, falaste de uma psicóloga que começou a acompanhar-te. Esse acompanhamento começou em que momento e quando é que tu sentiste essa necessidade de ter alguém? Não te vou perguntar o que é que falas nessas sessões, até porque isso é privado, mas é um caminho que tu disseste e isso ficou-me na cabeça. Tu sentiste os frutos disso em Paris quando conquistaste essa medalha de bronze?

Três anos depois de começar a trabalhar com ela. Começámos a trabalhar juntas em 2021 e muitas coisas eu acho que não resultaram mais cedo. Hoje em dia eu tenho a maturidade para perceber que houve coisas que não resultaram mais cedo, porque eu era o entrave para essas coisas resultarem. Eu não punha em prática aquilo que era suposto, tanto aquilo que nós falávamos na parte profissional, do desporto, como na parte pessoal. E tive coisas da minha vida pessoal que atrasaram um bocadinho também os meus resultados a nível profissional. Mas eu senti a necessidade de começar a trabalhar com a Ana, que era a minha psicóloga. Em 2020, no fim do ano, eu parti a perna e estávamos a nove meses dos Jogos de Tóquio.

E coincidiu também com a altura da pandemia.

Sim. Assim que voltámos da pandemia, tivemos a oportunidade de fazer uma competição. Eu treinei muito na pandemia. Eu via as pessoas fechadas a queixarem-se de não conseguir treinar. Eu fazia treinos de três, quatro horas por dia, porque vivia com o meu treinador. Chamámos mais um rapaz, que é como nosso irmão, para treinar conosco, para ser meu parceiro de treino. E era os três, eu moro no campo, os três a treinar horas e horas até a minha mãe chamar para ir comer porque não podia esperar mais por nós. A fazer corridas pelo mato, sprints no terreno dos meus pais, inclinado, pneus, tudo e mais alguma coisa. Diziam que eu estava no treino do filme do Rocky. Então eu preparei-me muito bem na pandemia. Quando voltei, pensei: "Agora que vou ter esta oportunidade espetacular". E no primeiro combate, eu acho que 40 segundos, talvez, de combate, eu parti a perna.

Que enorme frustração.

Já tinha tido lesões, mas aquela foi um choque muito estranho, porque foi óbvio o estalo, mas com a adrenalina não se sente a dor. E eu ia me levantar para continuar o combate, de repente olho, está a minha perna virada ao contrário. E depois disso, foi um processo dificílimo. Tinha 21 anos, era muito nova. Foi uma fase de negação, de cair na tristeza, de não querer fazer nada. Estava triste para estudar, não podia treinar, estava com gesso, fui ao Prado, estava com gesso ali no sofá da minha avó, as duas sentadas a ver as novelas e a comer bolachinhas. Engordei muito, ganhei mais de 10 quilos. E depois, para recuperar isso, foi muito difícil. Eu via o meu corpo a mudar, via que não conseguia treinar, as competições a acontecerem, porque tudo tinha voltado e eu sentada no sofá a ver os meus amigos pelo computador. E depois disso, quando comecei a recuperar, havia um Campeonato da Europa em Lisboa, coisa que não se fazia desde 2008. Então eu tinha a oportunidade de lutar em Lisboa e de fazer o Campeonato da Europa, e eu queria fazer uma competição antes dos Jogos de Tóquio. E estávamos em abril, três meses dos Jogos de Tóquio. Eu vou ao Campeonato da Europa, segundo combate ou terceiro, rasguei a coxa. Fiz uma rutura muito grande, dois meses de recuperação. E estávamos a três meses dos jogos. Ou seja, eu vesti o fato mais ou menos um mês para os Jogos de Tóquio.

O timing era sempre crítico.

Sempre apertado, era sempre horrível. E quando eu parti a perna, eu já sabia que matematicamente era muito difícil não estar nos Jogos de Tóquio. Mas é uma perna partida, em que circunstâncias e com que condições é que nós vamos preparar para uns Jogos Olímpicos? Para a minha primeira participação. Ou seja, eu ia ter aquilo tudo novo. Por isso é que eu durante muitos anos tive uma sensação muito estranha em relação aos Jogos Olímpicos e dizia que não queria fazer tatuagem até à edição seguinte, porque estava chateada com os jogos. Aquilo não tinha sido a experiência que eu tinha imaginado a vida toda. Já me alonguei muito, vou puxar. Que foi nesta altura de me magoar na perna, da segunda vez, que eu decidi que ia começar a ter Acompanhamento de psicóloga, porque já não conseguia. Tive finalmente a humildade de perceber que eu tenho um treinador para o judo, tenho uma pessoa que me faz a preparação física, eu sozinha não estou a conseguir lidar com esta parte emocional e mental, com esta parte da preparação. Então foi aí que comecei a trabalhar com a minha psicóloga.

Quando falas dessa parte emocional, é muito também a pressão. Nós temos muitos olhos postos em vocês, nestas grandes competições. O João há bocadinho falava da Telma Monteiro, e nós agora olhamos muito para ti também quando há estas competições. Se bem que às vezes sabemos que só ligamos a isto quando há este tipo de campeonatos, e também podemos falar disso mais à frente. Havia uma espécie de pressão que te trazia para trás em vez de trazer para a frente, era isso?

Sim, mas a minha pressão sempre foi muito mais de mim para mim. Eu colocava a pressão dos outros, mesmo que eles não a pusessem, mesmo que eles não falassem, eu puxava os pensamentos deles e colocava mais pressão em mim. Eu acho que sempre fui a minha maior inimiga nessas alturas. Eu colocava a pressão de me agradar a mim, de agradar muito aos outros, de deixar o meu irmão feliz, de deixar a minha família feliz. Sempre pus muito essa pressão, porque eu acho que pressão exterior e aquela que eu posso sentir hoje em dia, nessa altura não havia. Porque eu ainda era muito nova, ainda não tinha dado tantas provas do meu valor. Já tinha tido algumas medalhas em Campeonatos da Europa e Campeonatos do Mundo.

Eu falei disto porque agora, quando pensamos em ti, Patrícia Sampaio, e pensamos em alguma competição, pensamos obrigatoriamente: "Ela vai ganhar uma medalha."

Agora é uma pressão completamente diferente para a qual eu também tenho de me preparar psicologicamente. Eu ainda hoje falava disso com o meu treinador nacional, com o Marco, quando vínhamos na viagem. As pessoas têm muito o pensamento de que a pessoa já conseguiu uma vez, então é certo que ela vai conseguir mais vezes. Mas isto não funciona assim, isto não é assim tão matemático. A pessoa conquistou uma medalha olímpica, não quer dizer que passado quatro anos, em que acontecem tantas coisas, não é certo que ela vai conquistar outra medalha olímpica. Fazer uma vez não é garantia de que vai fazer mais vezes. Ganhar uma competição, ou como eu estive um ano e meio desde os Jogos de Paris, sem perder um pódio, não é garantia que eu não vou perder mais nenhum. Viu-se este ano. Este ano eu, finalmente, entre aspas, perdi uma competição e não fui ao pódio desde os Jogos de Paris. Ou seja, é bom também para os outros e para eu perceber que isto não é sempre no topo, que isto tem altos e baixos, e é bom estarmos sempre cientes disso.

Patrícia, alguma vez sentiste alguma ingratidão por parte dos portugueses?

Acho que não.

Nós coletivamente somos muito exigentes para com os atletas olímpicos, não é? Queremos sempre resultado. Não vamos aos pavilhões, mas depois quando chega a altura dos Jogos Olímpicos, toda a gente quer aquele pedacinho daquela medalha.

Mas eu acho que, felizmente, eu tenho sido muito bem acolhida. Desde que ganhei esta maior exposição e este mediatismo, eu tenho sido muito bem acolhida. E óbvio que houve comentários maus, não só dirigidos a mim, que às vezes são aquelas coisas nas redes sociais, dos fakes, que nem têm foto e é só uma pessoa que está sentada no sofá a escrever. Mas o rácio de comentários maus para comentários bons, não tem nada a ver. Eu sinto-me sempre muito acarinhada. E às vezes eu relativizo muito as coisas más que as pessoas dizem, porque vê-se mesmo que estão a falar de uma posição de alguém que não entende nada daquilo que está a dizer, quando fala do desporto.

Então vamos dar algum conhecimento às pessoas, não para falar mal de ti, mas para falar bem.

Se for para falar mal, também sei muita coisa.

Como é que é o dia a dia de uma judoca que tem os olhos postos nos Jogos Olímpicos de 2028 e nas competições que irão decorrer até lá?

O dia a dia é chatíssimo.

Conta.

É acordar, preparar para o treino.

Acordar a que horas? Quantas horas dormes por dia? Por noite.

Eu tento dormir no mínimo oito. É uma parte que eu ainda estou a trabalhar.

E tens bom acordar ou és uma pessoa que acorda assim um bocadinho maldisposta?

Não acordo maldisposta, mas hoje em dia acordo com muitas dores. Então, entre o despertador tocar e eu ter coragem de sair da cama, depois do corpo já ter aquecido um bocadinho e conseguir mexer-se, ainda leva um bocadinho. Até me mentalizar que tenho que me levantar, porque já tive várias lesões e já tenho muitas dores no corpo, então isso demora um bocadinho. Depois levanto-me, faço o meu pequeno almoçozinho, preparo-me, converso ali um bocadinho com a minha mãe. É o tempo que temos mais tempo, porque à noite eu chego muito cansada do treino, então de manhã conversamos ali um bocadinho. Eu de manhã faço ginásio sozinha, geralmente. Então não tenho um horário muito fixo.

As manhãs são ocupadas a fazer musculação.

Sim, musculação. Até à hora de almoço. Eu tento ir às 10:00, mas às vezes atrasa um bocadinho na conversa com a minha mãe, vou às 11:00. À 13:00 e pouco, estou em casa do meu avô para almoçar. Almoço na casa do meu avô.

Comes de tudo ou tens uma nutrição especial?

Devia ter mais também. Também é outra coisa. Mas a minha nutricionista sabe que casa do avô é complicado. Tem de se comer a comida do avô, porque aquilo não vai só para o estômago, vai para o coração.

É verdade.

A comida do avô é muito emocional, é sentimental. E é o momento em que estamos ali um bocadinho juntos também. Junta-se mais algumas pessoas da família para almoçar. É tudo muito perto, estamos todos em Tomar. É uma parte que a mim me faz sempre muita falta quando estou sem. Depois à tarde vou descansar ou tenho fisioterapia, os últimos meses foi com muita fisioterapia, ou vou resolver coisas da vida adulta.

Também faz parte.

Também tenho que ser adulta.

E depois nova sessão de treino, aí já com combate.

E depois nova sessão de treino das 20h às 22h, normalmente.

Da noite?

Sim.

Com combate.

Acaba bastante tarde. Sim, pode ter mais lutas, pode ser mais técnico. Aí já é muito específico. Depende da altura do ano em que estamos, da fase. Começa às 20h, eu vou sempre um bocadinho mais cedo, porque tenho que fazer ligaduras, tenho que fazer preparação, treino de mobilidade, de estabilidade, de prevenção de lesões, todas essas coisas que uma velhota já tem de fazer. E depois é tomar banho, ir para casa e preparar para um novo dia.

E está fechado o dia, não é?

Sim.

É inegável esse apreço e esse abraço que tu sentes muitas vezes da tua família. Estou a ver que tens aí ao pescoço um colar que penso que sejas tu e a tua avó. Como é que eles lidam nos dias em que há competição a sério e não desses treinos que estamos a falar, e com o fato de terem uma filha, uma neta, mas ao mesmo tempo terem uma atleta? Como é que se lida com essa dualidade de sentimentos? Eles passam para ti esse nervosismo, acalmam-te? Como é que é esse processo?

Não me passam nenhum nervosismo e eu sempre senti que a minha família eram os meus maiores fãs. Sempre. E a minha avó, especialmente, que está aqui, que faleceu o ano passado, ficava contente independentemente do que acontecesse. Se eu ganhasse medalha, nós tínhamos uma tradição, eu voltava, metia-lhe a medalha ao pescoço, tirávamos uma foto. Toda a gente já me dizia no Instagram: "Já estávamos à espera desta fotografia". Mas se eu não ganhasse, ela dizia: "Filha, não te magoes, chegaste inteirinha, é o que interessa. Também não se pode ganhar sempre para próxima há mais". E ficava toda orgulhosa a ver-me na televisão. Nos últimos meses que ela esteve internada, foi quando eu ganhei o título de campeã da Europa, que lhe dediquei, liguei logo: "Vó, foi dedicado a ti". E ela: "Eu sei, filha, eu sei". Toda a gente, as enfermeiras todas disseram: "Liguem a televisão do quarto da nossa filha, para ela ver a filha na televisão, a neta". Sempre foram um grande apoio. A minha mãe não costuma ver as competições. Fala comigo.

Ela disse-me isso uma vez. Conversou comigo ao telefone aqui na rádio.

A minha mãe é muito de sentimentos, de intuições e coisas. E no dia em que eu parti a perna, ela disse que me viu entrar para o combate e desligou. Disse que sentiu que a coisa não estava bem, não queria ver aquilo. E depois eu magoei-me. Ela disse: "Não achei que fosses magoar, que fosses partir uma perna, mas achei que a coisa não ia correr bem". E mesmo nos Jogos ela não viu, mas eu estou sempre a falar com ela. Com ela falo muito mais da perda de peso, apesar de ela não entender tanto isso, mas como ela me ajuda muito e sabe aquilo que eu passo. Ela é mais naquela coisa de mãezinha: "Coitadinha, estás a passar fome, estás com ar doente", diz sempre. Mando-lhe uma foto, ela diz sempre: "Estás com ar tão doente". Tem que ser. Mas falo muito com ela, estou-me a sentir assim. Mas ela não vê. O meu pai é o que se calhar passa assim um bocadinho mais de nervosismo neste momento, ou há dois meses já está a perguntar qual é que é a competição que eu vou fazer, quem é que está inscrito. Está sempre atento.

Ele tem o quadro completo das atletas.

"Viste que a francesa vai? Viste que não sei o quê? E aquela também vai. Então e agora, quem é que ganhou esta prova?" Está sempre atento. Está mais atento às competições que têm passado do que eu, porque eu fico um bocadinho à parte quando estou magoada, não quero estar muito focada naquilo, e ele: "Viste quem é que ganhou na China? Viste que não sei o quê? E aquela alemã?" Eu: "Está bem". Ele se calhar é que é assim um bocadinho mais nervoso, mas é um nervosismo de preocupação, de interesse. E ele vê. Ele pede sempre à minha mãe para ajudar a meter no YouTube para ver as competições. O meu irmão é o mais nervoso de todos, é o pior, mas eu felizmente não vejo.

Teu irmão, que é também teu treinador.

Sim, mas ele normalmente fica cá a ver e fala para o computador como se eu estivesse a ouvir, grita, dá murros nas paredes. Ele é muito entusiasta dos meus combates.

Portanto, tens um grande apoio, mas esclarece-me aqui uma coisa, Mia João. Um atleta olímpico nasce, obviamente, porque tem que ter condições materiais e psicológicas e um grande ambiente em torno de si, mas o que determina a criação de um atleta olímpico? É o atleta ou é o meio?

São os dois. É o atleta, mas é inevitavelmente o meio em que está inserido, as pessoas de quem se rodeia. Eu acredito que também a educação que eu e o meu irmão tivemos. Eu sou uma pessoa ambiciosa, mas tenho ao meu lado uma pessoa igualmente ambiciosa, então um vai puxando sempre o outro e crescemos assim. Foi uma das primeiras pessoas que eu conheci.

Ele é mais velho do que tu.

Ele é oito anos mais velho. O meu irmão tem muitos problemas de saúde e parou a competição muito cedo. E eu acompanhei muito a determinação dele, a vontade de superar os obstáculos. Vi-o andar de muletas, não conseguia andar, os médicos a dizerem que ele ia ficar de cadeira de rodas, isto e aquilo, e ele mesmo assim pegava no fato, ia para o treino Acompanhei muito essa parte dele e vi muito do sofrimento dele e o quanto ele nunca desistia. Acho que aprendi muito com isso. Os nossos pais, se calhar, na vida profissional, talvez não tenham demonstrado tanta ambição, mas criaram-nos a nós dessa forma, de forma a sermos destemidos e ambiciosos. E o que eu dizia, a parte da família e dos amigos, eu sempre tive muito apoio, sempre tive pessoas muito compreensíveis, que perceberam muito bem as escolhas que eu tinha de fazer, aquilo que eu queria conquistar, que sempre foram muito expressivos no orgulho que sentiam em mim, que sempre fizeram tudo aquilo que estava ao alcance deles. E depois a minha parte. Eu sempre fui muito trabalhadora, como eu disse, isso entrou na minha rotina e a partir daí eu não conheço outra vida e não conheço outra coisa que não seja trabalhar muito para alcançar os nossos objetivos e querer sempre conquistar mais. É um modo de estar na vida.

E isso exige fazer muitos sacrifícios ou não?

Escolhas.

Essa questão, eu queria pôr aqui em perspectiva a questão do peso. Tu competes abaixo dos 78 quilos. É um limbo permanente, não é? Tu tens que estar sempre muito atenta a isso. Para alguém que está de fora e que se calhar olha para isso como um número, como é que tu vês isso?

Neste momento é o mais difícil para mim, a questão do peso. Eu faço esta categoria desde 2017, há nove anos. O meu corpo já mudou muito, dos 18 anos para os 27.

Sim, tu falaste desse episódio em que ganhaste mais 10, 9 quilos, não foi?

Sim. Mas aí de mais gordinha. Agora eu tenho muito peso e costumo estar bastante mais pesada do que a categoria, porque estou com muita massa muscular. E com a idade cada vez fica mais difícil perder esse peso, cada vez custa mais a recuperação da perda de peso. Então tem sido uma luta, daqui a bocado vou à nutricionista e ela vai ralhar comigo mais um bocadinho, mas tem sido das lutas mais difíceis, porque superar lesões é difícil, ganhar combates é difícil, mas eu estou habituada. E a fazer dieta eu também estou habituada, mas é uma coisa muito permanente, é estar sempre a pensar nisto, é pesar-me todos os dias para controlar como é que isto está e não posso passar deste peso, se eu passar muito do peso, se eu perder mal o peso, ponho em risco o meu rendimento, ponho em risco a minha saúde. Se perder mal o peso, estou mais propensa a ter alguma lesão no treino ou na própria competição. Então é uma coisa em que temos de ser muito profissionais a carreira inteira, não é hoje e amanhã não.

E Patrícia, como é que uma jovem mulher vê mudar o seu corpo?

Hoje em dia eu gosto muito e sou muito orgulhosa do corpo que tenho. Agora digo até as minhas mãos, eu tenho as mãos todas deformadas, tenho muito. E durante muitos anos, usar anéis ou pintar as unhas, nem pensar, porque isso chamava a atenção para as mãos. Hoje em dia eu olho, estas são as mãos que me fizeram ganhar todas as minhas medalhas. As cicatrizes no corpo fizeram todas parte da minha história. Os braços grandes e o corpo musculado, eu tenho muito orgulho. Eu estou sempre a gozar. Eu chegava e fazia bíceps para a minha avó. Dizia: "Ó avó, já tinhas visto algum braço assim tão grande?" Ela: "Filha, estás mesmo musculada." E eu tenho imenso orgulho, mas não foi sempre assim.

Sim.

Com 16, 17 anos, eu lidava mal com o meu corpo, não tanto pela questão do músculo, porque eu sempre gostei de ser grande e de ser musculada, mais pelo contrário, de me achar gorda, destas questões de perder o peso. Tinha alguns transtornos alimentares, lidava muito mal com a comida, tinha compulsão. E isso, especialmente numa rapariga, numa jovem adolescente, são coisas que causam grande impacto.

E hoje estás mais apaziguada com essa questão ou é uma questão diária que te aparece muitas vezes?

Hoje estou muito melhor. Melhorou muito assim que subi de categoria. Eu fazia menos de 70 e era quando tinha mais esses problemas. Assim que subi de categoria, melhorou muito. No entanto, esses episódios da compulsão, é uma coisa que eu vou falando também com a minha nutricionista e que vamos arranjando estratégias para evitar. De vez em quando ainda acontece.

Portanto, és uma boa boca, é isso?

Sou. Gosto muito de comida.

Qual é teu prato favorito, já agora?

Eu gosto de muita coisa, mas do mais simples. Eu quando era pequenina dizia que um salmão grelhado com uma batata cozida e salada, top.

Ótimo.

Não sou assim de coisas mirabolantes e adoro as comidas tasco do meu avô. Uma feijoada do meu avô, até uma massa de bacalhau, qualquer coisa assim. Não gosto de coisas tipo camarão e não gosto de petiscos. Gosto de coisas de tasca.

Nós já vamos falar sobre esse ciclo para Los Angeles 2028, mas antes, João Miguel Santos, estamos aqui a falar com alguém que podia ser nossa colega. Acabou há pouco tempo esse curso de Ciências da Comunicação, ficou aqui a marinar durante algum tempo, até muito por força do desporto profissional.

E acabei com a cadeira de radiofónico.

Ah, nem de propósito. Onde é que tu te imaginavas, se este fosse o teu caminho, porque podia ter surgido, no mundo das ciências da comunicação, porque há imensas possibilidades, não só a rádio, a televisão, até mesmo assessoria, por exemplo, onde é que tu te imaginavas?

Primeiro, o jornalismo surgiu como opção Sei lá. B, C, D. Eu no 12º ano queria ter ido pra nutrição, porque tinha essas questões da compulsão alimentar e queria aprender. Queria aprender pra mim e pra ajudar outras pessoas que passassem pelo mesmo ou para evitar que passassem pelo mesmo. Queria muito estudar nutrição, mas não consegui conciliar o estudar pros exames nacionais com a preparação do Campeonato da Europa. Tive má nota no exame de Biologia, não consegui entrar e pensei: tanta coisa que eu queria ser quando era pequena, uma delas era jornalista. Tinha um microfone cor-de-rosa, que hoje em dia o meu sobrinho brinca com ele, e andava a fazer entrevistas às pessoas no Natal. E tinha boa nota em Português, gostava muito de escrever, sempre gostei muito de escrever, muito mais do que falar. Acho que o falar eu desenvolvi ao longo destes anos, especialmente dos últimos dois, mas eu sempre gostei muito de escrever. Escrevo muito em cadernos, sozinha, gostava muito da parte da composição no teste de Português. Então pensei: "Olha, Jornalismo". E a minha mãe estudou na Universidade Nova, estudou na mesma faculdade que eu, estudou Filosofia. Mais uma vez, um bocadinho para agradar à minha mãe, eu: "Olha, vou pra mesma faculdade tua. Venha comigo pra fazer a matrícula", pra ela reviver o edifício da faculdade. E assim fui pra Ciências da Comunicação.

É uma coisa que te assusta? Sabemos que a carreira dos atletas de alto rendimento é curta, não é? Apesar de ainda seres nova, mas é uma coisa em que pensas: "O que irei fazer depois do judo, Patrícia?"

Penso, mas hoje em dia não me assusta, porque eu acho que o judo e a confiança que eu desenvolvi nos últimos anos, deu-me uma confiança, volto a repetir, em mim, de que eu sou capaz de fazer qualquer coisa a que eu me proponha e para a qual trabalho muito. Quando eu decidir encerrar este capítulo, eu vou me dedicar a outra coisa e eu tenho a certeza, ou espero, tentando dizer isso de forma humilde, mas tenho a certeza que vou ser bem-sucedida, porque me vou empenhar, porque criei em mim essa coisa do trabalho árduo e de ser muito trabalhadora e obstinada para conseguir aquilo que quero.

Tens boas competências, é isso, como se costuma dizer no mundo do trabalho.

Acho que acredito que sim. Mas não assustando, penso nisso.

Mas vais-te fazer o quê, por exemplo?

Como eu tava a dizer.

Não estou a colocar grandes pressões, pois não?

Não.

Ainda bem.

Pensei nesta questão de entrar pra Ciências da Comunicação e ser jornalista esportiva, porque nós, atletas, queixamo-nos muito. Eu acho que agora penso sempre em como resolver uma dor, olhar pra uma dor e como a resolver. Nós, atletas, queixamo-nos muito da forma como as nossas competições, como o desporto é coberto e é difundido. E eu queria ser a pessoa que esteve do outro lado, que conheceu essas dores, que foi magoada pela forma como partilharam as notícias e fazer diferente, e fazer melhor pelos atletas depois. Mas entretanto eu tenho descoberto tanta coisa, e depois dizem que eu tenho uma voz radiofônica, e eu comecei a gostar de estar nestas salas de rádio. Também gosto desta parte, mas depois também as redes sociais começaram a crescer muito e eu estou a começar a gostar de trabalhar também com essa parte, e já é possível, com a parte da comunicação, ligar as duas coisas. Mas eu acredito que sempre muito ligado ao desporto. E depois tenho criado aqui na minha cabeça uma lista imaginária, que ainda não pus pro papel, de coisas que eu gostava de fazer depois, concretizações pessoais. Não pelo dinheiro, nem nada disso, porque acho que os negócios que eu tenho em mente não serão muito rentáveis, mas pelas conquistas pessoais que eu gostava de ter.

Uma mulher cheia de sonhos.

Muitos, demais. Acho que não tenho anos de vida pra tanto sonho.

Olha, nós estamos aqui a prepararmo-nos também pra esse ciclo de Los Angeles 2028, estás com os olhos nisso, certamente. O que a Patrícia de 2028 precisa ter que a Patrícia de Paris 2024 não tinha?

Eu acho que a Patrícia só precisa ter saúde, que o resto ela vai buscar, como foi buscar antes.

Quatro anos é muito tempo. Tu há bocadinho falavas disso, que é de uma competição para a outra.

É muito e é pouco ao mesmo tempo. Nós olhamos, são só quatro anos, mas nós agora já estamos a dois anos. São só dois anos, mas depois olhamos o que há pra fazer em dois anos. Ainda há muito pra fazer, aquilo que há pra passar, as competições que há pra fazer, que vai começar agora do zero. Eu vou fazer no fim do mês a minha primeira competição do apuramento. Ainda há muito pra correr. E o que a Patrícia precisa, eu acho que é mesmo de saúde, que no final, pra Paris faltou-me um bocadinho. Mesmo assim consegui a medalha, mas faltou-me saúde naquela preparação. As pessoas de quem eu me estou a rodear são praticamente as mesmas, porque eu acredito que são as certas e são as que me querem bem e que me querem ajudar a chegar onde eu pretendo. Portanto, são as mesmas.

Quantas pessoas é que trabalham contigo diariamente? É o teu treinador, a tua nutricionista e a tua psicóloga.

O meu treinador nacional, apesar de eu estar em Tomar e ele estar aqui, também estamos sempre em contato e é ele que me acompanha maioritariamente quando estamos fora. Os meus colegas, inevitavelmente, também me acompanham sempre. Qualquer coisa que eu precise pra ir treinar, eles estão comigo. E minha mãezinha é uma peça essencial, não percebendo nada de judo, até hoje sabe dizer dois nomes de técnicas, tá nisso há 30 anos, mas é um pilar importantíssimo pra me ajudar a ser só atleta. Eu ainda vivo com os meus pais, na casa deles. Então a minha mãe ajuda-me na parte de fazer comida, de lavar roupa, de ter sempre tudo pronto. Ela diz: "Eu vou fazer por ti o máximo que eu puder pra tu só teres de treinar, tu só tens que te preocupar com a tua vida". E tem conseguido, com muito esforço da parte dela, também tem conseguido. E eu acho que a Patrícia não precisa de nada mais que isso pra chegar a 2028. Precisa só trabalhar muito como tem feito, aperfeiçoar algumas coisas, obviamente, porque se fiquei em terceiro e não fiquei em primeiro, é porque há coisas a melhorar. E esta parte que eu falava do descanso, da nutrição, tudo isso, são coisas que eu não tenho a 100% e é preciso estar a 101 pra conquistar aquilo que eu ainda quero conquistar até 2028 e em 2028. Mas acho que é um bom caminho que estamos a percorrer.

Olha, eu espero sinceramente, Patrícia Sampaio, que daqui a dois anos estejas a ligar pra tua mãe e pra ela entrar outra vez em direto na rádio, porque é bom sinal. É sinal que as coisas correram bem, mais uma vez.

Espero mesmo que sim.

Muito obrigado por teres vindo ao "Em 40 Minutos".

Obrigada.

E muito sucesso.