Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E acho que nós muitas vezes tomamos decisões ou temos reações, se quiseres, para ser um pouquinho mais simpático. Temos reações, somos reativos a determinadas coisas e usam isso com frequência. E nós já somos crescidos o suficiente e já temos experiência suficiente para saber que há determinadas coisas que servem apenas para nós saltarmos da cadeira. E nós continuamos a saltar entusiasmadíssimos. E ao fazer isso, estamos a trair um pouquinho o nosso papel, porque eu acredito no jornalismo, que é um guardião das democracias liberais. E, portanto, eu acho que nós temos uma função e acho que muitas vezes baixamos as guardas dessa nossa função em troca de uma entrevista exclusiva, um momento que nós sabemos que vai ser bom nas redes sociais e também vai ser bom nas audiências. É verdade que isto depois é uma questão demasiado profunda, porque os órgãos de comunicação social, genericamente, estão todos a atravessar períodos de alguma dificuldade e, portanto, tu tens que fazer pela vida. Mas acho que nós devíamos pensar um pouquinho mais naquilo que fazemos e nas decisões que tomamos e na frequência com que tomamos determinadas decisões, porque sim, eu acho que a degradação do espaço político, e nós muitas vezes criticamos essa degradação, também temos responsabilidade nisso, não tenho nenhuma dúvida.

É conhecido pelo rigor, rapidez de raciocínio e a capacidade de navegar entre a análise política e a comunicação clara. Em televisão, tornou-se uma presença reconhecida pela serenidade e à vontade em direto. Representa um jornalismo que procura resistir ao espetáculo fácil, insiste no detalhe, na explicação e no contraditório. O seu percurso passa pela televisão, mas também pela rádio, jornais e também o digital, sempre com uma ideia persistente: informar não é apenas transmitir factos, é ajudar a sociedade a interpretar o seu próprio tempo. E talvez seja isso, aliás, que o distingue. Num ecossistema saturado de opinião, continua a apostar na pergunta difícil, no contexto incômodo e na convicção de que o jornalismo só tem futuro se conseguir merecer a confiança. E hoje, em 40 minutos, conversamos com o Pedro Benevides. Bem-vindo. Aqui é a Rádio Observador, que é a tua casa.

Também. Obrigado, João.

Portanto, isto hoje aqui-

Isto é espetacular ouvir isto. Cada vez que gravava um podcast da História do Dia, devia ter sempre essa introdução. Vou tentar vender essa ideia. Acho ótimo.

Tens de falar com os-

Principalmente por mim.

Tens de falar com os responsáveis.

Vou fazer isso.

Olha, salta aqui à vista e acho que é algo que te distingue muito perante os outros, pelo menos quando te vemos em televisão, é que tu és um jornalista que gosta muito de explicar, mas ao mesmo tempo é uma explicação que se torna fácil para os outros. Ou seja, uma pessoa que te vê, consegue perceber aquilo que tu estás a explicar, quer seja algo relacionado agora, por exemplo, com o antivírus, com outro tema qualquer. Tu tens medo do aborrecimento?

Não é medo do aborrecimento. Eu tento é que, efetivamente, quando estou a falar com as pessoas, porque, na verdade, eu interpreto aquilo que eu faço um pouquinho como se fosse uma conversa, na mesma lógica que nós estamos aqui a ter, claro, com os artifícios todos de um estúdio de televisão e das câmeras e de tudo isso, mas tento que seja uma reprodução de uma conversa de ser humano para ser humano. E isso faz com que aquilo que eu digo tenha que obedecer a duas coisas que pra mim são sagradas, que é ser claro para quem não percebe e ao mesmo tempo não ser ofensivo para quem percebe. Ou seja, não quero estar a falar com crianças de-

Passar um estado de estupidez.

Sim, não quero estar a falar com crianças de três anos, mas também não quero que ninguém seja excluído daquilo que se está a passar e que, por alguma razão, nós entendemos que é importante que as pessoas saibam. E, portanto, se é importante que as pessoas saibam, nós temos essa obrigação, média no sentido de mediação, temos a obrigação de encontrar uma fórmula que responda a isso mesmo, que quem não percebeu nada do assunto ou nunca ouviu falar do assunto, perceba o que é que está em causa e por que aquilo pode ser importante pra sua vida. E quem já percebe do assunto, sinta: "É exatamente isto. Não me estão a tratar como se eu fosse um atrasado."

Tu onde é que foste buscar essa capacidade? Porque nós vemos muitos jornalistas em televisão, e é verdade, em rádio ouvimos. E geralmente afeiçoamo-nos mais ou criamos uma ligação mais próxima mediante isso, ou seja, uma pessoa que nos transfira, passe pra nós essa confiança, esse à vontade, mas ao mesmo tempo que nos informe. Onde é que tu achas que foste buscar isso?

Olha, eu acho que isto tem a ver com a minha escola de repórter, sobretudo com muita experiência a fazer diretos na rua. Eu digo muitas vezes que eu hoje estou num estúdio a apresentar noticiários ao fim de semana, mas a minha escola foi na rua, foi como repórter, porque eu acho que é assim que um repórter deve ser formado, um jornalista deve ser formado, é na rua a fazer reportagem. E ao fazer isso, eu tinha sempre a preocupação, quer fosse uma reportagem que fosse daquelas que são gravadas e montadas e depois exibidas no jornal, quer fosse num direto, ter sempre esta lógica de envolver as pessoas na conversa, envolver quem nos está a ouvir na conversa. Portanto, pensar quem é o meu público, quem é que são as pessoas que me estão a ouvir, e depois, como é que eu posso falar com elas desta forma para que haja aqui esta sensação de que estamos a estabelecer um diálogo, que eu estou a conversar com as pessoas. Isso pra mim era importante, esta lógica de conversar com as pessoas era importante. É verdade que tradicionalmente em Portugal, o repórter tem aquela voz mais colocada e fala muito assim, e isto é a voz da informação, e historicamente, culturalmente, não é só em Portugal, as grandes referências mundiais e históricas do jornalismo televisivo, por exemplo, têm todas, porque tinham, porque era uma coisa que se ouvia e era assim. Depois isso foi, sobretudo a escola americana, foi informalizando as coisas e transformando a conversa do jornalista mais numa abordagem de igual pra igual, quase com quem está a ouvir. E eu gosto disso. Eu gosto desta sensação de que nós estamos a ter uma conversa, porque é isso que faz sentido, é isso que nós fazemos uns com os outros. Nós temos este gosto por ouvir histórias, por alguém nos contar histórias. É uma coisa que historicamente, desde os primórdios dos seres humanos, nas formas que era possível encontrar para contar histórias, era uma coisa que se fazia. E eu acho que a nossa profissão tem muito disso. Nós contamos histórias, normalmente são histórias tristes, são histórias negativas, e isso também tem razão de ser, mas são histórias que nós estamos a contar.Eu não via nenhuma razão para, esteja a cobrir as eleições americanas, ou a cobrir um funeral de Estado, ou fazer a cobertura de uma campanha eleitoral, de não contar a história com linguagem comum, de entendermos todos o que estamos aqui a dizer. Isso para mim era fundamental no meu trabalho. Eu se calhar valorizava muito esta parte da mediação. É esse o meu trabalho. Eu tenho que mediar isto, as pessoas têm que perceber isto. Eu vou escolher o que é importante, mas eu vou ter que mediar e vai ter que chegar a algum lado. Não vai ser só para ter uma palmadinha nas costas, porque a minha classe achou que eu fiz a coisa de uma forma muito perfeitinha sob determinados critérios. É eficaz se quem está a ouvir sente que eu estive a falar para cada uma das pessoas que está a ouvir.

Então quando, por exemplo, ao fim de semana, que é quando tu fazes os teus jornais, antes do planeamento ou quando estás no planeamento, pensas sempre na pessoa que está em casa?

Penso sempre.

Primeiro.

Imagina, há determinados temas que são densos, que são difíceis, e nós podemos fazer uma de duas coisas: ou falar assumindo que as pessoas sabem do que nós estamos a falar, ou então dar ali um twist, que é o que eu normalmente falo. Muitas vezes, por exemplo, acho que é importante dar um determinado enquadramento prévio antes de ir ao corpo da notícia, verdadeiramente. E então, muitas vezes eu começo a dizer: "Não sei se se lembra daquele caso, daquela criança que não sei o quê". Ou seja, quando eu digo: "Não sei se se lembra", eu já estou a simular uma conversa, porque obviamente-

E a pessoa já fica logo com os ouvidos .

Eu espero que sim. Não sei se é eficaz, eu espero que sim, mas eu já estou a simular uma conversa, não porque estou a querer enganar quem me está a ver ou que está a ouvir, mas porque quero estabelecer essa proximidade.

São estratégias de comunicação para simular essa proximidade.

No fundo, é isso. E como eu já trazia isso um bocadinho da minha performance em direto, se quiseres, quando fazia reportagens em direto ou sem ser em direto. Para mim, o que fazia sentido era quando me sentaram na cadeira de pivô, que eu não mudasse a minha linguagem, não começasse a falar uma língua diferente só porque é mais aquilo que se costuma fazer.

Ao ponto de te sentires confortável para explicar o que é o Sick Seven, por exemplo.

O que é o Sick Seven. Houve uma vez também que fizemos, já não me lembro, não eram umas carraças, mas era assim uns bichos, uns percevejos ou o que era, também fiz uma vez. Aliás, houve uma altura que fazíamos muitos explicadores no jornal ao sábado. E explicávamos tudo.

Os jornais ao sábado, é uma dúvida que eu tenho, para alguém que também consome notícias. Não digo que são mais leves, mas querem ali também abordar outros temas do que um jornal dito, sei lá, de segunda a sexta, aquele jornal mais noturno, o jornal da noite.

Tem a ver com aquilo que as pessoas estão disponíveis para ver a um sábado.

Ao fim de semana há mais tempo.

Ao fim de semana, em particular ao sábado. Se tu fores ver aqui também no Observador, eu lembro-me quando trabalhava no Observador.

Já há muitos anos.

Não, foi assim há muitos anos. Acontecia um fenômeno que era, isto é um jornal que é iminentemente político, enfim, tem temas de sociedade, vai a todos os lados, internacional, etc. Mas é um jornal que tem, por exemplo, muita influência política, onde a política é muito importante. E acontecia um fenômeno, que eu lembro-me, que era: chegavas aí à sexta-feira à tarde e o interesse por esse tipo de notícias ia diminuindo, porque as pessoas começavam a entrar naquele modo de fim de semana. E chegava a sábado e os níveis de leitura desse tipo de artigos aos sábados não eram brutais. As pessoas preferiam outro tipo de conteúdo, porque estavam de fim de semana, estavam de folga, queriam libertar a cabeça daquilo que eram os problemas do dia a dia e fazia sentido que procurassem outro tipo de conteúdos. E, portanto, quando nós pensamos num jornal ao sábado, não podes deixar nunca de dar aquilo que são as notícias mais importantes do dia, porque isso também estabelece a relação ou mantém a relação de confiança que os teus espetadores têm contigo e com a tua informação, mas tens depois espaço para ir explorar outras áreas, seja às vezes as dicas de fim de semana ou de férias, ou sítios onde se cozinha. Quer dizer, todos nós fazemos isto, estou a falar das televisões, de analistas, todos fazemos esse tipo de conteúdos ao sábado, porque efetivamente as pessoas têm outra disponibilidade, estão mais tranquilas, estão com a família, muitas vezes acabaram de vir de passeios e não lhes apetece, se calhar, estar a levar com uma hora de coisas-

Hard news.

Hard news. Isto é o sábado.

E tu identificas-te muito mais com esse registo, vamos dizer assim. Não sei se lhe posso chamar registo.

Sim, quer dizer, eu acho que consigo adaptar-me bem aos dois registos. Agora parece que eu estou aqui a auto elogiar, mas acho que funciono bem nos dois registos, no sentido em que o hard news é a minha formação. Foi por isso que eu quis ser jornalista, é por isso que eu sou jornalista. Podemos chamar os fediversos, se tu quiseres, porque também há fediversos.

Soft news, se calhar.

Os soft news ou as coisas mais populares ou mais infotainment, também não me causam nenhuma espécie de alergia. Estou super confortável a falar sobre a moda das Swifties quando era esse o assunto, ou o Sick Seven quando era a sua semana.

Explica lá o que é o Sick Seven, porque há pessoas que se calhar nos estão a ouvir e ainda hoje não percebem. Até eu tenho alguma dificuldade em perceber.

Então vai, eu vou já dar aqui uma má notícia. Pronto, lá está aquela nossa formação do hard news. Vou dar aqui uma má notícia. Não vale a pena também preocupar-se muito com o Sick Seven, que eu penso que isso já deve ter passado e já acabou. Ainda há miúdos entusiasmados com isso.

Sim, há uma música que agora está muito na moda.

Que fala do Sick Seven?

Sim, não vou cantar.

Essa é uma das explicações. É essa música que aliás já existia, ou pelo menos havia uma música que já existia e que deu um bocadinho origem a isso. Supostamente, e ninguém sabe ao certo por que isto foi criado, houve um jogo de basquete, estava a ser uma apresentação de uma equipa e de repente estavam a apresentar um jogador que mediaSix-seven, na medida americana, six feet seven. E a câmera foi para um miúdo que estava entusiasmadíssimo com esse jogador e eles disseram six-seven, e ele: "Six-seven!" e pôs o braço pra frente e para trás e aquilo para cima e para baixo e basicamente aquilo correu a internet e supostamente terá sido isso que acabou por dar origem a isso. Mas também há essa música que também pode ter criado ali o fenómeno do número.

Não sabemos. Há modas que nós nunca vamos saber.

Não ainda bem, porque eu gosto também de perceber o que se vai passando à minha volta. Mas faz parte daquela cultura de determinadas gerações, que é uma espécie de assinatura deles e que quem está de fora não percebe o que acontece. E eu acabei por uma vez explicar isso e até dizer: "Atenção, se os seus filhos estiverem a ver isto, ou aos netos, tenha cuidado porque eles se calhar vão começar a fazer gestos com a mão e não vai perceber porquê, vamos tentar explicar".

Isso mesmo. Olha, tu falavas aqui dessa à vontade com infotainment. Nunca te tentaram desviar para algo mais de entretenimento?

Eu trabalho na TVI, nós todos os anos temos uma gala.

Sim.

Quando a TVI faz anos, faz sempre uma gala e tradicionalmente a TVI põe sempre as suas-

Os jornalistas em posições desconfortáveis

...os jornalistas e toda a gente. Nem sempre é posições desconfortáveis.

Mais reveladoras de outra faceta.

Sim, que talvez se fossem espertas não as revelariam publicamente, mas falta-me esse filtro, efetivamente. E eu já fiz várias coisas que não são informação e que muita gente ficaria surpreso. Às vezes recebi mensagens a dizer: "Nunca mais vou conseguir vê-lo apresentar o jornal depois disto que acabei de ver na gala da TVI". Quando eu era mais novo e quando essas galas começaram, eu olhava e pensava: "Meu Deus, eu era incapaz de fazer estas figuras". Até ao momento em que fui pra TVI e disse: "Claro que sim. Querem que eu faça a personagem do 'Big Brother'? É claro que sim". Querem que eu imite o Pedro Nuno Santos como se fosse um candidato do "Big Brother"? É claro que sim. Tive o cuidado de lhe telefonar primeiro só para dizer que ia fazer isso, porque era uma coisa um bocadinho complicada, porque eu podia, imagine, na semana seguinte, por alguma razão, ele aparecer no estúdio e eu ter que entrevistá-lo.

Como é que ele reagiu?

Não se importou nada.

Até achou graça.

Sim, não sei se achou graça, porque eu não tenho a certeza que ele tenha visto, imagino que não tenha visto, mas não se importou nada. Eu é que achei que devia fazê-lo. Como aquilo era uma área complicada e se me aparecesse-

Para quem nos está a ouvir, era uma espécie de sketch, também tinha a Sandra Felgueiras, não é?

Tinha.

Em que interpretavam-

Joaquim Sousa Martins, tinha muita gente da informação, era sobretudo feito com pessoas da informação, era encenado pelo Eduardo Madeira. A Sandra Felgueiras fazia de Mariana Mortágua, era os líderes políticos dos partidos como se fossem concorrentes do "Big Brother" ou da "Casa dos Segredos". E era uma coisa bastante ridícula, mas faz parte do espírito da coisa. E vou dizer, é uma coisa que até me dá gozo fazer aquilo, o que quer que seja, porque é verdadeiramente exibires a tua camisola de gente da casa. Aquilo está no ADN da TVI, as pessoas lembram-se historicamente há muitos anos que aquilo acontece e acho que quem está lá, é uma espécie de iniciação e depois de confirmação da fé, se quiseres, de fazer parte da TVI. Este ano calhou-me estar a fazer uma dança do "Gangnam Style". Eu não sou muito bom a dançar, mas já é a segunda vez que digo que sim a este tipo de coisas, porque também já fiz uma dança. Esse é que é o meu problema.

Não pensas muito.

Não, com a idade eu devia dizer menos e agora digo mais, porque acho que levo-me menos a sério do que há 15 anos, seguramente. E quando eles me dizem: "Vais ao 'Dança com as Estrelas'", eu digo: "Eu não sei dançar". "Não, tu sabes, vais." E eu: "Claro que está bem, vamos a isso", que é obviamente uma coisa que eu não devia ter feito, mas fiz e faz parte.

Mas olha, não me respondeste.

Tentaram para fazer.

Se alguém imagina que o José Eduardo Dinis chegava a partidos e: "Pedro Panfiliques, temos aqui uma proposta pra ti, um programa, vais ter de sair da informação e vais te focar apenas no entretenimento". Isso seria uma hipótese na tua vida ou tu não te imaginas sem jornalismo?

Neste momento, não me imagino sem o jornalismo. Eu não sei que proposta é que seria essa, não sei o que poderia estar na cabeça do José Eduardo Dinis se me viesse fazer essa proposta. Agora, é um bocadinho difícil de responder-te a isso, porque nós já tivemos casos de jornalistas a fazer outras coisas, até imagina, eu acho que o "Quem Quer Ser Milionário" e outros gêneros de coisas. Aliás, isso acontece muito.

A Inês Lopes Gonçalves começou como jornalista.

Exatamente, mudou depois a carreira dela. Eu não sei o que eu faria num caso desses, mas para fazeres uma coisa dessas, eu acho que tens que tomar uma decisão radical, que é: se eu for abraçar este projeto, eu vou mudar de vida, efetivamente. Eu não posso ir apresentar um concurso e depois, de repente, voltar para apresentar as notícias como se nada fosse.

Claro, tem que ter uma carteira profissional.

Há uma carteira profissional, mesmo que tu a entregues e depois a vás recuperar. Eu confesso que é como aquela coisa de ser assessor. Eu uma vez fui convidado para ser assessor de imprensa e eu fiquei a pensar um bocadinho naquilo e não sei o quê, aquelas três noites sem dormir, depois achei que não fazia sentido. Mas uma das coisas que eu disse quando me convidaram foi: "Vai ter que me deixar pensar, porque eu aceitando isto, eu vou tomar uma decisão estrutural na minha vida, que é eu vou deixar o jornalismo para sempre". Porque eu não concebia ser assessor de imprensa e depois voltar a ser jornalista.

Era quase como uma traição, não é?

Nem digo como traição, não é uma traição. Eu não me via a fazer isso e eu não quero que isso seja interpretado como uma espécie deDe crítica ou de julgamento a quem fez isso e há pessoas que fizeram isso no jornalismo. Não é isso. Eu é que não me via a mim próprio a fazer isso porque sentia que ao ter ido trabalhar como assessor de imprensa, estava a fazer uma coisa que era muito diferente daquilo que é a minha profissão e obviamente incompatível, tanto é que tinha que entregar a carteira. Portanto, se eu tiver que entregar a carteira por alguma coisa que eu esteja a fazer, eu acho que nesse momento eu tenho que deixar de ser jornalista, porque não faz sentido voltar. Para mim, não fazia sentido reinventar-me outra vez como uma coisa que eu já tinha sido e que, de certa forma, recusei durante um determinado período. Portanto, respondendo à tua pergunta, essa hipótese não está em cima da mesa. Se estivesse, eu tinha de pensar o que é que iria fazer, mas o meu pensamento ia ser este: para aceitar uma coisa dessas, eu tinha que decidir. Pronto, eu fiz uma carreira no jornalismo, correu bem, acho eu, agora vou fazer outra coisa.

Ainda vais a tempo. Ainda tens muito tempo pela frente. Vamos só fazer aqui uma curta pausa no "Em 40 Minutos", já voltamos para a segunda parte esta semana com Pedro Benevides. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Pedro Benevides, uma pessoa que conhece muito bem esta casa. Aliás, tu estiveste cá durante um bom período de tempo. Saíste, voltaste agora com a História do Dia. Lembro-me bem quando assumiste esse desafio e de ouvir uma conversa tua a dizer do medo, porque é um podcast muito ouvido, não é?

Sim.

Aliás, no ranking deste mês está entre os 20 mais ouvidos em Portugal. Ainda sentes esse medo todos os dias quando ligas o microfone ou quando escolhes uma história? Porque este podcast, no fundo, e à conversa também com amigos, com pessoas que ouvem e que sabem que estou a trabalhar aqui no Observador, é a companhia de muita gente ao acordar.

Sim.

E é uma pressão extra, não é?

É uma pressão extra. Escolher a história só por si é uma pressão. Felizmente, não é uma pressão solitária, porque é decidido em conjunto com a direção do Observador, naturalmente, porque também interessa que a história esteja articulada com aquilo que é o jornal do dia.

Mas essencialmente é um tema que marca.

É um tema que tem força suficiente para que dure mais do que um dia. Daqueles que há fogachos que tu tens que começam às 14h e às 19h já acabaram. E depois há outras histórias que nos incomodam o suficiente ou que nos interpelam o suficiente, ou que nos confundem, ou que nos deixam um bocadinho perdidos ou preocupados. E nós sabemos que essas histórias duram mais do que um dia e, portanto, são essas histórias que nós escolhemos, porque elas precisam ali de uma ajuda para analisar ou, por exemplo, pode acontecer ser um trabalho que é feito no próprio Observador com um tema às vezes inusitado o suficiente, mas que tem graça e às vezes é interessante contar essa história às pessoas, porque se calhar não era o que elas estavam à espera de ouvir naquela manhã, mas de repente ouvem uma coisa que é sempre significativa do estado de coisas tal como está hoje em dia. E portanto, o medo de escolher a história é partilhado, felizmente, não sou eu a fazê-lo sozinho. O que eu penso sempre é: será que isto é bom? É a escolha do título, a forma como escrevo a introdução, como faço a despedida, penso: será que isto vai agarrar as pessoas? Será que as pessoas vão ouvir isto, vão querer ouvir isto?

Porque são 15 minutos.

É 15 minutos, é cerca de 15 minutos. Às vezes o podcast tem um bocadinho mais, na versão que passa na rádio de manhã é que são 15 minutos. Mas sim, essas são as minhas preocupações e continuo a tê-las. E eu acho que tenho que ter, não é? Porque se nós estivermos a trabalhar convencidos que o nosso trabalho, por si só, só porque tem a nossa assinatura, é espetacular, a coisa pode não correr bem. Portanto, como eu dizia na primeira parte, eu penso sempre em quem é que está a ouvir isto, como é que as pessoas estão a ouvir isto. Eu imagino as pessoas a ouvirem no carro, imagino as pessoas a irem para o trabalho. Como é que eu posso chamar a atenção das pessoas, envolvê-las naquela história, mais uma vez, trazê-las para aquela conversa.

E pôr a tua identidade neste podcast, que já era muito ouvido, havia várias pessoas a fazê-lo, mas o Ricardo Conceição assumia a maior parte desses episódios. Foi difícil criares a tua identidade no sentido, porque tu fazes televisão, tu já tinhas estado aqui no jornal, o podcast tem uma linguagem se calhar um bocadinho diferente ou não sentiste essa diferença?

Eu tenho a vantagem de, como já tenho esta idade, portanto, não estou propriamente a mentir.

Que idade, Pedro?

Eu tenho 48, vou fazer 49 em breve, mas o que interessa é que neste momento tenho 48. Sim, sou superjovem.

Até sabes o que é o Six Seven.

Exato. Percebes? É isso que me mantém jovem.

Só por aí já deste 10.

Idade é um número, é um four eight.

Exato.

Portanto, como já tenho alguma experiência, também já trago a minha identidade comigo, já a carrego comigo. Era aquilo que eu dizia, quando passei para o estúdio para apresentar noticiários, eu já tinha uma identidade e não me fazia sentido mudá-la. Quando me convidaram para fazer o podcast, também já sabiam qual era a minha identidade e também para mim não fazia sentido mudá-la. Portanto, não tive grandes dúvidas existenciais nessa matéria. Sabia mais ou menos como é que podia adequar o meu estiloÀquilo que já existia, mas com a preocupação de respeitar aquilo que era o formato. E o Ricardo Conceição, que começou a fazer o podcast da História do Dia, criou ali um formato que é mais ou menos aquele que nós respeitamos. Depois, a forma como introduzimos a história pode ser um pouquinho diferente aqui.

Claro, cada um tem o seu estilo. A Sara Antunes Oliveira também já fez, a Teresa Bacis, o Luís Soares.

E cada um tem a sua identidade, e isso não tem mal nenhum, acho que é ótimo.

E quando vais de férias, eles vêm dar um pezinho, porque a História do Dia é todos os dias.

Ou quando tenho um trabalho qualquer na TV que não me permite fazer. Há aqui muito boa gente que já fazia o História do Dia antes de eu chegar e que dá muito bem conta do recado.

Já vamos mergulhar também um pouquinho na tua infância, até porque quero conhecer mais sobre ti no Barreiro, porque pelo que sei eras um menino muito tímido. Mas também agora, aqui no Observador, trazes pessoas para jantar contigo e com o Tomás Toscano.

Sim, é um podcast que eu recomendo vivamente.

Para ouvir em jantar.

Desinteressadamente, a ouvir a qualquer hora. O que é bom porque pode estar a ouvir ao jantar e também pode estar a ouvir ao pequeno-almoço, porque quando estás a pensar no que vais fazer para o jantar.

"Adivinha quem vem jantar?"

"Adivinha quem vem jantar?" Nós basicamente convidamos pessoas que não são necessariamente chefs de cozinha, embora tenhamos, obviamente, muitos chefs de cozinha, e não é um podcast de receitas nem nada disso, é um podcast de contar histórias. Nós estamos ali a contar histórias. O que tu fazes quando tens um jantar de amigos e tu sentes aquela energia boa de: "Ainda bem que fizemos este jantar, foi tão bom esta noite." Foi porque estiveram à volta de uma mesa, tiveram boa comida para comer. Às vezes não têm boa comida, porque o pé não calha, mas normalmente tenta-se sempre ter ali qualquer coisa. E à volta de uma mesa, as pessoas partilham histórias e criam laços e reforçam esses laços e criam bons momentos em conjunto, criam boas memórias. E nós o que quisemos foi criar um podcast que reproduzisse isso em conversas. Todas as semanas temos um convidado ou mais diferentes, temos temas completamente diferentes, como aconteceu recentemente, tivemos o chef Vitor Sobral, que é uma das pessoas que defende que se deve aproveitar todas as partes de um animal, até por respeito ao sacrifício que se fez ao animal. Acha que bem cozinhadas, até as vísceras e as partes consideradas menos nobres são produtos, iguarias inesquecíveis, um pouquinho desfazendo aqueles preconceitos que nós temos às vezes com determinadas partes dos animais. Temos outros episódios.

A Clara de Sousa foi esta sexta-feira.

A Clara de Sousa foi esta sexta-feira e nos contou imensas histórias. Ela é jornalista, não é chef de cozinha, mas tem uma ligação desde muito nova à cozinha.

Ela teve um blog, não foi?

Teve e tem um blog, que eu aliás sou frequentador assíduo, nós falamos disso na conversa.

Uma vez usei um truque, porque queria cozinhar uma alheira e há muita dificuldade em cozinhar uma alheira para que ela não rebente.

Exatamente.

E usei o truque da Clara de Sousa e resultou.

E a Clara de Sousa tem truques ótimos e ela sabe exatamente do que está a falar e é uma excelente cozinheira. E depois tem muitas histórias boas para contar sobre isso e sobre até a relação que isso tem com a profissão dela, que é jornalista, que toda a gente conhece. Vamos ter chefs muito conhecidos que trabalham muito o sentido da memória nos pratos que oferecem. Vamos ter neurologistas a explicar por que há esta ligação entre a cozinha e a memória. Vamos ter historiadores a falar da comida dos reis, o que os nossos reis comiam, como é que serviam e por que era servido com aquele fausto todo. Aquilo tinha um efeito político importante. Vamos ter outros historiadores a explicar-nos a história do açúcar, como é que o açúcar foi importante para Portugal e para o império, como é que isso tem uma história amarga, no sentido em que se baseou muito na escravatura, e como é que o açúcar hoje é tão mal visto e por que é tão mal visto. Juntamos um historiador com uma nutricionista. Vamos ter uma pessoa de engenharia química a falar com uma chef que não aprendeu a cozinhar em nenhuma escola e vamos ver como é que estes mundos se misturam. E isto dá muito boas conversas, tem dado muito boas conversas, que na verdade reproduzem aquilo que o Tomás e eu tínhamos. O Tomás é formado em cozinha, embora não exerça isso. Eu não sou, mas gosto de cozinhar e é à conta disso, nós criamos uma amizade grande, primeiro a partilhar receitas, depois truques, depois conselhos um ao outro, tipo: "O que tu achas que eu faça com isto?" Ainda hoje as miúdas lembram-se de um episódio. Eu não gosto muito de costeletas e era costeletas que eu tinha que fazer para o jantar. Eu disse: "O que eu vou fazer com isto? Eu odeio." Não odeio porque eu não odeio comida, mas não é uma coisa que eu goste. E o Tomás dá-me uma sugestão e diz: "Primeiro desossas, depois fazes não sei o quê, vais buscar um pão de leite, tipo brioche, vais pôr não sei o quê, crias uma maionese de não sei o quê, fazes não sei o quê". E eu fiz isso. E aquilo foi um jantar memorável.

E elas ainda hoje se lembram.

Ainda hoje se lembram. Achamos que era interessante criar um projeto que levasse um pouquinho este nosso gosto pelas conversas e pela prática da comida como uma forma de mostrares amor pelos outros. E fazes isso quando recebes amigos em casa. Estás a alimentá-los, estás a dizer: "Eu gosto de ti e convidei-te para estares aqui à minha mesa e agora vamos todos partilhar aqui boas histórias". Eu acho que a cozinha tem isso.

Pronto, e agora vêm os Santos Populares também.

Ótimo. Eu não sou o fã número um da sardinha.

Eu também não. Nos Santos, se eu estiver em pé, não gosto muito. Se eu estiver num sítio sentado, ainda vou à sardinha.

Eu mesmo sentado é uma coisa que é difícil. Ou seja, eu não tenho aquela paixão pela sardinha, que, por exemplo, a minha mulher temSonha com sardinhas e pensa: "Finalmente vou comer sardinhas". Eu, se não comer sardinhas, a minha vida segue normalmente, eu não tenho nenhum problema com isso. Mas quero aprender a gostar.

Quem sabe no teu podcast.

Quem sabe. Quero muito ter esse gosto, perceber a magia da sardinha que eu ainda não percebi.

Pedro Benevides aqui no "Observador" com a história do dia, "Adivinha Quem Vem Jantar?" na TVI aos sábados e domingos. Também tens o teu programa "Nas Costas dos Outros".

Às segundas-feiras, no Jornal Nacional.

Exatamente, em que muitas pessoas são surpreendidas com muitos casos.

Eu também vou dizer, porque as reações das pessoas surpreendem-me sempre. Eu vou todas as vezes para as gravações a pensar: "Hoje não vamos conseguir nada". E de repente, a realidade surpreende-me.

Mas há dias diferentes. Há dias que se calhar vocês ficam lá mais tempo.

Há dias em que temos muitas horas para conseguir. Por exemplo, imagina, se vamos fazer uma coisa numa esplanada, tu fazes uma primeira cena e a seguir tu vais ter que esperar que a esplanada limpe toda, por assim dizer, é uma expressão que nós usamos ali. Tem que limpar, que as pessoas que lá estavam e que viram o que se passou e que perceberam depois que aquilo era uma encenação para provocar reações, não podem estar na esplanada. E às vezes ficamos muitas horas à espera que isso aconteça e depois outras vezes conseguimos fazer aquilo rapidamente, porque como se costuma dizer, cada tiro cada mel. Cada vez que fazemos uma, há sempre alguém que vai reagir e sempre boas reações. Eu próprio fico surpreendido muitas vezes com o que nós vamos fazer.

E tens ali atores muito bons.

Muito bons.

Até para quem está em casa, desperta ali uma ira.

Muito bons. Um miúdo, então, que nós já usamos duas vezes, que é ótimo. É um miúdo que tem oito anos e ele encarna lindamente tudo o que nós lhe dizemos: "Olha, tu vais fazer disto e disto", e ele é espetacular. Temos encontrado ali muitos talentos.

Olha, quero te conhecer além desta figura que nós já conhecemos da televisão, mas um homem que cresceu no Barreiro. Tu eras muito tímido. Pelo que eu percebi, fui pesquisar, tu eras tímido na tua infância.

Atenção, eu era tímido, mas eu lembro uma vez, quando estava na escola secundária, tínhamos uma aula de psicologia, eu devia ter 15 anos. E o professor pergunta: "Quem é que aqui é tímido?" E eu ponho a mão no ar. E eu quando ponho a mão no ar, a sala inteira começa toda a rir, a achar que eu tinha dito a maior piada, porque obviamente, se havia pessoa que não era tímida, era eu. E aquilo que as pessoas não percebiam, mas eu respondi genuinamente, que é do gênero: "Eu sou tímido, eu sou verdadeiramente tímido." Não era para mim natural. A minha filha mais velha era um bocadinho exatamente, eu revia-me perfeitamente naquilo que era entrar numa sala e primeiro entras discretamente só para veres como é que está a sala.

Sentir o pulso.

Onde é que tu te podes mexer, onde é que tu podes entrar. Mas se não derem por mim, perfeito. E a minha natureza é essa. Eu acho que ainda hoje é. O Marcelo Rebelo de Sousa que usava a expressão, ele próprio diz de si próprio, que é um tímido corrigido, e as pessoas acharam alguma graça, mas eu percebi exatamente o que ele quis dizer. A partir de determinada altura, eu percebi que não dá, não podes estar numa sociedade apagado e à margem porque é mais confortável. E então tive que arranjar mecanismos, mas desde miúdo. Às vezes era para fazer rir os meus amigos, era tentar ser o melhor aqui nesta tarefa, tentar de alguma forma superar aquilo que era a minha própria natureza.

Então de certa forma ninguém te reconhecia essa timidez.

Não. E eu percebo hoje, e eu lembro-me perfeitamente, estar a olhar para toda a gente e dizer: "Mas eu estou a falar sério, eu estou a falar a sério". E toda a gente ria, a dizer: "Está aqui a gozar". Não estava a gozar. Eu sou verdadeiramente tímido. Agora, nunca deixei que essa timidez me dominasse. Mas eu lembro-me que estava no 12º ano e fui com dois amigos. Uma coisa que havia, que era a Fórum Estudante, acho eu, era uma coisa desse gênero, que era uma revista que havia.

Acho que ainda existe.

Não sei se existe, pronto, mas na altura existia e que era para veres carreiras de estudo. E eu já queria ser jornalista nessa altura. E havia lá uma coisa da SIC, que tinham recriado uma espécie de mesa pequenina do jornal da SIC e, portanto, as pessoas podiam sentar-se lá, ler o teleprompter, gravar. E eu lembro-me, estava com esses meus dois amigos e eles a dizer: "Vai, vai!" E eu: "Eu nunca na vida me vou sentar ali". Eu morria de vergonha, era incapaz. Tanto é que a minha amiga fez aquilo. Ela foi para Direito, não queria Jornalismo, mas achou: "Já que estou aqui, vou fazer isto". E eu vi aquilo e pensei: "Eu era incapaz de fazer isto, muito menos aqui em público, à frente destas pessoas". Eu morria de vergonha. E esse lado tímido voltou a sair e de vez em quando sai em algumas coisas. Hoje muito menos, porque eu se calhar nessa altura também me levava muito a sério. Hoje em dia já não faço isso. Se me dissessem para fazer aquilo, eu fazia e estava a andar.

O certo é que tu depois vais para o jornalismo. Acho que foi numa visita de estudo que tu fizeste na altura, a uma redação, que ficaste fascinado nessa altura.

Eu acho que já queria nessa altura. Eu tinha 12 anos e fui à Capital, que já nem existe. E eu lembro me, no fim da visita, ter dito à jornalista que estava a acompanhar-nos, acho que era uma jornalista, não sei. Expliquei-lhe que era aquilo que eu queria fazer, eu queria ser jornalista e de facto aquilo depois no artigo que aparece dessa altura, aparece a dizer: "Alguns confessaram-nos que queriam mesmo ser jornalistas", que era eu. Portanto, eu acho que já tinha essa ideia. Olhar para aquilo fascinou-me ainda mais. Depois andei ali um bocadinho hesitante quando foi para escolheres a área, tu tens que fazer isso na escola secundária. Quando fui para Humanidades, fiquei na dúvida se devia ter ficado em Ciências para ser médico, que era uma coisa que eu também achava que podia ter eventualmente jeito. E depois lá resolvi essa questão na minha cabeça e hoje sou jornalista e é o que é.

Muito contente com a-

Em princípio, não vou ser médico agora, já.

Nunca se sabe.

Pois nunca se sabe. Ou isso, ou apresentador de concurso, não sabemos o que a vida nos traz.

Um joker, por exemplo.

Quem sabe.

É o canal com cremes.

Pois é.

Pedro, fizeste esta tua vida muito ligada ao jornalismo, nomeadamente, tu estiveste aqui no Observador enquanto editor de política. E eu queria te perguntar se na tua carreira foi sempre um tema que te puxou mais, a questão da política. Tu agora fazes jornais e a política acaba por estar sempre presente, mas o que a política tem que te fascinou ao ponto deDe quereres seguir, se calhar com outros olhos também, acompanhares de perto tudo aquilo que acontece à nossa volta.

Eu, na verdade, quando comecei a trabalhar na televisão, na RTP, não fazia política, fazia sociedade. E depois, nas campanhas eleitorais, às vezes é preciso reforço e iam-me pedindo, e eu fazia aquilo com muito gosto. E depois houve uma altura que houve ali uma reestruturação, era preciso uma pessoa para a política e na altura o José Alberto Carvalho, que era diretor de informação da RTP, convida-me para ir pra editoria e eu fui, porque eu achava que podia trazer ali qualquer coisa também diferente, que era como é que eu vou levar o meu estilo, que não é um estilo muito convencional, até de fazer reportagem, para isto que é hiperinstitucional. A política é institucional, são pessoas sentadas à mesa, têm visitas, têm outras coisas e tens muito por onde explorar se tu quiseres ser mais criativo. Mas é uma coisa institucional e, portanto, eu gostei do desafio e adorei fazer. Dito isto, eu quando era miúdo, eu lembro, o meu pai comprava o Expresso para ler e eu comprava O Independente, que era um jornal que me atraía imenso, porque era uma coisa muito irreverente. E era um jornal com muita política e eu bebia aquilo, para já porque aquilo era escrito de uma forma com a qual eu me identificava muito. E eu sempre gostei de política, sempre consumi política e quando passei a fazer política no jornalismo, achei que estava perfeitamente em casa. É uma área que eu ainda hoje gosto imenso e sigo com muito interesse.

A política que tem sido ultimamente muito comparada, aliás, falávamos aqui há pouco do reality show, que vocês montaram em gênero de sátira, mas tem sido muito comparada a isso mesmo. E eu queria te perguntar se o jornalismo, neste sentido, enquanto agente, falhou em algum momento para agora estarmos a assistir. Ainda há uns dias falava com a Maria João Vilares, também aqui no "Em 40 Minutos". Ela não falava de uma degradação, mas de um degrau abaixo nos políticos que temos hoje em dia face ao passado. Tu sentes isso?

Da responsabilidade do jornalismo nisso?

Sim.

Sim, sinto. Acho que nós não podemos ser honestos se olharmos para o estado atual das coisas sem percebermos qual é a nossa responsabilidade. Essa responsabilidade vem com a profissão. E acho que nós muitas vezes tomamos decisões ou temos reações, se quiseres parecer um pouquinho mais simpático. Temos reações, somos reativos a determinadas coisas, salivamos com determinadas coisas, que determinados agentes políticos sabem que nos faz-

Saltar da cadeira.

Sim, faz-nos salivar e saltar da cadeira. E usam isso com frequência. E nós já somos crescidos o suficiente e já temos experiência suficiente para saber que há determinadas coisas que servem apenas para nós saltarmos da cadeira. E nós continuamos a saltar entusiasmadíssimos. E ao fazer isso, estamos a trair um pouquinho o nosso papel. Porque eu acredito no jornalismo, que é um guardião das democracias liberais. Eu não acredito nos méritos das democracias iliberais, que é uma coisa muito em voga hoje em dia em vários sítios mais e menos recomendáveis. E eu acho que nós temos uma função e acho que muitas vezes baixamos as guardas dessa nossa função em troca de uma entrevista exclusiva, um momento que nós sabemos que vai ser bom nas redes sociais e também vai ser bom nas audiências. É verdade que isto depois é uma questão demasiado profunda, porque os órgãos de comunicação social, genericamente, estão todos a atravessar períodos de alguma dificuldade e tu tens que fazer pela vida. Mas acho que nós devíamos pensar um pouquinho mais naquilo que fazemos e nas decisões que tomamos e na frequência com que tomamos determinadas decisões, porque sim, eu acho que a degradação do espaço político, e nós muitas vezes criticamos essa degradação, também temos responsabilidade nisso, não tenho nenhuma dúvida.

Nós assistimos aqui, não foi há muito tempo, a esse célebre episódio da Ana Abrunhosa, que retirou a confiança política a um jornalista.

Tem uma certa graça. Retirou a confiança política, como? Mas enfim.

Mas entretanto já se retratou e pediu desculpa e esse episódio já foi sanado, mas também às vezes alguns partidos políticos questionam, e agora temos formatos como o Polígrafo e outro formato também na SIC que atestam essa veracidade dos factos. É uma resposta também perante as fake news, a desinformação, ou é uma forma também do jornalismo se tentar escudar perante tudo aquilo que se diz hoje em dia em espaço público, nas redes sociais, em que muitas vezes uma mentira se pode tornar muito facilmente uma verdade?

Eu acho que é o jornalismo a fazer aquilo que tem de fazer, com desafios que não existiam desta forma, com esta intensidade, há uns anos. Sempre houve desinformação, não foi uma coisa inventada agora. Mas acho que hoje em dia há ferramentas e tecnologia que permitem amplificar esse tipo de coisas e também há, da parte dos consumidores, chamemos-lhe assim, uma disponibilidade muito grande para ouvirem apenas aquilo que querem ouvir e aquilo em que já acreditam. E perante estes desafios, o jornalismo tem que pensar muito bem o que deve fazer. E acho que os formatos de verificação de factos nas suas várias plataformas são um dos instrumentos para fazer isso. Se queres que eu diga se eu acho que são hiper eficazes, não sei, porque eu acho que quem acredita em determinadas coisas não vai mudar de opinião por causa disso. E hoje em dia, o descrédito dos meios de comunicação social é uma coisa muito preocupante, mas que continua, infelizmente, a reforçar-se. E nós, mais uma vez, temos todos mesmo que pensar muito bem no que andamos a fazer e no que vamos fazer para combater isto.

Tu és um homem muito atento à atualidade, por força da tua profissão. És pai de três filhas, todas com idades diferentes. O que te inquieta mais neste mundo que estamos a construir e nas ameaças que háHoje em dia

Eu não sou muito catastrofista relativamente a fenómenos como a inteligência artificial, por exemplo. Eu uso-a porque acho que é uma forma de simplificar determinadas coisas que nós fazíamos e que não precisamos de fazer. Não acho que ela substitua a inteligência humana nem a criatividade humana e, portanto, não a uso para isso. Mas há determinadas tarefas que são às vezes mais repetitivas e que eu acho que nós podemos usar a inteligência artificial para nos facilitar a vida. Dito isto, eu não sei que mundo é que nós vamos ter daqui a cinco ou 10 anos. Eu sabia antes: este mercado de trabalho, por exemplo, vai morrer, porque apareceram estas máquinas e vão fazer isto e, portanto, não faz sentido, ou as pessoas agora não estão a consumir isto, portanto não vai deixar de existir. Eu neste momento não consigo antecipar que mercado é que nós vamos ter de trabalho, o que é que as minhas filhas vão fazer. Elas cada uma vai formar-se nas suas áreas e eu imagino, a minha filha mais velha está para ser enfermeira, portanto, eu presumo que a inteligência artificial não vá substituir aquilo que ela vai fazer. Imagino. Mas eu não sei. E esta incógnita, esta dúvida, eu que sempre tive muitas certezas sobre as coisas, esta dúvida é uma coisa que me deixa um bocadinho inquieto. É um nevoeiro tão grande e isso deixa-me um bocadinho intranquilo.

Mas isto é ao nível da inteligência artificial. Há bocadinho estávamos a falar aqui da questão da política e temos agora, neste momento, um governo de direita em Portugal. Há muito debate no sentido de se falar de direitos, oportunidades. A habitual luta entre esquerda e direita que todos nós conhecemos. Isso preocupa-te de alguma forma o mundo que estamos a deixar hoje para as gerações que aí vêm ou é algo que tu tratas disso, também por estar tão presente na atualidade, tratas isso de uma forma menos catastrófica, como dizias há pouco?

Eu tendo a não tratar a coisa de forma catastrófica, porque eu gosto de manter sempre algum otimismo, mesmo como nós estamos sempre com a sensação de que o mundo vai acabar daqui a dois, três anos. Eu não acredito nisso e vamos vendo sinais positivos, mesmo nas várias eleições que vão acontecendo na Europa, nós vamos sentindo um bocadinho que apesar de tudo, e apesar dos vários desvarios e radicalismos, as pessoas voltam depois para aquilo que é o espaço natural, diria eu, de tranquilidade e de menos revolucionário. Agora, eu diria que nós crescemos. A minha geração cresceu sempre numa rampa ascendente. Nós sabíamos que íamos ficar provavelmente melhor que os nossos pais. E aquilo que desejávamos para os nossos filhos é que eles também tivessem um futuro melhor que o nosso. Eu neste momento não acredito que isso vá acontecer. Eu não sei se as minhas filhas vão ter um futuro, uma rampa ascendente como eu tive. E isso significa que nós, geracionalmente, falhámos de alguma forma. E o mundo como está, não nos deixa tranquilos. E quando eu digo o mundo, não falo só dos Estados Unidos, falo também do nosso mundo. Portugal também não está brilhante. Nós continuamos aqui, sempre nesta reta que não vai para lado nenhum e isso, essa falta de esperança e essa falta de desígnio, é uma coisa que me inquieta muito. E não era o mundo que eu gostava de deixar às minhas filhas.

Se uma das tuas filhas, por exemplo, dissesse que gostava de emigrar, isso seria algo que...

Eu acharia natural.

Mas era algo que te deixava de coração mais apertado ou nem por isso?

Claro, deixava-me de coração apertado, mas daí a deixar-me entristecido ou deprimido, não. Eu sou muito a favor de as pessoas irem procurar as suas oportunidades e lutarem por elas. E se a geração das minhas filhas, que eu acho que às vezes não está tão focada nisso como, por exemplo, estava a minha, estiver com essa vontade e com esse empenho de arriscar e de ir à procura de qualquer coisa melhor, eu vou apoiar, obviamente.

És o primeiro nessa linha.

É a minha tarefa como pai.

Claro. Estamos aqui a chegar ao fim do nosso tempo no "Em 40 Minutos". Não pude deixar de olhar para o teu telemóvel. Há sempre notificações a cair à medida que vamos aqui conversando.

Ainda bem que pelo menos não tocou aqui durante a nossa conversa.

Não, é normal. Estamos aqui à frente com um jornalista e nem me atrevo a perguntar quantos jornais deves ter instalado no telemóvel.

O que está aqui foi a herança do Observador, porque precisamente como às vezes editava o jornal ao fim de semana, às vezes tinha que ir encantar histórias da Kim Kardashian, porque aquilo vendia ao fim de semana, ao sábado. E então eu tenho tudo, desde o TMZ até tudo o que é jornal português, jornais estrangeiros, e basicamente essas notificações vão caindo a toda hora e é um bocadinho enervante, na verdade. Por isso é que eu tirei aqui o som, ando sempre sem som por causa disso. Mas já estou um bocadinho viciado nisto.

É um vício?

Preciso disso, também é uma ferramenta de trabalho, na verdade.

Claro. Mas ia-te perguntar o que é que te faz desligar do teu trabalho. Porque para uma pessoa que pensa e tu fazes os jornais ao fim de semana, mas estás todos os dias aqui na Rádio Observador, de segunda a sexta, quando é que tu descansas?

Descanso à noite, quando posso, nos dias de semana, e menos ao fim de semana, porque trabalho ao fim de semana. Há momentos à noite, durante a semana, que eu consigo, seja, por exemplo, estar a ver um filme com a minha filha mais nova, que por ser a mais nova de três, às vezes é a que seguramente não teve a atenção que as outras tiveram, porque a vida entretanto fica mais agitada. Seja a ver uma série com a minha mulher ou a jantar fora como aconteceu ontem, são momentos em que eu desligo e estou presente nesses momentos e acho que isso é fundamental, porque caso contrário, se eu não viver como um ser humano normal, eu nunca vou conseguir estabelecer conversas com os outros seres humanos que me possam estar a ouvir, porque eu não consigo perceber o que é isto da empatia humana e do que nos liga uns aos outros. Portanto, eu preciso de momentos para viver isso na tranquilidade da família, do meu grupo de amigos e faço questão de o fazer com frequência.

E fora isso também, muitas viagens. Fizeste uma também muito recentemente em família.

Sim, foi espetacular. Foi a Nova Iorque, que é uma cidade espetacular, eu acho que entusiasma tanto os adultos como as crianças. Já fui com filhas da geração TikTok e, portanto, de repente, aquilo que era fascinante eram as coisas que eram trending no TikTok, mesmo que não fossem nada de especial.

O que experimentaste?

Uma coisa chamada Raising Cane's, que é uma coisa de frango, que basicamente tem um molho que é supostamente um molho espetacular.

E é trend no TikTok, confirma.

É super trend, tu entras lá dentro e só as coisas que estão à venda. Tu percebes logo que aquilo lá é todo um negócio, depois tem um DJ a dar uma música e aquilo está cheio de gente, e tu vais provar a comida, e aquilo não é nada de especial, e tu olhas e dizes: "Ok, não percebo porque é que é esta moda, mas é o que é". Pronto, fez parte do roteiro. Nós incluímos aquilo que são os clássicos de Nova Iorque, enfim, dentro daquilo que é possível fazer naquele curto período de tempo, e também alguns clássicos do TikTok, que também serviu para a Francisca e eu aprendermos o que é que está aí a dar.

Claro, uma adaptação também às gerações mais novas.

Intergeracional.

Um pai muito inclusivo, até estás no TikTok também.

Sim, também estou, que em parte é para embaraçar as minhas filhas. E acho que resulta muitas vezes.

Impedi-las de algum devaneio às vezes, assim momentâneo. Olha, vamos terminar. O que é para ti uma boa pergunta?

Uma boa pergunta é uma pergunta que me deixa a pensar ou que deixa o convidado a pensar, que ele fica genuinamente surpreendido ou que não tem uma resposta preparada para ela. Não temos que fazer sempre isso. Senão as pessoas também ficam às vezes com umas perguntas que são evidentes, mas que têm de ser feitas de qualquer forma. Mas uma pergunta boa é aquela que, de repente, deixa o convidado mais desarmado e o deixa genuinamente a pensar. Por quê? Porque eu acho que ao não anticipares aquilo que te é perguntado, a resposta normalmente sai mais genuína, sai mais crua. E tu, de certa forma, consegues ir um bocadinho para além daquilo que é a persona que todos nós temos quando estamos sobretudo em frente a microfones ou em câmaras de televisão, seja o que for.

Tu pensas muito antes de falar?

Eu devia pensar mais antes de falar. Eu não penso muito antes de falar. Eu acho que tenho aqui uma ligação rápida do cérebro pra boca e às vezes dava-me jeito ter aqui um ou dois filtros. Não tenho. Gostava de ter mais, gostava de pensar mais.

Dizer mais não, em vez de sim.

Não.

Isto sendo contra aquilo que falamos nesta conversa, atenção.

Eu digo na lógica de eu não devia ter ido ao "Dança com as Estrelas", mas tu me perguntaste: "Repetia outra vez?" Claro que repetia, claro que foi divertidíssimo, estás a brincar. E foi uma experiência que é única na vida.

Não sabes se é única.

Pois não sei, é verdade. Há uma coisa que nós estabelecemos aqui nesta conversa, que é: nós não sabemos o dia de amanhã.

É verdade. Quem sabe se um dia não és concorrente.

Quem sabe se um dia não sou concorrente. Seguramente, com aqueles dotes que eu demonstrei quando fui lá como convidado, acho que eles estão desejosos de fazer uma temporada só para me pôr lá como concorrente. Para eu durar meio programa, que é o tempo que vou durar seis meses.

Olha que há casos de pessoas que passaram por lá e que há sim registos notáveis de embromação.

Vamos esperar.

Pedro, vamos tratar disso, está bem?

Em nome do espetador, por favor, não faças isso, não te mates com isso.

Ficamos por aqui neste "Em 40 Minutos", esta semana com Pedro Benevides. Pode continuar a ouvir o Pedro na "História do Dia", no "Adivinha Quem Vem Jantar?", sábados e domingos também na TVI.

E nas férias também no Jornal Nacional.

É verdade. Um grande abraço. Vemo-nos por aí no Observador.

É isso mesmo, João. Obrigado.