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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Carla, também pensas no Aguiar Branco às 04h00 da manhã?

É verdade, sempre.

Sempre.

Andas precisado de toca, não é? Calma.

Calma.

E agora também, são 7h38. Bruno, o PS está numa encruzilhada.

Está numa encruzilhada. Todos os partidos estão, sobretudo os da oposição, mas o dilema do PS é peculiar. Mais do que um dilema, é um trilema, porque o Partido Socialista quer recuperar eleitores, alguns dos quais fugiram para o Chega, quer mostrar que é oposição ao governo e quer, ao mesmo tempo, preservar a imagem de partido responsável, já vimos isso na anunciada aprovação pela abstenção do orçamento. E tudo isto sem se aproximar demasiado dos protestos de rua para não correr o risco de parecer que está a ir atrás da contestação, em vez de a liderar. E a habitação tornou-se mesmo o teste mais visível a esta estratégia, com as manifestações em Lisboa e no Porto. José Luís Carneiro compreendeu, como quase todos os membros, todos os responsáveis políticos dos partidos da oposição, a indignação dos manifestantes, mas, ao mesmo tempo, pediu aqui respeito pela ordem pública. E tem atacado André Ventura por este apoiar as alterações à lei do arrendamento propostas pelo governo, apesar de se apresentar como defensor de quem tem dificuldades em pagar a casa. O PS quer aproveitar o descontentamento sem aparecer assim todo desfraldado, quer manter a pose. E é um desafio traiçoeiro.

Paulo, o Presidente da República convocou os partidos. Qual será a ideia de António José Seguro?

Pois, vamos ver. O Presidente da República, de facto, vai receber os partidos, um a um, no dia 29 de outubro. Este é o dia a seguir à discussão e votação na generalidade do Orçamento de Estado, no Parlamento. Mas a ideia não é propriamente discutir o documento, até porque sabemos que o Orçamento de Estado está despojado de medidas de políticas públicas, isto é, não tem assim muito para discutir, e tem já a aprovação garantida pelo PS. António José Seguro definiu o tema desta discussão, que é que ele quer discutir com os partidos. Quer falar de coesão social. Ora, cá está, é um tema suficientemente amplo e ao mesmo tempo concreto para discutir o ar dos tempos, com manifestações na rua e um problema grave como o da habitação, que se arrasta aqui há muitos anos. A coesão social é, no fundo, o chapéu ideal para ir a este tema e a outros. Dá para falar de saúde, pobreza, níveis salariais, enfim, dá para falar de quase tudo o que se vai passando mal no país. Vamos ver se a discussão é proveitosa e o que vai fazer a seguir o Presidente da República depois de ouvir os partidos. Porque se é para ficar tudo nas salas alcatifadas do Palácio de Belém, muito obrigado, façam lá as vossas conversas, mas isso vai ter pouca autoridade. Exatamente, passem bem.

Bruno, o mundo está de pernas pro ar.

Está tudo ao contrário, o mundo ao contrário, como cantam os Xutos e Pontapés. Então não é que temos Pedro Pinto, o líder parlamentar do Chega, a levantar suspeitas sobre os próprios serviços de segurança da Assembleia da República, perguntando se quem terá divulgado imagens de videovigilância poderá também ter estado envolvido no assalto? E quem é que apareceu a defender os agentes da PSP e os militares da GNR que trabalham no Parlamento? O Bloco de Esquerda. Os bloquistas pediram ao presidente da Assembleia da República que tomasse medidas para repor o bom nome dos profissionais de segurança, considerando que são muito graves as suspeitas lançadas pelo Chega. Onde é que isto vai parar? A pergunta é esta: será que ainda vamos ver o Chega a defender a vinda de mais imigrantes para Portugal? E será que o Bloco de Esquerda ainda vai acabar por exigir a pena de morte? Isto anda tudo de pernas pro ar ou então de cabeça perdida.

Paulo, faz sentido investir numa defesa sem soldados?

Não fará muito sentido. Ainda que as Forças Armadas sejam cada vez mais tecnológicas, como temos visto nos conflitos e as guerras. Nos conflitos que há por aí, na guerra da Ucrânia, Médio Oriente e por aí fora. E é precisamente para esse problema que alerta um documento escrito e publicado por antigos chefes militares em Portugal. É um grupo de generais na reserva que alertam para a queda do número de militares e as dificuldades das Forças Armadas para recrutar jovens. Dizem que o investimento em recursos humanos não está a acompanhar o foco que está colocado nos novos equipamentos. O problema não é novo, mas é mais um daqueles que se vão arrastando sem que sejam tomadas medidas para o resolver. Vem aí muito investimento em equipamento militar, até pelas obrigações da participação de Portugal na NATO. E a questão é: quem é que vai operar esses equipamentos?

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.