Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Nasceu em Lisboa, é mãe e mulher dos sete ofícios. Atriz, estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema. No currículo tem novelas, peças e filmes, mas não foi só a representação que a cativou. Também fez dança, ginástica acrobática, tirou ainda um curso de design e comunicação, fez parte do grupo musical Onda Choc e tem também uma formação em canto e piano. Hoje recebemos Joana Seixas em "40 Minutos". Bem-vinda, Joana.

Olá, Joana.

Muito obrigada pela disponibilidade.

Esta é das apresentações mais longas até agora.

Estou a esforçar. O currículo, o CV, uma lista incrível. Já vamos falar do teu percurso profissional, mas gostava de começar por uma história única da tua vida pessoal. Tal como na ficção, andei a fazer a pesquisa, neste caso, a tua personagem Irene, em "Quero e Viver," para ver se não estou a dizer nenhuma barbaridade.

Está certo.

Foste mãe e tia no mesmo dia.

É verdade.

Como é que isto aconteceu? Como é que se lida com tanta emoção? Como é que isto foi?

Foi tão inesperado que eu acho que uma pessoa não tem capacidade de prever o que vai acontecer. Eu e a minha irmã estávamos grávidas ao mesmo tempo, o que já era um acontecimento familiar, ainda não tinha acontecido. Também somos só duas irmãs, não há assim tantas hipóteses para isso acontecer. E nesse dia, ela ligou-me de manhã a dizer: "Mana, vais ser tia hoje." E eu estava bastante longe de achar que ia ter bebé nesse dia, porque estava de 38 semanas, a caminho das 40 semanas, que é o tempo médio, pelo menos em Portugal, e tinha tido o meu filho mais velho quase às 42. Portanto, eu estava a achar que eu estava quase a um mês.

Ainda vai demorar.

Estava bastante descontraída. Estava tão descontraída que eu estava nesse dia a marcar um fim de semana no Algarve.

Já não aconteceu.

Onde é que ficou isso?

Já não aconteceu. E então estava a mandar um e-mail para uma amiga de uma amiga minha, que tinha um sítio espetacular. Eu disse: "É mesmo isto que eu preciso." Ela liga de manhã a dizer: "Olha, já não vou poder ir à aula." Nós fazíamos exercícios juntas, aulas de grávidas, naquela fase, já as duas bastante barrigudas. E liga-me a dizer: "Já liguei ao doutor Pedro, ele disse para eu já ficar..." Nós temos o mesmo médico também. Outro pormenor interessante. Família vai tudo junto.

Esse médico teve muito trabalho nesse dia.

Teve muito trabalho, coitado. Ele diz que nunca lhe tinha acontecido. E então eu fui fazer a aula, ela ficou em casa, já estava em início do processo de trabalho de parto e a aula terminou por volta do meio-dia, e eu a meio da aula começo a sentir uma dorzinha aqui por baixo da barriga, uma pontada, só. E eu virei para a professora e disse: "Isto aqui hoje está a custar um bocadinho mais." E ela: "Muda de posição, põe para o outro." Mas quando saí da aula, fui à casa de banho, pormenorzinhos quem já teve bebés, e começou-me a sair o rolho mucoso. As pessoas que não sabem o que é, é uma palavra um bocadinho complexa, se calhar não interessa entrar muito por aí pela descrição, mas basicamente pode sair 15 dias antes do bebê nascer.

Não ficaste logo preocupada.

Ou seja, é uma tampinha, basicamente, que está a proteger de infeções toda a zona de entrada do canal da vagina. Isso começou a sair. Tinha-me saído no meu primeiro filho 15 dias antes de ele nascer.

Então não estavas preocupada.

Eu não estava a achar que eu ia ter bebé naquele dia.

Logo ali.

Sim, achei só que era um sinal: "Olha, isto já está a começar. Se calhar já não vai até às 40 semanas, agora se calhar é só mais uma semanita ou assim." E então a minha irmã liga-me a dizer: "Olha, vou à consulta com o doutor Pedro às 15:00. Podemos almoçar lá ao lado e assim ainda estamos juntas." Então fomos as duas almoçar. Deve ter sido aí que alguma coisa aconteceu, porque mal eu me sentei para almoçar com a minha irmã, eu tenho uma contração. Sim, foi mesmo. Sentei-me. O meu cunhado disse logo: "Também não podes ver nada, ela tem uma contração, tens uma contração, ela engravida, tu engravidas." E a partir daí, ela foi ao doutor Pedro, eu fui atrás dela, entramos as duas para a consulta. Ele viu primeiro a minha irmã, porque ela tinha prioridade, ela já estava desde as 04:00 da manhã em trabalho de parto, eu tinha acabado de começar. Mas eu disse: "Eu não estou nada preparada para isto." É que não tinha nada, zero. Estava de segundo filho, demasiado descontraída. Eu tenho que ir a casa.

Não ias achar que ia ser naquele dia.

Exatamente. Eu tenho que ir a casa, eu tenho que fazer alguma coisa. E então o doutor Pedro disse: "Está bem, então vá, vamos comunicando, vais mandando os teus timings de contração." E eu fui comunicando, ainda fui para casa com a minha irmã, a minha irmã também estava num processo mais demorado. E aí por volta, eu já não sei, às 20:00. Isto foi tudo desde de manhã até à noite. O bebê não nasceu nesse dia, nasceu à 01:00 da manhã do dia a seguir, foi na madrugada. Às 20:00, a minha irmã decide ir para o hospital porque acha que está a começar com contrações mais próximas. Eu disse: "Ainda vou aguentar mais um bocadinho." Ainda aguentei mais um bocadinho em casa.

Eu vou lá ter depois.

Eu queria mesmo entrar só mesmo no hospital assim à última. Já tinha tido a experiência do primeiro parto, já alguma descontração. Sabia também que ia ter um parto, se fosse nessa altura, com um bebê mais pequenino, porque 38 semanas acaba por não ser um bebê tão grande. O meu primeiro parto, o bebê era grande. E estava assim mais ou menos descontraída e a controlar. E eu moro muito perto do hospital, também convém dizer isso. Cinco minutos de carro, 15 minutos com imenso trânsito. Tipo a loucura, 15 minutos. E então estava muito descontraída, porque estava mesmo ao lado. E a minha irmã foi para o hospital às 20:00 e entretanto às 22:00 eu decido ir também. Cheguei lá, ele ainda estava no princípio da admissão no hospital. Ou seja, eu ainda lhe passei à frente nisto.

Coitado.

Cheguei lá, os médicos: "Ah, nem vale a pena fazer CTG, você pode ir já direto." Portanto, eu já nem sequer fiz o CTG, que ela estava a fazer. Já não fiz nenhum tipo de exame, fui direta pro quarto, foi num hospital privado, e depois logo a seguir eu comecei a dizer: "Doutor, isto agora está a começar a apertar, já estou a sentir." Nem sequer tive tempo de levar epidural nem nada, foi sem anestesia, o que foi ótimo.

O mais natural possível.

Foi o mais natural possível. Foi ótimo porque eu já tinha tido a experiência com e sem, e agora posso dizer que sim, que foi ótimo. Se não tivesse tido a experiência, não saberia. Mas de facto, apesar de haver um momento que a dor parece que é um bocado violenta, é exatamente nesse momento que a criança sai. Portanto, é só aguentar até esse momento e depois acabou. E a recuperação é muito mais fácil. Pelo menos pra mim foi muito fácil.

E achas que essa história, que é espetacular e muito pouco provável, não é?

Exato. Única.

Sim, achas que também teve o condão de te aproximar a ti, à tua irmã e também, já agora, o teu filho e a tua sobrinha?

As duas crianças, sem dúvida alguma. Só pra terminar muito rapidamente. O meu filho nasceu à 01:00 e a minha irmã, a minha sobrinha, nasceu às 02:30. E só não nasceram exatamente de seguida, porque pelo meio dos nossos dois partos, apareceu um parto urgente, que teve que ser atendido pelo nosso médico. E pronto, acabou por haver este espaçamento. Mas pronto, nasceram os dois no dia a seguir de madrugada. Aproximou-nos. A nós aproximou-nos já durante a gravidez, já estivemos bastante mais próximas. Nós já tínhamos falado sobre isso em brincadeira, desde miúdas: "Era giro um dia estarmos grávidas juntas." Nós achamos muito giro estarmos grávidas juntas, mas ao mesmo tempo não nos pudemos apoiar tanto como nas outras gravidezes. Ou seja, demo-nos muito apoio, tanto na minha primeira gravidez, como eu na primeira gravidez da minha irmã, também era a nossa segunda gravidez em conjunto. E isso aproximou-nos imenso também, esse apoio. E desta vez, fizemos o trajeto todas juntas, mas depois cada uma foi pra sua casa com o seu bebê, porque já não podíamos ficar juntas a apoiarmo-nos. Mas depois apoiamo-nos muito a seguir. Logo passado pouco tempo, as crianças começam a crescer e apoiamo-nos. Eles os dois, a Rita e o Gustavo, criaram uma relação incrível.

São como irmãos, não?

Completamente irmãos. Nós chamamos primogêmeos na família, mas eles ficaram com uma relação muito forte, muito próxima. São, de facto, nas crianças todas da família, as crianças que têm ali uma maior conexão. E o Gustavo, até muito tarde, quer dizer, ele ainda só tem nove anos, não é que ele seja muito velho, mas até há muito pouco tempo atrás, desenhava sempre a Rita no meio da família, como se fosse irmã, conjuntamente com os irmãos. Ele tem dois irmãos mais velhos, portanto, conjuntamente com os irmãos, ele desenhava sempre a Rita, não a minha outra sobrinha, nem os outros primos e portanto, criou de facto ali uma ligação muito forte.

E ainda aqui neste tópico da família, Joana, como é que é o dia a dia de uma mãe atriz? Ou seja, a maternidade é sempre complicada, seja qual for a profissão. Mas no teu caso, como é que é a experiência?

Olha, eu acho que é um dia a dia que é preciso ter uma certa força mental, principalmente pra ter a capacidade de fazer as escolhas certas nas alturas certas. E também ter a sorte, como eu tenho tido, até algum tempo atrás, de ter bastante trabalho. Não que eu tenha tido sempre imenso trabalho, porque infelizmente vivemos num país em que a cultura ainda é um understatement, portanto não está a ser tratada como deveria estar a ser. E portanto, ainda falta muito trabalho pros atores, ainda há pouca diversidade, apesar de as coisas terem evoluído. Já melhoraram, já pioraram, já melhoraram, já pioraram outra vez. Pronto, eu acho que andamos sempre um bocadinho nesta montanha-russa e tentamos, de alguma forma, manter a cabeça fria, porque é importante. E é importante também não personalizar demasiado no trabalho. Em relação ao ser mãe e ser atriz, fazer escolhas é uma das coisas mais importantes. E se fazer escolhas na vida, por geral, já é difícil, não é uma coisa extremamente fácil, fazer escolhas em relação ao trabalho que devemos ou não devemos aceitar, porque isso vai ou não vai implicar com a vida familiar, é uma gestão ainda mais complexa. Claro que tenho a sorte de ter um namorado, marido, tudo, muito bom e que tem ajudado muito. Nós estamos juntos há 15 anos e portanto tem me ajudado não só a equilibrar essas escolhas, como a fazer de backstage quando é preciso e dar todo o apoio quando eu estou menos disponível. E também ter alguma resistência e ter alguma capacidade de negociação nos trabalhos para nunca deixar fugir a vida familiar e portanto perceber que às vezes nós não podemos aceitar tudo, com todos os horários. Ou seja, somos seres humanos, na mesma continuamos. Eu desde miúda, desde a minha primeira novela, por exemplo, em que tive a sorte ou não, ou a sorte, ou a persistência, essas coisas também são sempre um bocadinho relativas na vida, mas eu aceitei a minha primeira novela e assinei o meu primeiro contrato, eu estava grávida, o que na altura era um bocadinho inédito. Uma atriz grávida, como é que ela vai fazer? Como é que ela vai conciliar? E eu estava muito segura de que iria conseguir fazer bem o meu trabalho e continuar a dar assistência ao meu filho na altura. Isso também se transmite, de alguma forma, essa segurança. Mas também claro que tive que gastar muitas horas do meu tempo a negociar condições com toda a produção da novela e também, de alguma maneira, fui construindo caminho pra quem vinha aí. Eu e outras pessoas, e outras atrizes que fizeram isso e que construímos um bocadinho essas condições mínimas para nos tratar a nós, mães, da mesma forma que uma atriz que não tem filhos e que precisa também de ter vida familiar.

Joana, falámos há pouco daquele momento marcante da gravidez que tiveste ao mesmo tempo que a tua irmã, que é uma história muito semelhante à que tiveste também na ficção, no "Quer É Viver".

Eu acho que eles copiaram.

Sim, exato. Eu acho que foi inspiração. Eu gostava de perguntar: já tiveste outros momentos da tua vida que notasses que eram parecidos com aquilo que fazias na ficção? Houve mais algum momento que achasses que isto foi inspirado em mim, alguma personagem?

Não, só mesmo esta. Só acho que foi esta aqui, porque é tão flagrante.

Sim, essa aí. Acho que não vais encontrar uma tão parecida.

Sim, sinto que eles ainda foram mais longe. Como sempre, nas novelas, ainda vão mais longe nas coincidências. São coincidências atrás de coincidências. E na novela acontece uma coisa mais grave: é que se trocam os filhos. Mas na vida real não aconteceu.

No teu caso não aconteceu.

Muito bem. Já fizeste também peças de teatro, como falámos há pouco, é um currículo vasto. Peças de teatro, filmes, novelas. E gostava de perguntar se existe diferença em interpretar uma personagem, por exemplo, para uma telenovela ou para um filme ou para um teatro. Ou seja, a preparação é a mesma?

Sim, a preparação base de um ator tem que ser sempre a mesma. Nós temos que ter um bom trabalho de corpo, um bom trabalho de voz, um bom trabalho de interpretação e, portanto, desenvolver essas três áreas é fundamental para fazer qualquer personagem, seja em televisão, em cinema ou em teatro. Os processos de trabalho são bastante diferentes e também depende muito do tempo que nós temos. Normalmente, infelizmente, com o avançar dos anos, cada vez temos menos tempo para todos os processos.

E achas que isso é por quê? Porque há mais conteúdos a sair?

Eu acho que há menos dinheiro. Isto é o que eu acho. Há menos dinheiro e, portanto, há menos tempo para o processo de ensaios. Eu sei, quando eu me estreei, por exemplo, em teatro, em 1997, foi o meu ano de estreia, eu tive quase três meses de ensaio para um espetáculo de teatro. Os últimos espetáculos que eu fiz, nós não temos mais do que um mês, um mês e meio. Portanto, cortámos o tempo ao meio. O que implica um maior investimento da nossa parte. Portanto, durante esse período, nós temos que trabalhar a duplicar.

Tem que mudar tudo.

Sim, é mesmo. Porque nós temos que fazer exatamente o mesmo trabalho. E às vezes o que acaba por acontecer é que estreamos com um bocadinho mais de insegurança.

Tu notas isso? Notas que estás mais insegura no palco?

Noto. Demoro a primeira semana com público até me acalmar. Calma, eu vou conseguir fazer tudo o que é suposto.

Pois, por não teres tido tanto tempo para ensaiar.

Sim. Ao mesmo tempo, também é um desafio, porque nós chegamos ali a uma certa fase dos ensaios em que queremos público, porque essa resposta e essa interatividade que acontece em teatro, dá-nos ali um impulso que é muito motivante e que nos ajuda até a dar saltos qualitativos no nosso trabalho, porque o público de repente dá uma resposta que nós não estávamos nada à espera e nós ficamos muito surpreendidos e depois de repente começamos a desviar a personagem para um ou para outro sítio, consoante aquilo que o público também-

Reação do público.

Exatamente, e isso é importante.

E preferes teatro, tendo em conta isso, por exemplo?

Eu prefiro sempre teatro, de facto. Porque o trabalho como é desenvolvido em teatro, porque em cinema é um bocadinho diferente do que televisão. Televisão também depende muito do projeto. Há projetos que se nos apresentam como um projeto completamente fechado, uma série, por exemplo, em que nós temos acesso a ler a série toda. Uma novela, não. Uma novela é um projeto em aberto. Nós recebemos os primeiros 10 episódios, 15, e depois vamos lá saber, porque nós nunca sabemos. A personagem pode sempre dar em louca e nós não sabemos. Portanto, é um work in progress permanente, um trabalho em novela. Um trabalho em teatro é um trabalho fechado, mas ao mesmo tempo de um rigor incrível. E essa atenção ao detalhe, ao rigor, só no teatro é que nós temos esse tempo também para nos dedicarmos à personagem de uma forma mais plena. E depois porque as pessoas ficam às vezes um bocadinho a pensar: "Ah, mas não te cansas de repetir todas as noites a mesma coisa?" Não, porque nós nunca repetimos mesmo.

Nunca é sempre à letra.

Claro que sim, claro que há coisas que acabam por ser repetitivas, entre aspas, e algumas coisas cansamo-nos. Somos seres humanos normais. Mas, por exemplo, este último espetáculo que tivemos agora no Vilaré, que agora vamos fazer turnê, tivemos três meses e meio em cena, o que é bastante tempo, são muitos espetáculos. Mas a realidade é que o público é sempre diferente todas as noites. A nossa interação entre os atores é sempre diferente. Todos os dias, mas todos os dias, sem exceção, eu descubro qualquer coisa numa fala, numa frase, numa reação, num bocado de um texto. E esse crescimento interior é incrível. Em televisão é tão rápido, nós não temos tempo de nos apropriar quase do texto. É quase ler, decorar, debitar. E isso às vezes é um bocadinho frustrante, porque depois até quando vemos de fora, pensamos: "Esta cena podia ter crescido." E em teatro, digamos que passamos por várias fases, quase uma dilatação e uma inspiração, uma expiração permanente que nós fazemos e que dá para passar por esse processo e até dá para passar por momentos em que às vezes estamos super frustrados. "Ai, que espetáculo horrível que eu fiz hoje, como é que me aconteceu?" O público não dá conta, entre aspas. Quer dizer, pode dar conta de algumas coisas, obviamente, mas a base já está garantida. Nós é que depois temos uma sensibilidade de achar que: "Uau, esta cena hoje foi tão incrível, foi para outra dimensão." E esse trabalho em teatro é muito interessante, além de todas estas perspectivas que nós conseguimos encontrar todos os dias no texto, porque o texto, quando é bom, quando é bem escrito, é muito rico. E, portanto, tem muitas camadas que vão sempre aparecendo todos os dias. E isso em teatro é muito gratificante.

Claro. Joana, já voltamos à conversa, fazemos agora uma pausa para as notícias. Hoje recebemos Joana Seixas em 40 minutos na Rádio Observador. Na segunda parte vamos falar de dança, design e também de um estilo de vida sustentável. Já vai perceber porquê. Até já, Joana.

Até já.

Até já.

Segunda parte de Em 40 Minutos. Hoje conversamos com a atriz Joana Seixas. Joana, vamos agora recuar um pouco no tempo. Em 99 fizeste licenciatura em atores, teatro e ensinadores na Escola Superior de Teatro, acho que é assim. Muitos nomes aqui nesta licenciatura.

Levaram o conservatório para a Escola Superior de Teatro.

É imensa coisa. Mas já vamos falar dessa experiência. Antes disso, falamos de dança. Ocupou uma parte da tua vida, não foi?

Sim, eu comecei a fazer ballet clássico com seis anos e fiz até aos meus 12 anos. Achava que ia ser bailarina nessa altura. Mas foi uma formação muito interessante e que eu gostei muito de fazer. Depois ainda fiz dois anos de dança contemporânea entre os 12 e os 14 anos. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, o momento em que eu percebi que não ia ser bailarina, porque percebi que aquilo era um trabalho de atleta de alta competição, de alta resistência, e eu não tinha essa capacidade nessa altura. Ou seja, eu gostava muito de dançar, era muito criativa, gostava muito de libertar o corpo e portanto era expressiva de alguma forma.

Uma exigência muito grande.

Uma exigência muito grande. E eu lembro-me de estar num exercício que é assim, a perna esticada para a frente.

É horrível.

Em cima, e eu começar a baixar.

Desde o pé, se não me engano. Também tive a minha cota parte de ballet e foi precisamente aí que eu percebi: não, isto não é para mim.

Eu em dança fico de fora desta conversa.

Exato. Foi aí que morreu o sonho. Sim. Eu sempre fui, desde miúda, muito diversificada na parte artística. Gostava de cantar, gostava de dançar, gostava de representar. E na altura eu achava, a partir desse momento em que desisti da dança, que iria para design, que era uma área que eu queria, e para as artes em geral.

Chegaste a tirar um curso?

Cheguei a tirar um curso. Foi o primeiro curso a seguir ao 12º ano, porque não entrei para Design de Interiores, que era o que eu queria ter feito na altura. Não consegui ter nota para entrar, porque vinha com uma péssima matemática de trás. Um calvário.

Entendo.

E depois fiz esse curso. Voltando um pouco atrás. Percebi que não ia ser bailarina. Nessa altura também, foi por acaso, muita coincidência, eu estava nos Onda Choc. Foi mais ou menos na mesma altura.

Já tínhamos aqui essa perguntinha preparada para saber.

Exato. Nessa altura eu estava nos Onda Choc, mas eu só estive um ano, na realidade. Acabei por gravar três discos com os Onda Choc, mas foi um Natal, um verão e outro Natal. Portanto, foi só um ano, basicamente, que eu estive.

Mas como é que isso aconteceu? Foste tu que te candidataste, recrutaram-te? Como é que foi esse processo?

Foi uma sorte. Tinha uma amiga minha que fez parte dos Onda Choc. E ela disse: "Olha, vão abrir audições." E era em Benfica, eu morava em Benfica, portanto era tudo ali.

Os astros alinharam-se.

Os astros alinharam-se, foi tudo muito perto de casa, portanto foi muito acessível, digamos. E eu fui lá fazer esse teste, essa audição, e fiquei. Gravei logo o primeiro disco, eles já tinham as músicas todas distribuídas no primeiro disco, eu gravei só os coros e fiz alguns espetáculos nesse Natal. Fui entrando devagar no processo. A partir daí, comecei a fazer parte do grupo. Fomos a alguns programas de televisão, na altura o "Um, Dois, Três", isto já há muitos anos. E foi muito engraçado e principalmente, uma das partes mais interessantes dos Onda Choc foi que eu conheci Portugal inteiro, de ponta a ponta. Nós fomos a todas as vilazinhas, todos os sítios.

E sempre bem recebidos.

E sempre muito bem recebidos.

Como não receber bem os Onda Choc?

Sim, mas foi muito cansativo, exploração infantil ao máximo.

Que idade tinhas, Joana?

Eu entrei com 10, 11 e saí com 12.

Foi muito puxado. Por muito que seja uma experiência divertida, andar pelo país todo a cantar.

Sim, e andávamos quase sempre sozinhos, sem pais. De vez em quando a minha mãe e o meu pai iam lá ter, claro, preocupados.

Para inspecionar, para confirmar que estava tudo bem.

Mas andávamos sempre em grupo. Claro que na altura para nós era uma festa.

Claro, super divertido.

Então aí, já falámos de teatro, já falámos de dança. Entretanto, também não sei se antes ou depois, também fizeste ginástica acrobática.

Isso foi durante o meu sétimo, oitavo ano.

Mais uma atividade extracurricular.

Sim, foi uma atividade extracurricular, basicamente, que também lembro-me do dia em que eu percebi que também não ia ser ginasta acrobática.

Foram dias marcantes.

Foram dias marcantes. Este aqui foi mesmo marcante, porque eu assisti à queda de uma rapariga à minha frente, partiu um braço. E eu era volante, como é óbvio. Na ginástica acrobática existem os bases e os volantes. Eu andava lá em cima, sempre no ar, com mais propensão para cair. E quando vi essa minha colega cair à minha frente, eu pensei: "ui, ok, então isto não é assim tão bom."

Pronto, então se calhar já chega.

Temos a capacidade de voar até uma certa idade, mas depois aquilo começa a travar. Fiz aí durante um período, foram dois, três anos que eu estive na ginástica acrobática Mas o que me serviu foram excelentes bases, tanto o ballet como a ginástica acrobática, para o trabalho do corpo, por exemplo, no conservatório. Nós apanhamos um professor no primeiro ano do conservatório que basicamente achava que o ator não tem medo. Ele era polaco. Ele é polaco. Ele está aqui. Grande Kotkotecki. Foi um excelente professor. Mas ele basicamente ensinou-nos que um ator tem que estar disponível pra tudo. Se é preciso ele estar em cima de uma altura muito elevada, não pode ter medo.

Aprender a ser despedido.

E sem duplos.

Exatamente. E sem duplos. Sim, no teatro não há duplos, só na televisão.

Onde se calhar há duplos é no curso de Design de Comunicação e Imagem. Se calhar é mais fácil de substituir. Em 95 tiraste então esse curso, foi depois do secundário. Voltamos um bocadinho atrás.

Isso foi um curso um bocadinho especial que aconteceu na altura.

Foi a primeira opção?

Não, isso foi uma segunda opção por eu não ter entrado mesmo pro curso que queria. E na altura surgiram esses cursos, eram cursos meios profissionais, que apareceram em Portugal na altura da Comunidade Europeia, em que nós recebíamos por estar a fazer o curso. Éramos pagos. Portanto, foi o primeiro trabalho.

Algo que agora nunca aconteceria.

Algo que agora nunca aconteceria. Basicamente, havia um valor que nós recebíamos, eu acho que era um valor próximo do ordenado mínimo, na altura. E era um curso bastante tecnológico, em que nós aprendemos a lidar com o AutoCAD, na altura, com uma série de programas, basicamente era de computadores. E foi muito interessante. Eu aprendi a fazer várias coisas. Já esqueci tudo, claro, já foi tudo ao ar.

Ia dizer, foi bom, ao menos para aprenderes qualquer coisa que fica até hoje.

Ainda por cima a velocidade em que se desenvolvem as tecnologias, eu acho que passado três ou quatro anos tudo aquilo já estava desatualizado. Sim, mas aprendi a lidar com animação em 2D, com animação 3D, com AutoCAD. Houve ali vários. Foi uma formação muito interessante. Claro que fica sempre alguma coisa e ficam as bases. E foi um trabalho muito interessante, eu gostei muito de fazer. Um trabalho, um curso, neste caso.

Há pouco falavas do "Onda Choc" e ainda eras muito jovem, muito pequena. Mas entretanto fizeste também uma formação de canto no Hot Club.

Isso já foi muito mais tarde.

Exato. Mas ainda relacionado com o canto e também de piano, não foi?

O piano foi antes. O piano foi aos meus 14 anos. Dos meus 14 aos 17, tive três anos de piano, aprendi as bases, aprendi a ler partituras.

Ainda tocas?

Toco pouquíssimo. Tenho que arranjar um piano pra ter em casa.

Mas queres voltar a tocar?

Sim. Acho que nunca perco o bichinho. E sei ler partituras com muita dificuldade.

Mas era isso que eu ia perguntar, se essas duas formações, tendo em conta que estamos aqui a falar de uma formação, ou seja, de uma coisa mais curta, se isso te deixou mesmo o bichinho pra agora. Se atualmente ainda gostas de cantar, se ainda cantas, se ainda tocas.

É assim, gosto muito de cantar, canto quase todos os dias e acho que é uma área que eu quero voltar. Já fiz algumas tentativas. Já tenho algumas músicas escritas.

Podemos esperar um álbum de Joana Seixas?

Um álbum não sei, mas talvez uns concertos. Já fiz alguns pequenos concertos em versões pequenininhas. Já fiz uns de bossa nova, fiz outros de jazz, mais nestas áreas. E o curso que eu tirei foi no Hot Club, tive durante um ano formação de voz. E gostava até de concluir o curso, porque o curso são três anos, eu só fiz o primeiro ano, mas depois em conciliação com o trabalho foi muito complicado, não consegui continuar. E é uma área que me dá imenso prazer. Eu gosto muito de cantar. Estive durante imenso tempo a achar: "Mas também não tens uma grande voz." E depois percebi que de fato pode-se trabalhar. Nós podemos criar uma certa personalidade não tendo uma capacidade vocal por aí além ou uma grande capacidade vocal, mas acho que tenho uma afinação boa.

Não é preciso chegar aos agudos e aos graves.

Exatamente, não é preciso ter uma tessitura vocal demasiado grande.

Para saber cantar e para transmitir.

Sim, e principalmente porque eu acho que fui desenvolvendo isso também. E o curso do Hot Club trouxe-me um bocadinho essa visão. Que é mais importante a interpretação, e a nossa capacidade de pôr as nossas emoções e o nosso sentimento, de alguma forma, aquilo que nós queremos comunicar com as músicas, do que propriamente uma grande voz. E isso foi uma das coisas que eu desenvolvi com o tempo e que acho que um dia destes pode ser que volte.

É um objetivo pra 2024?

Não sei se é pra 2024.

Já pôs aí o deadline.

Sim, mas é um objetivo pros próximos anos. Eu tenho estado a trabalhar nele paulatinamente. Tenho feito algumas coisas, algumas incursões. Já tive durante alguns períodos relações com amigos músicos com quem fui desenvolvendo um bocadinho este trabalho, mas gostava depois de um dia destes voltar e fazer uma coisa que complete a cabeça.

Agora quando a Joana arranjar um piano, aí é que vai ser. E olha, Joana, como a representação, a dança e a música não são suficientes, também fazes dobragens e locuções. Eu bem avisei que isto era um currículo vasto.

Mas isso é muito normal em todos os atores, eu acho.

Claro. Mas olha, um dos trabalhos que tu fizeste nas dobragens foi do filme "O Castelo Andante."

Já foi há muitos anos. Aliás, já nem é a versão que neste momento existe.

Depois entretanto fizeram outra versão. Mas estamos a falar aqui de um filme de animação japonês dos mais conhecidos.

Sim, Miyazaki.

Gostaste de fazer parte deste projeto?

Claro.

Gostas de fazer dobragens?

Gosto de fazer dobragens, não faço assim tantas. Faço mais locuções do que dobragens. É uma área que infelizmente em Portugal é muito mal paga. E portanto acaba por ser necessária uma conciliação de tempo e por isso acabo por não ter assim tanto tempo quanto isso. Mas sempre que fiz dobragens adorei a experiência, é mesmo muito divertido fazer. É um grande desafio e é um trabalho também em que nós vamos melhorando, nós vamos aprendendo a lidar com a nossa voz e em que há também esse trabalho que é superdesafiante de interpretação.

Pois, claro.

Joana, nas tuas redes sociais costumas demonstrar habitualmente preocupação com alguns temas, direitos da mulher, crise ambiental, principalmente, e já vemos também esse teu lado mais sustentável. Também o conflito do Médio Oriente, também já falaste sobre isso. Sentes que tu, enquanto figura pública reconhecida do público, tens também essa obrigação de dar voz a estes problemas, dar voz às pessoas que não têm uma voz tão pública como a tua?

Eu não sinto propriamente esse peso.

Essa responsabilidade.

Essa responsabilidade, talvez um pouco, porque eu acho que quando nós assumimos, de alguma forma, algum protagonismo na vida, seja em que área for, existe também essa responsabilidade. Eu sinto-me muito responsável em passar uma ética também, ou seja, em passar uma consciência. E eu tenho essa consciência permanente, às vezes até demais. E tento, de alguma forma, gerir isso de uma forma equilibrada. Às vezes é um pouco desgastante. Por exemplo, o conflito no Médio Oriente tem sido bastante overwhelming, como se costuma dizer em inglês. Tenho ficado muito assoberbada com o que tem acontecido. Isso já me aconteceu, e eu sinto que, de alguma forma, tenho alguma preponderância perante algum público, que às vezes nem é o público que eu estou à espera. São até amigos próximos ou até pessoas que eu nem estava à espera que me dissessem: "Joana, eu aprendi tanto com o que tu tens partilhado, que eu não sabia." Não é que eu sinta que tenho essa responsabilidade de ensinar. Aliás, eu não sei assim tanto sobre o conflito do Médio Oriente. É verdade que me informei muito e já tinha esse conflito antes do dia 7 de outubro. Já era um problema gravíssimo o que se passava ali. Essa consciência já existia. Eu já tinha partilhado coisas anteriores a 7 de outubro, de uma forma muito mais espaçada. Aliás, porque a própria forma como a comunicação social comunica esse assunto é sempre muito espaçada no tempo, e é só quando acontece alguma coisa grave ou quando há um número de mortes muito significativo, e não o que está a acontecer diariamente nesse local. Mas em relação a isso, eu sinto que de alguma forma eu preciso de fazer esse trabalho também. É um pouco uma purga pessoal, entre aspas, e a verdade é que fui estabelecendo contactos com várias pessoas. Eu acho que as redes sociais têm muitas coisas negativas, infelizmente, e algumas delas crescem para um lado que não nos interessa especialmente, principalmente as frases feitas, as frases fáceis, o não desenvolver os conteúdos, as pessoas não lerem as coisas, comentarem o título de uma notícia. Para mim é ridículo, não faz sentido. Se a pessoa não foi ler a notícia, então não a comente. É o meu conselho.

Acontece-nos muito no nosso meio.

Exatamente, é muito complicado. E as redes sociais têm esse imediatismo, que não traz nada de bom para o desenvolvimento de um diálogo permanente, mas ao mesmo tempo também traz outra coisa positiva, que é criar uma rede de contactos. Nós, de alguma forma, podemos estabelecer. E esta coisa dos seguidores, que é uma palavra um pouco parva, eu acho um pouco parva. Não deveríamos ter seguidores, parece que andam ali para trás de nós. Mas de alguma forma, as pessoas que escolhem seguir a minha conta, eu também quero que elas tenham esses pontos de contato comigo. E acho extremamente justo que se possa bloquear pessoas, porque é mesmo importante que aquela rede de pessoas que andam ali. Eu já tive que bloquear várias pessoas, e depois há umas que vêm dizer: "Vocês são todos pela igualdade e tudo mais, mas depois bloqueiam." Sim, eu sou pela igualdade, não sou pela violência, não sou pela agressividade, não sou por nada dessas coisas, e eu não estou aqui para ser insultada, lamento. Não quero chegar à minha rede social e ter quatro ou cinco comentários agressivos.

Está tudo bem. Nós não temos todos de pensar da mesma maneira. Não faz sentido ir, por exemplo, à tua conta encher de comentários.

Eu não quero mudar a cabeça das pessoas, entre aspas. Ou seja, posso sensibilizar algumas. E eu própria digo isso, quem quiser, sabe. Eu até faço alguns destaques de algumas coisas. Quem quiser ver os destaques, vê.

Quem quiser, bem-vindo.

Mas é isso, quem não quiser, tanto vai sem.

Quem acha que vai para ali para me insultar, para ser superagressivo, sinceramente, não é bem-vindo, não tenho essa necessidade, não quero que isso aconteça e acho que esse é um dos lados bons. O outro lado negativo das redes sociais é que infelizmente elas também são geridas por pessoas, e que essas pessoas não são especialmente sensatas em muitas áreas e, por exemplo, no conflito no Médio Oriente, tem existido uma censura exageradíssima, quando nós só estamos a partilhar o que está a acontecer na realidade. Não estamos a inventar. Quem inventa, de facto, quem faz propaganda e tudo mais, muitas vezes nem sequer é censurado e isso é problemático. É um tema que me deixa assim um pouco acesa. À sustentabilidade, ao meio ambiente e a toda essa área. É uma área que eu já estou envolvida nela há muitos anos.

Era precisamente aí que ia pegar. Tu tiveste um blog, não foi? Os Green.

Já tive um blog, já tive uma escola.

E continuas no Instagram também, às vezes a partilhar dicas.

Sim, digamos que isso está meio abandonado. Coitadinho. Eu acho que pelo menos uma vez por ano vamos lá pôr uma notícia qualquer só para ele ficar ali à tona. Sim, digamos que foi uma área.

Quando é que se tornou tão importante pra ti viver uma vida mais sustentável?

Há 20 anos atrás. Há 22, neste caso, quando nasceu meu filho mais velho. Com o nascimento dele, eu acho que acontece isto a muitas mães e acontece a muitos pais, a muitas famílias, quando pomos um filho cá fora, pensamos: "Agora podemos, de alguma maneira, tentar fazer tudo o mais bem feito possível, à nossa medida, àquilo que é a nossa realidade, aquilo que é possível e que está ao nosso alcance". E com o Francisco aconteceu muito isso. Ele foi um bocadinho o desbloqueador pra uma série de coisas que eu já tinha alguma sensibilidade e já trazia de trás, mas foi um bocadinho pôr em prática tudo como uma mãe exemplo, não só começar pela alimentação, como um estilo de vida, como uma maneira de observar as coisas, como também na área da educação, que foi uma área em que eu investi muito, porque comecei logo desde que ele era muito pequenino, à procura de uma escola diferente, que oferecesse algo na educação. E para mim a educação é um tema muito caro, é um tema que eu acho que deveria receber muito mais atenção e deveria ter mais investimento por parte de toda a sociedade no seu todo, não só dos governos.

E conseguiste? Ou foi difícil encontrares essas alternativas, por exemplo, na parte da educação?

Foi muito difícil, ou seja, foi quase andar à procura de uma agulha no palheiro. Consegui encontrar um ou dois projetos completamente diferentes, na altura relacionados com a pedagogia Waldorf, porque eram esses que traziam, de alguma forma, este campo também do lado ambiental e desse contato com a natureza, principalmente, que era uma das coisas que eu sentia que nas escolas as crianças estavam cada vez mais desligadas. Nessa época, então, não havia ainda nenhuma escola que tivesse uma horta. Parece que afastaram as crianças completamente subir às árvores, de todo esse contato. Ou seja, nós fazemos parte da natureza e deixamos de fazer parte durante um longo período. As escolas eram todas com recreios em cimento. Eu cheguei a visitar escolas em que tinha uma televisão apontada pra um campo assim vedado, tipo um relvado falso, ou seja, tudo mal, com as crianças a engatinharem, assim meias hipnotizadas, a olharem pra televisão. E, portanto, tudo aquilo me assustou como uma mãe muito nova, porque eu fui mãe aos 25 anos, portanto, era uma mãe nova e ainda cheia de energia para uma série de coisas. E aquilo assustou-me muito, pensar que o meu filho ia ficar sujeito, de alguma forma. Claro que as escolas não são todas assim, calma.

Claro.

Há escolas e escolas e existem muitas diferenças entre elas. E mesmo, existe uma sorte que nós podemos ter ou não, que é de repente a educadora, a professora que nos calha em mãos com o nosso filho, ser uma pessoa verdadeiramente especial e que marca a diferença ali na vida daquela criança, às vezes mesmo sem grandes condições físicas no espaço. E então nessa altura eu consegui conhecer um bocadinho melhor esses projetos e decidi criar uma escola, que foi a Casa Verde Anjos, que foi inaugurada em 2004, na altura ao lado do Palácio Marquês da Fronteira, em Monsanto. Ainda fiz parte desse projeto até 2017, depois acabei por me desligar do projeto. Mas foi um projeto muito gratificante em que eu pude verificar quais é que são as dificuldades da educação. E também pôr em prática, as crianças tinham uma horta, elas faziam parte também da confecção da comida, portanto elas, por exemplo, descascavam as ervilhas e depois comiam as próprias ervilhas. Portanto, havia toda uma relação. E nós tínhamos uma máxima, entre aspas, em relação às crianças, eu acho que devia ser uma máxima de todas as escolas, que dá um bocadinho de autoconfiança. Autoconfiança acho que é um dos trabalhos mais importantes a fazer-se na escola, que era aprender a fazer a sua própria roupa, aprender a construir o seu próprio abrigo, a sua própria casa, aprender a cozinhar e a plantar a sua própria comida. E estes três pontos são muito importantes pra autoconfiança. Ou seja, se eu for abandonado no meio do nada, eu sei que eu tenho os skills mínimos.

Que eu sei me desenrascá-lo sozinho.

É quase um manual de sobrevivência.

É um manual de sobrevivência, mas um manual de sobrevivência que é desenvolvido ao longo de uma escola e com várias pessoas a transmitirem conhecimento. Nós tivemos lá carpinteiros, aprender a construir um brinquedo pra brincar. Eles faziam tricô de dedos, ou seja, nem precisavam de agulhas. Era muito engraçado. E nós tentamos, de alguma forma, desenvolver esse trabalho e foi uma aventura incrível fazer parte desse projeto. E o meu filho mais velho teve a sorte de beneficiar até o quarto ano, portanto, tudo em métodos muito experimentais, em que andamos sempre um bocadinho paralelos à legalidade, entre aspas, da escola, apesar do ministério ter total conhecimento. Mas as regras em Portugal pra se construir uma escola são impensáveis. A burocracia é loucura.

Muita papelada.

Sim, e porque ao nosso lado pode estar a funcionar uma escola, como já foi legalizada há 20 anos atrás, com as condições que nós teríamos agora pra começar, mas nós pra começar temos que ter as regras da atualidade, que implica uma série de coisas que muitas vezes inviabilizam os projetos. E eu acho que falta aqui um bocadinho um bom senso entre nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nós depois acabamos por conseguir legalizar, ao fim de sete anos, foi uma luta de sete anos, legalizamos o projeto, mas não foi nada fácil. E Portugal tem um bocadinho esse entrave. É um país que a burocracia atrasa muito e muita gente, e impede o desenvolvimento de muitos projetos e de muita gente criativa em várias áreas, e tenho muita pena.

Claro que sim.

Joana, estamos mesmo quase a fechar, mas ainda temos tempo só pra uma última pergunta, até porque queremos saber mais sobre este projeto, porque é um projeto também bastante diferente. Temos que falar no 2:22, duas horas e 22, uma história de fantasmas Estamos a falar de um thriller sobrenatural. Como é fazer parte de um elenco que tem este desafio de assustar, de deixar desconforto? Como é estar neste elenco?

É a primeira vez que eu faço parte.

Não é muito comum fazer este tipo de peças.

Não é nada comum. Aliás, eu acho que em Portugal, mesmo assim feito como este, houve muito poucas experiências feitas e o próprio Michel, o encenador, o Michel Simeão, que nos encenou, já tinha feito algumas incursões na área do terror. Mas o nosso espetáculo não é terror.

Sim, não é.

É um suspense.

É um thriller.

É apropriado para os mais assustadiços.

Sim, é apropriado. Há uns saltinhos na cadeira, é o máximo.

Mas nada de outro mundo.

Para quem vai realmente achar que vai assustar-se a sério, não. Mas pode dar uns saltinhos na cadeira. Agora, é um thriller, está muito bem construído, principalmente em teatro, é muito difícil construir uma história dentro do thriller. Porque tem sempre o lado do sobrenatural. Mas como é que se vai fazer em teatro? Porque em televisão é bastante mais fácil disso acontecer. Não posso dar muitas referências.

É isso, não podemos dar spoiler.

Não posso, porque estou a caminhar em gelo muito fininho, portanto, alguma coisa que eu diga pode estragar completamente a experiência. Mas é um espetáculo muito interessante e que tem um lado que eu posso partilhar, que é o confronto entre o nosso lado racional e as nossas crenças. Portanto, aquilo que nós não conseguimos explicar. E todo esse confronto é feito em cena, num jantar de amigos, em que qualquer um de nós podia lá estar. E esse lado é muito interessante e aproxima muito as pessoas do espetáculo. Ou seja, há uma identificação do espectador quando está a assistir de: "Eu podia ser uma daquelas pessoas a defender um lado ou a defender o outro." E esse lado acaba por ser o lado que aproxima muito o espectador, mas depois tudo aquilo se vai desenrolar, sabe-se lá para onde.

Então diz-nos onde é que te podemos ver.

Estiveram em Vilarinho, foi?

Sim, terminámos agora.

Agora vão andar pelo país.

Exatamente, vamos ter agora dia 19 e dia 20. Dia 19 na Figueira da Foz, no Caio da Figueira da Foz. Dia 20 na Guarda. Eu não tenho aqui a minha cábula.

Será aqui 27 em Águeda, não é?

Em Águeda. E depois dia 10 de fevereiro, vamos a Santa Maria da Feira. Portanto, estejam atentos nesses locais, comprem os bilhetes. Garanto-vos que se vão divertir mesmo e também vão saltar um bocadinho da cadeira.

O melhor dos dois mundos. Joana, infelizmente não temos tempo para mais. Muito obrigada mais uma vez pela disponibilidade. Joana Seixas, em "40 Minutos" na Rádio Observador. Pode sempre ouvir-nos em podcast e também no nosso site observador.bt. Joana, mais uma vez, muito obrigada. Até à próxima.

Obrigada. Até para a semana.