Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está agendado para esta tarde, mais ou menos por volta desta hora, o encontro na Casa Branca que vai juntar Donald Trump e Cristiano Ronaldo. O internacional português deve integrar a comitiva liderada pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, que é recebida pelo presidente dos Estados Unidos. É a primeira visita em sete anos e é o pretexto para esta janela que agora abrimos aqui na antena do Observador com os nossos convidados. Vitória Gabriel Oliveira é secretário-geral da Sedes Europa e conselheiro das comunidades portuguesas. Miguel Baumgartner é especialista em relações internacionais e está aqui conosco em estúdio. E Daniel Sá, diretor-executivo do IPAM, o Instituto Português de Administração de Marketing. Sejam bem-vindos a esta emissão. Obrigado pela vossa disponibilidade. Ainda não é totalmente claro o enquadramento deste encontro de Trump com Cristiano Ronaldo, mas ao que tudo indica, o jogador português integra a comitiva do príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Daniel Sá, boa tarde. É uma operação de marketing?

Da Madeira até à Casa Branca, Ronaldo prova hoje inequivocamente que é um símbolo global e, portanto, se é marketing, também o é, honestamente, na minha opinião. Nós, no IPAM, acompanhamos a evolução da marca Cristiano Ronaldo há mais de 15 anos. Temos estudado variadíssimas métricas que nos permitem avaliar a evolução de Ronaldo, não como futebolista, mas como ícone, como marca e como empresa que é capaz de gerar avultadas receitas. E, na verdade, eu diria que só nos faltava, nestes 15 anos, ter visto este passo que hoje vai acontecer, que está prestes a acontecer, que é ver Ronaldo na Casa Branca. Ou seja, é claramente uma combinação de duas personalidades muito distintas uma da outra, mas que provam e reconhecem, obviamente que sim, que Cristiano Ronaldo é uma verdadeira marca global, é um embaixador português de enorme relevo e é seguramente uma das marcas desportivas mais importantes e mais impactantes que existiram na história do desporto mundial.

O que ganha o rei da Arábia Saudita com esta associação a essa imagem, com essas características que aqui acabou de enunciar?

É evidente que Ronaldo é uma cara ocidental, positiva, virtuosa e com uma personalidade muito forte, que ajuda a uma imagem melhor de um país controverso, como de alguma forma é a Arábia Saudita. E, portanto, é naturalmente que sim. A Arábia Saudita tem se tornado nos últimos cinco anos, e vai continuar nos próximos, a ser provavelmente o maior investidor na indústria do desporto e os passos têm sido inúmeros. Nós falamos muitas vezes de Ronaldo e dos vários portugueses que estão na Liga Árabe de Futebol, mas neste momento o investimento vai muito mais para longe disso. Estão no ténis, estão no golfe, estão nas artes marciais, no boxe, na Fórmula 1, nos jogos eletrónicos, nos e-sports. A Arábia Saudita vai passar a ser, e vai provavelmente substituir os Estados Unidos como o grande motor do desporto mundial. E Ronaldo é uma cara absolutamente maravilhosa para levar à Casa Branca e para servir de cara também da própria Arábia Saudita e de todo o projeto que está por trás, seguramente.

À medida que o Daniel Sá expressava esta opinião, Miguel Baumgart acenava com a cabeça em sinal de assentimento. Sim, Miguel, Cristiano Ronaldo é uma ajuda para lavar a imagem, porventura, menos positiva aos olhos de parte do globo da Arábia Saudita?

Olá, boa tarde. Sim, a quem nos ouve, até porque Cristiano Ronaldo neste momento não é mais um jogador de futebol, é um instrumento diplomático da Arábia Saudita. É uma parte integrante de uma estratégia muito clara de, como dizem os anglo-saxónicos, nation branding ou sports washing. Nós estamos a falar que os 200 milhões anuais que recebe já não são mais pelaqueles gols de trivela ou aquelas explosões que ele conseguia fazer. São hoje muito mais pelo seu valor simbólico, inclusive num país que tem sérios problemas ainda com os direitos humanos, direitos das mulheres, mesmo até com apoio com algumas organizações menos democráticas, algumas delas até sabemos que são organizações com pendor mais terrorista. Obviamente que Cristiano Ronaldo veio dar um élan à Arábia Saudita, principalmente por ser Cristiano Ronaldo. Hoje não é mais o melhor jogador do mundo, já foi. Mas efetivamente tem todo o peso da sua história, até por aquilo que disse há bocado o outro comentador, do fato de ter vindo da Madeira, vir de uma família pobre, ter feito todo esse trabalho e como trabalhador e como desportista, não há nada que se aponte. Agora, ao mesmo tempo, nós estamos a falar de um homem que tem um coração que lhe permite, por exemplo, ajudar as famílias que tiveram suas casas destruídas pelos incêndios em Pedrógão Grande, que tem efetivamente investido em hospitais em várias partes do mundo para apoiar crianças, mas ao mesmo tempo permite-se, através destes 200 milhões que eu falava há bocado, estar ligado a um país e a um regime que é uma autocracia, portanto, é uma monarquia profundamente absolutista, onde as mulheres não têm direitos absolutamente nenhum, e é apresentado aqui para a Arábia Saudita como um símbolo aspiracional, mas também um troféu global daquilo que a Arábia Saudita quer ser e que utiliza Cristiano Ronaldo para atingir. Portanto, o elemento central desta visita não é Cristiano Ronaldo, é Mohammed bin Salman, mas Cristiano Ronaldo serve aqui como um softener para aquilo que é a imagem da Arábia Saudita ainda no exterior, por exemplo, onde as mulheres só há pouco tempo é que conseguiram ter permissão para poderem conduzir um automóvel. E, portanto, a narrativa neste momento não é mais o jogador de futebol, é o símbolo que ele, digamos assim, aliás, vou pôr de outra forma mesmo para terminar. Ele ajuda a ofuscar os problemas políticos e sociais existentes na Arábia Saudita, dando a ideia daquilo que Como eu estava a dizer, este símbolo aspiracional, até parece, para quem vem de fora, até porque há pouco tempo Cristiano Ronaldo dizia que se sentia saudita árabe, que qualquer pessoa hoje na Arábia Saudita poderia aspirar a vir de uma família pobre, creio que é de Machico, se não me engano, na Madeira, e chegar ao jogador que é. Portanto, por um lado, é pena, politicamente é pena que o faça, mas como nation branding, como marketing, efetivamente, creio que dá bastante peso. Ainda mais hoje, que em princípio devemos ter mais algumas informações também no caso Epstein, relembrando que faz este ano oito anos que Ronaldo não vai aos Estados Unidos também por uma situação parecida. Talvez seja isso que ele tenha parecido com Donald Trump, já que ele disse que ia dizer a Donald Trump o que eles tinham de tão parecido. Se calhar é por terem essa situação de acusações de violência contra as mulheres, no caso de Donald Trump. No caso de Ronaldo, não chegou a tribunal, mas houve ali uma negociação.

Já vamos centrar. Há pouco fazia referência precisamente à importância desta visita do príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Já nos vamos centrar nesse capítulo em particular. Gostava ainda de perguntar sobre Cristiano Ronaldo a Vitória Gabriel Oliveira, se na perspectiva do internacional português, e tendo em conta todos estes problemas associados ao Estado da Arábia Saudita, particularmente ao cumprimento dos direitos humanos, se de facto não há, na sua perspectiva, danos reputacionais que aqui possam resultar para o jogador português.

Antes de mais, obrigado pelo convite à Rádio Observador. Eu iria pegar na sua pergunta e na continuidade daquilo que o Miguel disse há pouco, em dizer que Cristiano Ronaldo era mais um produto diplomático. Só nos falta saber se já tem mesmo passaporte diplomático da Arábia Saudita. Portanto, até aqui nós sabíamos que isto fazia um pouco parte do contrato que tinha assinado há muitos anos e que potencialmente até se pode prolongar até 2034, até a altura do mundial. Portanto, isso estava em várias cláusulas do contrato do Ronaldo quando o Ronaldo assinou. Eu penso que isso não será muito tema até Ronaldo jogar futebol, ou seja, até Ronaldo manter uma presença no relvado, nomeadamente até 2026, na Seleção Nacional, no Al-Nassr. Portanto, enquanto Ronaldo for muito mais um produto esportivo do que outra coisa, eu penso que essa reflexão não se colocará tanto em cima da mesa. A partir do momento em que o Ronaldo deixar de ser um produto esportivo dentro do campo, Ronaldo terá que construir uma figura fora do campo. E é nesse momento que iremos perceber se essa figura estará nos seus planos, ele já terá planos para isso, se estará completamente ligada à Arábia Saudita e ao futebol saudita para os próximos 10 anos. E isso realmente, em termos de reputação para ele, ele terá que saber gerir isso com o mundo ocidental. Portanto, ainda há uma parte significativa no futebol e no mundo ocidental que não vê essa ligação com tão bons olhos, que não apenas os valores financeiros, mas terá que ser ele, no pós Ronaldo esportista, a mostrar-nos que caminho quer seguir, que marca e que legado é que ele terá a deixar depois no futebol, assim que acabar a carreira desportiva, que penso que estará para breve, não sei se prolongará muito depois do mundial do próximo ano.

Para assinalar neste momento a chegada precisamente à Casa Branca do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, lado a lado com Donald Trump, os dois sorridentes à porta da Casa Branca, antes de este encontro entre o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e o presidente dos Estados Unidos. Já vamos aqui abordar nesta emissão especial da Rádio Observador os temas que deverão estar em cima da mesa, o que tem a ganhar a Arábia Saudita e também os Estados Unidos com esta relação próxima entre os dois estados. Antes da síntese da meia hora, eu gostava ainda de fazer a pergunta, Daniel Sá, precisamente esta pergunta que aqui fazia. Já que elencou todo o lado positivo de Cristiano Ronaldo e de que forma pode contribuir para melhorar a imagem da Arábia Saudita. Pergunto se no reverso da medalha, Cristiano Ronaldo não pode aqui incorrer em danos reputacionais por ver a sua imagem associada a um Estado com todos aqueles problemas que já aqui elencamos, particularmente ao nível dos direitos humanos.

Eu acho que o tema se coloca, há sempre um risco, não nesta altura da visita à Casa Branca, mas a partir do momento em que o Ronaldo toma a decisão de ir jogar na Arábia Saudita. É precisamente a partir desse momento que o Ronaldo corre riscos pelas características que a Arábia Saudita tem. Mas quase três anos depois de o Ronaldo estar na Arábia, a evolução que nós vemos da marca Ronaldo é não de diminuição e não de risco, mas bem pelo contrário. O valor da marca Cristiano Ronaldo cresceu, pelos nossos estudos, mais de 300% nos últimos cinco anos. Significa isto que, e alguém dizia aqui há pouco e muito bem, o Ronaldo está cada vez menos dependente do que faz dentro do campo, da sua dimensão como futebolista, está a chegar ao final da carreira, mas de facto os outros papéis e as outras dimensões da vida de Ronaldo, o investidor, o patrocinado e o influencer, acabam por ganhar mais visibilidade nesta altura. Portanto, analisando para o que tem sido estes três anos da Arábia, a marca Ronaldo perdeu valor, está a ser criticada, corre riscos, há problemas? Sim, eles podem acontecer, mas os dados não mostram isto. Mostram uma marca a crescer e que eu estou perfeitamente convencido que a partir do momento em que deixar de jogar futebol, a marca vai continuar a crescer. Há planos, há um grupo empresarial por trás, há muitos investimentos já em curso e a Arábia Saudita é um player relevante para o que eu acredito que o Ronaldo queira fazer nos próximos anos. Acho que ele está disposto a assumir os riscos.

Seguramente com um enorme poderio financeiro. Olhávamos para as imagens de televisão, Miguel Baumgartner, notava que há aqui uma pompa e circunstância diferente da recepção de outros chefes de Estado?

Sim, veja, estava só a fazer uma pausa só para tentar me lembrar do nome, mas não recordo. Veja-se, por exemplo, como é que Zelensky é recebido, ou veja-se como é que os líderes da União Europeia foram recebidos, que são recebidos numa porta lateral, que fica debaixo de um alpendre, chamemos-lhe assim, até de uma forma muito mais discreta. E aqui nós vemos o príncipe da Arábia Saudita a ser recebido nesta entrada, que habitualmente em outros momentos também já foi utilizada até para fazer as conferências de imprensa, quando os dois líderes fazem a conferência de imprensa conjunta. Mas veja-se que há tropas a cavalo, há uma pompa e circunstância muito diferente. Isto por quê? Porque há aquela frase portuguesa que diz que quem paga escolhe como é que quer ser recebido. E a relação de Donald Trump com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, é efetivamente muito mais política e muito mais comercial. E os interesses de Donald Trump são extremamente importantes naquela região, até pelas visitas que ele fez às monarquias do Golfo. Nós não podemos esquecer a quantidade de contratos que ele assinou, nomeadamente os contratos também da Boeing e, portanto, este jeito que é recebido é completamente diferente, como nós temos visto, e até uma certa, eu vou dizer esta palavra, pode depois até ser criticado, mas há aqui até uma certa subserviência por parte de Donald Trump, da forma como fisicamente se comportou. O que não deixa de ser interessante quando Donald Trump dá sempre esta ideia de que ele é o líder e de que está em controle da situação. Agora, só mesmo para terminar aquilo que cá estamos a falar em relação a Ronaldo. Ronaldo simplesmente nada mais é do que uma cortina de fumo para aquilo que se vai debater, que vai desde o petróleo até à questão de Gaza.

Já vamos esmiuçar precisamente os temas deste encontro. Disse na introdução desta nossa conversa que a visita do príncipe herdeiro à Casa Branca é a primeira em sete anos. Vítor Gabriel Oliveira, é coisa do passado o envolvimento do regime saudita no assassinato do jornalista correspondente do Washington Post, Jamal Khashoggi, por agentes sauditas em Istambul, na Turquia, em 2018?

Eu penso que o mundo ocidental, enquanto tiver memória, se lembrará dessa questão. Agora, pegando um pouco também nas palavras do Miguel, manda quem pode, obedece quem paga. Basicamente, podemos mudar um bocadinho aqui as palavras e dizermos isto. Portanto, só de relembrar que os Estados Unidos estarão a negociar a venda de 48 caças à Arábia Saudita. Donald Trump, em muitas das suas viagens, não só Donald Trump, mas a entourage de Trump, todas as visitas feitas de preparação para a paz no Oriente Médio passaram, e muito, pela Arábia Saudita. Portanto, a Arábia Saudita transformou-se num player naquela região do Oriente Médio, num player com bastante peso, não só pela sua dimensão, mas pelo seu poderio financeiro, pela sua ligação ao petróleo, mas também porque se tornou um player que não quer guerra. Ou seja, o plano estratégico do príncipe herdeiro e de todo o país é um plano da existência de não agressões à volta da Arábia Saudita. E que é para isso que têm trabalhado, é para isso que também têm trabalhado neste plano desportivo, como é o caso da contratação do Ronaldo, mas não só, podíamos estar aqui a elencar inúmeros desportistas. Falamos também de outros desportos, falamos como há pouco do Mundial 2034, onde a Arábia Saudita investiu milhões e milhões de dólares. Estamos a falar de um plano para dominar o Oriente Médio e para ser um player a nível mundial em várias áreas, mas em que os Estados Unidos olham também para estes petrodólares, se me permite esta expressão, e de perceber quanto é que a Arábia Saudita foi desembolsar aos Estados Unidos nesta viagem. E como dizia o Miguel, Ronaldo não é mais do que colocar um elemento pop nesta visita, um elemento mais de charme, de demonstração da ocidentalização ou da crescente democratização que o regime saudita quer demonstrar. Mas penso que enquanto nós tivermos memória e os democratas tiverem memória no Ocidente e na Europa, não se esquecerão desse incidente trágico de 2018.

A morte de Jamal Khashoggi, o correspondente do Washington Post. Miguel Baumgartner, há uma promessa de investimento à Arábia Saudita de $600 mil milhões de dólares. O que espera o rei da Arábia receber em troca?

O rei da Arábia quer receber em troca algumas coisas e algumas coisas Donald Trump já fez. Uma das coisas que foi aqui dito e que é verdade, é que a Arábia Saudita quer estabilidade para a região. E foi isso que pediu a Donald Trump, quando Donald Trump visitou há cerca de seis meses a Arábia Saudita. E uma das coisas que lhe foi pedida foi que houvesse um reforço dos acordos de segurança regional, nomeadamente aquilo que são os famosos Acordos de Abraão E obviamente que é isso que a Arábia Saudita quer alargar. Veja-se que, por exemplo, não há muitos dias, Donald Trump recebe o novo líder da Síria, que até há pouco tempo atrás era um terrorista e que estava na lista dos mais procurados a nível internacional, e que estava numa lista de pessoas consideradas como terroristas e como terroristas que tinham os Estados Unidos como o seu principal inimigo. E a Arábia Saudita convenceu Donald Trump a reconhecê-lo e a reconhecer a legitimidade deste novo governo da Síria, em resposta à Arábia Saudita se manter, de alguma forma, neutral em relação à questão de Gaza e à questão de Israel. E portanto, há aqui três ou quatro coisas, que é a estabilização do preço do petróleo. Não vamos esquecer o que está a passar na Venezuela, e a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo e, portanto, se tivermos um confronto militar, eu duvido, mas isso ficará pra outro dia conversarmos sobre isso, poderá haver uma instabilidade na questão do preço do petróleo. Depois, a contenção das ambições iranianas, uma das coisas que foram apresentadas na Assembleia Geral das Nações Unidas por parte de Benjamin Netanyahu era que ainda existia um problema no Irão, nomeadamente com aquilo que é o projeto de enriquecimento de urânio, dizem eles, para fazer energia, dizem os israelitas, para a criação de uma bomba nuclear. E, portanto, a contenção dessas ambições, o reforço dos acordos de segurança, como eu disse, a questão militar, os F-35, é um valor muito grande e é aquilo que Donald Trump hoje anda a vender um pouco por todo o mundo. Até Portugal, aparentemente, também está pra comprar, fazer a troca dos F-16 por F-35. E depois, parece-me que também vai estar aqui, possivelmente, a ser debatido, que é a implementação da segunda fase do plano pós Gaza, até porque esta visita acontece 24 horas depois daquilo que foi outra vitória de Donald Trump, não só receber Cristiano Ronaldo na Casa Branca, mas também outra vitória de Donald Trump, que foi aquilo que foi ontem aprovado no Conselho de Segurança. Portanto, poderá estar aqui também uma certa discussão de implementação do segundo plano, que é, uma vez que o Egito tem se afastado um pouco, uma vez que a Jordânia também tem se afastado, uma vez que Israel não quer a Turquia envolvida, ser a Arábia Saudita, de alguma forma, conseguir organizar, até porque a Arábia Saudita conseguiu convencer, por exemplo, o Paquistão e mesmo a Indonésia a virem para perto da possibilidade de assinarem os Acordos de Abraham, que são dois países que sendo muçulmanos, não estão na região, nomeadamente a Indonésia, que está muito longe e é o maior país muçulmano do mundo. E portanto, há a necessidade de termos uma força de intervenção ou de implementação da paz em Gaza. Ninguém quer pôr o chamado boots on the ground e vamos ver se hoje desta reunião poderá sair alguma ideia ou o que poderão ser os próximos passos da segunda fase do plano de Gaza.

Há aqui um pequeno problema, é que a Arábia Saudita exige que Israel reconheça o Estado da Palestina, o que Israel, e particularmente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, já disse que não vai fazer. Nesta perspectiva, Vítor Gabriel Oliveira, que papel pode desempenhar a Arábia Saudita para a concretização do plano traçado por Donald Trump pra região?

Guardou a pergunta mais difícil pra mim. É uma pergunta muito difícil, porque a Arábia Saudita tem uma grande intervenção na região, ou seja, como dizia há pouco o Miguel, uma intervenção cada vez mais tentacular na região. Donald Trump precisa da Arábia Saudita para conseguir estabilizar a região, para conseguir, e uma parte importante, suster aqueles que, provavelmente na região, queriam atacar até Israel proativamente, e não o fazem porque a Arábia Saudita tem mão sobre esses regimes ou sobre os tentáculos desses regimes que estão estacionados na região, nomeadamente no Qatar e em outros países. Portanto, a Arábia Saudita tem uma grande influência nessa região. Agora também cabe a Donald Trump forçar Benjamin Netanyahu. Nós percebemos pelas declarações de Trump, sempre que Trump esteve com Netanyahu nas últimas duas ou três vezes, que realmente Trump tem influência e Trump consegue, através de alguma exaustão, convencer Netanyahu, mas que Netanyahu não é permeável à primeira a Trump. Nós vimos isso quando Trump esteve em Israel e falou no Parlamento israelita. Nós percebemos que, e até de certa forma, Trump até ironizou que Netanyahu era difícil de convencer e que teria alguma dificuldade em convencê-lo nalguma parte. Portanto, essa será realmente a parte mais difícil de convencer. Acho que será um problema que se arrastará. Acho que Israel, enquanto pelo menos Netanyahu estiver à frente dos destinos de Israel, não cederá nessa matéria. Portanto, poderá, de certa forma, aceitar a reconstrução de Gaza, poderá aceitar o plano de paz, poderá aceitar muito daquilo que está no plano cozinhado para que a paz perdure durante muito tempo e que os Estados Unidos tiveram uma grande importância, mas essa parte em específico de reconhecer o Estado palestiniano, eu acho que estamos muito longe e acho que enquanto Netanyahu estiver à frente do governo israelita, seja em que condições for, acho muito difícil que isso aconteça.

Miguel, isto é um entrave à participação mais visível da Arábia Saudita na concretização deste plano de paz para o Médio Oriente traçado por Donald Trump?

É em parte, mas também temos aqui muita coreografia política e, portanto, a Arábia Saudita nunca poderia dizer que poderia, de alguma forma, estar envolvida de corpo e alma neste plano pós-Gaza sem que tivesse este precedente, ou sem que este precedente fosse cumprido, que é o reconhecimento da Palestina. Mas também é verdade que se nós formos perguntar à Arábia Saudita se ela teria disponível para receber os palestinianos, aqueles que querem sair de Gaza ou que vivem nos campos de concentração, também não os quer lá. A mesma coisa acontece com o Egito, acontece com a Jordânia, etc. Agora, tem aqui um ponto que é primordial: nós sabíamos que este acordo era um acordo de cessar-fogo e não era um acordo de paz, nem era um processo de paz. Tanto que este acordo de cessar-fogo não foi assinado por nenhuma das partes beligerantes. Não foi assinado nem pelo Hamas e muito menos foi assinado por Israel. Foi um acordo imposto pelos Estados Unidos, pelo Qatar, pela Arábia Saudita, a Israel e ao Hamas, obviamente, com o apoio muito forte por parte da Turquia, até porque hoje nós sabemos que a grande maioria dos dirigentes do Hamas não vive no Qatar, mas vive em Istambul. E por isso é que, por exemplo, um dos negociadores que esteve presente foi o chefe dos serviços secretos da Turquia. E nós sabemos exatamente que as duas partes beligerantes não estando presentes, seria muito difícil a implementação. Continuaram ataques de parte a parte, continuaram acusações de parte a parte. Netanyahu veio dizer que não vai reconhecer absolutamente de maneira nenhuma a Palestina. Foi votado no Parlamento israelita a anexação, pela segunda vez, da Cisjordânia, ou do West Bank, ou como dizem os israelitas, a Cismaria. E o que nós sabemos é que não temos focado tanto e mesmo nos noticiários não temos discutido tanto a questão da Faixa de Gaza e andamos muito mais ocupados com a questão da Ucrânia, mas sabemos que mesmo no terreno houve alguma apaziguação ou um apaziguamento daquilo que era antigamente a questão militar por parte de Israel. Nós já sabíamos que o Hamas estava muito debilitado e portanto era mais uma resposta mais esporádica, mais um ataque às tropas do que alguma capacidade, por exemplo, de invadir Israel, nós sabíamos disso, mas também houve uma política de terra queimada e portanto, hoje se nós olharmos pro que era Gaza antes e Gaza depois, também não há ali muita coisa. O que nós sabemos é que pra implementação do segundo plano tinha que haver vontade das partes, mas é das partes envolvidas e que não existe. E portanto, o Hamas não entregou as armas, Israel continua a achar que só vai conseguir manter a sua segurança ocupando tudo e ocupando a Cisjordânia e ocupando também a Faixa de Gaza. E parece-me a mim, e mesmo pra terminar, Miguel, que o papel dos Estados Unidos e o próprio papel da Arábia Saudita está feito, que foi fazer o processo de cessar-fogo, voltar a dizer que há a importância dos acordos de Abraão continuarem a ter efeito e efetivamente até serem alargados, e poderá chegar à conclusão daqui a algum tempo de que Donald Trump vai dizer: "Bom, mas o Hamas não parou, continua a fazer os ataques, continua a haver esta violência."

Quer ter dito o recrudescimento do conflito armado entre o Hamas e Israel.

E depois o avanço total de Israel sobre quer a Faixa de Gaza, quer a Cisjordânia.

O Miguel há pouco falava aqui da decisão de ontem do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que aprovou a constituição de uma força internacional com a abstenção da Rússia e da China, que dão esse sinal. Vítor Gabriel Oliveira, temos escutado as posições assumidas por dirigentes de vários estados, particularmente da região do Médio Oriente, a colocarem entraves à integração nessa força internacional. Considera que vai ser um problema, que vai ser difícil encontrar países que estejam dispostos a alimentar essa força internacional de paz?

Dependerá sempre dos países que tenham interesse na região ou não, como dizia há pouco o Miguel, vários países querem que o problema se resolva, mas poucos estão disponíveis para receber a população palestiniana. Todos querem que se resolva. Aquilo que vimos, como também dizia o Miguel, como vimos os Estados Unidos e a Arábia Saudita, basicamente aquilo que disseram foi: "Meus senhores, entendam-se, apaziguem isto, mantenham-se calmos". E agora vamos ver pouco a pouco o que é que vai acontecer daqui pra frente. Parece-me que a segunda implementação será muito longa, será de difícil aceitação de parte a parte. O Hamas, como se sabe, não depôs as armas. Isso é um problema grave que irá alimentar a retórica de Israel e a argumentação de Israel, e também a envolvência. Não nos podemos esquecer que a envolvência nessa força de paz por parte de vários países, mesmo que com capacete dessa força de paz, essa força de paz terá blocos de constituição dos países que os colocam lá. Portanto, podemos perguntar, se um bloco desses tem 50 ou 60 baixas por um ataque do Hamas, o que é que fará esse país? Será que realmente esse país quer estar envolvido num conflito e arrastar-se pra dentro do conflito? Será que depois esse país Ao colocar uma parte da força de paz e capacetes na região poderá receber ou não retaliação no seu território. São tudo essas questões que os seus líderes, os líderes desses países, avaliam. Não é apenas colocar soldados no terreno para uma força de manutenção de paz, é perceber todo o impacto positivo ou negativo, que no caso poderá ser muito mais negativo do positivo, para esses próprios países, para as suas populações, politicamente para esses regimes que apoiarem. Imagine só que esses países colocam capacetes no terreno, quando digo capacetes é militares no terreno, e que há realmente dezenas ou centenas de baixas, como é que esse problema é percepcionado nos países de origem, politicamente, pelas próprias populações. Há um conjunto de situações de exposição a esse risco que esses países não querem tomar e que será difícil a resolução, o consenso para uma força de paz internacional.

Espinhos para a constituição dessa força multinacional, um dos objetivos traçados neste plano desenhado por Donald Trump para garantir o cessar-fogo, o calar das armas no Médio Oriente. Estamos quase no final da nossa emissão especial aqui na Rádio Observador. Queria só perguntar para finalizar, Miguel Baumgartner, que Arábia Saudita é esta, uma Arábia Saudita, um reino da Arábia Saudita, hoje mais próximo dos valores ocidentais, alguma evolução ou nem por isso?

Não, eu acho que em termos daquilo que nós entendemos como país, como uma democracia, como aquilo que nós temos como os nossos valores ocidentais, não, não está nada. É um regime que está mais aberto, é um regime que está um pouco mais ocidentalizado pela sua vertente comercial. Mas não, em termos daquilo que é uma monarquia completamente absolutista e onde continua a termos, ainda há pouco falámos do que aconteceu ao jornalista americano, em que temos sérios problemas com a pena de morte, a violação dos direitos humanos, o direito das mulheres, o direito dos imigrantes que trabalham nestes países, que são extremamente maltratados e vivem em condições completamente desumanas. Não, isso não está resolvido e isso mostra que existe uma Arábia Saudita muito rica, muito virada para os negócios, mas muito longe e distante daquilo que é para nós a democracia e o Estado de Direito.

Obrigado, Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Obrigado, Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa e conselheiro das comunidades portuguesas. Obrigado também a Daniel Sá, o diretor executivo do Instituto Português de Administração de Marketing, que esteve conosco nesta primeira meia hora de emissão especial. Emissão pretexto deste encontro que junta a esta hora na Casa Branca o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, na comitiva do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, o internacional português Cristiano Ronaldo