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Jorge Fernandes, que destaques deste primeiro discurso de Lula da Silva como presidente?
Primeiro, acho o discurso muito mais em tom de campanha eleitoral e de combate do que propriamente um discurso de um estadista que está a ser empossado presidente da República. Ele elencou um conjunto de medidas sociais que são muito importantes e que pautam e que são clássicos da governação do PT no Brasil, desde que Lula tomou posse há 20 anos precisamente.
O presidente não perde tempo, não é?
Exatamente. Sob esse ponto de vista, acho que Lula está perfeitamente em linha, não há aqui nada de novo. É uma política que, se houver recursos pra isso, e acho que isso é uma nota que deve ser introduzida, é que Lula, não sei exatamente, ele terá os seus assessores políticos e econômicos, etc., mas muita da política assistencialista e de apoio social que Lula que foi possível fazer, especialmente durante o seu primeiro mandato, foi possível num contexto internacional com pouquíssima inflação, um boom fortíssimo de commodities em que a China comprava com uma voracidade fortíssima em relação a muitos produtos.
E o Brasil era uma economia emergente, não é?
Exatamente. Neste momento, o cenário é radicalmente diferente. Há uma inflação galopante em todo lado do mundo. Os commodities não estão no boom que já estiveram. A China, por outro lado, está a enfrentar a sua fase de menor crescimento econômico desde que se abriu ao capitalismo em 1978, com as reformas levadas a cabo por Deng Xiaoping. Não sei exatamente até que ponto é que muitas dessas promessas que Lula está a fazer podem sequer ser cumpridas. Isto é uma dimensão do discurso em si. Do ponto de vista da forma, achei quase lamentável a maneira como Lula insistiu tanto em falar do passado, do autoritarismo e dos anos Bolsonaro. É evidente que os anos Bolsonaro foram completamente pra esquecer e infligiu graves danos à democracia brasileira, mas exatamente tal como disse Carlos Correia, que é um belíssimo cientista político brasileiro, a democracia brasileira mostrou-se muito mais forte do que, aliás, muitas das pessoas de esquerda e do PT dizem. A prova da força da democracia brasileira e das instituições da democracia brasileira é que Lula está sentado neste lugar. Isto é, a democracia brasileira foi capaz de ter uma eleição ganha por Bolsonaro, sobreviver aos quatro anos de Bolsonaro e conseguir retirar Bolsonaro por via perfeitamente legal, por vias perfeitamente lícitas, através das urnas, e dar a vitória a Lula da Silva. Isto é que é a democracia a funcionar. A democracia é isto, a democracia são um conjunto de normas que permitem punir e premiar atores políticos.
Lula da Silva, de resto, também fez mesmo essa nota ao agradecer explicitamente ao Supremo Tribunal Eleitoral por fazer prevalecer a verdade à violência, como disse.
O interessante de tudo isto é que Lula fala, e eu percebo que existe uma parte também sentimental por parte dele, isso é absolutamente evidente, um homem que enfrentou o processo judicial que ele enfrentou e que agora chega aqui a presidente novamente, eu percebo que exista uma componente sentimental fortíssima. Agora, sob o ponto de vista, ele fala do Brasil nos últimos quatro anos como se se tratasse de uma ditadura autoritária, etc. E numa ditadura autoritária, ele não teria sido eleito presidente, como foi. É uma dedução puramente lógica. Achei um discurso que eu esperaria numa campanha eleitoral ou eventualmente numa noite eleitoral. Agora, nesta fase em que queremos projetar o futuro, seria natural fazer uma nota clara sobre Bolsonaro.
Bolsonaro que não referiu pelo nome nunca neste longo discurso.
Claro, isso é perfeitamente natural, depois de tudo o que se passou, a campanha foi feia. É evidente, Bolsonaro foi um presidente horrível, sob o ponto de vista das normas da civilidade democrática, não há nenhum tipo de argumento contra isso. Agora, penso que num discurso de tomada de posse em que se pretende projetar o futuro, em que se pretende projetar aquilo que o Brasil poderá ser nos próximos cinco a 10 anos, acho que perder tanto tempo a bater no que se passou nos últimos quatro. Aliás, o que é muito curioso, e isto deve ser sempre sublinhado, é que Bolsonaro é um produto dos anos PT. Bolsonaro aparece em 2018, não como um alien vindo de fora.
É uma consequência.
Exatamente, depois de vários anos longos do PT no poder. Lula faz este discurso quase como se o PT tivesse sido um partido sempre de oposição, que nunca tivesse estado no poder e que agora finalmente a democracia chegou. Eu acho que esse discurso não é propriamente a minha praia. Achei, aliás, as escolhas dos brasileiros uma escolha impossível. Acho que a escolha de Lula, apesar de tudo, é muito menos má do que teria sido Bolsonaro e Lula, felizmente, ganhou as eleições. Mas não estou muito otimista relativamente ao futuro mais imediato da política brasileira. E espero que seja possível que Lula consiga governar e consiga fazer a coadunatura de círculo com estes partidos todos, sem recorrer a determinado tipo de mecanismos que de resto são típicos do Brasil e que não acontecem só com governos do PT. Fernando Henrique Cardoso utilizou isso, Bolsonaro utilizou reiteradamente. Aliás, não é por acaso, basta qualquer pessoa que esteja a ver televisão, o homem que está sentado à direita do Lula é Arthur Lira, que era o homem de mão do Bolsonaro no Congresso. Há aqui uma certa continuidade sob o ponto de vista institucional, que não é de somenos. Repare-se que já depois da eleição no Brasil, muitas pessoas do PT apoiaram a reeleição de Arthur Lira como presidente do Congresso. E Arthur Lira era o homem claramente do Bolsonaro. Aliás, foi Arthur Lira e a sua descolagem rápida do Bolsonaro na altura das eleições, em 31 de outubro, que rapidamente permitiu isolar Bolsonaro e de resto mostrar precisamente aquilo que eu estava a dizer, que a democracia brasileira está a funcionar felizmente bem e de forma absolutamente saudável. Lula está ali sentado ao lado de Lira e isto significa que é um bocadinho mais business as usual na relação entre a presidência e o legislativo do que aquilo que Lula quer fazer parecer de que havia um regime anterior autoritário, antidemocrático, etc., e agora ele chegou e volta à democracia. Eu percebo que pra base dele seja importante e é bom virar a página. Penso que é positivo Lula tenha vencido as eleições. Estou menos otimista do que muitas pessoas estão, eventualmente, com as potenciais facilidades que o Lula tem agora ao chegar ao poder.