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"Hey, Ms. Honeybee, it's Dolly P. You know that hussy with the good hair you sang about? Reminded me of someone I knew back when. Except she has flamin' locks of auburn hair. Bless her heart. Just a hair of a different color, but it hurts just the same."
Esta é a voz de Dolly Parton. Morreu ontem, aos 80 anos. Ela que nasceu numa família pobre de 12 filhos, mas que se tornou num ícone global, muito para além da country, o gênero que a popularizou, mas fez muito bem esse crossover para a pop, principalmente nos anos 80. Esta hora é um especial Dolly Parton. Eu sou o Nelson Ferreira, tenho vários convidados para olhar para a vida e obra de Dolly Parton, a começar pelo António Moura dos Santos, que se junta agora a nós. Tem também assinado algumas peças no site do Observador com a notícia da morte de Dolly Parton. António, muito bem-vindos, muito boa tarde. Uma notícia que chegou ontem de uma mulher ímpar, que foi muito para além da música na carreira que construiu.
Boa tarde, Nelson. É verdade. Como todas as mortes destas grandes figuras, foi absolutamente inesperado. Sabia-se que Dolly Parton padecia de alguns problemas de saúde, inclusive forçaram-na a adiar e depois cancelar alguns concertos que tinha marcado para o final de 2025. Nada fazia prever este fim tão súbito, especialmente quando, apesar de reduzir as aparições públicas, ia falando com os media e dando a entender que havia ainda muitos projetos que queria cumprir. E no fundo, a sua vida foi uma súmula disso mesmo, de projetos que à partida pareciam impossíveis e que ela conseguiu fazê-los cumprir.
É um início de vida complicado, numa família muito pobre. Li algures que cresceu num único quarto com os 11 irmãos, numa casa sem luz e água canalizada, das montanhas do Tennessee para um ícone global. Foi uma carreira longa e principalmente num meio como a country, que sempre foi mais marcado por figuras masculinas.
Sim, sem dúvida. Ela já tinha algumas precursoras, como a Loretta Lynn, mas de facto, acho que há um antes e um depois da Dolly Parton no que toca à música country. Como eu assinalei no obituário que publicámos no Observador, acho que a Dolly Parton conseguiu, de certa maneira, ultrapassar as barreiras geográficas que continuam a existir na música country, que é uma música muito para consumo interno nos Estados Unidos, apesar de obviamente ter muitos fãs a nível internacional. Ela, de facto, conseguiu ultrapassar a modéstia do seu início de vida. Afirmaria até que nunca passou fome, mas que faltava comida. Ou seja, dando a entender que cresceu num meio onde a família tentava cuidar o mais possível, mas que as suas condições não eram as mais fáceis. E foi um tio que a levou para a música. Ela sempre teve um pendor natural para a música e para cantar. E foi um tio, que era guitarrista, que no fundo foi o seu olheiro. E que a levou para Nashville, onde ela de facto conseguiu dar largas ao seu talento imenso. Estamos a falar de uma mulher que estima-se que tenha escrito mais de 3 mil músicas ao longo da vida, o que até, de certa maneira, é importante assinalar que Dolly Parton não era apenas uma cantora, era acima de tudo uma compositora.
Há uma história curiosa com os próprios direitos das suas canções. Ela era muito protetora desse legado, o que também faz aqui perceber o olho para o negócio. Era uma empreendedora. São muitos os negócios em que esteve envolvida, desde um parque temático chamado Dollywood, até essa defesa mais acérrima dos seus direitos de publicação, o que originou também uma história engraçada com o Elvis Presley, que queria gravar "I Will Always Love You", mas o manager, o Colonel, queria pelo menos 50% dos direitos. Ela não abdicou disso. E por um lado, até lhe correu bem, porque o Whitney Houston, ao gravá-la, tornou na gravação mais vendida de sempre, o que lhe também deu muito dinheiro.
Sim, sem dúvida. Esse é um pormenor muito interessante que eu acabei por não incluir no nosso texto, para permitir aos leitores também fazerem a sua procura pela vida de Dolly Parton, para não ser excessivamente detalhado. Eu não consigo agora precisar se os direitos era só dessa canção, se era do catálogo da Dolly Parton até então, em perpetuidade, o que implicava também ficar com os direitos de "Jolene", por exemplo. E de facto, o que tu disseste é absolutamente acertado. E eu acho que mais também do que talento para o negócio, que ela sem dúvida teve, era uma fé inabalável em si mesma. Ou seja, a ideia de manter o catálogo, acreditando que conseguiria singrar. Ela disse numa entrevista, que nós recuperámos, que ela sempre quis ser uma estrela, parecia-me algo natural. Portanto, isto era uma crença que ela tinha mesmo na fase onde estava a começar. Partia de trás, nessa corrida, mas chegando a Nashville, que é esse coração da música country nos Estados Unidos, começou a dar largas à sua criatividade. Estamos a falar de uma produção absolutamente prodigiosa. O último álbum de Dolly Parton é de 2023 e é o 49°.
É o "Rockstar", não é? É cheio de standards de rock interpretados pela Dolly Parton. Há, por exemplo, "Let It Be" num featuring com o Paul McCartney e o Ringo Starr, nesse último trabalho editado em 2023.
E é muito curioso também que, por exemplo, nesse mesmo álbum, ela canta com o Rob Halford, que é o vocalista dos míticos Judas Priest, a mítica banda de metal. Faço essa observação curiosa porque no ano anterior, Dolly Parton foi convidada para a cerimónia de indução do Rock and Roll Hall of Fame. Foi uma honra que ela inicialmente até procurou rejeitar, porque dizia não ter os pergaminhos rock para tal, mas foi convencida a isso e cantou com o Rob Halford durante a cerimónia, o mesmo que depois também participaria nesse álbum. No fundo, isso também nos diz um bocadinho da sua capacidade, de uma certa plasticidade da sua música. No sentido em que não era só country, apesar de, obviamente, a matriz e as raízes que ela frisou sempre absolutamente, mas também sabia dar azo à pop que tu referiste dos anos 80, ao R&B também, àquilo que eles chamam roots, no sentido de ser a música mais folk, mais bluegrass, o que nós consideraríamos as músicas do mundo. Portanto, ela sempre foi capaz de conjugar todos esses elementos ao longo da sua carreira. E outra coisa que eu queria frisar, que no fundo, acho que atingiu o pico em "Rockstar", o pico até no sentido de ser o último álbum que editou, foi o seu espírito colaborativo ao longo de toda a carreira, um espírito colaborativo que começou logo no início. Acho que certamente ias falar do Porter Wagoner.
Para quem escreveu, de resto, "I Will Always Love You", sem grande teor romântico, como muitos poderão pensar. Era mais uma canção de despedida de uma colaboração artística, de uma colaboração entre duas figuras para enveredar definitivamente numa carreira a solo com mais energia. E foi a ele que foi dedicada essa canção, depois muito famosa, na voz de Whitney Houston.
E a canção que está a passar de fundo.
Com Kenny Rogers.
Com Kenny Rogers. Dolly Parton conseguiu dois hits número um na tabela do Billboard One Hundred, e uma delas foi esta mesmo. Uma canção escrita pelos Bee Gees. Curiosamente, Dolly Parton, sendo uma compositora tão prodigiosa, um dos seus maiores êxitos, até não foi ela que escreveu, mas isso também é um bocadinho a natureza da indústria e das oportunidades que vão surgindo. E o outro êxito, naturalmente, é um tema que até mesmo quem não é fã deste estilo de música já ouviu e conhece, que é o "9 to 5".
Muito protagonizado também no cinema e na televisão, num filme, creio que com Jane Fonda.
Precisamente.
Há aqui também um lado da Dolly Parton, que eu não sei se concordas, que é a forma como ela ultrapassa a música ou vai para além da música. E um dos exemplos poderá ser o facto de ela ser uma marreta. Na Rua Sésamo, há a Polly Darton, e é claramente uma homenagem à Dolly Parton. É uma figura que entra na cultura pop, também pelo cinema, mas a própria imagem dela na moda, se quisermos, a forma como se apresentava, tornou-a uma artista que ultrapassou essas fronteiras da música.
Sem dúvida nenhuma. Aliás, existe aquela expressão que os ingleses e americanos usam, que é o larger than life. Era uma daquelas personalidades tão carismáticas, que se não tivesse tido as oportunidades que teve, se calhar tinha arranjado outras para conseguir chegar onde chegou. Era uma personalidade absolutamente magnética e foi assim que também enveredou pelo cinema e que se tornou uma figura pop de tamanha popularidade. Existe uma coisa engraçada, que até se vai vendo nas redes sociais. É que a Dolly Parton, e ela também cultivou isso, apesar de apoiar algumas causas que tinha como essenciais, e de se considerar de uma forma ou outra, se calhar mais timidamente, não de uma forma tão política, mas considerar-se uma mulher feminista, sempre evitou tomar partidos no que toca à luta partidária.
Li uma coisa engraçada que é: ela não era apolítica nos temas que abraçava, mas era depois no apoio a candidatos em eleições. Mas há uma entrevista engraçada, numa conferência de imprensa em 2016, há um jornalista que lhe pergunta se ela própria não chegou a pensar em concorrer às eleições. E ela tinha sempre um lado mais humorístico e até de alguma depreciação própria no humor que fazia, disse uma frase, vou dizer em inglês: "We could use a few more boobs in this race". Apontando para os seus peitos como se fossem precisas mais mulheres nessa corrida de 2016.
Claro. Inclusive, o aspecto que eu queria realçar é que eu acho que se a Dolly Parton se candidatasse numa plataforma política, se calhar perdia parte desse apelo, porque ela funcionava quase como uma espécie de rainha, como uma figura agregadora da cultura americana. Tanto que nós vemos os dois lados de uma sociedade altamente polarizada como a americana, a homenageá-la na sua morte e a honrá-la e a elogiá-la. Há muito poucas figuras que conseguem ter esse tipo de unanimidade e a Dolly Parton conseguiu fazê-lo, lá está, também com esse jeito que nós identificamos um bocadinho com certo tipo de americano, se calhar um americano sulista, de ter bom humor e de ser autodepreciativo. Também há outra frase que ela dizia que era: "É preciso gastar muito dinheiro para se ter um ar tão barato". Portanto, ela própria brincava com o facto de ter uma aparência um bocadinho mais excêntrica ou que alguns tomariam como, agora só me está a ocorrer uma palavra em inglês, que é gaudy. É uma coisa muito frontal, muito estrampante.
Esta manhã também ouvi um podcast em que a própria dizia que começou a usar aquele look que todos conhecemos na Dolly Parton, porque ela tinha uma vizinha que tinha aquele aspecto, um aspecto excêntrico, com uma grande cabeleira, com grandes unhas, muito pintadas, muito cheia de cor, e ela achava aquilo lindíssimo e comentou com a mãe: "Eu acho-a lindíssima. Esta nossa vizinha é lindíssima". E que a mãe disse: "Não, ela é cheap, é tramp". E ela disse: "Não, eu quero ser tramp". Esse aspecto dela também foi uma das imagens da marca da própria Dolly Parton.
Sim, e eu acho que uma figura como a Dolly Parton tem este grau de adoração. Todos os artistas constroem a sua persona. Mas a questão é que a Dolly Parton parece-me que mais do construir uma persona, tornou-se essa persona sem sacrificar as suas convicções e sua identidade. Não sei se me faço entender.
Sim.
Ela conseguiu tornar-se nessa pessoa que, se calhar, projetou nessa vizinha e tornou-a nesse polo magnético. Obviamente que o talento foi fulcral aqui. Porque sem grandes canções e sem a voz, e até uma coisa que se calhar não é do conhecimento público, é do seu talento de multi-instrumentista. Ela tocava vários instrumentos, não só o piano.
E a guitarra.
E a guitarra, mas também o banjo e outros instrumentos.
António Moura dos Santos assinou também com Ana Cristina Marques um obituário que está no site do Observador e que podem ler: "Dolly Parton: a vida e obra da mulher que quis brilhar e que nos iluminou pelo caminho. 1946-2026". António, obrigado pela tua participação também neste especial Dolly Parton. Vamos fazer uma pausa para as notícias. Já de seguida regressamos com mais convidados a olhar para a vida e obra desta norte-americana que morreu ontem, aos 80 anos. "9 to 5", Dolly Parton. Segunda parte deste especial na Rádio Observador dedicado à carreira da cantora norte-americana, que morreu ontem, aos 80 anos. Muito mais que uma cantora e compositora, foi também atriz e o trabalho de benemérita ou de filantropa é também sempre muito elogiado. Uma mulher de negócios que ultrapassou muito a música. Bruno Vieira Amaral conosco agora neste especial. De resto, ele é membro do painel do "PopUp", o magazine de cultura pop da Rádio Observador. Bruno, muito bem-vindo a este especial. Obrigado pela disponibilidade.
Obrigado.
Dolly Parton tem também uma grande carreira na televisão e na música, muito por culpa deste "9 to 5", um filme que foi um grande sucesso em 1980 e que diria que inaugura aqui uma fase mais pop e menos country na carreira da Dolly Parton.
Esta canção que lhe valeu uma das duas nomeações que teve para o Oscar, perdeu as duas, é verdade. Esta canção foi um sucesso, daqueles sucessos transversais, portanto retirando-a ali do campo mais restrito do country e levando-a para a pop e tornando-a também um ícone cultural global. Ela já tinha trabalhado em televisão durante vários anos, no início da carreira, o que lhe também deu um grande reconhecimento dentro dos Estados Unidos, e não só a ela, mas também a muitos cantores country. Mas este foi precisamente o seu primeiro papel em cinema, num filme, como aliás os outros, mas este em particular, o "Flores de Aço", do final dos anos 80, filmes muito centrados em volta das personagens femininas. Aliás, foi a Jane Fonda e Lily Tomlin que a convidaram para este filme, o das "Nove às Cinco". Jane Fonda é que teve a ideia da história do filme, que envolve aqui o relacionamento de três mulheres com o patrão, que é o homem sexista e que também as assedia, em particular a personagem da Dolly Parton no filme. E a ideia era de Jane Fonda trazer ali um pouco do Oeste Da América profunda para o filme e acabaram por escolher Dolly Parton, no que foi o seu primeiro papel. Depois há uma série de histórias curiosas acerca da participação de Dolly Parton. Ela não só memorizou todas as falas da sua personagem, como das outras personagens, porque pensava que o filme era como uma peça de teatro, ia ser filmado por ordem do guião e ficou muito espantada ao descobrir que não era assim. Que muitas vezes as atrizes filmavam as suas partes e só depois as outras filmavam as restantes partes. Ela ficou muito espantada, não tinha conhecimento de como funcionava o método de filmagem no cinema. O filme foi um grande sucesso, arrecadou mais de 100 milhões de dólares nas bilheteiras. Na altura, no início dos anos 80, era muito dinheiro. E Dolly Parton também obteve um reconhecimento não só musical, pela nomeação que teve para os Oscars, mas também como atriz. Ela foi nomeada para os Globos de Ouro. Também não ganhou. O que é curioso. Ela dos EGOT, dos prêmios, dos Emmys, dos Grammys, dos Oscars e dos Tonis.
Mas tem nomeações em todos, não é?
Ela teve nomeações, creio que nos Tonis, não. Nos outros três teve, mas ganhou só os dois primeiros. Portanto, não é um EGOT, é um EGG, apenas. Ganhou o Emmy.
Oegg de peruca, não. Podia ser.
É quase. Mas teve essas nomeações por esse primeiro filme. Depois no cinema. Teve outras participações nos anos 80, em filmes com o Burt Reynolds, um filme muito mau com o Sylvester Stallone, o "Destravado - O Táxi Amarelo". E depois, no final dos anos 80, então entra nesse filme, nesse clássico, nesse drama feminino com um elenco verdadeiramente extraordinário, Shirley MacLaine, Sally Field, Julie Roberts, Olympia Dukakis. Dolly Parton também fez parte, entrou nesse filme, "Flores de Aço". Mas aqui, curiosamente, não foi usada nenhuma música. Ela normalmente fazia um acordo, quando aceitava participar em filmes como atriz, para que fosse usada uma das suas músicas na banda sonora original. Ela escreveu uma música, uma canção, para este filme, o "Flores de Aço", mas não chegou a ser utilizada.
Estava aqui a confirmar na internet, Bruno, que há uma nomeação para um Tony pelo musical "9 to 5", em 2009, Best Original Score, melhor banda sonora.
Banda sonora original, porque foram feitos mais temas, foram escritos mais temas, precisamente para essa peça. De facto, não tinha aqui essa informação.
É engraçado, porque ainda ontem vi um vídeo também precisamente do elenco deste musical, "9 to 5", ainda em exibição, não consegui perceber muito bem onde exatamente, mas no início do espetáculo, a atriz dirigiu-se ao público, dando conta da morte de Dolly Parton, o que surpreendeu a plateia. Houve um "oh!" Muita gente àquela hora ainda poderia não saber da morte de Dolly Parton. E foi feita então a habitual apresentação do musical "9 to 5", precisamente no dia da sua morte.
Deixa-me só dizer uma coisa, Nelson, a propósito de prêmios. Eu estava aqui a referir aquele péssimo filme com o Sylvester Stallone, o "Destravado do Táxi Amarelo", de 1985. Por causa desse filme, Dolly Parton teve três nomeações para os Razzie Awards.
Framboesa. O contrário dos Oscars.
O contrário dos Oscars, para os piores filmes e piores desempenhos do ano. E ela teve três nomeações para os Razzie Awards, duas por pior canção original e uma por pior banda sonora original, que partilhou com Mike Post. Mas também não ganhou, foi apenas nomeada. Aliás, ganhou o Razzie de pior canção original, não ganhou o de pior banda sonora original.
Aposto que ela própria poderia fazer uma boa piada com isso.
Ela certamente deve ter feito, nós é que não sabemos.
Ela tinha essa capacidade. Bruno Vieira Amaral, muito obrigado também pela tua participação nesta emissão especial Dolly Parton na Rádio Observador. Julgo que tenho agora conosco também a Rita Red Shoes. Rita, muito bem-vinda, muito obrigado pela disponibilidade para participar nesta homenagem que estamos a fazer a esta figura maior do country, mas também da pop e do showbiz mundial. Dolly Parton vai mesmo muito para além da música e se calhar um dos segredos desse sucesso será a sua própria personalidade desempoeirada a que sempre nos habituou.
Olá, boa tarde, muito obrigada pelo convite. Acho que sim, acho que essa é uma das características evidentes na personalidade da Dolly Parton, que de certa forma também passavam para a sua música, mas acho que é essa atitude que às vezes nos falta, se calhar, um bocadinho. Falo por mim, claro. De nos levarmos demasiado a sério e de levarmos tudo demasiado a sério. E estava a ouvir-vos a falar antes de entrar aqui na emissão, com as nomeações para pior canção, se não me engano. No fundo, é um bocadinho isso, não nos levarmos muito a sério. Ela transparecia muito essa positividade e essa vontade de estar viva. E às vezes acertamos, outras vezes falhamos, outras vezes à vista de alguns acertamos e de outros falhamos. Isso tudo faz parte da vida. Isso dava-lhe uma leveza muito importante, muito bonita ao mesmo tempo.
É também um ícone feminista. Abraçou enormes causas. Falávamos há pouco, na primeira parte, desse lado mais apolítico. Li um artigo em que se falava que ela fazia Dol politics, que era a política da Dolly, em que queria incluir toda a gente e não antagonizar ninguém com as suas opiniões, mas foi uma grande defensora dos direitos LGBT. E também uma grande filantropa em áreas como a educação. Através da sua fundação, ofereceu livros a escolas de todo o mundo, era uma das suas bandeiras. Esteve envolvida no financiamento de uma vacina na altura da Covid-19. E estava a ler também uma história do seu parque temático, Dollywood, que é o principal empregador da região onde está instalado, empregando grande parte da sua família. Esse início de vida bastante pobre também fez com que logo que começou a ganhar algum dinheiro, empregou grande parte da família nas suas empresas e nos seus negócios. Era também uma business woman com muito sucesso.
Sim, eu acho que o interessante na história dela é, de facto, ela vir de uma família sem grandes possibilidades. O pai, aliás, era analfabeto e ela nunca se ter desprendido, nunca ter posto de lado essa realidade, essa experiência, e absorveu-a na sua vida. E o fato de ter tido bastante sucesso, usou o seu sucesso e o seu dinheiro, no fundo, para abraçar essas causas e para dar oportunidade a que outras pessoas, enfim, ou não passassem pelo que ela passou, ou pelo menos minimizasse um bocadinho essa realidade para algumas pessoas. E essa questão da alfabetização, toca-me profundamente, porque acho que é um ponto de liberdade. Sabermos ler é bastante diferente de não sabermos ler neste mundo de hoje em dia. E é isso, no fundo, ela tem ali um lado bastante humano, que nunca deixou de lado. Também se empenhou, não só em escrever canções, mas usou o seu lado business woman para causas importantes e interessantes e que tiveram um bom impacto na vida de muita gente. Eu acho que isso é nobre.
Do ponto de vista musical, Rita, como é que olhas para a Dolly Parton? Terá escrito mais de 3 mil canções, tem enormes êxitos, escreveu para muitas outras pessoas que se calhar até tiveram mais sucesso com algumas das suas canções do que ela própria nas primeiras interpretações. Mas é alguém com uma caneta muito produtiva e muito certeira, porque consegue a determinada altura saltar as próprias fronteiras do country.
Sim, isso é uma das coisas que não é assim tão comum quanto isso. Produzir tanto e produzir bem. E ter essa flexibilidade, no fundo, de apesar de ela vir e as suas raízes estarem muito ligadas ao country e à sua forma de vida com a família, conseguir, de certa forma, abrir um bocadinho os seus horizontes criativos e transformar a música também pra um lado mais pop, digamos. E as próprias músicas, porque é uma linguagem bastante específica a do country, permitirem essa permeabilidade para artistas mais pop de outras áreas da música poderem pegar nas canções dela e transformarem-nas, como no caso da Whitney Houston, naquele êxito brutal. Não são todos os autores que conseguem fazê-lo. E, no fundo, o que eu acho é que ela era extremamente musical. Era mesmo uma criatura em que a música vivia dentro dela, por ela, através dela. E quando acontece isto, tudo acaba por parecer simples e fácil e acessível. E por algum motivo, ela escreveu à volta de 3 mil canções. Portanto, de alguma forma, havia aqui uma ligação profunda, uma facilidade com a música anormais, e ainda bem, anormais no bom sentido da palavra, de produtividade. Isso é aquilo que às vezes chamamos de uma forma um bocadinho simplória, talvez, de dom. De dizer: "Ok, tinha, de facto, aqui uma comunicação direta com inspiração musical".
Sem dúvida. Está aqui ao vivo, em fundo, a "Island in the Stream" com o Kenny Rogers. Há uma história em que ele estaria a gravar a canção e aquilo não estava a resultar e ela um pouco por acidente passa no estúdio e diz: "Não, eu vou te ajudar, eu canto aqui qualquer coisa contigo", e acabou por ficar o dueto que todos conhecemos. É esse dom que estavas também a falar. Rita Red Shoes, muito obrigado por teres participado também nesta emissão especial Dolly Parton aqui na Rádio Observador. Junta-se agora a nós a Joana Almeirante. Ela que, juntamente com a Nena, andou aí um pouco por todo o país com o espetáculo chamado Dois Pares de Botas e em que a própria Dolly Parton era uma das homenageadas. Não estou a dizer nenhuma mentira, pois não, Joana? Bem-vinda, boa tarde.
Olá, boa tarde. É verdade. Tivemos aqui um projeto de música country que levamos pelo país afora e, portanto, é uma notícia muito triste saber que a Dolly partiu. E foi uma referência também para este projeto e para este concerto. E foi sempre uma referência para mim também, enquanto compositora, e portanto deixa um legado muito especial e incrível.
Joana Almeirante, que acompanhaste durante muito tempo como guitarrista o Miguel Araújo, é uma das imagens fortes que temos também da Dolly Parton. É uma mulher na country, mas aparece muitas vezes com uma guitarra. Não era tão comum até à chegada da Dolly Parton. As estrelas anteriores eram mais intérpretes, mais cantoras, e ela aparece aqui também dominando uma série de instrumentos, inclusive a guitarra.
Sem dúvida. Aliás, até há um vídeo muito cômico dela tocar guitarra com umas unhas de gel gigantescas.
Já alguma vez tentaste?
Nunca tentei, mas ela conseguia tudo, a verdade é essa. Ela era uma artista incrível e tocava muitíssimo bem. Aliás, nós tocamos uma música, que é o "Jolene", que é das mais conhecidas da Dolly, que basicamente tem um riff de guitarra bastante difícil. Ela tocava aquilo ao vivo maravilhosamente bem com as suas unhas de gel. E portanto, eu acho que acima de tudo, é uma grande inspiração para todos nós enquanto artistas, o quão incrível ela era enquanto compositora, enquanto música, enquanto produtora e enquanto business woman, que é ainda mais incrível. Ela era tudo numa só pessoa e portanto é uma inspiração para todos nós.
Joana, estava a lembrar-me das fotos que fizeste com a Nena precisamente para este projeto Dois Par de Botas. Olhando aqui um pouco também essa iconografia ligada à Dolly Parton, eu acho que ela consegue uma coisa fabulosa, que é ter uma imagem que é bastante de uma América tradicional, na forma como se vestia, extravagante, mas tradicional, nalguns aspectos até um pouco sulista, o interior da América, e ter transposto tantas fronteiras, nomeadamente para a pop e depois nos últimos anos também tão apreciada por uma nova geração de autores, de compositores, se calhar onde tu e a Nena se incluem. Essa imagem extravagante nunca se cingiu aos meios tradicionais que aparentava.
Sem dúvida. Eu acho que ela tem sido uma referência, não só como tu disseste, na música country, mas na música pop também. Tens a Sabrina Carpenter, que acaba de lançar uma música com ela agora, acho que não foi este ano, foi o ano passado. E portanto, ela transcendeu a música no seu geral e para nós, que fazemos música pop, ela continua a ser uma referência mundial, na realidade. E quando nós criamos o projeto Dois Par de Botas, fomos fazer sentido, porque nós as duas, eu e a Nena, ouvíamos muito Dolly Parton. Foi com o disco dela, o "Jolene", que me fez apaixonar por música country. Eu acho que foi um disco que saiu em 74, 75, não me lembro muito bem. E há uma música que me fez mudar e que me fez cativar pela música country, que é uma música que ela tem que se chama "Highlight of My Life". E nós tocamos essa canção no concerto e eu acho que a imagem dela, tudo fazia sentido. Tudo ali fazia sentido e tinha um propósito, e eu acho que ela era tão especial exatamente por causa disso.
Por que em Portugal não se ouve tanta country? É um gênero que está muito localizado nas Américas. Claro que extravasa as suas fronteiras, mas não me recordo assim, de cabeça e de imediato, artistas que possam ser muito influenciados por esse gênero de música. E quando pensei nisso, lembrei-me obviamente do vosso projeto Dois Par de Botas e da versão que fizeram da "Jolene" e de outros clássicos country. É uma estética. Por que não é tão apreciada do público português? Ou esta impressão é errada? Pode ser só minha.
Eu acho que não, acho que estás certo. Na realidade, eu própria, quando comecei a ouvir música, não consumia muito música country. Não sei muito bem por quê, mas nunca chegou da mesma forma que chega a outros países a música country e chega aqui a Portugal. Não te sei dizer o porquê, mas houve aqui uma fase em que se começou a ouvir música country. E antes de nós lançarmos, aliás, o projeto Dois Par de Botas, a Beyoncé fez um álbum sobre música country.
Em que ela participa? Ela participa em duas canções. Eu usei esse trecho aqui no início da emissão especial, é uma faixa de 20 e poucos segundos só com ela a falar. Chama-se "Dolly P", mas depois tem um dueto Tyrant, em que é mesmo Beyoncé e Dolly Parton.
Exatamente. Eu acho que a Beyoncé começou o mote de mudar um bocadinho o que estava a acontecer na música pop mundial e trouxe o country um bocadinho para a berra e para a moda. E depois tens a Ella Langley, que também agora está nos tops mundiais com música country. Eu acho que isso influencia também o que se ouve em Portugal. Eu acho que nós estamos um bocadinho à mercê do que se ouve também lá fora e no mundo inteiro.
Sem dúvida.
E acho que a música country acabou por entrar um bocadinho mais agora. E foi muito engraçado, porque quando nós começamos o projeto Dois Par de Botas, sentíamos esse receio, porque realmente achávamos que ninguém iria ou queria ouvir música country em Portugal. Estávamos enganadas e de repente a música country ficou meio que na moda e foi bastante surpreendente isso acontecer. Mas acho que sim Acho que nós consumimos muito o que se faz lá fora e o que acontece lá fora e isso passa a ser um bocadinho o que nós vamos ouvindo. Acho que é por aí.
Joana Almeirante, juntamente com O Nena, andou pelos palcos portugueses com várias datas esgotadas, de resto, deste Dois Par de Botas, onde também fazem uma homenagem à própria Dolly Parton, motivo deste especial na Rádio Observador. Joana, obrigado por teres participado também.
Obrigada eu.
Vamos falando. Fechamos esta emissão especial até às notícias das 15h com "I Will Always Love You", escrita por Dolly Parton.