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Boa tarde. Estamos desta vez com João Ferreira, vereador do PCP na Câmara Municipal de Lisboa, também candidato da CDU nas próximas autárquicas. Obrigado pela disponibilidade para se juntar à nossa emissão. Não falta quem defenda, noutros partidos da esquerda, que uma coligação em Lisboa é a única forma de derrotar Carlos Moedas e que isso deve ser a prioridade de toda a esquerda. O PCP discorda disso?

Viva, boa tarde, antes de mais. O PCP o que entende é que a derrota de Carlos Moedas deve vir associada a um projeto e uma visão de cidade que contraponha aspectos essenciais do que foi a sua gestão, mas que, indo à causa dos problemas que hoje Lisboa enfrenta, tem de confrontar inevitavelmente também aspectos da governação do PS durante 14 anos em Lisboa. Não basta, não temos essa visão, derrotar Carlos Moedas para promover uma mera alternância de lugares. Queremos, de facto, uma política alternativa, uma gestão alternativa em Lisboa, uma gestão democrática, progressista, que só é possível, temos noção disso também, se conseguirmos alargar muito aquilo que é a base social e eleitoral de apoio da CDU, mas é algo em que estamos a trabalhar. Ao lançar esta candidatura quando a lançámos, imediatamente partimos para um trabalho de construção dessa alternativa, que é um trabalho que se funda naquilo que andámos a fazer ao longo destes anos. Aqui ninguém caiu do céu. Não estamos à espera de um candidato salvífico que apareça sabe Deus quando, para uma missão qualquer impossível que lhe atribuam. Não, aqui houve um trabalho concreto, de terreno, persistente, dos últimos três anos e de trás ainda, que é reconhecido, creio hoje, mesmo por quem se situa em quadrantes políticos diversos do nosso.

Ou seja, o PS a querer uma coligação à esquerda devia ter apresentado ideias e uma figura há mais tempo? Agora já vai em cima do joelho.

As profissões de fé numa governação à esquerda valem o que valem quando conhecemos a opção assumida pelo PS de viabilizar, sejam quais forem as condições, a gestão de Moedas. O PS escolheu viabilizar, diferentemente do que faz noutros conselhos, até na área metropolitana de Lisboa. Em Lisboa, Conselho de Lisboa, o PS escolheu viabilizar todos os instrumentos de gestão de Moedas, orçamentos, grandes opções do plano, orçamentos e planos de atividade das empresas municipais, sem qualquer condição. Portanto, se há coisa de que Moedas não tem de se queixar, é de não ter tido à sua disposição todos os instrumentos de gestão de que necessita. O PS garantiu-lhe isso, como digo, diferentemente do que faz noutros conselhos da área metropolitana. Ora, isto não pode deixar de corresponsabilizar o PS por opções estruturantes da política de Moedas. Ora, não é com uma profissão de fé em cima da hora numa governação à esquerda que o PS vai conseguir ganhar a credibilidade que este passado e este presente não lhe reconhece.

Já agora, deixe-me perguntar se então, por exemplo, acordos pós-eleitorais são possíveis, dada essa avaliação tão negativa que faz dos mandatos do PS?

Sabe, nós temos, relativamente ao poder local, uma visão que vai ao encontro daquela que é a sua especificidade. O poder local em Portugal tem características muito próprias, definidas na Constituição, que nós sempre soubemos interpretar. Ou seja, os executivos municipais são plurais, portanto um executivo é composto por vários partidos, e isso é uma riqueza. E é uma riqueza que tem permitido à CDU, nos sítios onde é poder, contar com outras forças que queiram desempenhar o trabalho, às quais muitas vezes a CDU atribui pelouros, e nos sítios onde não é poder, sempre que estão reunidas as condições para poder desenvolver um trabalho em prol das populações, também assume essas responsabilidades.

Não ficaria excluído, por exemplo, assumir algum pelouro, caso, de facto, a governação mudasse de cor?

Tudo depende das condições concretas que existam na altura. Isso dependerá de muita coisa, do resultado das eleições, em primeiro lugar, tanto não excluo assumir quanto não excluo distribuir também, em teoria.

Certo, mas como fala dos resultados das eleições, só para insistir mais uma vez nesta questão. Da última vez, Carlos Moedas ganhou por uma diferença muito curta.

Sim.

Cerca de 3000 votos, e o PCP teve um resultado bastante expressivo. Portanto, não fazia aqui uma diferença muito decisiva para conseguir a tal mudança na governação que o PCP depois poderia influenciar?

Repare, como eu disse-

E isso não pode prejudicar também o PCP?

Repare nisto. Carlos Moedas, como diz, ganhou com uma vantagem muito curta. Diria, foi uma vitória que ninguém antecipava, nem o próprio, estou convencido. Agora, passados estes anos, é bom que nos questionemos sobre em que condições Carlos Moedas obteve aquela vitória, por que ele obteve aquela vitória naquelas condições em que ninguém antecipava que ele tivesse a equipa, as condições necessárias para isso. Porque existia, indiscutivelmente, uma insatisfação mais ou menos larvar durante vários anos, mas que se expressou nas eleições com o que foram 14 anos de governação do Partido Socialista, em domínio-chave da vida na cidade, no urbanismo, no que daí resulta para as questões da habitação, nas questões da economia na cidade, nas questões sociais, nas questões ambientais, da qualidade de vida, a qualidade do espaço urbano, na mobilidade. São áreas-chave onde, verdade seja dita, nestes últimos anos não vimos nenhuma melhora, pelo contrário, as coisas só se agravaram. Mas se formos justos, temos de reconhecer que a origem destes problemas, a raiz destes problemas não está em 2021, não está nos últimos três anos, ela vai mais fundo. E se queremos uma governação diferente e alternativa, um projeto efetivamente diferente para Lisboa, temos de saber confrontar uma coisa e outra, ou seja, o que tivemos nestes últimos três anos, mas também o que tivemos até então e que criou as condições para que Carlos Moedas praticamente lhe visse cair ao colo a vitória que obteve.

Estamos no Congresso do PCP, que é a estreia de Paulo Raimundo como secretário-geral, embora seja líder já há dois anos. Acha que tem cumprido bem esta missão? Uma figura que era desconhecida do país, embora conhecida dentro do partido, claro. Mas tem conseguido passar a mensagem para o exterior.

Acho que tem cumprido indiscutivelmente bem e eu diria até, cada vez melhor. Acho que esta responsabilidade de secretário-geral tem que ser compreendida no quadro do que são as características próprias que tem este lugar num partido como o PCP. Não é um partido dos chefes, não estamos a falar de um partido em que fações se digladiam para eleger o respectivo representante, um determinado chefe que, uma vez eleito, põe e dispõe sobre o que é a orientação, as propostas, o caminho a seguir pelo partido. Aqui existe uma direção coletiva. O secretário-geral é o intérprete, o protagonista maior dessa liderança coletiva, dessa direção coletiva. Não podemos ignorar também as circunstâncias e as condições. Isso, aliás, tem sido tema de debate aqui no Congresso, as condições muito difíceis, muito adversas em que o PCP tem desenvolvido a sua luta. Isto não é nenhuma espécie de queixume, é uma análise objetiva da realidade, de que resulta a constatação óbvia que travamos batalhas difíceis em condições muito adversas.

Ou seja, Paulo Raimundo precisa de tempo, precisa tempo e tem merecido esse tempo.

Certamente que sim, como qualquer pessoa. Acho que, como lhe digo, apesar de tudo, não podemos perder de vista as condições concretas em que uma determinada responsabilidade é exercida. E essas condições para Paulo Raimundo foram, há que reconhecê-lo, particularmente adversas. Não obstante, eu creio que tem feito uma afirmação notável no cargo de secretário-geral e que, estou convencido, com o correr do tempo, mais isso se vai notar.

Ia perguntar-lhe aqui sobre presidenciais. Sei que já excluiu protagonizar outra essa candidatura, portanto, essa parte está arrumada. Tem uma opinião sobre se o PCP deve, de facto, ter um candidato próprio, se pode apoiar outros nomes e já agora, a sua opinião sobre, já têm surgido muitos nomes na área à esquerda, ou pelo menos na área socialista, António José Seguro, Mário Centeno, António Vitrina, Augusto de Silva. Algo lhe dizem estas medidas?

Acho que nós estamos a mais de um ano das eleições presidenciais. Vamos ter ainda eleições autárquicas antes disto. O que temos agora é uma espécie de desfile de proto candidatos de intenções. Há, nuns casos, muita vontade, muito desejo, mas verdadeiramente não creio que possa ser levado até agora muito a sério aquilo que temos visto. Há muitos comentadores, às vezes parece que cada órgão de comunicação social quer garantir a um dos seus comentadores um lugar nessa lista de proto candidatos. Isto, nesta altura, vale o que vale, não deve ser especialmente valorizado. Virá o seu tempo em que essa discussão tem de ser feita e é uma discussão que tem de ser feita a sério. O PCP, a perspetiva com que intervém nas eleições para Presidente da República, nestas, como em eleições anteriores, é de tudo fazer para contribuir para que no cargo de Presidente da República esteja alguém que leve a sério o juramento que faz quando toma posse: defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Para responder à sua pergunta, do lote de proto candidatos que têm sido lançados para cima da mesa, com franqueza, não é possível identificar, na diversidade desses proto candidatos, não é possível identificar aí quem esteja em condições de cumprir com este papel, pelo menos tal como o PCP o concebe. Vamos seguramente intervir nesta batalha. As condições em que o faremos a seu tempo, elas serão discutidas e havemos de tirar conclusões a respeito disto. O PCP nunca faltou a esta batalha. Não foi por falta de comparência do PCP que a Presidência da República esteve ao longo dos últimos vinte anos nas mãos da direita. Não será por falta de comparência do PCP que isso voltará a acontecer alguma vez.

Deixe-me só recuar à resposta anterior que estava a dar sobre as condições difíceis que o PCP tem enfrentado, e tem-se falado muito numa ofensiva que está a prejudicar o partido. Que responsabilidade é que o PCP assume nos resultados recentes?

Essa responsabilidade tem estado aqui presente na discussão que temos tido. Está presente no projeto de revolução política que está à discussão, nas inúmeras intervenções que de forma franca, e eu diria autocrítica, reconhecem que não fazemos tudo bem, mas que procuram identificar todos os aspetos em que possamos melhorar. A discussão deste Congresso, neste dia e meio que levamos já de Congresso, tem andado muito à volta disto. Sem pretender que tudo depende de nós e que todos os sucessos ou insucessos serão inteiramente atribuíveis única e exclusivamente ao PCP, à sua vontade e à justeza das suas orientações, mas também sem ignorar que isso conta e que nesse capítulo teremos certamente insuficiências, deficiências a corrigir.

Onde é que deteta? Ou seja, o que é que acha que, de facto, o PCP deveria corrigir?

Tudo aquilo que aqui tem estado a ser discutido. Nós precisamos de uma maior ligação quando sabemos que hoje muita da ligação Que o partido tem com as massas populares, com o povo português, é mediada por meios que nem sempre transmitem uma imagem fiel daquilo que é o PCP, nós temos que garantir essa ligação a partir daquilo que só depende de nós. Ou seja, uma ligação não mediada, mas uma ligação mais imediata, mais próxima. Seja nos locais de trabalho, seja nas diversas regiões do país, nós temos que conseguir, com a organização do PCP, um enraizamento mais fundo junto dos trabalhadores, junto das populações, junto do povo em geral. Não conseguimos isso com a organização que temos neste momento. Precisamos de reforçar essa organização e é por isso que estamos a discutir aqui medidas de recrutamento, de responsabilização de novos quadros. O PCP, apesar de tudo, conseguiu progressos importantes ao nível do recrutamento nestes últimos quatro anos. Entraram mesmo num período muito difícil, marcado pela pandemia e por outras dificuldades. Houve milhares de pessoas a aderir ao PCP. Nós precisamos de as responsabilizar, de envolvê-las na vida do partido, de lhes dar uma tarefa, de as transformar em quadros do partido. Esse é um desafio a que não respondemos ainda na sua plenitude e por isso fixamos aqui metas, por isso definimos objetivos desse ponto de vista e tudo vamos fazer para os alcançar. É um exemplo de uma área onde nós reconhecemos que é muito aquilo que temos para fazer.

Pegando nessa questão da mediação, ainda assim, o secretário-geral, por exemplo, já falou em erros de percepção que o partido podia ter evitado na questão da Ucrânia. Ou seja, houve também um erro na mensagem?

Eu acho que aí houve, sobretudo, durante muito tempo, uma enorme incompreensão. Nuns casos, deliberada. Noutros casos, que acabou por ser absorvida por amplos setores da população, mas uma enorme incompreensão sobre aquilo que verdadeiramente foram as posições do PCP. O PCP foi, do meu ponto de vista, associado de uma forma inaceitável a posições que verdadeiramente não eram as suas. O PCP, que desde a primeira hora condenou a guerra, alertou para a necessidade de se procurarem soluções pacíficas.

Concorda que houve alguma coisa que o PCP pudesse ter feito para ser mais bem percebido?

Repara, há coisas que só o correr do tempo nos traz. Hoje, quem quer que venha dizer que esta guerra não está a levar a lado nenhum, senão a morte, sofrimento e destruição, e que é necessário encontrar caminhos para a paz, que é necessário encontrar uma solução política que ponha fim à guerra, dos mais diversos quadrantes, até no plano internacional, é encarado com naturalidade. Quem o dissesse há dois anos era imediatamente, como foi o PCP, taxado de defensor da guerra, defensor do governo russo, quando nada disso é verdade, muito pelo contrário. Portanto, há momentos em que é difícil assumir certas posições, em que sabemos que assumir certas posições comporta um risco para quem as assume, de ser mal compreendido, de ser atacado. Há quem não esteja disposto a pagar esse risco, e nós vemos forças que também hoje procuram adotar um discurso de defesa da paz, mas que a verdade é que perante os apertos das condições concretas, procuram de forma mais ou menos oportunista ir adaptando o discurso àquilo que são a intensidade dos ventos que vão soprando. O PCP tem essa característica, ela foi aqui afirmada também, que é a coragem de dizer em cada momento aquilo que acha que é a posição concreta, mesmo que saiba que pode pagar um preço por isso. Pagámos esse preço, acho que nenhum de nós tem qualquer dúvida a esse respeito, mas é com a cabeça levantada que hoje dizemos exatamente a mesma coisa que dizíamos há dois anos. Há dois anos dizíamos de forma isolada, se calhar. Hoje são muitos mais aqueles que dizem exatamente o que nós dissemos, mas enfim, não é isso que nos faz abandonar esta firmeza de princípios e esta coragem, que também é necessária para no momento certo afirmar aquilo que tem que ser dito.

João Ferreira, muito obrigado pela disponibilidade.

Muito obrigado eu. Bom trabalho.

Por se juntar a nós e à edição do Observador no Congresso do PCP. Estaremos de volta também na próxima hora, ainda com mais entrevistas e análise a este segundo dia dos trabalhos.