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Este programa tem o apoio da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
E pela primeira vez li um romance de Eça em português, e esse romance foi "Os Maias". E eu fiquei seduzido para a vida. Quer dizer, sem o Eça, eu hoje não era professor de português, sem a mínima dúvida.
Bem-vindos ao "Capitães na América", um podcast que é uma iniciativa da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em parceria com a Rádio Observador e com o propósito de conhecer melhor os portugueses que vivem e fazem carreira nos Estados Unidos. Hoje conhecemos Frank Fontes de Sousa, professor catedrático de Português, coordenador do programa de Português da Universidade de Massachusetts Lowell, ali bem perto de Boston. É também diretor-fundador do Centro SAB de Estudos Portugueses e do Arquivo Digital Luso-Americano. Olá, senhor comendador, diretamente de Rhode Island. Bem-vindo ao "Capitães na América". É um grande prazer estar a falar consigo. Está tudo bem?
João Paulo, muito obrigado pelo convite. É um prazer estar consigo e com os radioouvintes para uma conversa aqui numa tarde maravilhosa aqui em Rhode Island.
Frank, diga uma coisa, Frank é mesmo o seu nome de batismo ou foi registado como Francisco?
Não, o que acontece é que eu fui batizado duas vezes.
Então.
Não, o primeiro batismo oficial pela igreja, Francisco Fontes de Sousa. E depois com nove anos, quando cheguei aos Estados Unidos e à sala de aula, a professora olhou para o meu nome, eu fui levado à sala de aula e ela olhou para o meu nome, olha para mim, olha para o meu nome outra vez e diz: "Frank". E nesse momento eu senti o espírito americano descendo sobre mim.
Exatamente.
E desde então, desde esse dia, no espaço público passei a Frank e no espaço familiar, Francisco. Entre os meus familiares, eu sou aliás os dois nomes, mas no espaço público, todo mundo me conhece por Frank.
Frank, claro. Nasceu então na Fajã dos Vimes. Estamos ali a falar da Ilha de São Jorge, nos Açores, nesta ilha do dragão adormecido, a Ilha das Fajãs. Esta ilha que tem mais de 40 fajãs, a terra do famoso queijo de São Jorge, não é?
Não, aliás, tecnicamente, aparentemente, tem 75 ou 76.
Não sabia. Boas.
A maior parte delas não habitadas. Mas eu sou das Fajãs e sou da maior das Fajãs. Quando eu era criança, havia tipo 450 habitantes. Hoje, 50.
Incrível.
O número que vai reduzindo anualmente, porque não há nascimentos e os velhinhos vão passando para o outro lado.
Claro.
É esse o mundo onde eu nasci e cresci e tenho memórias maravilhosas dessa terra. Maravilhosas.
Também cumpre dizer que São Jorge é um dos poucos locais na Europa onde se cultiva café. Estou a pensar aqui no Café Nunes, eu conheci, que é muito curioso.
Até há pouco tempo, o único lugar, aliás, que produzia café. Agora, eu acho que também talvez nas outras ilhas. Mas quando eu era criança, havia café, era uma coisa perfeitamente normal, maracujá. E depois a Fajã dos Vimes, é uma coisa curiosa, é uma espécie de microclima mesmo dentro da Ilha de São Jorge, que é muito curioso. Há ananás, todo tipo de cultivo, mas o café é aquilo que mais define, podemos dizer, a Fajã dos Vimes, como produtor de café.
O Frank, se não me engano, é o nono de 10 irmãos, certo?
Eu sou o nono, se não contar o terceiro que nasceu, faleceu com duas semanas, e o que nasceu logo a seguir, teve o mesmo nome de José. Então, nós em geral dizemos que somos 10 irmãos.
Até há muito pouco tempo estavam vivos os 10. Só a sua irmã que hoje é
Até a minha querida irmã, saudosa irmã, que foi uma segunda mãe pra mim, faleceu há dois anos. Mas eu gostou de dizer que em termos das Fajãs mesmo, não somos exatamente a maior família e só não somos maiores do que 10, porque o meu pai faleceu quando eu tinha 11 meses e a minha mãe estava grávida com o décimo ou 11º, minha irmã Isabel. Então, quer dizer, era uma fajã piscatória, como são todas as fajãs, quase todas as fajãs em São Jorge. E de facto, ter 10 filhos não era nada de espetacular. A minha avó, por exemplo, teve 16.
Isso é incrível! A avó Isabel. É incrível porque o Frank mandou-me duas fotos extraordinárias, uma de novembro de 59, eu já cá estava há um mês, sentado à frente da casa. Meses depois da sua mãe ter ficado viúva, ela ficou viúva ainda grávida da Isabel, que falou agora, e que nesse dia está com ela ao colo e está o Frank sentado na pedra à frente da casa. De facto, teve esta mãe, Deolinda, que presta-se esta homenagem à sua mãe, foi de facto mãe e pai, foi uma heroína como vos criou a todos. O Frank contou-me que a família começou a emigrar para os Estados Unidos desde 1850, o seu bisavô.
1850. Exatamente. Numa baleeira, ele fez aquilo a que se chamava nos Açores, no século XIX, e quando eu digo nos Açores, principalmente nas ilhas centrais e o Oeste, que estavam conotadas com a caça à baleia, a baleação pico, Faial, São Jorge e Graciosa, e também Flores As flores e o corvo. E aí o meu bisavô, Jorge Machado Fontes da Silveira, em 1850, com 15 anos, deu o salto, como se dizia no século 19. A história como foi contada por uma tia minha, que hoje, se fosse viva, tinha 106 anos, ou algo assim. Ela disse que o avô dela tinha contado, o bisavô, que foi ter com a mãe e disse: "Mãe, faça aí um farnel pra eu levar comigo para a baleeira". E a minha trisavó disse: "Não, não vais. Pensar, tens 15 anos". E ele pôs-se a correr para a baleeira e emigrou com 15 anos, foi ter a São Francisco.
Incrível.
Era uma baleeira que vinha de New Bedford, passou por São Jorge, para conseguir tripulação e ditoalhas, etc. Foi até Tierra del Fuego, Chile, e São Francisco. E ele em São Francisco abandonou a baleeira, o navio, e foi fazer a pesquisa ao ouro.
Foi prospector, depois foi. Na Califórnia.
Exato, prospector nas voltas das Sierras Nevadas. E aí esteve vários anos e depois passou de novo à avaliação costeira na Califórnia, em Monterey.
Até voltar para São Jorge.
Em 1871. E aí teve 10 filhos, cinco dos quais emigrou, inclusive o meu avô, em 1898, com 17 anos. E voltou definitivamente para os Açores, depois de ter ido aos Açores três vezes de regresso desde a Califórnia até Ilha Terceira, porque ele também foi guardador de rebanhos. Havia histórias dele a falar dos vascos, e eu não sabia o que era. Então ele regressou em 1912, devido a uma pneumonia que tinha apanhado, infelizmente. Foi apanhado por um nevão incrível nos planaltos da Nevada.
Mas ele regressou com os documentos de cidadania americana que permitiram a 11 dos seus 13 filhos já adultos, incluindo a sua mãe, viajar para a terra dos sonhos e dos sonhos do pai. É incrível. Era visionário.
Ele guardava esses documentos num baú que tinha levado da América. Então ele dizia aos filhos: "Não percam isto, não percam estes documentos, porque um dia destes". A minha mãe acabou por emigrar em 65 como americana. Ela já veio como americana para os Estados Unidos. Como eu contei no elogio fúnebre da minha mãe, o que acontece é que a minha mãe jurou que nenhum filho seu iria para a guerra se ela o pudesse evitar. E ela não era nada antistalinista, acho eu.
Exatamente.
Mas ela não ia sacrificar os filhos no ultramar. Porque devido a um diploma desse tempo que vinha do São Azar. Varão, tendo completado 17 anos, isto em 1964, esse tal diploma, varão, tendo completado 17 anos, não podia emigrar a menos que tivesse pai ou mãe fora.
No estrangeiro, exato.
Então, a minha mãe emigrou sozinha.
Em 65.
Em 65, ela saiu de manhã cedo, eu estava a dormir e depois conto a história, porque como é que eu não me lembrava da minha mãe ter saído? Porque eu estava a dormir e ela não me quis acordar. E então, o que acontece? Ela emigra e já tinha um irmão que tinha saído no fim de 63, ao longo de cinco anos, voltamos a estar todos juntos na Califórnia a partir de 68.
Exatamente.
E apesar disso, apesar dessa divisão, de não ter havido pai, a minha mãe, que era um braço de ferro impressionante, conseguiu manter esta filharada toda junta, os meus irmãos e filhos, e hoje são exemplíssimos.
Exatamente.
E estamos bem. O prazer que a minha mãe tinha em ter dado aos filhos oportunidades que eles não teriam tido.
Ó Frank, já avançou muito. Ainda estava a pensar no seu bisavô, no seu avô José, que emigrou aos 17 anos, que levou os documentos todos e voltou depois com os documentos para todos poderem emigrar, se fosse preciso. A sua avó Isabel também teve 16 filhos, conhecida por ser linda de morrer e ter uma profunda fé. O seu tio-avô também, o João, também emigrou e depois voltou. Todos eles emigravam e daí uns anos voltavam. E depois o seu pai, António Jorge, extraordinário agricultor, pescador, era ator cômico e um dos fundadores do grupo das Comédias da Fajã dos Vinhos. É muito curioso. É uma família extraordinária, dava um filme, a sua família dava um filme, Frank.
Já agora que diz disso.
Diga.
José Saramago, que vim a conhecer muito bem, esteve quatro vezes convidado por mim na minha universidade, e o seu primeiro doutoramento Honoris Causa nas Américas foi pela minha universidade.
Boa.
Ou pelo menos na América do Norte, para sermos concreto e preciso.
Sim.
Quando ele ouviu esta história da minha mãe e da minha família, ele fez-me jurar que eu escreveria um romance de três gerações. Eu disse: "Ó José, agradeço imenso a sugestão, mas infelizmente, eu acho que não tenho o dom para escrever ficção". Então, quando Saramago insistiu, eu disse: "Bem, o que acontece é que eu, infelizmente, não sou romancista, mas, no entanto, vou sim escrever a história da minha família de uma forma ou de outra, não só a história da família, como a história também da Fajã dos Vinhos E as Fajãs ao lado, que duas delas têm ligação à minha família. Isso sim eu prometo fazer e o primeiro passo dado foi o elogio fúnebre da minha mãe.
Sim.
Da minha mãe e isso foi há 15 anos e entretanto eu tenho um arquivo enorme de material a ver com a minha família, fotografias, todo tipo de documento que eu encontrei entretanto, a ver com a minha família. Documentos que encontrei na Igreja da Fajã dos Vinhos, no sótão da igreja, lá um sítio onde eu encontrei coisas que estavam num baú como se lixo fossem, esses documentos. E depois encontrei nos Estados Unidos uma série de documentos a ver com esse meu bisavô e meu avô que esteve cá. O bisavô que esteve cá de 1850 a 71, e depois o meu avô, que esteve cá de 1898 a 1912.
Já agora, por que o seu bisavô e seu avô depois voltaram? Uns anos depois voltaram. E o seu tio-avô também, o tio-avô João. Todos eles voltam 20, 30 anos depois. Mas não é uma coisa que o Frank pense, pois não? Já que estão praticamente aí neste tempo.
A imigração era muito diferente então, e a imigração era muito dura. Ser imigrante naquele tempo era uma vida extremamente dura, isolada, sem as comunicações que existem hoje, os meios de comunicação. No caso, por exemplo, o meu bisavô e o seu irmão, os dois regressaram, estiveram cá. O meu avô e quatro irmãos e irmãs estiveram cá, o total de cinco dos 10 filhos desse tal bisavô baleeiro, estiveram nos Estados Unidos e dois voltaram e três ficaram. Mas a partir dos anos 60, a imigração era muito diferente. As pessoas vinham e ficavam. Não pensavam em regressar. Há sim um novo fenômeno que é essa geração já com uma certa idade, já reformada nos Estados Unidos, sim, passa parte do ano nos Açores e parte do ano aqui. Mas isso é um fenômeno recente e diferente do padrão que tinha sido estabelecido no século XIX e princípios do século XX.
Sim, entretanto, o que estava a me contar que quando foi a guerra colonial, o Salazar aprovou uma lei em 64, que então só permitia aos jovens imigrar se tivessem o pai ou a mãe no estrangeiro. E foi então que a sua mãe jurou que nenhum dos seus filhos ia pra guerra se ela pudesse evitar. Então ela imigrou sozinha, já patrocinada pelos irmãos dela, os seus tios.
Exato.
Já estavam no Vale Central da Califórnia.
Exatamente.
Para preparar tudo para depois virem todos e demoraram três anos a juntarem-se todos outra vez. Deixar os filhos e partir, como estava a contar, foi de fato o dia mais triste da vida dela, o primeiro, digamos assim.
Não, de fato, ela dizia: "Como é que eu estou a abandonar os meus filhos? Como é que é possível uma mãe fazer uma coisa destas?", não é? Por outra hora ela dizia: "Mas eu não consinto que um filho meu, se eu o puder evitar, evite que ele vá pra guerra e possivelmente para o serviço militar e possivelmente para o ultramar".
Foi preparar tudo uns anos para se juntarem todos. E depois, nunca mais esqueci, Frank, que fala do segundo dia mais triste da sua mãe, quando depois vieram os mais novos e já não a reconheceram.
Não, eu chego ao aeroporto em 67 e estava com um irmão meu e saio do avião, naquele tempo não ia-se de masmo até o avião. E saio, estou com o irmão meu. Eu via acompanhar um irmão meu que tinha 17 anos, o João, e olham para ele e perguntam: "Quem é aquela senhora que está ali?" E aquela senhora que estava ali era a minha mãe, e ela ouviu a pergunta. E ela nunca tinha dito nada, nunca tinha dito nada a nenhum de nós. No dia dos seus 70 anos, ela disse: "Vou contar esse dia tão triste". Ela disse: "Eu fui pra casa e eu chorei toda a noite e pensava: 'Como é que é possível que um filho meu não saiba quem é sua mãe?'". Quer dizer, é uma coisa horrível. Antes de ela imigrar, tinha 41 anos, parecia uma mulher de 70 anos, cabelo grisalho, chupada da cara, muito magrinha, toda vestida de negro, o luto permanente da viúva. Era típico nesse tempo. E de repente começou a usar cores mais garridas, etc. E a pôr cor na cara e não sei quais, engordou uns 10 quilos e eu não a reconheci. Quer dizer, eu tinha acabado de fazer 17 anos quando ela saiu, eu tinha nove anos quando a vi outra vez. Quer dizer, são esses dramas vividos pelos imigrantes e esses imigrantes, no nosso caso, que imigraram dois de cada vez. Por quê? Porque naquele tempo era muito caro. Quer dizer, uma passagem de avião era $300. Quando um homem da Fajã dos Vinhos a trabalhar de sol a sol ganhava 20 escudos.
Sim, incrível.
Quer dizer, por dia. Então, não houve outra maneira de fazer as coisas. Os mais velhos chegaram, trabalhavam e pagavam as passagens dos que vinham a seguir e assim por diante. Eu, que vim com nove anos, nunca tive que pagar a passagem a ninguém.
Claro. Há esta frase extraordinária de um romancista americano que diz: "Uma mulher que constrói e mantém um lar e cujos filhos crescem para se tornarem homens e mulheres fortes e bons, é uma criadora apenas inferior a Deus". E de fato, ela era muito religiosa, ela era conhecida por ser também uma artista plástica, a sua mãe, que tinha um estilo muito invulgar de pintura e com colagens e fazia presépios que toda gente ia ver. É extraordinário. Agora, teve esta coisa, eu ia perguntar, porque vais falar um pouquinho da sua carreira também como professor de português e tudo que tem feito com a língua portuguesa aí nos Estados Unidos. Ia perguntar de onde vem o apelo da língua, obviamente, mas a mãe Deolinda explica tudo, não é? Ela ensinou a ler alguns dos seus irmãos antes de irem pra escola. Lia o alfabeto e via partir.
Exactamente. Eu aprendi a ler quando cheguei à escola, à primeira classe, como se dizia então, eu já lia bem. Eu não tinha problemas nenhuns em ler e a minha mãe tinha um grande orgulho nisso, que os seus filhos, aliás, na escola, todos nós fomos bons alunos. E alguns de nós tivemos a oportunidade de estudar nos Estados Unidos. Os mais velhos não, porque os mais velhos tiveram que trabalhar para que nós tivéssemos casa e tivéssemos que comer. Esses que eram inteligentíssimos não tiveram a oportunidade que eu, por exemplo, tive, porque emigrei com nove anos e muito rapidamente aprendi a língua e tudo isso. Mas era essa a obsessão que a minha mãe tinha com a educação, com a preparação académica, sempre com grande orgulho nos seus filhos.
Isso marcou.
Seis ou sete de nós estudamos a nível universitário.
Frank de Sousa, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com o Frank de Sousa. Ele é professor catedrático de Português e coordenador do programa de Português da Universidade de Massachusetts Lowell, bem perto de Boston. É também o director fundador do Centro Sabe dos Estudos Portugueses e do Arquivo Digital Luso-Americano. Então eu estou a falar com um comendador directamente em Rhode Island, neste momento. Frank, eu já lhe disse que é um grande prazer estar a falar consigo. Estamos a falar da sua carreira e como começou com este gosto pelo português. É extraordinário. Aos nove anos emigrou para os Estados Unidos. Teve esta viagem. Qual foi o primeiro choque de realidade, a maior surpresa que teve quando aterrou nos Estados Unidos? O que é que se lembra com nove anos?
A coisa mais extraordinária quando eu cheguei a São Francisco, Califórnia, à noite, eram as luzes que se viam no aeroporto e fora do aeroporto. Tudo iluminado, porque eu era de um sítio, de Fajãos, Vimos, onde não havia electricidade. Foi uma coisa deslumbrante de ver. E tanta gente, e de um lugar tão pequeno. Eu emigrei da Idade Média, eu não só emigrei no espaço, emigrei no tempo.
Sim.
Eu emigrei no mundo, podemos dizer, até quase pré-Idade Média. O arado sabino. Era com o arado sabino que se cultivava a terra, que se abria a terra para cultivar. Eu fui de um mundo. Eu acho que eu não estaria fora do lugar na Idade Média, numa aldeia em Portugal, provavelmente, quando eu tinha nove anos. E dar esse salto para o fim do século XX, 67, para o país mais moderno naquele momento, os Estados Unidos, e ainda por cima o plus ultra da América, que era a Califórnia.
Exatamente.
Foi uma coisa para mim espantosa. Eu ainda me lembro do primeiro dia que chego aí. Chego a casa onde vivia a minha mãe com os meus irmãos, eu estava tão feliz de estar com eles, e eles acendem a televisão. Eu nunca tinha visto uma televisão.
Incrível.
Eles ligam a televisão e eu vejo pessoas a correr e a andar e vou atrás da televisão e ponho-me a olhar para dentro para ver as pessoas. E os meus irmãos mais velhos que estavam na América havia um, dois, três anos, a rir às gargalhadas. Como podem imaginar, podia ser qualquer coisa.
Isso é que é um choque cultural, é um verdadeiro choque cultural, completamente.
É um choque cultural, mas devo dizer que eu emigrei para a América, mas é como se eu já tivesse saudades da América.
Sim, que giro.
Porque eu fui criado com histórias sem fim sobre a América, histórias que vinham desde o meu bisavô, do meu avô, que aliás já tinha morrido quando eu nasci, havia 11 anos que ele tinha morrido, tinha falecido. À minha volta respirava-se a América. Eu era uma pessoa, podemos dizer, dividida. Eu era português, e aliás, para mostrar quão português eu era, em 1980, eu fui ao continente pela primeira vez para estudar na Universidade de Coimbra, e quando eu cheguei à Guarda, eu vinha da Inglaterra, de avião, depois de carro de Santander até Portugal. E quando eu cheguei à Guarda, eu chorei. Foi uma coisa tão emocionante eu chegar a Portugal, que eu literalmente chorei. Para ver que o meu imaginário era americano, mas também era português. Como era, podemos dizer, as camadas mais pobres, mais humildes nos Açores, era um imaginário completamente dividido. Porque as oportunidades daquele tempo eram vistas como não estando necessariamente em Portugal, mas sim na América. A América era uma palavra mágica.
Ainda hoje acho que é um bocadinho. Ainda hoje tem essa noção de ser uma terra de sonho para portugueses e uma terra de oportunidades?
Sim e não. A diferença é abismal. Desde que eu era criança e até hoje nos Açores, eu lembro-me de ser convidado para uma das duas escolas secundárias da Ilha de São Jorge, para falar um pouco sobre imigração, literatura a ver com imigração, etc. E eu perguntei a uma turma de 17 alunos: "Quantos de vocês têm a ambição de ir para a América?" Um, de 17, era essa a sua ambição. Porque isto em 1923, o imaginário já era a União Europeia. Era poderem estudar na Universidade de Coimbra, na Universidade de Lisboa, na Universidade dos Açores. Nada disso fazia parte do possível para mim. Se eu tivesse continuado nos Açores, em vez de ter emigrado com nove anos, a minha única opção para ter estudado, eu que adorava a escola, era ter ido para o seminário. E provavelmente o que eu teria feito. Como fizeram dois irmãos meus nessa altura, no princípio dos anos 70. O dom é extremo, continua a haver emigração para este país. Agora, abrandou imenso depois de 1982. Caiu imenso.
Entretanto, o Licício estudou psicologia, depois tirou uns cursos avançados de português e de espanhol, depois fez o mestrado já na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, em português, fez um estágio de interpretação em Bruxelas, depois voltou a doutorar-se, foi então doutorar-se em língua de literaturas hispânicas. É professor catedrático de português e coordenador, como eu disse, e fundador do programa de português da sua universidade. Fundou esta Tagus Press. A Tagus Press foi muito importante porque com estas séries, "Os Portugueses nas Américas" e esta série da Mastor, publicaram mais de 26 volumes, incluindo as primeiras edições em inglês do "Sermão de Santo António aos Peixes", do padre António Vieira, a correspondência de Frei Luís de Mendes, do Eça de Queiroz, "A Donzela e Modesta", um romance pastoral renascentista do Bernardim Ribeiro. Está à frente de imensos cursos e cátedras. Entre os seus livros, há um que é famosíssimo: "O Segredo de Eça: Ideologia e Ambiguidade em 'A Cidade e as Serras'". Esse livro foi muito importante porque contribuiu para uma viragem nos estudos queirosianos. Sempre gostou muito de Eça e é por isso que pertence também ao Conselho Científico da Fundação Eça de Queiroz. Era um dos seus romancistas favoritos.
Eu deveria dizer o seguinte, que é: além da influência familiar, da minha mãe, da família e da igreja, onde estive até começar os meus estudos universitários, Nossa Senhora da Assunção, a igreja Nossa Senhora da Assunção, em Turlock, Califórnia, onde havia um padre que tinha publicado vários livros. A linguagem dos sermões dele era uma coisa espetacular. Eu tinha 14, 15 anos, ficava maravilhado com a linguagem dele, da maneira que ele criava uma frase. E então, o que acontece? Tudo isso foi tremendamente influente. E depois eu tive a grande sorte na vida, o grande dom na minha vida, que foi estudar Eça pela primeira vez aos 22 anos, num curso de verão. Carlos Reis, professor Carlos Reis, todo mundo sabe quem é, da Universidade de Coimbra, que já se jubilou, mas continua a produzir uma coisa impressionante, um grande professor. E pela primeira vez li um romance de Eça em português, e esse romance foi "Os Maias". E eu fiquei seduzido para a vida. Sem o Eça, eu hoje não era professor de português, sem a mínima dúvida, sem essa experiência de ter lido Eça. Eu ainda me lembro, eu na altura ainda não estudava português na Universidade da Califórnia, depois quando chegou o momento, dali a sete anos, de pensar em escrever uma tese de doutoramento, a minha professora Maria de Lourdes Belchior Pontes, que era uma grande figura e estudava muito o Renascimento, a professora da Universidade de Lisboa, que era visitante em Santa Bárbara, na Universidade da Califórnia. E ela queria que eu fizesse a minha tese de doutoramento sobre Teixeira de Queirós, que é um escritor humano do primeiro século XIX, naturalista, porque ela dizia: "Nunca ninguém escreveu uma tese sobre ele". Ouviu quase nada sobre ele. E eu virei para ela e disse: "Professora, agradeço imenso a sua sugestão, mas eu vou escrever sobre Eça de Queirós, 'A Cidade e as Serras'". Ela disse: "Mas já há tanta coisa escrita". Eu disse: "Sim, mas acho eu que é possível escrever algo novo. Eu acho que tem sido um romance muito mal interpretado por razões políticas, que é visto como uma coisa retrógrada, conservadora, não sei o quê, como se a literatura fosse uma coisa reduzida à política". Eu disse: "Não, professora, eu acho que há algo novo". E disse outra coisa: "Mas para além disso, é que eu, passando uma boa parte da minha vida futura profissional com o Eça, ele vai se tornar o meu professor de português, o meu professor de cultura, porque ler um romance de Eça, ler 'A Cidade e as Serras', é preciso adquirir uma cultura vastíssima, porque 'A Cidade e as Serras' é um resumo, literalmente um resumo da cultura ocidental desde Homero".
Exatamente.
Eu, ao ler "A Cidade e as Serras", se ainda não tinha lido, fui ler, tive que ler tanta, tive que ler uma série de filósofos do século XIX.
Inclusive fala que, por exemplo, o próprio Cervantes, o Dom Quixote está presente n "'A Cidade e as Serras".
O Dom Quixote, exatamente.
Clássico.
O que eu disse a essa professora de quem eu gostava imenso. Ela estava a sugerir o que ela sugeriu, o Teixeira de Queirós, não por mal, evidentemente, mas para eu fazer uma coisa nova e eu disse não. E expliquei, quando eu expliquei a ela, a resposta dela foi logo: "Fantástico, muito bem, apoio completamente. Avance". E aí depois acabei por estudar um pouco mais outra vez com o Carlos Reis, porque pedi uma bolsa Fulbright, que é uma bolsa importante aqui deste país, e consegui trazer a investigação da Biblioteca Nacional. E depois tive o Carlos Reis, que me apoiou imenso. E não só então, como tem apoiado desde então. Não há nada como ter um grande mestre na vida, devo dizer.
Exatamente, é muito importante.
Eça é o meu grande mestre O Novo Testamento é outro grande mestre para mim, outras coisas assim. Mas ter um professor que é capaz de nos incentivar e de incutir o amor à leitura é uma coisa magnífica na vida.
Exatamente, é um tesouro. É engraçado, porque o Frank sempre se deu muito bem com a comunidade portuguesa de onde mora. Organizou várias exposições sobre Portugal, concretamente sobre os Açores, o património arquitetónico, da fotografia, a diáspora, concertos, música portuguesa no Auditório Lowell, foi diretor do workshops de teatro, fez uma série de coisas. E tem também este importante projeto de cidadania luso-americana, que foi um projeto de grande impacto, também subsidiado pela FLAC.
Os arquivos luso-americanos.
É verdade.
Já conseguimos elaborar dois arquivos diferentes, um em Dartmouth, onde eu estive 24 anos, e outro em Lowell. E agora temos um outro projeto que é ligar os arquivos luso-americanos por esse país fora, a colaborar uns com os outros. E isso é o novo projeto, apresentarei em breve uma proposta para isso, porque o que acontece é o seguinte: aquilo que resta, aquilo que nos permite contar a história, são os documentos. Se não temos documentos, não conseguimos contar uma história de uma forma profunda, de uma forma que consiga captar não só o que as pessoas fazem, mas o que as pessoas pensaram. É tão importante essa captação, uma maneira de ser e estar na vida. Por exemplo, para quem estude o século XIX português, o mesmo historiador tem que ler Eça de Queirós. Porque Eça de Queirós conseguiu captar uma maneira de ser e estar no mundo. E que está ligado à história. Então, os arquivos são fundamentais. E é preciso não esquecer, por exemplo, o Eça fala muito quando estava a escrever "A Relíquia", de quanto tempo ele passou em arquivos na Inglaterra a fazer investigação sobre a Palestina. Sobre a Terra Santa, sobre o Cairo, etc. E foi isso que lhe permitiu depois escrever um dos maiores romances, e da certeza, o mais cómico da língua portuguesa, que é "A Relíquia". Quem ainda não tenha lido "A Relíquia", tem que prometer ler "A Relíquia", porque é uma das coisas mais deliciosas da língua portuguesa.
Muito bem. Diga-me uma coisa, Frank, o que Portugal tem que os americanos podiam aprender conosco e que não lhes fazia mal nenhum?
Uma das coisas que mais impressiona nos portugueses, no século XX e XXI, aquele Portugal que eu tenho conhecido diretamente, por vivência. O Salazar, eu acho que foi ele que falou nos portugueses como tendo costumes brandos.
Sim. Dos brandos costumes. Exato.
Brandos costumes.
Exato.
O português tem uma capacidade de se dar com todo mundo. Eu acho que, em parte, se eu tenho conseguido fazer alguma coisa na vida, em termos de servir de ligação entre Portugal e Estados Unidos, Estados Unidos e Portugal, entre a comunidade portuguesa e a universidade. Eu penso que me concedo um pouco a alguém que talvez tenha esse dom, o meu pai era assim, porque lhe condizem do meu pai, de ligar as pessoas a trabalhar em conjunto.
Sim.
Ver se podemos trazer pessoas de diferentes áreas de saber e trabalhar sobre estudos portugueses e estudos luso-americanos de várias perspectivas. E eu acho que é isso, eu acho que o português tem essa capacidade de em qualquer sítio para onde vai, é capaz de construir vida e é capaz de ser bem-vindo. É muito curioso ver a atitude em relação aos portugueses deste país, desde o século XIX. Os portugueses eram os trabalhadores.
Sim.
Havia um pouco essa atitude um pouco sobranceira sobre o português. Mas ao mesmo tempo, desde o século XIX, que há artigos interessantíssimos escritos neste país sobre os portugueses, enfatizam sempre os portugueses como pessoas que se dão com todos, que estão abertos a aprender, que querem aprender e se querem inserir sem ao mesmo tempo perder o amor ao seu terra patrío, à sua terra de origem. Se há alguma coisa que defina o português, eu acho que é essa habilidade.
Estou agora a pensar, consegue vir todos os anos a São Jorge ou ao continente, ou não?
Nos últimos anos, todos os anos, graças a Deus. Para mim, estar em Lisboa é estar em casa. Sinto-me completamente em casa, sinto-me em casa na Fajã dos Vinhos, tal como me sinto em casa em Rhode Island e na Califórnia, onde estão os meus irmãos.
De que é que tem mais saudades, Frank, quando pensa que está aí há tantos anos, o que é que tem mais saudades cá em Portugal? Das refeições, das pessoas, do clima, do quê?
Tudo isso. É difícil dizer uma coisa. São esses brandos costumes. É tão agradável estar com os meus amigos portugueses em Lisboa ou em Coimbra, ou lá que seja. É um prazer quase indescritível para mim. Esse sentir-me em casa e bem-vindo. Ir a restaurantes portugueses é sempre um grande prazer. Visitar os museus é sempre um grande prazer, ir à Biblioteca Nacional, etc. São tudo coisas que pra mim são tão agradáveis e tão doces.
Diga uma coisa, nós estamos mesmo a terminar. Como professor de português e professor destes programas e destes arquivos portugueses, há uma grande apetência pelos americanos, e não só, porque, no fundo, está num mundo cheio de gente de todos os países do mundo, na academia, em aprenderem o português e saberem mais sobre. É engraçado, porque isto já vem desde a sua mãe. A sua mãe, a mãe de Olinda, aqui volta a ser falada, adorava cultura popular, adorava tradição oral, o romance de língua e literatura portuguesa, conhecia dezenas de poemas e romances populares, sabia quadras, sua mãe tinha o dom de ouvir, contou-me isso, uma única vez num baile de roda e depois recitava os poemas que ouvia de cor. E, portanto, há entre os americanos e aqueles com quem contacta na sua academia, muita apetência pelo português?
Sim, claro que não é a língua principal. Vivemos num país onde a segunda língua é o espanhol. Mas apesar das coisas mudarem ao longo das décadas, etc, temos visto nos últimos anos o português a aumentar lentamente. Mas vai aumentando. E devo dizer, nós vivemos num momento extraordinário. Quando eu comecei a estudar português em 1980, na Universidade de Coimbra, ou quando comecei a lecionar como professor tempo inteiro em 1990, ninguém conhecia Portugal. Portugal era uma coisa, podemos dizer, exótica. Hoje em dia, o número de americanos que se tem mudado para Portugal é espantoso. Os americanos vão, 1,5 milhões de americanos por ano a Portugal.
Incrível. Número incrível. Sim, é muito.
As pessoas adoram Portugal. E eu acho que adoram Portugal porque se sentem tão bem-vindos, os tais grandes costumes. E apesar da inquisição da política e problemas e tudo isso, eu não estou nem de um lado nem do outro. Mas apesar disso, a verdade é que quando amigos meus vão a Portugal, nunca um amigo meu foi a Portugal, voltasse e não dissesse: "Adorei Portugal".
Que bom, é tão bom ouvir isso.
Estamos num clima diferente em que as pessoas vão a Portugal e agora querem estudar português. Tiveram aquela experiência fantástica.
E temos um bom embaixador na sua pessoa pra ensinar isso. Frank Sousa, eu quero muito agradecer a sua disponibilidade e também por toda a vida que partilhou comigo e agora com toda a gente, a começar pela história maravilhosa da sua mãe coragem, que bonita homenagem que lhe fez, dos seus 10 irmãos, dos sucessos e conquistas da sua carreira, ainda por cima focada na nossa língua e na nossa cultura. "Minha língua, minha pátria", como dizia o Fernando Pessoa. Em nome da FLAD, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Rádio Observador, bem-haja e até breve, Frank. Muito obrigado.
Muito obrigado, João Paulo. Foi um prazer.