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Junta-se agora a nós, em direto, Diana Soller, investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. Boa tarde e bom ano, Diana Soller.

Boa tarde, bom ano.

Que destaques deste primeiro longo discurso de Lula da Silva?

Eu diria que este discurso teve essencialmente três partes. Uma delas esteve relacionada com uma crítica fortíssima ao regime de Bolsonaro, como disse o comentador anterior.

Jorge Fernandes.

Jorge Fernandes, exatamente. Pintando um Brasil à beira do abismo que se estava a refazer. Aliás, ele usa uma expressão-

É um Estado do ato dado.

É. E usa uma expressão que é muito engraçada, que é a ideia de redemocratização do Brasil. Eu também estou de acordo, quer dizer, não há dúvidas nenhumas que Bolsonaro foi um péssimo presidente para o Brasil, que tinha tendências autoritárias, mas não parece que a democracia brasileira estivesse a correr um risco assim tão grande. Mas Lula quis se mostrar como uma espécie de um salvador da democracia brasileira, da República Brasileira, que foi outra palavra que ele usou muitas vezes para descrever o Brasil, que na sua descrição estava a dirigir-se ao abismo a uma velocidade estonteante. Acho verdadeiramente exagerado e acho que além de ser exagerado, é muito difícil fazer um discurso de tomada de posse que exclui completamente todos os brasileiros que votaram no Bolsonaro.

E são muitos.

Quer dizer que basicamente é metade do Brasil. E, portanto, eu tenho a certeza que os petistas ficaram muito contentes com este tipo de discurso anti anterior regime, mas os votantes de Bolsonaro com certeza não ficaram. E se há uma coisa que um presidente do Brasil tem que fazer nesta altura-

Tentar uma conciliação.

Exatamente. Com esta ideia de que se devem reforçar as instituições democráticas o mais possível, até porque elas correram um certo risco, mas acima de tudo, isso só é possível se houver uma união, ainda que relativa, entre os brasileiros.

Um estender de mão.

Exatamente. E este discurso foi exatamente no sentido oposto desse estender de mão. Portanto, nesse aspecto, acho que Lula não começou nada bem. A segunda parte do discurso está relacionada com anúncios de governo que estão relacionados com os problemas clássicos, com os problemas quase intemporais do Brasil. Dois mandatos anteriores de Lula, portanto, 2002 a 2010. O problema é que agora o Brasil está numa situação econômica muito mais dura do que estava na altura em que Lula foi presidente, que beneficiou de uma forma muito significativa da ajuda dos mercados. Eu recordo que nessa altura, dos anos de 2002 a 2010, o Brasil era um dos BRICs, que na altura queria dizer basicamente que eram economias que tinham crescido de tal forma que aqueles países que eram os BRICs, que era uma nomenclatura econômica apenas nessa altura.

Brasil, Rússia, Índia, China e depois mais tarde a África do Sul.

Exatamente. Que seriam candidatos a ser novas grandes potências no futuro. Quer dizer, e não só isso não se concretizou, como não se vê essa concretização a curto prazo.

Mas Lula referiu precisamente esse acrônimo BRIC.

Sim, mas para os nossos ouvintes perceberem a diferença, refere-o numa forma muito diferente. Porque, na verdade, a sigla BRIC, na altura era BRIC, foi uma sigla inventada pelas grandes empresas financeiras da altura para descrever estes países, portanto, Brasil, Rússia, Índia e China, que estavam a ter crescimentos econômicos tão exponenciais e que devido à sua geografia, ao seu tamanho, à sua hegemonia regional em alguns casos, etc, que é o caso do Brasil, poder-se-iam tornar grandes potências econômicas e grandes potências políticas. Depois, por iniciativa da China, uns anos mais tarde, criou-se a associação BRIC, que agora é BRICS, porque inclui a África do Sul, que é uma associação muito importante, é a associação por excelência do Sul global, para pôr as coisas assim, que efetivamente para o Brasil é uma associação com imensa importância. Que o Brasil precisa imenso de estados compradores. Aliás, ele voltou a falar do Mercosul e da outra, agora estava a escapar o nome.

A ideia é também o Brasil sair deste-

Da América Latina. Diga.

A ideia é o Brasil voltasse para fora, ao contrário da política isolacionista seguida por Bolsonaro.

Exatamente. Portanto, é numa perspectiva de política internacional. A agenda de política internacional do Brasil ficou um bocadinho sem se perceber qual era, a não ser duas ideias centrais, que é esta da integração multilateral nas organizações institucionais internacionais, especialmente econômicas E a ideia de que o Brasil pode ser um país de paz, de construção de pontes, etc. Mas isso é um discurso que é muito típico de uma média potência, que não tem propriamente poder no sistema internacional, mas que pode ter alguma voz através de alguns mecanismos internacionais ou até da mediação internacional, etc. Portanto, é uma afirmação que fica sempre bem nestes momentos. Mas há uma coisa que eu gostaria ainda de referir, se ainda tiver tempo.

Claro.

Que me pareceu a parte mais inovadora do discurso, que tem a ver com aquilo que Lula também diz em determinada altura, que criou uma frente mais ampla do que aquela em que se formou, portanto, na vida do sindicalismo, perto do Partido Comunista. Uma frente maior e mais alargada de esquerda, nomeadamente de uma esquerda muito mais democrática, muito mais amiga do mercado livre, dos negócios, etc. De que ele também falou em abono da verdade, mas também surge com uma nova agenda, que não era a agenda do PT, nem de Lula, nem de Dilma, que é uma agenda, no fundo, da esquerda pós-moderna. Que é uma agenda que cria o Ministério dos Povos Indígenas, cria o Ministério da Promoção da Igualdade, cria o Ministério das Mulheres, etc. No fundo, vai pegar naqueles temas que estão na moda no Ocidente e que são muito caros à esquerda ocidental, que começaram em uma esquerda mais extremista, mas que cada vez se alargam mais no espectro social da esquerda. E Lula vem anunciar que quer fazer parte desse grupo de líderes que efetivamente vão lutar pelos direitos das minorias, pelos direitos das mulheres, pelos direitos da promoção de igualdade, que são tudo agendas meritórias, do meu ponto de vista. E as alterações climáticas, que são a agenda transversal, mas que normalmente a esquerda se apodera um pouco desta agenda das alterações climáticas. Resta agora ver se Lula pretende fazê-lo de uma forma enquadrada nos padrões democráticos ocidentais do pluralismo, do liberalismo, no fundo, ou se prefere fazê-lo um pouco à moda americana e da esquerda radical americana, através de uma política identitária, em que efetivamente a clientela de Lula é a clientela mais desfavorecida. É essa clientela indígena, é essa clientela que acredita na promoção da igualdade que prefere Lula. Portanto, vamos ver até que ponto é que isto não se torna também uma agenda radical no Brasil, criando ainda mais razões. E voltamos ao princípio da conversa, no fundo, porque estas coisas estão muito encadeadas, não seja mais uma razão de promoção de polarização brasileira. Os temas do bolsonarismo caíram completamente, mesmo os meritórios, como os problemas do crime, da segurança. Como se sabe, o Brasil é um país profundamente inseguro. Mas este é um tipo de transição que é muito o gênero de transição de eu vou ser tudo menos aquilo que foi o meu antecessor. A minha política vai ser tudo menos aquilo que foi a política do meu antecessor. E acho que o discurso foi essencialmente isto.