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Jorge Costa, dirigente nacional do Bloco de Esquerda, que está conosco nesta emissão especial. Comigo está também o Miguel Pereira Santos. Desde já, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós. Deixou de integrar a lista de deputados do Bloco para tratar da vida interna do partido. O que falhou entretanto, por que o Bloco não conseguiu melhorar os resultados?

São dinâmicas diferentes, são dois problemas diferentes. Um é o das estruturas do Bloco de Esquerda, da participação dos militantes, e esses últimos dois anos, como já foi referido aqui hoje, foram anos de nove eleições seguidas, entre europeias, legislativas, regionais e autárquicas. Essas eleições acabaram a ocupar a agenda partidária de uma forma muito pesada e dificultou o plano que nós tínhamos de, ao longo dos últimos dois anos, ter renovado o programa político do Bloco, a sua perspectiva sobre o mundo, as propostas políticas concretas com que nos dirigimos ao país.

E isso refletiu-se na questão eleitoral, ou seja, não existir tempo para reorganizar o partido.

Não, por isso que eu estava a dizer que eram problemas diferentes. Eu penso que uma coisa são os espaços próprios do Bloco de Esquerda e a maneira como eles foram mais abertos, convidativos e como eles permitiram uma renovação maior ou mais pequena, e eu creio que há um balanço modesto a fazer sobre os resultados desse trabalho. Entrou muita gente no Bloco de Esquerda ao longo dos últimos dois anos, mas nós não fomos capazes de criar uma nova cultura interna, mais participativa, mais aberta, mais inclusiva, e vamos tratar de fazer isso agora. Até porque, como também o Miguel Cardina há bocado disse, nós vamos ter dois anos que previsivelmente não terão a mesma intensidade em termos de calendário eleitoral e nos vão permitir uma margem bastante maior para esses trabalhos. Outra coisa são os resultados eleitorais, que respondem a lógicas diferentes da dinâmica da vida interna de uma organização política. Os resultados eleitorais são fruto de uma circunstância que é internacional, que é comum a muitos países. Se olharmos pra o que passa na Europa, a extrema-direita cresce, a esquerda sofre dificuldades numa grande parte dos países europeus e em Portugal de uma forma bastante mais acentuada e mais acentuada no caso do Bloco de Esquerda.

Mas aí é o caso do LIVRE, por exemplo.

Era isso que eu ia referir-me a isso. Mais acentuada no caso do Bloco de Esquerda, porque precisamente o Bloco teve um protagonismo e um papel no ciclo político da Geringonça, que foi muito importante, do qual nos orgulhamos, que produziu resultados a favor das pessoas na sua época, mas o que ficou na memória e na consciência popular desse período foram os anos finais da governação do Partido Socialista em maioria absoluta, as suas trapalhadas, a mediocridade do pessoal político e os casos sucessivos que se vieram a verificar, e acima de tudo, a recusa sistemática de responder aos problemas mais importantes, que eram os da saúde, que foi deixada de pantanas, os da habitação, que foi uma bomba relógio que já está a explodir no país, e a questão do trabalho, onde agora tudo se vai agravar com o plano do PSD e do Chega.

Mas falou da conjetura internacional e também da memória do Partido Socialista. Qual é a responsabilidade própria do Bloco de Esquerda neste trecho?

A responsabilidade própria do Bloco de Esquerda foi não ter conseguido, apesar de ter sido coerente nesse percurso e de ter feito perante o Partido Socialista a exigência de uma intervenção firme sobre o SMS, sobre a legislação laboral e não o ter conseguido. Foi essa a razão da rutura que aconteceu em 2021. Apesar dessa clareza e apesar dessa consistência, o Bloco não foi capaz de que essas razões tivessem sido bem compreendidas. E o Bloco continuou a ser associado à governação do Partido Socialista, mesmo quando já não tinha nenhuma responsabilidade sobre ela e quando, na verdade, o Partido Socialista já governava em maioria absoluta. A esquerda toda sofreu do mesmo mal. Aliás, quando nós vemos a descida também do Partido Comunista. E mesmo o resultado do LIVRE, que é um partido que não tendo estado, naquela altura tinha só um deputado e ainda não era um protagonista central, mas era um partido que sempre defendeu a Geringonça, sempre defendeu a sua continuidade, e os objetivos que existiam naquela altura. O LIVRE, tendo um crescimento em relação a essa fase, porque era um partido muito pequeno, o crescimento do LIVRE não substitui, não altera que haja uma descida do conjunto da esquerda. Ou seja, o Bloco, o Partido Comunista, o LIVRE, todos juntos, ultrapassavam os 20%. Agora, todos juntos, não chegam aos 10%. Portanto, este espaço perdeu-se e perdeu-se no balanço do processo daqueles anos e de uma leitura popular que ficou muito marcada pelos anos da maioria absoluta do Partido Socialista.

A imagem do LIVRE como um partido que está mais próximo do PS, não pode ser uma dica pro Bloco do caminho a fazer daqui pra frente?

Não, o Bloco de Esquerda sempre se construiu como uma força autónoma na esquerda, e é isso que vai continuar a ser. O Bloco procura representar na sociedade um programa de governo, um programa de poder, se quisermos, que responde pelos interesses da maioria da população e da classe trabalhadora portuguesa.

O LIVRE não faz isso?

Não, fará à sua maneira, fará como entende que deve fazer, mas fá-lo sempre com a perspectiva de uma aliança de governo do Partido Socialista. Nós não fazemos assim, nós procuramos encontrar ganhos de causa que justifiquem, em cada momento, fazermos as opções políticas que defendem o nosso programa e que defendem a nossa perspectiva sobre o mundo e sobre o país. E essa diferença entre os nossos partidos é real. E portanto, o Bloco de Esquerda nunca mudou essa característica. Foi por isso que estivemos contra o governo Sócrates e fomos capazes de fazer o acordo com o Partido Socialista em 2015 e foi por isso que rompemos esse acordo em 2015. Na verdade, quem o rompeu até foi o Partido Socialista, na medida em que não correspondeu àquilo que eram as exigências do Bloco sobre a questão da saúde, sobre a questão do trabalho. Mas enfim Fomos firmes na defesa desses temas e foi em torno dessa firmeza que depois foi possível a António Costa, com a ajuda de Marcelo Rebelo de Sousa, criar a crise política, desencadear as eleições e conduzir o processo para a maioria absoluta.

Já que falou dessa responsabilidade do bloco, perguntava-lhe agora pela responsabilidade da liderança. Mariana Mortágua admitiu que cometeu alguns erros, mas que não terão sido determinantes. A liderança não tem culpas na atual situação do partido?

Uma liderança partidária é sempre, em última análise, a principal responsável pelo que acontece de bom e de mau num partido, pelas escolhas que tem a responsabilidade de fazer ou pelo trabalho que tem a responsabilidade de coordenar. Mas essa responsabilidade não é individual. A liderança partidária é a direção eleita, é a comissão política, são os membros da direção que estão cotidianamente a tomar decisões sobre o que o partido há de fazer. Isso não é uma tarefa de uma pessoa. Nem é hoje, nem nunca foi. A Mariana teve um desempenho excelente ao longo deste período. Ela não só fez jus ao que era já a sua marca, em termos de quadro político, que era o fato de ter sido extremamente competente, preparada e capaz de confrontar o poder econômico, fosse nas comissões de inquérito, fosse depois enquanto deputada nas questões fiscais, o imposto Mortágua, a vigilância sobre a EDP e a fuga fiscal massiva que foi sendo cometida ao longo dos anos pela parte das grandes empresas em Portugal. Isso tudo aconteceu e foi a marca principal dela. E mostrou, em todas estas ocasiões, perante uma ofensiva brutal, uma campanha sistemática, personalizada na sua vida, nas suas características pessoais, em tudo aquilo que, perante a violência dessa campanha, mostrou uma firmeza muito grande, que acabou também confirmada agora na última fase, na participação na flotilha humanitária rumo a Gaza, que é um gesto de grande coragem, grande coerência, grande humanidade e que eu acho que é a marca mais importante até que ela deixa como líder do bloco, digamos que é o orgulho da militância do bloco ter estado representada naquele processo em que, efetivamente, a flotilha foi a ponta de lança da solidariedade internacional contra o genocídio em Gaza. E isso é um momento histórico em que a Mariana foi marcante e eu acho que isso ficará sempre a marcar a liderança partidária dela. Portanto, eu acho que ela teve um protagonismo fundamental ao longo deste último período. As dificuldades que o bloco sofre e que já não vêm de agora, vêm, como eu disse há bocado, do balanço da experiência da geringonça, na minha opinião, em grande medida, vêm daí. Essas dificuldades não foram geradas por ela.

Falando do futuro, há pouco um militante ali no palco disse o seguinte: "Sabemos por onde queremos ir, mas só não sabemos como lá chegar". O bloco sairá desta convenção com um caminho claro sobre como reverter os maus resultados dos últimos anos?

O bloco não faz a conta ao seu trabalho e às suas tarefas políticas futuras em termos de como é que nós vamos ter mais votos. Esse racional é importante, porque a nossa influência também se traduz em votos e os votos que nós temos aumentam a nossa influência na medida em que temos uma maior representação e tudo isso é muito importante para a intervenção política do bloco. Eu não estou a subestimar a importância da representação parlamentar do Bloco de Esquerda nas várias instituições. O que estou a dizer é que nós trabalhamos por objetivos políticos, não por objetivos estritamente eleitorais. E qual é o objetivo político principal hoje do Bloco de Esquerda? Hoje, nós vivemos numa situação de pântano político. Nós temos um país que está a ser governado por uma aliança entre o PSD e a extrema-direita. É essa aliança que determina a política da habitação em Lisboa, com a liberalização total do alojamento local, que acaba de ter mais um episódio nos últimos dias. É essa aliança que determina a política laboral no país com a alteração ao Código de Trabalho, que é selvagem e que vai além de tudo, mesmo além do que a Troika queria que se fizesse em Portugal. É essa aliança que determina a privatização dos serviços públicos e todo um programa de devastação que está aos olhos do país. O paradoxo ou a grande proeza do Luís Montenegro é conseguir fazer isto e ter os orçamentos aprovados pelo Partido Socialista. Portanto, o governo tem uma base parlamentar que inclui 95% dos deputados. E este pântano político, que reflete bem a degradação da situação política em Portugal, é o que motiva o Bloco de Esquerda na prioridade principal, que é a derrota do neofascismo, a derrota da extrema-direita.

E qual é a estratégia nesse sentido? Neste contexto, agora.

Neste contexto, o mais importante é a greve geral. O momento mais importante do combate político no próximo período é a greve geral, porque é a grande resposta que os trabalhadores portugueses têm que dar a uma situação que vai diminuir os seus rendimentos, aumentar o seu tempo de trabalho, aumentar a precariedade eterna dos jovens que entram no mercado de trabalho e que vão ser privados de um contrato estável ao longo de anos e anos. Tudo isso está em cima da mesa neste momento, e está em cima da mesa pela mão do PSD em aliança com o Chega. E em face disso, é muito importante a mobilização social. E, portanto, a nossa agenda política para os próximos anos é a construção de oportunidades de movimento e de resistência social em convergência com outras forças à esquerda, mas sobretudo numa grande frente social, com os movimentos organizados, com o movimento associativo, para fazer frente.

Já falou aí de muitos problemas concretos, mas tem sido discutido também nesta convenção o fato do Bloco se ter afastado ligeiramente dos problemas do dia a dia e se ter preocupado demasiado com causas identitárias. Isso terá contribuído para o declínio do partido?

Quais foram essas causas identitárias?

As causas que estão também na gênese do Bloco de Esquerda e que depois, entretanto, foram sendo abordadas.

Eu não encontro na nossa intervenção política recente nenhuma centralidade que não seja o combate ao governo de direita, a defesa do Serviço Nacional de Saúde, a defesa dos direitos dos trabalhadores, do Código de Trabalho.

As questões, por exemplo, de identidade de gênero não superaram todas essas.

Acha que sim? Isso aconteceu na agenda política? Onde é que isso se passou? Nós nunca deixamos para trás nenhuma causa. E, portanto, nós defendemos hoje os direitos das pessoas LGBT, como defendemos ontem os direitos ao aborto.

É porque é até uma crítica que não é feita só em Portugal ou só sobre o Bloco de Esquerda. Por exemplo, o Partido Democrata norte-americano também fez um pouco essa reflexão.

O que existe é uma tática sistemática da direita e da extrema-direita de tentar confinar a esquerda nas questões dos direitos individuais e dos direitos das pessoas LGBT, enfim, de uma agenda que está muito longe de ser a agenda exclusiva da esquerda. Nós não deixamos para trás nenhuma causa, repare, eu não estou a dizer que essas causas valem menos. Essas causas têm todo o seu valor e o Bloco de Esquerda não abdica de fazer essas lutas, como nunca abdicou no passado. O que recuso é a ideia de que o Bloco de Esquerda afastou ou deu menos centralidade às questões essenciais da vida dos trabalhadores portugueses. As questões essenciais da vida dos trabalhadores portugueses, seja o acesso à saúde, seja haver professores nas escolas, seja a defesa da lei laboral contra a selvageria que aí vem pela mão do PSD e do Chega Isso tem sido o centro da nossa intervenção, a solidariedade com a Palestina, porque não conseguimos viver pacificamente e normalizar uma situação em que está a ser cometido o genocídio contra um povo com o apoio do Ocidente, com o apoio dos governos da União Europeia, incluindo o português, que é cúmplice da passagem de armamento para Israel durante a execução do genocídio. Isso nós não fechamos os olhos e não fingimos que não vemos. Damos toda a importância a essas questões, sem nunca perder o norte sobre quais são os pontos essenciais da nossa intervenção.

Essa tem sido, por exemplo, uma das causas que tem unido bastante à esquerda. O Bloco está condenado a diluir-se num movimento partidário mais alargado à esquerda?

A diluição não é boa para nenhuma força política. As diferentes forças políticas à esquerda têm identidades muito marcadas e diferenças muito grandes, sejam sobre a perspectiva em relação à questão do governo, sejam a perspectiva em relação à situação internacional e às relações internacionais.

Mas é preciso uma reorganização à esquerda.

O ponto é se é possível encontrar uma agenda comum. Eu acredito que sim. Acredito que é possível a esquerda política, os partidos à esquerda, encontrarem, sobretudo nestes tempos em que estamos na perspectiva de vir a ter o neofascismo como primeira força política no país, é essa a disputa que hoje está em cima da mesa. Então, neste momento histórico, é essencial que a esquerda seja capaz de encontrar os pontos comuns mais importantes e as prioridades que são conjuntas.

E como é que isso se traduz concretamente?

Concretamente traduz-se em diálogos políticos. Não na diluição, não na anulação das diferenças que existem e são reais, mas sim na procura dos pontos de convergência e nos pontos que são comuns e que são prioritários neste momento. E em torno disso, sim, acredito que é possível oferecer ao país uma alternativa à esquerda que evite que tenhamos um panorama político e uma democracia empobrecida, que se reduza ao espaço das forças políticas que hoje estão agarradas umas às outras, o PSD agarrado ao Chega pra fazer o novo código de trabalho, pra aumentar a crise na habitação com a liberalização do alojamento local e agarrado ao Partido Socialista pra lhe viabilizar os orçamentos. Este pântano é que é o nosso problema. Precisamos de ter um campo político alternativo a este pântano, que se configure na base de uma convergência à esquerda, na qual todas as forças, sem se diluírem e sem se anularem, sejam capazes de participar.

Deixe-me só perguntar-lhe pra terminar, José Manuel Pureza disse que vai ter a inteligência e a humildade pro diálogo. Este diálogo deve ser com essa esquerda, com os movimentos sociais, onde é que o Bloco pode recuperar este eleitorado através do diálogo?

Nós encontramos isso na expressão de vários movimentos ao longo do tempo. Este ano foi muito mau, 2025 foi um ano péssimo pra esquerda. E foi um ano péssimo pro país, ou seja, tudo o que temos a ver acontecer no mundo do trabalho, tudo o que temos a ver acontecer com a influência que tem a podridão, o apodrecimento do senso comum, como dizia há bocadinho a Mariana Mortágua no seu discurso, esse apodrecimento do senso comum pela força da extrema-direita, pela força das redes sociais intoxicadas, isso é um ano muito mau. Mas aconteceram coisas muito importantes. Nós este ano tivemos a maior manifestação de jovens negros das periferias, que vêm trazer a sua agenda e falar daquilo que está a acontecer na discriminação das populações mais pobres nos bairros periféricos de Lisboa. Tivemos a maior manifestação de imigrantes que estão sob assédio constante, são parte importante da nossa sociedade, contribuem diretamente pra segurança social, contribuem diretamente para suprir necessidades básicas e essenciais do nosso sistema.

José Manuel Pureza será uma pessoa melhor pra chegar a essas pessoas.

E essas mobilizações mostram que é nas lutas que estes encontros se podem fazer. E nestas lutas nós vamos encontrar setores muito diversos, que não são só as forças partidárias, são as forças sociais organizadas, são partes da própria igreja, são os sindicatos que se recompõem, que encontram novas formas de unidade, como agora está a acontecer na preparação da greve geral entre a CGTP e a UGT. Destes diálogos sociais, destas mobilizações, destas experiências e desta visibilidade de rua que é conquistada pelas pessoas mobilizadas, é que podem nascer as novas convergências. Elas não vão ser fabricadas no vazio, não vão ser o fruto de acordos de gabinetes.

E nisso, José Manuel Pureza é uma pessoa melhor pra ligar essas pontas.

Absolutamente. Pelas características que ele tem, e que já demonstrou ao longo do tempo, não só enquanto deputado, enquanto dirigente partidário, mas mesmo como responsável de processos muito importantes, como foi o caso da eutanásia. Ele foi um dos protagonistas importantes da aproximação entre pessoas com ideias diferentes, mas que foram capazes de juntar por uma causa.