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Pois, Soares, começamos este jornal das 09:00 com uma notícia de última hora. Morreu António Lobo Antunes, aos 83 anos. Foi um dos maiores escritores da história da literatura portuguesa.

Uma notícia já confirmada pelo Observador, junto da editora D. Quixote. António Lobo Antunes tinha 83 anos. Deixa uma obra vasta, muito ligada à memória e também à guerra colonial. É, de resto, também uma das vozes mais importantes da história literária portuguesa. Nadine Soares, vamos aqui lembrar algum do percurso de António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942, formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969, especializou-se em Psiquiatria. Foi médico militar na Angola durante a guerra colonial, uma experiência que acabou por marcar a trajetória na escrita. Estreou-se em 1979 com o livro "A Memória do Elefante", no mesmo ano em que saiu "O Escus de Judas", um romance que o firmou como uma das grandes vozes mais poderosas da ficção portuguesa. Optou pela escrita, depois, a tempo inteiro, em 1985. Construiu ao longo de mais de quatro décadas uma obra marcada pela guerra colonial e pela expressão profunda da condição humana. Publicou mais de três dezenas de romances. É considerado uma das vozes literárias mais importantes da história recente do país, um dos maiores escritores da literatura contemporânea.

Nadina Soares a lembrar algumas das marcas principais da vida de António Lobo Antunes, o escritor morreu hoje aos 83 anos, um dos maiores da história da literatura portuguesa. Bruno Vieira Amaral, aqui conosco em estúdio. Que marca deixa António Lobo Antunes para a literatura portuguesa?

É uma marca fortíssima. Quando António Lobo Antunes surgiu no final dos anos 70, transformou por completo. Foi mesmo uma tempestade na literatura portuguesa. Gerou muitos imitadores, influenciou muito as gerações seguintes. Eu acho que foi, dos escritores do último meio século, o mais influente. Era quase inevitável que os escritores que iam aparecer seguissem, tentassem seguir a sombra de António Lobo Antunes, mas ele, de facto, tem uma voz poderosíssima, que despertava esse desejo de imitação, mas que era, na verdade, inimitável. Muitas vezes dizia-se que António Lobo Antunes, sobretudo depois na fase tardia da sua carreira, estava sempre a escrever o mesmo livro. Mas a verdade é que se olharmos para esses livros, vemos muitos temas, muitos retratos de muitos Portugais diferentes que couberam aí. Não é só a questão da guerra colonial, que foi muito importante, sobretudo nos seus primeiros livros. Há muitos Portugais presentes nos livros, desde o Portugal periférico, suburbano, ao Portugal da alta sociedade, do mundo dos banqueiros, que ele conhecia bem. Ele tinha aquela máxima do Balzac, que um romancista deve conhecer, deve vasculhar todos os setores da sociedade para poder fazer o seu romance. E António Lobo Antunes tinha essa capacidade de ir a mundos muito diferentes e trazê-los, uniformizá-los através da sua voz. O que é verdadeiramente revolucionário e decisivo na obra de António Lobo Antunes é a sua voz literária. Ele dizia que ninguém escrevia como ele e a verdade é que ninguém escrevia como ele. É uma voz que se afirmou na altura, no início, encontra bastante resistência. É o caso da atribuição do prêmio API em 1985, que há uns anos estava a ler a decisão do júri e não foi consensual a atribuição desse prêmio a António Lobo Antunes, porque o seu estilo gerava alguma resistência, mas acabou por se impor. E eu valia uma altura, claro, que a literatura portuguesa praticamente se dividiu num Benfica-Sporting, José Saramago e António Lobo Antunes, mas a verdade é que eu acho que são os dois dos poucos gigantes universais que a literatura portuguesa produziu.

Já vamos continuar a conversa, Bruno, deixa-me só aqui também dar nota de uma nota de pesar da editora D. Quixote, que dá conta da profunda tristeza com que recebeu esta notícia esta manhã da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos leitores e admiradores. A editora D. Quixote compromete-se a continuar a trabalhar e a promover a obra de Lobo Antunes, sublinhando também que a importância desta obra ultrapassou fronteiras e lembra um escritor que dedicou toda a vida à literatura, prestando também essa homenagem e deixando as condolências à família, aos amigos e também aos leitores. Bruno, de que forma a editora pode continuar a promover esta obra e que trabalho a editora deve fazer também para que a obra de Lobo Antunes continue a ser recordada como merece?

Pois, esse é um problema dos escritores de todos os tempos. A verdade é que quando vem a morte, a obra acaba por ser menos discutida, menos divulgada. Isso acontece em todos os tempos. Há uma grande exceção, que é a de José Saramago, olhando para os últimos anos, que teve o Prêmio Nobel, que alturou muito, e o trabalho também da Fundação Saramago, que tem feito muito pela divulgação e pela promoção da obra de José Saramago e, por arrasto, também de toda a literatura portuguesa em muitos eventos internacionais em que a literatura portuguesa é divulgada a reboque do nome de José Saramago e do Prêmio Nobel. José Saramago atingiu esse patamar que nenhum outro Escritor português contemporâneo alcançou. Mas a obra de António Lobo Antunes é igualmente valiosa. Não tem esse motor do Prêmio Nobel, é verdade, que eu acho que seria merecido, poderia perfeitamente ter lhe sido atribuído, e ele também percebeu que não seria. A partir do momento em que foi atribuído a José Saramago, ele teve noção que muito dificilmente acabaria por receber o Nobel. Há muito que é possível fazer. A editora tem feito, através da publicação das obras. Há muitos estudos, não só a nível nacional, mas em universidades internacionais dedicadas a Lobo Antunes. Por esse aspecto, eu acho que não corre perigo de ficar esquecida. Depois, há um trabalho junto do público, de fazer chegar essa obra ao público leitor, às novas gerações. Esse é um trabalho que terá ser feito a partir de agora, não sei se através da criação, por exemplo, de uma biblioteca, através de uma fundação. É preciso fazer mais do que apenas a publicação dos livros. E eu acredito que é do interesse não só da editora, mas até do próprio país, através do Ministério da Cultura, contribuir para a preservação e divulgação da obra de António Lobo Antunes.

Já vamos continuar também aqui na conversa em estúdio. Bruno, agora temos ao telefone conosco Francisco José Viegas. Bom dia, obrigado por se juntar também a nós. Francisco, o que nos pode recordar deste escritor que é um nome maior, sem dúvida, da literatura portuguesa?

Recordar é aquilo que toda gente recorda, além das conversas, das amizades, além das relações pessoais. Aquilo que se recorda é a passagem de um homem que nos anos 70 era completamente desconhecido, que foi o autor da "A Mora de Alfante", dos "Curros de Judas" e da "Explicação dos Pássaros". Esses dois primeiros livros são marcantes, que vêm da guerra. Na verdade, é uma espécie de apogeu da literatura de guerra. E depois, a partir do "Auto dos Danados" e do "Fado Alexandrino" e das "Naus", há uma espécie de regresso definitivo ao pequeno Portugal. É sobre isso que António Lobo Antunes escreve, sobre nós, sobre os poderosos, sobre os esquecidos, sobre os estranhos. Há uma obra particularmente importante onde ele mistura tudo isso, que é o "Manual dos Inquilinos", um dos seus grandes livros. E ele faz isso acompanhando também essa obra de ficção, que na verdade é das mais influentes da literatura portuguesa posterior. Nós usamos muito aquela expressão: "Fulano escreve à Lobo Antunes", porque de facto foi um dos autores mais marcantes, mais influentes. E ser um autor influente da forma que ele foi, dá ideia da importância que ele tem pra nossa literatura. Mas à parte disso, ele era um grande cronista, um cronista mais ou menos da memória e do cotidiano. Isso fez dele também uma presença muito marcante nas nossas vidas, porque falava de nós. Isso era muito importante, criando uma coisa muito original a que nós provavelmente não somos muito sensíveis, mas era uma espécie de contaminação da ficção pela linguagem poética. E isso foi muito marcante. Quase todos os títulos dele, a partir de certa altura, eram versos de grandes poetas. E essa contaminação é outra das marcas muito importantes desse legado do António Lobo Antunes. Eu recordo no final, não há final para uma obra destas, para um homem destes, mas recordo um certo ar entranhecido diante das coisas. Isso é uma das coisas que eu de certeza vou recordar sempre, que apesar de ter sido um homem muito aguerrido, polêmico, controverso, eu recordo esse ar entranhecido do António nos últimos anos e era essa a imagem que eu também gostava de levar.

Tinha uma linguagem muito própria, António Lobo Antunes.

Sim. Os grandes autores são aqueles que não só têm uma linguagem própria, como ainda por cima são, como eu disse há pouco, muito influentes. A influência é uma espécie de craveira com que se analisam a obra dos autores. E a parte de José Saramago, que também recriou a língua portuguesa, a língua do romance português, António Lobo Antunes, na verdade, reinventou essa dimensão poética da ficção. Se nós imaginarmos alguns dos títulos de livros dele, "Os Cavalos que Fazem Sombra no Mar", "Não Entres Por Essa Noite Tão Escura", "Sobre os Rios que Vão", etc. São versos. E essa contaminação foi muito corajosa da parte dele, porque ele começa justamente com literatura de guerra, começa com uma literatura muito mais agressiva, crua, ligada também à memória recente da guerra. E depois, todo o retrato que ele faz, o retrato das grandes figuras do regime, outra figura que aparece em muitos romances, como numa das suas obras-primas que é Que é o Manual dos Inquisidores, até ao pequeno Portugal do bairro, ao pequeno Portugal da vizinhança. António Lobo Antunes emprestou uma dimensão poética a todos esses personagens. Eles são feios, maus, etc, mas eu gosto deles. Essa capacidade de se internar na ficção de Lobo Antunes, a mim particularmente comoviam, porque era uma dimensão nova. Tal como há outros autores que vão criando rupturas. O José Saramago criou, o António Lobo Antunes criou, provavelmente aqui há dois ou três anos, o Gonçalo M. Tavares criou, o Bruno Vieira Amaral criou. São rupturas, transformações e inovações que hão de ficar para a literatura portuguesa.

António Lobo Antunes recebeu alguns prémios durante a sua carreira, nomeadamente o Prémio Camões. Ficou a faltar o Prémio Nobel.

Eu não sei se falta o Prémio Nobel. A certa altura faltava o Prémio Nobel, mas o Prémio Nobel é uma coisa que a certa altura deixa de faltar. É óbvio que se falava muito nisso e falava-se dessa picardia com José Saramago. Eu pessoalmente acho que era uma picardia literária importante, na medida em que sem picardias, sem pequenas controvérsias, polémicas, não vale a pena viver. E a certa altura eu acho que o prémio deixou de interessar. Deixou de interessar não porque fosse mais distante, mas porque era uma coisa que já não tinha interesse. O António Lobo Antunes era dos autores portugueses mais lidos no estrangeiro, era colunista dos grandes jornais, era um homem respeitadíssimo, era uma voz respeitadíssima de Portugal e da nossa língua. E, portanto, a certa altura deixou de interessar. Eu acho que a partir de meados dos anos 2000, isso deixou de ter qualquer interesse. Ele escrevia obsessivamente. Se nós formos ver, a partir de 2001, 2002, ele acho que escrevia um livro todos os anos. Eu lembro-me que uma vez fui à casa dele, iria sair um livro no mês seguinte e ele mostra-me dois grandes volumes de papel, porque ele escrevia à mão, e disse: "Bom, estes são os meus dois próximos livros, já estão prontos". Isto teve uma grande violência. Violência porque o seu caráter obsessivo com a sua obra, com os seus livros, com os seus romances. Ele vivia exatamente para isso. Isso era uma coisa muito respeitável no António Lobo Antunes, porque a certa altura ele vivia para dentro e para isso. Vivia para os seus livros e escrevia todos os dias, escrevia obsessivamente à mão e é assim que eu gostava de o recordar.

Francisco José Viegas, muito obrigado por ter estado conosco aqui em direto na Rádio Observador nesta emissão especial. Jornalista, escritor e editor português a ajudar-nos aqui a recordar um pouco daquilo que foi a carreira de António Lobo Antunes, um dos escritores maiores da língua portuguesa. Junta-se em direto a nós também a escritora Lídia Jorge. Bom dia, obrigado por se juntar também a nós em direto, Lídia Jorge. Como é que conseguimos e podemos recordar e deixar permanecer também a memória de António Lobo Antunes?

A melhor memória é esta estante absolutamente cheia dos livros dele. Ele trabalhou para a literatura e viveu para a literatura, viveu escrevendo e deixa de facto uma obra gigantesca, imensa, uma obra que tem aspectos de inovação extraordinários e que faz dele um escritor que não é só um escritor português, é um escritor europeu, é um escritor do século XX, do século XXI. É uma honra nós termos um Lobo Antunes entre nós.

E é certamente uma obra que vai perdurar e que vai, de certa forma também, marcar aquilo que foi sendo a história de um país.

Exatamente. Ele teve a capacidade de fazer uma proeza extraordinária, que foi pegar naquilo que foi a aquisição dos métodos do romance psicológico do início do século XX, mas que ele junta e faz crescer e enche com aquilo que poderia não ser o tema adequado, mas que ele transforma e introduz a história recente de Portugal em relação ao vasto mundo onde os portugueses estiveram. É um escritor que se inscreve no fim dos impérios, do colapso dos impérios, e que é um tema absolutamente europeu e um tema universal, e o faz maravilhosamente na língua portuguesa. É muito bom saber que ele deixa esta obra imensa e, na verdade, olhando para a nossa geração, ele de facto foi à frente, foi o mais criativo entre nós todos.

E deixa certamente uma marca na história da literatura portuguesa, mas também mundial?

Acho que sim. De toda a parte onde ele foi traduzido, ele é entendido, é louvado, sobretudo pela parte poética e também pela história que conta. Se em tempos parecia ser uma história apenas portuguesa, hoje, uma vez que ele fala da relação dos povos colonizados Com os povos colonizadores, que era o nosso caso, ele acabou por falar de um tema que é absolutamente crucial nos dias de hoje. E quando as pessoas falam dele, ou falam da literatura dele, ainda que digam que é complexo, que têm dificuldade de ler, a verdade é que abrem uma página e em cada uma dessas páginas a força poética é tão intensa que vale por si mesma. E isso faz dele um escritor universal e basta ver a relação que ele teve com os vários países onde foi traduzido. Foi traduzido por toda parte e basta ver o enunciado dos prêmios que teve também por toda a parte.

Lídia Jorge, escritora. Lídia Jorge, muito obrigado também por se ter juntado a nós nesta emissão especial da Rede Observador, em que estamos a recordar António Lobo Antunes. Morreu hoje aos 83 anos, foi Prémio Camões em 2007. Há nesta altura também uma reação por parte de Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, que nas redes sociais lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, um vulto maior da literatura portuguesa. "Como poucos," escreve Paulo Rangel, "revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo, uma lucidez distante que não é desdém, mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa." É o que escreve o ministro Paulo Rangel nas redes sociais a recordar António Lobo Antunes. Continuamos aqui em estúdio também com o Bruno Vieira Amaral. Bruno, ouvimos aqui já algum do percurso de António Lobo Antunes. Esta marca também da forma de escrita, da linguagem própria, é também algo que vai ficar para a história da literatura.

Sim, eu acho que é isso que o distingue. Bem, o que distingue todos os escritores é o seu estilo e Lobo Antunes tinha um estilo que foi apurando, mas que desde o início era completamente inconfundível. Em relação àquilo que a Lídia Jorge dizia, é verdade que ele foi buscar muitos dos ensinamentos dos modernistas do início do século XX, mesmo Joyce, Virginia Woolf, mas sobretudo Faulkner. Ele falava muito, no início da sua carreira literária, da influência dos escritores norte-americanos, fazendo aqui quase uma oposição a um certo barroquismo e hermetismo da literatura portuguesa, de dizer que preferia aquela literatura mais direta, o estilo mais direto dos escritores norte-americanos, da escola do Hemingway. Ora, eu acho que o estilo dele nunca foi esse, nunca foi precisamente esse. Eu acho que se houve influência da literatura norte-americana em Lobo Antunes, e houve certamente, foi mais de Faulkner, até de John Dos Passos do que propriamente do estilo de Hemingway. E ele conseguiu sintetizar essas influências, e é isso que também distingue os grandes escritores, é essa capacidade de recolher essas influências e dar-lhes uma nova expressão, também relacionando com os temas únicos que retrata, neste caso, um retrato muito vasto e muito amplo da sociedade portuguesa. Mas há outras influências, outros ídolos que ele teve. Em particular, ele falou muitas vezes do estilo do Céline, do escritor francês, e de outro escritor que ele também mencionou várias vezes e que é um escritor pouco conhecido, o francês Antoine Blondin, que ele dizia que era um dos mestres dele, até pelas crônicas desportivas que escrevia. E Lobo Antunes, como todos os grandes escritores, são capazes de absorver essas influências e transformar isso numa nova coisa, numa coisa única, muito pessoal, transmissível, contagiosa. É verdade, um estilo que era quase contagioso. Lê-se Lobo Antunes e a vontade é de ir logo a seguir escrever como Lobo Antunes, apesar de nunca se conseguir escrever como Lobo Antunes. Depois há uma outra questão, que o Francisco José Viegas há pouco falava, que é a questão das crônicas. A certa altura, dizia-se que as crônicas eram o pináculo da obra de António Lobo Antunes, porque os romances eram demasiado difíceis e era nas crônicas que estava o melhor Lobo Antunes. O melhor Lobo Antunes está em tudo. Está nas crônicas, está nos romances, mas eu percebo essa ideia, porque as crônicas de alguma forma eram mais acessíveis, em vários sentidos, do que os romances. E são crônicas também que não se confundem com a de nenhum outro escritor. Ele consegue trazer para a crônica uma dimensão literária verdadeiramente imponente, mas ao mesmo tempo, mantendo a crônica aquilo que é, que é um registro de um momento, de uma personagem, de um acontecimento. Nisso, é verdade, eu não poria as crônicas acima dos seus romances, mas a verdade é que também não poria abaixo dos seus romances. São conseguimentos literários, de facto, formidáveis e que demonstram que em tudo o que ele fazia, fosse no registro do romance, fosse no registro da crônica, ele era sempre escritor. É preciso sublinhar este aspecto. Eu fiz uma biografia sobre o José Cardoso Pires, de quem ele, Lobo Antunes, foi muito próximo, e havia sempre a questão que se falava já na época, nos anos 50, 60, da possibilidade, da capacidade dos escritores portugueses se dedicarem exclusivamente à escrita. Eu acho que no caso de Lobo Antunes, ele teve essa possibilidade de se dedicar exclusivamente à escrita, mas não é uma coisa que eu vejo apenas do ponto de vista da ocupação profissional, ou seja, de poder dedicar o seu tempo produtivo à escrita. Eu acho que é aqui uma questão de vocação para a escrita. O termo às vezes é equívoco, é mal utilizado, confunde-se aqui um bocadinho, põe-se isto quase num patamar espiritual, mas eu acho que também é. E António Lobo Antunes era um escritor, era o que ele era, não podia ser outra coisa. E o tanto que ele escreveu é porque ele não poderia ser mais nada. Não é só uma questão da ocupação profissional, de alguém se dedicar profissionalmente à escrita. Eu acho que se dedica Espiritualmente à escrita. Daí também a quantidade de livros que ele escreveu, porque era aquilo que ele era, ele não podia ser uma outra coisa e deixa-nos também essa obra muito vasta por isso mesmo, porque a partir de certa altura teve as condições para ser aquilo que ele era, um escritor. Temos agora também ao telefone Maria da Piedade Ferreira, editora e também tradutora. Bom dia, Maria da Piedade, obrigado também por se juntar a nós. Como é que podemos recordar este homem marcante da literatura portuguesa?

Olhe, eu tinha escrito um pequenino texto quando foi a homenagem na Gulbenkian. Como não preparei nada, vou lê-lo. "Em 1979, um cometa rompeu o panorama literário português, dominado ainda por uma literatura muito politizada no rescaldo da revolução. 'Memória de Elefante', o primeiro livro de um então jovem médico psiquiatra, veio trazer algo de completamente novo pelo tema, pela linguagem, pela inovação e qualidade da prosa, tão rara numa obra de estreia. Tendo António Lobo Antunes feito a guerra colonial em Angola como médico, essa experiência iria marcá-lo profundamente e seria o tema do seu segundo livro, 'Os Cus de Judas', publicado no mesmo ano e ainda hoje o seu livro mais traduzido. 40 anos e 30 romances e cinco livros de crônicas depois, António Lobo Antunes é hoje um escritor de primeiro plano na literatura mundial, traduzido em inúmeros países e distinguido com os mais prestigiados prêmios, como o Prêmio Camões, Prêmio Jerusalém, Prêmio Europeu de Literatura, Prêmio para o Melhor Livro Estrangeiro em França, Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, Prêmio Juan Rulfo no México, Prêmio Ovídio na Romênia, só citar alguns." A obra de Lobo Antunes vai ser eterna, porque é vasta, é magnífica no estilo, nos temas. E eu fico muito orgulhosa de ter sido editora do António Lobo Antunes nos últimos 15 anos. E hoje de manhã, a triste surpresa de saber que ele tinha morrido.

E precisamente nessa relação pessoal com António Lobo Antunes também, como era?

Olhe, foi muito curiosa, porque o António Lobo Antunes não admitia grandes comentários ao que ele escrevia. Ele mandava o manuscrito, não passava à máquina, mandava o manuscrito, eu mandava bater no computador e depois fazia-lhe algumas sugestões, que ele, por exemplo, nas datas das coisas e nesse tipo de pormenor, às vezes não acertava. E ele ficava muito furioso comigo quando eu lhe fazia notar que ele tinha ali um desajuste qualquer. Mas fora isso, demo-nos muito bem. Ele era muito exigente, não gostava que lhe mexessem nos textos, estava sempre em cima do seu trabalho e sabia muito bem que o trabalho dele estava bem feito e não queria emendas. E foi uma relação muito cordial, muito amigável, que durou 15 anos.

Bom dia, Maria da Piedade Ferreira, daqui Bruno Vieira Amaral. Ainda perguntando sobre essa relação enquanto editora, foi também para si uma grande responsabilidade ser editora de um nome como António Lobo Antunes. É diferente ter essa responsabilidade de outros autores, sem menosprezo por qualquer autor?

Eu publiquei outros autores de quem tinha também muita responsabilidade, como por exemplo, o Vergílio Ferreira, que era uma pessoa muito exigente e com um feitio difícil. E Nemora, por exemplo, também fui editora dele, do David Mourão-Ferreira e outros. O António Lobo Antunes era um caso especial, porque primeiro tinha uma obra muito vasta e depois porque ele era muito confiante no que escrevia. Isso para mim também era uma enorme confiança, porque sabia que o que ele tinha escrito era o que ele queria fazer e que era bom. E foi uma relação muito boa, muito cordial, às vezes conflituosa, quando ele se zangava comigo ou eu com ele, mas de resto, foi muito honroso para mim, muito bom ter sido a editora do António Lobo Antunes.

E imagino que tenha também sido um privilégio aqueles momentos em que recebia o novo livro do António Lobo Antunes.

Era eu a primeira pessoa a ler os livros dele.

E como é que se sentia nesses momentos? Havia sempre, imagino, uma grande emoção ter essa oportunidade.

Sim, porque eu era realmente a primeira pessoa a ler os livros. Ele escrevia à mão, não passava à máquina, escrevia à mão, uma escrita escolar, muito legível, e eu depois lia, assinalava uma ou outra observação, e depois começava o processo da produção do livro.

Qual é que acha que é o legado de António Lobo Antunes, não só para a nossa literatura, a literatura portuguesa, mas para a literatura mundial?

É um legado importante. Ele tem prêmios internacionais importantíssimos. Está traduzido ainda hoje, pedem direitos de tradução dos países mais diversos. Portanto, a obra dele está viva e continua a ser traduzido. Teve os maiores prêmios e eu acho que vai ficar para sempre.

Maria da Piedade Ferreira, muito obrigado por se ter juntado também a nós, a esta emissão especial da Rádio Observador.

Obrigada eu também.

Editora e editora a recordar também aqui o escritor António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos. Estamos em emissão especial na Rádio Observador a recordar e ouvir quem privou de perto com António Lobo Antunes. Temos agora em direto ao telefone também a Ana Rita Bessa, CEO do grupo D'Leiria, o grupo de Lobo Antunes. Ana Rita Bessa, bom dia, obrigado por se juntar também a nós.

Bom dia.

De que forma recorda este homem das palavras?

Bom dia. Embora bom dia hoje seja uma expressão estranha. Acordámos com esta notícia que nos encolhe um bocadinho. Ouvindo a Piedade Ferreira, queridíssima editora do António Lobo Antunes, a falar antes, fica pouco por dizer, uma vez que a Piedade tinha com o António uma relação que se percebeu tão especial. A obra do António, que muito nos honra ter na D. Quixote, é extensa, é de leitura obrigatória, diria eu, ainda que exigente. É um escritor exigente e eu creio que tem ainda muito para dizer e terá muito para dizer nos tempos que aí vêm, aos leitores que já o conhecem e aos leitores que ainda não o conhecem. E pensava muito hoje nas palavras do António, na sua relação tortuosa com a eternidade e com Deus e na sua dúvida permanente. E pensava que de alguma forma, cheia de graça, a sua obra perdurará nos seus livros e ele eternizar-se-á através da sua palavra. E isso é uma coisa que eu gosto de pensar e que acho que é uma coisa bonita.

Ana Rita, deixe-me só perguntar-lhe também, até porque a própria D. Quixote se compromete a continuar a trabalhar e a promover a obra de Lobo Antunes. Naturalmente que ainda é cedo, mas já pensou em alguma forma de o fazer, de continuar a promover esta obra e este escritor para lá do dia de hoje?

Claro que sim. Nós temos este compromisso ativo e presente com a obra do Lobo Antunes e com a sua família, e essa obra e a capacidade de a promover e de a levar às prateleiras das livrarias e das bibliotecas, manter-se-á. Temos até, embora não possa desvendar grandes coisas, mas temos pelo menos um projeto novo em mãos, que conhecerá a luz do dia nos próximos meses, mas sem prejuízo disso, tudo aquilo que existe de espólio está neste momento disponível e garantiremos nas próximas horas que chegará a todos os que queiram ler, porque de facto, o António, também com outros nomes que a Piedade referiu, mas o António Lobo Antunes foi de facto uma das vozes maiores do final do século XX e deste século. E merece que esse estatuto seja continuado e que a sua obra se mantenha viva e ativa. Portanto, faremos isso em Portugal e também, embora não sejamos nós a fazê-lo, seguramente no estrangeiro. O António é publicado em muitos países e, portanto, também acredito que aí haverá interesse em renovar o compromisso com a sua obra.

Ana Rita Bessa, muito obrigado por se ter juntado também a nós em direto, a CEO da Leya, o grupo que edita António Lobo Antunes. Está conosco em estúdio também o Tiago Pereira, editor de cultura do Observador. Tiago, bem-vindo também a esta emissão especial. O certo é que para além de ser conhecido como escritor, António Lobo Antunes era conhecido por todos, não é?

Sim, eu acho que era o Lobo Antunes. Independentemente de ser um nome associado à alta literatura, de ser um nome que, eu acho que podemos dizê-lo sem reservas, influenciou definitivamente a literatura portuguesa, mudou, deixou sua marca, construiu legado, mas depois era o Lobo Antunes e toda gente o conhecia. Tivessem as pessoas lido ou não, tivessem as pessoas lido só um livro ou não, tivessem as pessoas lido, por exemplo, um dos livros que reuniu as crónicas que ele escreveu, que era talvez se calhar um dos livros mais populares. Porque tinha aquele formato mais curto, mais condensado. Era uma figura que, mesmo gerando paixões, eu não diria ódios, não me parece, não estou a ver porquê. Talvez alguma curiosidade quando António Lobo Antunes tinha uma frase mais incisiva numa entrevista, quando era citado, recusando uma e outra vez o epíteto de possível laureado com o Prêmio Nobel e recusando homenagens. Mas era uma figura que fascinava pela forma, obviamente, como escrevia e como parecia conseguir revolver as entranhas, que, depois isso é interessante, apesar daquela classe na escrita, eram entranhas que são comuns a toda a gente. Depois a grande diferença está em quem consegue elevá-las a um outro patamar e ele conseguia fazer isso. Mas os demônios que ele trazia de um lado particular, mas que eram partilhados de forma geral por toda a gente. A forma como foi progressivamente incluindo mudanças na sua escrita à medida que ia incluindo mudanças na sua vida e na sua idade, a relação permanente que tinha com aquilo que viveu enquanto médico, aquilo que viveu na guerra e como levava isso depois para os livros. Eu acho que as pessoas todas ficavam, e continuarão a ficar, fascinadas com a capacidade de transpor isso para letras. E ele tinha depois aquele Aquele semblante que muitas vezes me fazia ficar na dúvida se ele estaria a ser muito sério ou se estaria a ser irônico. Portanto, ele tinha muito mistério à mistura.

E cultivava isso também, de certa forma.

Claro, sim, não sei se de forma voluntária. Não sei se era um objetivo esclarecido e definido que ele tinha e que dizia: "Agora, de repente, vou aqui investir no meu mistério." Tenho dúvidas, mas era uma coisa que de fato fazia parte dele. Podemos chamar de charme, acho que é mais interessante. Falei em charme e o Bruno Vieira Mast está aqui olhando.

Liga o microfone.

Liguei logo. Chamaste-me? Não. Mas é bom lembrar que quando António Lobo Antunes irrompe na literatura portuguesa, ele é um terramoto.

Exato.

Não só pelo que escreveu, mas pelo que dizia nas entrevistas. Eu tenho de citar isto: eu aqui há uns tempos publiquei um artigo sobre um livro que reunia as entrevistas que o António Lobo Antunes deu ao longo da carreira. Não tenho agora presente aqui o nome do livro, mas deixem-me recordar a primeira entrevista ao Diário Popular, que ele deu ainda nos anos 70, a 18 de outubro de 1979, e ele disse isto sobre a literatura portuguesa: "Fala-se em masturbação intelectual. Eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não tem sangue, não tem tripas, não tem aquilo a que Rilke chamava sangue, olhar e gesto. É uma literatura sem sangue, sem olhar e sem gesto. É uma sei lá, pá, é uma merda que anda à roda." Peço desculpa.

É charme.

Isto é o Lobo Antunes no ano em que ele publicou os primeiros livros. Portanto, ele não veio para trazer a paz. Na altura, ele veio para agitar as águas e há muitas críticas a escritores que ele faz ainda durante os anos 80. Ele nunca foi, pelo menos naquela fase inicial, de meias-palavras. Ele entrou mesmo para agitar as águas.

Isso tudo faz com que ele, apesar do nível literário a que chegou e do estatuto que tinha enquanto escritor, era uma figura extremamente pop. Eu diria que se alguém aparecesse agora, não sei se vou criar uma moda, provavelmente não, espero que não, não quero ter nada a ver com isso, mas se fosse moda agora, de repente, usar T-shirts com a cara de Lobo Antunes, eu não me surpreenderia. E acho que seria uma coisa que qualquer pessoa poderia usar, de qualquer idade, e não seria de todo estranho ou tão estranho como se possa pensar à primeira vista, e seria uma espécie de ícone. Aquela cara que toda a gente reconhece, aquela pose que toda a gente viu em televisões, aquele que se lixe profissional que ele tinha, mas que era muito instintivo e que não me parece que ele trabalhasse para o ter, e que o levou a ter esta atitude que o Bruno falava assim que apareceu de: "Eu vou fazer as coisas como eu quero, é assim que isto vai ser." E acho que foi uma filosofia que ele carregou a vida toda e em todos os livros, parece-me. Não foi uma coisa que ele protagonizou só para marcar diferença assim que apareceu. E eu acho que, para lá de todos os méritos literários, que o Bruno será muito mais expedito em elogiar do que eu, eu acho que há este lado abrangente de marca cultural que define aquele artista, autor ou intérprete que consegue, de facto, chegar a um estatuto superior, em que nós o consideramos quase como uma espécie de entidade especial que engloba muitas características e muitas especialidades, se assim queiras, que o tornam, de facto, diferente.

Tiago Pereira, obrigado também pela tua presença aqui no estúdio. Agora vais ter um programa para preparar.

Ias dizer o "Poupa Poucos" depois das 14:00 vai ser dedicado.

Vai ser extraordinário, porque o Bruno vai lá estar, portanto vai correr bem. Digo eu.

Obrigado, Tiago. Continuamos nesta emissão especial da Rádio Observador a recordar o escritor António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos. Temos agora também ao telefone Ana Margarida Carvalho, escritora, também jornalista portuguesa. Ana Margarida, muito obrigado por se juntar também a nós em direto. O que é que recorda também de António Lobo Antunes? Como é que podemos recordar este escritor maior da língua portuguesa?

Eu acho que a melhor maneira de eu recordar seria ler os livros, coisa que eu acho que aconteceu pouco, pelo menos nos últimos anos. E quando falo últimos anos, se calhar são mesmo os últimos 10 anos, porque eu comecei a perceber que de facto os livros não estavam a ser lidos. E ele próprio também às vezes apercebia-se disso. Eu, enquanto jornalista, fiz-lhe muitas entrevistas, acompanhei-o em viagens, porque ele ganha muitos prêmios em torno desses anos, como sabe. E sentia um pouco isso. Quer dizer, ele tinha um desprezo enorme por entrevistadores, por jornalistas que iam lá a casa entrevistá-lo. E eu incluo-me nesse grupo, porque era extremamente difícil falar com ele. Quer dizer, nós tínhamos que colocar assim uma espécie de barreira invisível, que ou nós permitíamos que ela existisse ou não. E muitas vezes eu pensei: "Onde é que está o limite desta nossa conversa?" Porque ele tinha, de facto, comentários muito inconvenientes, mas ao mesmo tempo era brilhante. Portanto, havia ali um fascínio muito grande e eu não queria terminar aquela entrevista e acabei por ficar com uma ótima relação com ele. Nunca me atrevi a dar os meus livros a ler ou pedir comentários sobre os meus livros.

Mas chamou-lhe a atenção, chamou a atenção do António Lobo Antunes.

Sim, mas acho que nunca fiz por isso. Ou seja, eu ia lá enquanto jornalista, quando eu digo lá era a casa dele, que era onde ele as marcava, e tentava que ele se interessasse pelas perguntas que eu lhe fazia, o que era difícil, porque ele era uma pessoa com uma cultura vastíssima. E não era só uma cultura de coisas antigas, que também era, mas era cultura de coisas presentes. Ele estava sempre muito atento ao que se estava a fazer, muito atento ao que se ia escrevendo. Lia imenso e muitas vezes só respondia quando tinha uma coisa brilhante para dizer. Ou seja, nós ou eu fazíamos uma pergunta, e ele só respondia às vezes na quinta ou sexta pergunta a seguir e desconversava. E só se lembrava, se calhar, da resposta brilhante quando já estávamos mais avançados na entrevista. Havia ali um trabalho que nós tínhamos de fazer, que era de uma espécie de colagem, porque as conversas eram um pouco caóticas e sempre à vontade dele. Eu achava que era uma espécie de jogo, acabava por ser muito desafiante. Mas interessantíssimo. Eu lembro-me de o ver cantar músicas revolucionárias, eu lembro-me de o ver com referências pouco expectáveis. E o que mais me entristece é que de facto, os livros não foram tão lidos quanto ele pretendia. Ele irritava-se muito que as pessoas referiam sim as crónicas, e ele fazia, de facto, as coletâneas de crónicas. E os livros era, de facto, como ele punha a sua vida e vertia o seu sangue todo ali. E escrevia diariamente, escrevia militantemente. Não sei se me estou a repetir, mas tinha, de facto, um desprezo por quem utiliza a língua supostamente literadamente e de uma forma leviana.

Ana Margarida Carvalho, quando eu dizia que chamou a atenção, foi um dos nomes referidos por António Lobo Antunes como alguns dos talentos das gerações mais recentes. Isso imagino que é algo que a tenha enchido de orgulho.

Sim, encheu, mas acho que nem é a altura para falar isso, porque parece que me estou a aproveitar de uma pessoa tão extraordinária para a literatura portuguesa. Portanto, sim, tive essa sorte de ele me referir. Sim, ele disse-me qualquer coisa pessoalmente, mas isso fica entre nós, mas depois referiu o meu nome numa entrevista a outra jornalista. Isso foi importante para mim, nomeadamente porque eu penso que ele se referia ao primeiro livro. Eu era uma desconhecidíssima, ainda por cima que estava a fazer essa transição muito difícil, como calcula, de jornalista para escritora. E geralmente não são muito bem-vindos os jornalistas que se tornam escritores. E ele acolheu-me bem, ao contrário de outros.

Ana Margarida Carvalho, muito obrigado por se ter juntado também a esta emissão especial da Rádio Observador, em que estamos a assinalar a morte do escritor António Lobo Antunes, tinha 83 anos. Ele que, além de escritor, foi também médico psiquiatra e, por isso mesmo, também a Ordem dos Médicos veio manifestar o profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes, reconhecido como um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea, e que projetou também internacionalmente a cultura nacional. A Ordem dos Médicos lembra que Lobo Antunes era formado em medicina, especializado em psiquiatria, exerceu no Hospital Miguel Bombarda, antes de se dedicar plenamente à escrita e, por isso mesmo, a obra fica também marcada pela experiência clínica e constitui, de acordo com a Ordem, um contributo ímpar de memória e identidade e, por isso mesmo, a Ordem dos Médicos também presta aqui a devida homenagem a António Lobo Antunes. Temos também em direto connosco Afonso Reis Cabral, escritor, editor, também com uma função importante na Fundação Eça de Queiroz e também colunista. Afonso Reis Cabral, obrigado por se juntar também a nós. Como é que podemos recordar que legado nos deixa António Lobo Antunes?

Deixa-nos um legado de fronteira da literatura, eu acho. Ou seja, perante o que Lobo Antunes escreveu e a obra dele, que é profundamente nova em vários aspetos, eu acho que a literatura teve que se definir. Maior aproximação, menor aproximação, até renegar também, muitas vezes. Portanto, é de facto uma obra de charneira perante a qual muitos outros têm que se definir. E isso é único, isso é uma coisa rara, não acontece todas as gerações, certamente.

É um estilo, é uma linguagem que vai marcar e continuar a marcar a literatura portuguesa.

Sim. As obras dos últimos tempos depois foram muito afuniladas dentro do estilo dele, cada vez mais depuradas, mas cada vez mais reflexo delas mesmas. E, portanto, há um momento em que entram nesse afunilamento. Ainda assim, toda a obra é absolutamente marcante. Eu lembro uma vez que estava com ele e estava muito aflito porque sentia que tinha alguma dificuldade em Em fazer diálogos. Isso também é a propósito de um aspecto que se fala muito da obra do Lobo Antunes, que é as vozes. É quase como se fosse um coro grego e há vozes que falam sobre os assuntos. Eu estava um bocado aflito e perguntei-lhe o que é que fazia pro diálogo, o que eu podia fazer pro diálogo ficar melhor. E ele olhou com um olhar bastante malandro, ele tinha um olhar que às vezes um bocado de menino que se vai portar mal, um olhar de baixo e de cima ao mesmo tempo. Olhou-me e perguntou: "Mas pra que você precisa diálogo?" Eu fiquei atrapalhadíssimo. Eu acho que preciso diálogo, mas pra ele isso era quase como se fosse uma coisa nada evidente. Os livros fazem parte de uma espécie de um todo em que as vozes se confundem, em que tanto pode ser um elemento da família que está a falar como outro. E portanto, mesmo a ideia de diálogo, a certa altura, na obra do Lobo Antunes, pra ele já não era importante. Era importante que ele falava muitas vezes da mão a correr. É quase como se ele canalizasse alguma coisa que não era totalmente dele. Pode parecer um bocado poético, mas não é, na verdade, ele acreditava mesmo nisso.

Afonso, bom dia. Aqui Bruno Vieira Amaral. Agora, aproveitando isso que estavas a dizer, uma vez, numa entrevista, o Lobo Antunes falou precisamente em relação aos diálogos, a dizer que como não tinha muito jeito para o diálogo, esta era a sua forma de contornar essa dificuldade. Ou seja, os escritores muitas vezes transformam as suas falhas, aquilo em que têm mais dificuldades, na sua maior força. Eu acho que esse é precisamente um dos casos em que isso acontece.

Sim, nem mais. E portanto as vozes são elas próprias dialogantes, só que não é um diálogo clássico. E isso é fascinante também.

Afonso Reis Cabral, muito obrigado por se ter juntado a nós também nesta emissão especial da Rede Observador, em que estamos a assinalar a morte do escritor António Lobo Antunes. Morreu hoje aos 83 anos. Há aqui mais algumas reações nessa altura que importa sublinhar, nomeadamente da ministra da Cultura, Margarida Balcer Lopes, também nas redes sociais. Lamenta a morte de António Lobo Antunes, considerando um escritor maior, intérprete sensível, que deixa um legado inesquecível, numa mensagem publicada na rede social X. É uma das reações à morte de António Lobo Antunes. Bruno, já se falou aqui um pouco disso. António Lobo Antunes foi um escritor muito premiado, mas há sempre aquela sombra que paira se ficou ou não a faltar o Nobel, ou se, como ouvimos também alguém dizer, que chegou a um ponto em que já não se pensava nisso.

Ele teve de lidar com isso. Podíamos questionar se foi Lobo Antunes que ficou sem o Nobel, se foi o Nobel que ficou sem Lobo Antunes. Mas ele foi tendo diversas maneiras de olhar para esse prêmio, que é o prêmio mais importante da literatura, ao longo da sua carreira. Logo em 1986, numa entrevista que deu a Inês Pedrosa, ele disse que Jorge Amado, escritor brasileiro, que também era sempre apontado como um dos possíveis vencedores do Nobel, lhe terá dito que "daqui a 10 ou 15 anos você ganha o Nobel." Estamos em 1986, terá sido um pouco antes. Coincidiu mais ou menos esta previsão com a atribuição do Nobel depois a José Saramago. E ele não fugia ao tema quando era questionado, mesmo ainda numa fase inicial da carreira e depois ali no início dos anos 90, ele disse numa entrevista ao Jornal de Letras que não se pode dramatizar muito isso, porque o Prêmio Nobel é, em primeiro lugar, um prêmio político, claramente, mas também é idiota dizê-lo, dizia Lobo Antunes, porque no fundo, secretamente, toda gente o quer ganhar, mesmo que diga que não. E nos anos seguintes, de facto, tornou-se um tema recorrente em todas as entrevistas de Lobo Antunes. Ele disse a certa altura: "Ficarei triste se não o ganhar, até porque se não o ganhar, muita gente ficará triste, mas não trabalho para o Nobel." E mais tarde, já depois do Nobel ter sido atribuído a José Saramago, ele começou a defender-se dessa quase certeza de que não iria receber o Prêmio Nobel e disse numa entrevista também ao JL: "As pessoas por quem me daria alegria receber todas as honrarias do mundo já morreram quase todas." À Visão, não sei se numa entrevista à Ana Margarida de Carvalho, que ouvimos aqui há pouco, em 2001 ele disse que o prêmio agora não significaria nada porque as pessoas que se alegrariam com isso já cá não estão. Ou seja, ele ao longo dos tempos foi alterando e depois também tem vários comentários sobre os escritores que receberam o Nobel e sobre aqueles que não receberam o Nobel, alguns dos seus escritores de eleição, e ele falava do Tolstói, do Joseph Conrad, do Celine, não receberam o Prêmio Nobel, e essa era uma forma também dele lidar com aquilo que foi uma desilusão, obviamente. Ele próprio reconheceu, era importante ganhar o Prêmio Nobel, era uma honra ter tido essa possibilidade. Não aconteceu, a obra não sai diminuída por causa disso. Basta olhar agora pra alguns dos nomes que receberam o Prêmio Nobel nos últimos anos. Eu acho que poucas são as obras de autores que receberam o Nobel nos últimos 15 anos que estão à altura da de Lobo Antunes. Mas claro, isso é depois uma avaliação posterior. Acho que ficou o Nobel sem Lobo Antunes e ficou Lobo Antunes também sem o Nobel.

Temos agora também nesta emissão especial da Rede Observador, Patrícia Reis, jornalista, também escritora. Bom dia, obrigado por se juntar também a nós. Como é que recorda, que legado nos deixa Lobo Antunes?

Quando morre um escritor como António Lobo Antunes, há sempre esta tentação de transformar a figura no mito. E ele não era uma estátua literária, era um homem muito concreto, com as suas convicções de uma determinada geração, por vezes conservador, por vezes difícil, pouco dado a simpatias. No meio literário, será de destacar a relação de amizade que tinha com esse grande escritor que é José Cardoso Pires, a quem ele tratava simplesmente por Zé. É preciso talvez dizer que o grande território da escrita de António Lobo Antunes é a memória. Ele dizia: "Toda a invenção é memória. Quem nos arranja os materiais é a memória". E talvez isso venha da sua vida de psiquiatra, de tantos anos a ouvir as histórias íntimas e frágeis das outras pessoas. Mas, como dito, não era uma personagem fácil. Lembro-me de lhe ter feito várias entrevistas ao longo dos anos, sempre com o gravador ligado, e ele a meio da conversa dizia muitas vezes: "Vá, dele lá essa coisa". Queria que o gravador saísse de cena para começarmos realmente a conversar. Tenho um outro episódio divertido com ele. Pedi-lhe um conto para a revista "Egoísta" e ele ainda escrevia no Hospital Miguel Bombarda. Disse-me que sim, mas que queria o pagamento em dinheiro vivo. E eu lá fui para o hospital com um saco de dinheiro. E ele riu-se quando me viu chegar com o saco de dinheiro e disse: "Era uma provocação". Depois deu-me o conto manuscrito nas folhas dos blocos de receitas do hospital, e disse-me: "Guarda isto, vai valer dinheiro". Ele tinha a perfeita noção do seu valor. Eu guardei, claro.

E ao nível daquilo que é a importância de António Lobo Antunes ao nível do estilo, da escrita.

É incontornável. Eu acho que é incontornável. Felizmente, nós temos em Portugal escritores que são incontornáveis. António Lobo Antunes é incontornável, o Saramago é incontornável, mas também temos a Agustina Bessa-Luís ou a Sofia de Mello Breyner, ou a Maria Teresa Horta. Nós temos grandes escritores. Ele tinha uma relação difícil com as mulheres escritoras, devo dizer, sempre no arrepio de uma certa provocação, sempre naquela linha de tentar perceber a cabeça das mulheres. Podia ter graça, mas também podia ser desagradável. Como dito no início, não podemos mitificar só o criador e a sua obra, embora ele dissesse muitas vezes que tudo na sua autobiografia estava nos livros. E estará, obviamente, porque um livro é sempre um biombo atrás do qual a gente se esconde, dizia o Vergílio Ferreira, de quem ele por acaso gostava. E eu concordo. Está lá tudo, a vida dele, a tristeza, a melancolia, a família, a importância da família, a guerra, claro. E acho que perdemos um escritor. Não, não perdemos um escritor, porque a sua obra seguirá viva, assim o continuemos a ler.

E seguirá viva, não só em Portugal, mas também lá fora. Aliás, posso fazer referência a que mesmo o jornal espanhol "El País" está também a dar algum destaque à morte de Lobo Antunes. Significa também que Lobo Antunes deixa uma marca não só na literatura portuguesa.

Com certeza, claro. E é preciso perceber que Lobo Antunes começa a publicar em 1976, e o mundo literário era bastante diferente no século XX do que é hoje no século XXI, em que somos bombardeados e há livros quase que cuspidos para o mercado a cada segundo. Portanto, a importância do escritor, e a importância de um escritor como Lobo Antunes, também cresceu fruto ao seu tempo, ao seu lado contemporâneo, àquilo que era a vivência do mundo no meio literário. E é evidente que ele teve um sucesso internacional, assim como teve o José Saramago, e é um nome completamente incontornável.

Patrícia Reis, muito obrigado por se ter juntado também a nós, a jornalista e escritora portuguesa. Nós estamos também aqui a recordar António Lobo Antunes, que morreu hoje. Tinha 83 anos.

São agora 10h. Desde as 09:00 que estamos nesta emissão especial pela morte de António Lobo Antunes. Na última hora temos estado a ouvir as reações de vários nomes que, de uma forma ou de outra, lidaram com aquele que será para sempre uma das maiores figuras da literatura portuguesa, autor de mais de três dezenas de romances. Luiz Soares, temos mais convidados que querem recordar, que querem deixar a sua homenagem a António Lobo Antunes.

Temos Dulce Maria Cardoso, que se junta também a nós em direto ao telefone, também escritora portuguesa. Bom dia, Dulce. Obrigado por se juntar também a esta emissão especial da Rádio Observador. Dulce, a pergunta acaba por ser um pouco repetitiva, mas é aquilo que importa também perceber, o que nos deixa António Lobo Antunes para a nossa literatura, para a nossa história?

Deixa-nos uma obra importantíssima, especialmente para quem é português, apesar da Patrícia falar da dimensão internacional que a obra dele teve, e é verdade. Mas acima de tudo, o que me interessa nele é como ele pensou Portugal e o que é isto de ser português, e como nos ajudou a interpretar a história. Através dos seus romances, eu pelo menos consigo perceber bastante melhor o que é ser portuguesa e o que foi Portugal, mais do que lendo um ensaio de História ou de Sociologia. Deixou também um incrível tratado sobre as paixões humanas. Há muitos anos eu dei uma entrevista em que disse que não conhecia, e continuo a não conhecer, quem tenha aprendido a escrever tão bem em língua portuguesa. E mantenho a minha opinião, ainda que nem sempre me interesse o que ele diz

Mas a forma como ele o faz é sempre maravilhosa.

É um estilo, uma escrita que vai marcar não só aquilo que já foi a história de António Lobo Antunes, mas que vai continuar a marcar a literatura portuguesa?

Ele tem muitos descendentes. Quase todos aprendemos com ele. Eu, o Saramago, o Agustina, o José Cardoso Pires, os mais novos, leram-nos e aprenderam com ele. Evidentemente, há sempre uma fase de quase cópia, de influência, nuns mais notória, noutros menos. E ele próprio também aprendeu com outros, ou seja, ele não começou do nada. A literatura é um longuíssimo diálogo através do tempo e do espaço. Ele também aprendeu com o Faulkner e com outros assim. Portanto, vamos todos acrescentando virgulinhas neste imenso diálogo através do tempo e do espaço.

Dulce Maria Cardoso, muito obrigado por se ter juntado também a nós nesta emissão especial da Rádio Observador, em que estamos a recordar António Lobo Antunes. Temos também agora uma reação por parte do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, também através das redes sociais, manifesta profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes, escritor e médico psiquiatra, revolucionou a literatura nacional, escreve José Pedro Aguiar-Branco, deixa uma obra extensa premiada em Portugal e no estrangeiro, e deixa também, José Pedro Aguiar-Branco, à família e aos amigos as sentidas condolências. Aproveito também esta mensagem do José Pedro Aguiar-Branco, Bruno, para falarmos aqui um pouco também da vertente mais política de António Lobo Antunes, também havia?

É verdade. Havia muito mais nos comentários que depois ia fazendo à realidade política e às figuras políticas do seu tempo, nos anos 80, 90. Mas o que pouca gente sabe é que ele fez parte das listas da APU, que era a coligação do PCP, nas eleições legislativas de 1980. Creio que não em lugar elegível, mas afastou-se depois disso, afastou-se rapidamente da política e depois manteve sempre um olhar distanciado e crítico. Mas também é interessante ver como é que ele justificou essa ligação ao Partido Comunista na altura. Ele dizia que haveria ali um sentimento de culpabilidade ou um reflexo de má consciência de menino burguês por ter aderido naquela altura, ter feito parte das listas, mas também depois anos mais tarde acrescentou outra justificação dizendo que foi por reconhecimento, por uma espécie de agradecimento, porque quando os primeiros livros foram publicados, os comunistas foram muito simpáticos com ele. Foi o que ele disse. Mas depois afastou-se da política ou de uma participação política ativa, apesar de ter declarado o seu apoio a Maria de Lourdes Pintasilgo nas eleições presidenciais de 1986. Mas depois houve vários comentários, e aí já de comentários muito distanciados e críticos sobre as figuras políticas da altura, por exemplo, em relação a Cavaco Silva, o auge ou o irromper de António Lobo Antunes, a afirmação do Lobo Antunes, coincido com o período do cavaquismo, ali no final dos anos 80. E há um comentário que ele faz também numa entrevista em que diz que Cavaco Silva não é social-democrata nem liberal, não é nada. É gestor de uma firma com pequenas tricas, maldades e com agressividade, porque a militância dos laranjas é muito agressiva. Isto é Lobo Antunes na primeira pessoa, em relação a Cavaco Silva, mas ele estendia este olhar crítico a quase todos os protagonistas da vida política em Portugal. Nunca mais teve esse envolvimento político. E depois também nunca mais voltou a ser tão focado nas figuras, nos protagonistas, com comentários sobre Mário Soares, até sobre Basílio Horta, foi candidato nas eleições presidenciais de 1991, apesar de nas suas entrevistas haver sempre uma reflexão sobre aquilo que era o país. Não só nas suas entrevistas, mas também, claro, na sua obra, como dizia há pouco a Dulce Maria Cardoso, eu acho que se pode conhecer muito do que é Portugal, do que é isto de ser português, do que foi o Portugal da segunda metade do século XX, lendo os romances de Lobo Antunes, porque os romances dizem-nos, mostram-nos sempre aspectos da realidade que não podem ser mostrados através de nenhum outro registro, seja histórico, seja mais ensaístico.

Temos conosco agora também ao telefone a escritora Alice Vieira. Bom dia e obrigado também por se juntar a esta emissão especial da Rádio Observador. Alice Vieira, a obra de António Lobo Antunes é também um espelho daquilo que foi o nosso país?

Sim, eu era muito amiga do Lobo Antunes. Ele, que tinha assim um feitio um bocado complicado, também gostava muito de mim e andava sempre quando era a Feira do Livro, vinha sempre ter comigo, fazia muita publicidade. Eu quase nem acreditei quando ele ficou com a doença de Alzheimer, que é uma coisa horrorosa, que ele já estava há vários tempos. Antes dizia-se que só quem não dava muito trabalho ao cérebro é que ficava com Alzheimer, que era mentira, diz-se. Agora, é um grande escritor. E eu dizia-lhe muitas vezes, e era verdade, de todos os romances, claro, mas uma das coisas que eu gostava muito também era das crónicas que ele escrevia. E ele dizia: "Isso é uma palernice que eu escrevo só pra ganhar dinheiro." E eu dizia assim: "Então continua, continua fazendo essas palernices", porque ele era um grande escritor. Os temas todos mesmo que ele escolhia, ele abordava sempre muito bem e eu acho que foi uma grande perda, mas todos temos que ir. Espero que façam agora homenagens e coisas assim, porque ele merece tudo.

E de resto merece também por todo o impacto que tem a nível internacional. Eu estou aqui a procurar algumas páginas de imprensa internacional, para além do "El País", também a "Folha de São Paulo", por exemplo, já a fazer referência à morte. Isso também é um legado importante que ele deixa.

Claro que ele deixou um legado importante e um grande autor. Às vezes nós lemos romances. É que não há nada que ele escrevesse que eu não gostasse e que eu não goste. Ele escrevia tudo diferente, mas tudo realmente muito bem. Mas está a perceber que ele às vezes tinha assim feito e complicado. E eu lembro que uma vez uma colega minha jornalista foi fazer-me entrevista e ela fazia as perguntas e eu só: "Que pergunta tão parva. O que a senhora quer dizer com isso? A resolver essas perguntas não respondo." Mas comigo não, ele sempre gostou muito de mim. As más-línguas diziam que ele gostava de mim porque eu não lhe fazia sombra, mas não sei. O que é certo, realmente, é que sempre, até o fim, eu quando digo até o fim é ele estar lúcido. Até o fim fomos sempre grandes amigos. Em todas as feiras do livro a gente encontrava-se, ele vinha para o pé de mim. E é uma grande perda, isso é verdade.

Alice Vieira, obrigado também por se ter juntado a esta emissão especial da Rede Observador.

Obrigada, e eu agora espero que lhe façam homenagem, já agora.

Certamente.

Obrigada.

Esta emissão é também, de certa forma, uma homenagem a António Lobo Antunes e Alice Vieira está junto aqui também a recordar uma faceta mais pessoal do escritor. Ainda nas reações de há instantes, ainda a reação do secretário-geral do Partido Socialista, também através das redes sociais, para transmitir as condolências pela morte de António Lobo Antunes. José Luís Carneiro diz que a morte de Lobo Antunes é uma perda irreparável para a literatura e para a cultura portuguesa, uma morte que nos enche a todos de tristeza. Escreve José Luís Carneiro que Portugal perde uma das suas referências no momento em que elas tanto são precisas. É uma mensagem deixada por José Luís Carneiro. Bruna, fazia referência há pouco, não tenho aqui todos os jornais abertos, mas já percebemos que em muitos jornais internacionais, nomeadamente em Espanha ou no Brasil, esta notícia está a ter alguma repercussão. É também um fator importante aqui a importância de António Lobo Antunes também para a divulgação da língua portuguesa.

Claro, os grandes escritores funcionam sempre como locomotivas para o resto da literatura portuguesa, em língua portuguesa, não só da literatura portuguesa, mas também da literatura dos países africanos de língua portuguesa, também para a literatura brasileira. É assim que funciona. Esses grandes nomes despertam sempre a curiosidade noutros países por autores desse país, pela literatura desse país. E houve países em que, de fato, António Lobo Antunes continuava a ser um nome de referência. Ele, no início dos anos 80, é logo publicado, pouco depois, e publicado em editoras importantes e com contratos com agentes literários importantes nos Estados Unidos. Portanto, ele consegue entrar num mercado que é tradicionalmente muito difícil, não só para os escritores portugueses, mas para todos os escritores fora do mundo anglo-saxónico, e ele conseguiu, teve esse momento. Mas o país onde ele talvez tenha alcançado o maior reconhecimento terá sido em França, onde continua a ser considerado um dos maiores nomes da literatura contemporânea, com uma relevância ativa. Não é apenas um nome mencionado à passagem, é um nome verdadeiramente importante, celebrado em França. Em Espanha também, eu acho que em Espanha continua a ter essa relevância. E depois temos encontrado referências quando aqui há uns anos se olhava para os nomes das apostas para o Nobel, Lobo Antunes era uma presença constante e isso era reforçado pela opinião de outros escritores. E eu acho que a certa altura, Lobo Antunes, que teve muitos leitores em Portugal, é preciso dizer isso, Lobo Antunes era um best-seller. Aliás, como outros nos anos 80, nomes como Agustina, Saramago, José Cardoso Pires, vendiam muitos livros. Mas a certa altura, sobretudo no mercado internacional, eu acho que Lobo Antunes se transformou naquilo que se costuma designar por um escritor de escritores. Ou seja, é um escritor muito admirado, quase venerado por outros escritores, apesar de não ter a popularidade em termos de vendas e mesmo em termos do reconhecimento do grande público, mas tinha, no meio editorial e junto dos escritores, tinha um prestígio intacto. E isso agora eu acho que se vai ver nos próximos tempos, nas reações à morte do Lobo Antunes, vai-se ver o alcance e o nível de reconhecimento, sobretudo por parte dos seus companheiros de ofício, porque depois dessa primeira vaga, em que ele de fato teve muitas traduções em muitos países e continua a ter, mas que chegou a ser um escritor muito vendido e muito popular, eu acho que se foi transformando quase que num objeto de culto, os seus livros um objeto de culto, e um escritor de escritores reconhecido, sobretudo pelos seus pares.

Bruno Vieira Amaral, obrigado por ter estado aqui connosco ao longo desta hora e um quarto em que temos estado aqui a recordar António Lobo Antunes.

É de facto a notícia que marca esta manhã. Morreu António Lobo Antunes aos 83 anos, autor de mais de três dezenas de romances. Luís, é uma das maiores figuras da literatura portuguesa.

Uma das vozes literárias mais importantes da história recente do país, um dos maiores escritores da literatura contemporânea. Foi psiquiatra, levou também essa experiência até à literatura para escrever sobre dor, sobre amor, sobre a guerra e nunca parou de trabalhar e deixa, Nadine Soares, uma enorme marca na cultura do país.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942, formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969, especializou-se em Psiquiatria e exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Foi médico militar na Angola durante a guerra colonial, uma experiência que acabou por marcar o percurso na escrita. Estreou-se em 1979 com o livro "Memória do Elefante", no mesmo ano em que saiu "Os Cus de Judas", um romance que o destacou como uma das grandes vozes e mais importantes da ficção portuguesa. Em 1980 foi lançado o "Conhecimento do Inferno" e no ano seguinte a "Explicação dos Pássaros", obras que depressa o tornaram num dos autores mais lidos de Portugal. Decidiu optar pelo caminho da escrita a tempo inteiro. Em 1985 publicou mais de três dezenas de romances.

E mais tarde, Nadine, veio também o reconhecimento no estrangeiro.

Sim, com a edição de romances em países europeus como Espanha, França, Reino Unido, a que se juntaram mais tarde os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá. Em 1987 chegou o prémio literário franco-português atribuído à tradução francesa do romance "Os Cus de Judas". Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, obra que acabou distinguida depois em 2007 com o Prémio Camões atribuído em conjunto por Portugal e pelo Brasil. Regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes acumulou outros tantos prémios com a obra e como autor pelo percurso literário. A República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade e Grande-Colar da Ordem Militar de Santiago da Espada em 2019.

O certo é que António Lobo Antunes, Nadine, nunca parou de trabalhar.

É verdade. O livro mais recente de Lobo Antunes, o segundo livro de crónicas, chegou às livrarias em 24 de outubro do ano passado. O escritor nunca parou de trabalhar e também nunca esqueceu a psiquiatria, até porque definia-se em várias entrevistas como um caçador de palavras que escrevia romances para combater a depressão que existe em todas as pessoas. A obra do escritor fala por isso mesmo da solidão, da morte, de amor, de loucura e de guerra. É considerado uma das vozes literárias mais importantes da história recente do país e um dos maiores escritores da literatura contemporânea.

A jornalista Nadine Soares e o perfil de António Lobo Antunes, seu percurso de uma vida que termina hoje aos 83 anos. É um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX.

E ao longo da última hora, na Rádio Observador, fomos recolhendo testemunhos da vida e da obra de António Lobo Antunes.

Desde logo, a escritora Lídia Jorge diz que António Lobo Antunes viveu para a literatura e destaca também o legado deixado pelo autor.

A melhor memória é esta estante absolutamente cheia dos livros dele. Ele trabalhou para a literatura, viveu para a literatura, viveu escrevendo e deixa de facto uma obra gigantesca, imensa, uma obra que tem aspectos de inovação extraordinários e que faz dele um escritor que não é só um escritor português, é um escritor europeu, é um escritor do século XX, do século XXI. É uma honra. Nós temos um Lobo Antunes entre nós.

Lídia Jorge, ouvida na emissão especial da Rádio Observador aqui na última hora. O jornalista escritor Francisco José Viegas destaca a marca que António Lobo Antunes deixa como autor e também como cronista.

Mas aparte disso, ele é um grande cronista, um cronista mais ou menos da memória e do quotidiano. Isso fez dele também uma presença muito marcante nas nossas vidas, porque falava de nós. Isso era muito importante, criando uma coisa muito original a que nós provavelmente não somos muito sensíveis, mas era uma espécie de contaminação da ficção pela linguagem poética. E isso foi muito marcante.

Francisco José Viegas a recordar também António Lobo Antunes, um dos muitos testemunhos que recolhemos ao longo da última hora aqui na Rádio Observador.

A notícia da morte de António Lobo Antunes vai merecendo também reações vindas de vários setores da sociedade, a passar pela política e, Luís, até ao desporto.

E connosco em estúdio está o Carlos Pedro, que tem estado a olhar precisamente para essas reações e que destaca esta hora, Carlos, também para a reação do primeiro-ministro.

Luís Montenegro recordou António Lobo Antunes como uma figura maior da cultura portuguesa, dizendo que o legado deve continuar a inquietar e a inspirar todos. Expressou ainda, em seu nome e do governo, as mais sentidas condolências à família e aos amigos. Através da rede social X, também Margarida Balseiro Lopes lamenta a morte do escritor maior de Portugal. Palavras da ministra da Cultura, que fala num intérprete sensível e incomparável da condição humana. Deixa um legado brilhante e inesquecível, escreve Margarida Balseiro Lopes. Também de dentro do Executivo surge a reação do ministro dos Negócios Estrangeiros. Paulo Rangel fala numa ferida de guerra. Destaca a lucidez do autor, também descrito por Paulo Rangel como o nome maior da língua portuguesa. O secretário-geral do PS refere uma perda irreparável para a literatura e cultura portuguesa. José Luís Carneiro diz-se triste, mas fala num compromisso que fica com esta morte, compromisso esse enquanto sociedade, o de ensinar às futuras gerações a obra de António Lobo Antunes. O impacto é inegável de Lobo Antunes nas várias áreas da sociedade. No desporto, o Benfica já lamentou a morte de um dos maiores ou mais ilustres adeptos do clube, escreve em comunicado. As Águias recordam também as declarações de António Lobo Antunes ao jornal Record em 2014, quando o escritor assumiu que tinha como objetivo ser o Águas da literatura, numa referência a José Águas. Ainda a editora do escritor, a Dom Quixote, lamenta a morte de um autor de romances que ficarão para sempre na memória dos leitores e admiradores. Destaca também a vasta obra de Lobo Antunes, cuja importância ultrapassou fronteiras. Aliás, não é por acaso que a notícia já corre o mundo, já chegou a Espanha, é destaque da agência de notícias EFE, do El Mundo e do El Diario, também da Rádio Cadena SER. Também em França, com o Le Figaro e a RFI, a Rádio França Internacional, a dar conta da morte do autor português. Reação também de Roberto Ampuero, escritor e ex-ministro do Conselho Nacional da Cultura e das Artes do Chile. Através da rede social X, descreve Lobo Antunes como um dos maiores da literatura europeia no pós-guerra.

Nas primeiras reações à morte de António Lobo Antunes, aqui com o Carlos Pedro, há mais uma que chega também nesta altura por parte do Presidente da República eleito, António José Seguro, que recebeu com enorme tristeza esta notícia da morte de António Lobo Antunes, cuja obra considerou profundamente marcada pela lucidez e exigência moral para com o país e a condição humana. É a mais recente reação de António José Seguro. É um tema que naturalmente vamos continuar a acompanhar, as reações à morte de António Lobo Antunes ao longo das próximas horas aqui na Rádio Observador