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Continuamos aqui na Feira Nacional de Agricultura em Santarém, onde até ao próximo domingo se dá a mostrar o melhor do país do ponto de vista agrícola. É uma oportunidade para os agricultores trocarem ideias, tomarem conhecimento do que anda a concorrência a fazer, para estabelecerem também parcerias e até para se atualizarem do ponto de vista tecnológico, uma vez que há aqui expositores com maquinaria, serviços, etc. Há muito para ver, também para provar. Já falaremos disso ao longo da tarde. A feira este ano, como dizia há instantes o Nelson, é dedicada à pecuária extensiva. Que força de natureza é esta que povoa uma parte significativa do território português? É o que vamos perceber ao longo da próxima hora. São convidados para o debate Nuno Paulo, representante da Associação de Criadores da Raça Mirandesa, também Joaquim Capolas, da CAP e simultaneamente Associação dos Produtores do Mundo Rural da Região de Montemor-o-Novo, ainda Luís Miguel Bagulho, representante da Associação dos Criadores da Raça Alentejana ou Carne Alentejana, e Nuno Faustino, da Associação dos Criadores do Porco Alentejano. Muito boa tarde a todos. Nuno Paulo, começava talvez por si. A raça mirandesa está bem de saúde e recomenda-se?

A raça mirandesa, antes de mais, cumprimentar o auditório e agradecer o convite. A raça mirandesa tem trabalhado, tem-se esforçado, mas não está imune às grandes dificuldades que o setor atravessa, nomeadamente esta nova PAC, que não trouxe nada de bom, mas sobretudo pela necessidade que existe de renovar o tecido produtivo. Hoje debatemo-nos com as dificuldades normais do setor, aliada a um envelhecimento daqueles que a produzem. Temos necessidade de virar esta página. Não é fácil. Muito temos que trabalhar. O que é certo é que cada vez mais faz sentido apostar nas raças autóctones e cada vez mais faz sentido apostar no regime extensivo. Hoje, as zonas do interior, em particular todas as zonas de montanha, necessitam de pastoreio extensivo. Os incêndios são uma imagem daquilo que se traduz no abandono agrícola e há muito trabalho a fazer nesse sentido. Portanto, não nos podemos esquecer da importância do pastoreio na incorporação da matéria orgânica, no controle natural da vegetação, na autorregeneração, digamos assim, e fundamentalmente na preservação dos parques naturais, porque fala-se muito em turismo, fala-se muito em gastronomia, mas esquecemo-nos muitas e muitas vezes daquilo que é a essência e aquilo que é o recurso endógeno, que muitas vezes deixámos e que desperdiçámos e que deixámos perder.

Muito bem, vamos ter a oportunidade na próxima hora de falar sobre os benefícios da pecuária extensiva. É, de resto, o tema deste painel de discussão na Rádio Observador, em direto da Feira Nacional de Agricultura. Temos aqui três representantes do Alentejo. Joaquim Capolas, o que tem a dizer sobre a produção extensiva na sua região, região de Montemor-o-Novo? É uma atividade atrativa?

Boa tarde a todos. Muito obrigado pelo convite também. Montemor-o-Novo é o sétimo conselho do país em dimensão, mas é o maior em efetivo pecuário, porque beneficia de um clima que na nossa região alentejana é talvez o microclima que mais favorece as pastagens e a vegetação propícia para o pastoreio, a boa qualidade da erva.

Que é mais fresco que o resto do Alentejo.

É, há uns microclimas, porque por alguma razão Montemor tem o maior efetivo pecuário das espécies do extensivo, exatamente por isso. Podemos dizer que Montemor, nesta altura, beneficia também da sua centralidade. As zonas no Alentejo também. Tem o maior leilão de gado do país. E também tem a maior mostra de gado na nossa Feira da Luz Pomor, que geralmente é entre o fim de agosto e o princípio de setembro. É muito superior em número de efetivos em relação a qualquer outra feira do país. Em cada ano temos uma raça do ano. Este ano vai ser o ano da raça Limusine. Agora, sofre dos mesmos problemas que já foram aqui explicados pelo Paulo, que foi a falta de reconhecimento da agricultura e também do setor da pecuária. As secas que ciclicamente nos atacam, sem termos as medidas compensatórias que outros países têm, principalmente Espanha. Tivemos dois anos de seca, tivemos este ano, o fim do ano anterior e até agora, um ano muito favorável para a produção forrageira, que vamos ver se compensa. Agora, só queria dizer é que se não houver pecuária extensiva e pastoreio, todo o mundo rural e urbano vai sofrer muito com aquilo que já foi aqui explicado.

Sendo que uma das consequências diretas é os incêndios.

É os incêndios e as espécies invasoras

Tanto na fauna selvagem como na flora vão invadir também cada vez mais as zonas que parecem mais protegidas, que são as zonas urbanas, e toda a gente vai sofrer muito.

Luís Miguel Bagulho também partilha da opinião do Joaquim Capoulas. Os produtores de raça ou de carne alentejana também têm problemas em rejuvenescer o seu tecido empresarial, enfrentam as mesmas dificuldades que os produtores do microclima do Montemor-o-Novo?

Com certeza que sim, a exemplo da raça mirandesa. Acho que há uma quantidade de fatores que jogam contra a pecuária extensiva, a começar por este PEPAC, que retirou cerca de trinta e tal por cento do rendimento das explorações do extensivo. O extensivo é a atividade mais penalizada deste PEPAC. As pessoas têm a convicção que o Alqueva vai resolver todos os problemas, nomeadamente do Alentejo. O regadio em Portugal representa cerca de 15% da área do país, portanto os outros 85% não são regadio. Ainda outro dia ouvi um amigo meu falar de agricultura empresarial. Bom, eu sou empresário, sou empresário do sequeiro e não tive a sorte que me pusessem uma barragem à porta e um canal de rega que muito valorizaria e que me permitiria ter outras opções. Mas o sequeiro e o extensivo não têm outras opções. E é aí que estão as populações mais desfavorecidas, as populações mais idosas, que muito trabalharam com raças autóctones e quando desapareceram os animais, o que aconteceu? Vieram as árvores, depois queixam-se dos eucaliptos, queixam-se não sei o quê. Mas enfim, as pessoas fazem aquilo que têm a capacidade. Quando um velho de 80 anos já não consegue andar atrás das ovelhas ou das vacas, a opção mais racional do ponto de vista económico seria fazer uma coisa dessas. Isto não pode acontecer, mas isto é um problema que transcende o aspeto meramente agrícola, isto é um problema de coesão social. Os jovens não vão para a agricultura. Eu sou de Elvas. Como não vêm em Elvas jovens médicos, jovens arquitetos, jovens engenheiros, não vêm porque não têm cinemas, porque os hospitais perdem valências, porque acabaram com as maternidades, os tribunais desapareceram, porque a EDP deixou de ter coisa e é uma loja que os representa, os CTT ideais. Enfim, este é um problema muito mais vasto.

É um ciclo quase autodestrutivo, não é?

É autodestrutivo. As pessoas hoje em dia não vão para um monte ou para uma coisa qualquer com aquele espírito romântico do urbano. E há uma dissociação tremenda entre a cidade e o campo.

Falámos sobre isso aqui esta manhã no "Contra Corrente" da Rádio Observador.

É, mas é que há uma dissociação de valores. Eu vivi 30 anos em Lisboa e estou muito bem em Lisboa, mas sou de Elvas e vivi sempre lá. Dos meus amigos, da minha geração, eu tenho 60 anos, voltaram quatro ou cinco. Da geração dos meus filhos não voltou nenhum. E isto é que é um problema, porque as pessoas hoje podem viver no campo, podem se dedicar à agricultura, mas têm que ter alguns confortos e alguma assistência e têm que ter um cinema, têm que ter um teatro, têm outro tipo de exigências, têm que ter um bom hospital, têm que ter uma maternidade. Quando racionalizamos os custos, e racionalizamos sempre à custa dos do interior, porque não temos votos. O Alentejo representa um terço da superfície do país e tem sete deputados. E as outras regiões do interior. Portanto, como dizia o meu amigo Jaime Piçarra outro dia, a comida ou a agricultura não dá votos, mas se calhar a falta de comida é capaz de dar ou de tirar a muita gente. Mas como os políticos não querem olhar para isso, enquanto não se dedicarem, de facto, a analisar o porquê que a população se desloca para o litoral, não há forma de resolver este assunto. Isto não é meramente agrícola, isto é um problema social e é um problema que tem que ser abordado e tem que ser encarado de frente. E é isso que nós temos que fazer, a meu ver.

Nuno Faustino, representando os criadores de porco alentejano, dirá o mesmo que diz o seu colega Luís Miguel Bagulho?

Boa tarde, em primeiro lugar.

Faz o mesmo diagnóstico.

Sim, agradecer o convite e cumprimentar o auditório, se me permite. É verdade, concordo plenamente. É, de facto, um problema não é apenas da falta de atratividade que o setor agrícola, sobretudo a pecuária extensiva, tem para os jovens. De facto, temos uma população agrícola das mais envelhecidas da Europa, mas é um problema mais amplo e mais abrangente. Começa logo, se calhar, por uma questão de falta de um vasto território, como disse aqui o colega, que tem apenas sete ou nove deputados, nem sei precisar. Portalegre, Évora e Beja. Acho que é três cada um.

Não, Portalegre tem dois.

Tem dois? Então é oito.

Beja acho que tem dois e Évora tem três, são nove.

Não, Beja tem três também.

Tem três também?

Então são oito. São oito deputados. Quer dizer, um vasto território apenas consegue ter oito representantes na Assembleia da República. Isto para dizer o quê? Que obviamente estamos a ser mandados, digamos assim, ou melhor, comandados pelos urbanos, pelo mundo urbano, que é que dita as regras com que se rege o mundo rural. Ou seja, não temos voz, não temos peso político suficiente para fazer valer os nossos problemas. A questão também da falta de algumas questões básicas para atrair pessoas, como disse o colega aí bem, o ensino, a saúde, são fatores essenciais, cruciais. Ninguém quer vir para um território onde não há uma boa escola para constituir família, se não houver escola para os filhos, se não houver saúde para a maternidade, enfim, para bons cuidados básicos, que hoje é necessário no contexto de vida que temos atualmente. De facto, o problema é maior, mas a pecuária extensiva é importantíssima nos territórios. Como disse o colega também, o Alqueva é apenas o regadio, representa 15% do território, mas a grande maioria do território continua a ser e está condenado a ser de sequeiro. Pelo menos não se prevê nada no curto e médio prazo que altere este paradigma. Portanto Estas explorações foram e estão a ser muito penalizadas na atual PAC. Viram os seus rendimentos esmagados e muito pressionados, sobretudo agora no último contexto de guerra da Ucrânia e da pandemia que agravou em muito a situação, agravado com as alterações climáticas, nomeadamente a seca, que retirou grande rendimento dessas explorações.

Mas ainda assim continua a ser uma atividade económica rentável ou não?

Continua a ter alguma rentabilidade, senão nós não podíamos estar aqui, como é óbvio, não podíamos continuar. Há uma dificuldade também que temos em valorizar as nossas produções. Nós não conseguimos competir em grandes quantidades, em produções de escala, de grande dimensão, como podem as explorações do regadio. Mas temos produções de altíssima qualidade. As nossas raças autóctones são um património genético de elevadíssima qualidade e elevado património nacional. Faz falta preservar, é necessário apoiar condignamente as raças autóctones e esta gente que se dedica a esta agricultura extensiva de pecuária extensiva das raças autóctones.

Nuno Paulo padece do mesmo problema lá em Mirandela, que padecem aqui os seus colegas do Alentejo.

Mirandela não, Miranda do Douro.

Miranda do Douro, peço desculpa.

Sim, comungo e partilho da ideia de todas as intervenções, focando talvez aqui o aspecto que me parece relevante. A falta de vontade política é algo que nos persegue há algum tempo. Todas as regiões do interior aqui faladas são aquelas que, através das pastagens, através das zonas quer de montanha, quer de sequeiro, é necessário fazer uma intervenção profunda, porque isto tudo é um ciclo.

E essa intervenção profunda passa por quê?

Para já, passa por um apoio diferenciado dessas regiões. Falou-se, e é verdade, que é difícil ter técnicos nas vastas áreas no interior do país. Mas se falarmos no setor agrícola, a situação ainda é mais grave, porque é muito difícil um produtor, hoje, que queira investir na agricultura, se não tiver um passado agrícola, formar-se e ir trabalhar para o setor agrícola, porque os investimentos são muitos. Uma pessoa tira outros cursos, advocacia, economia, aluga um escritório e põe-se a trabalhar no dia a seguir. A agricultura não é assim. E a responsabilidade que nós temos para com o país, na preservação quer dos recursos genéticos, quer na preservação do meio ambiente, é algo que não somos valorizados por isso.

Deveriam ser pagos por esse serviço que prestam?

Eu não tenho dúvidas que deveríamos ser ajudados nesse sentido. As ajudas que dão à agricultura extensiva, que foram diminuídas de uma forma drástica, estão se a esquecer do contributo que o nosso trabalho faz nestas regiões. Porque nestas regiões, se as raças desaparecerem, se o pastoreio extensivo desaparecer, estamos a falar que daqui a 10 anos temos um problema grave a nível nacional. Não é só no território do interior do país, não é só no Alentejo, é a nível nacional. E o país não é o litoral. O país é um todo, é uma questão de coesão e há que tomar decisões políticas e, neste momento, há que olhar para a agricultura extensiva, não numa perspetiva, mas simplesmente de uma conservação de futuro.

Já agora, Joaquim Capelas, há mais pecuária extensiva no Alentejo ou não? Quando olhamos para o país.

Os efetivos da pecuária extensiva diminuíram muito em 2022 e em 2023, e essa descida dos efetivos continua em 2024. Houve produtores que trocaram a produção pecuária, que não têm rentabilidade, que têm agora as novas culturas ligadas ao regadio do Alqueva, o olival e o amendoal, e venderam animais para deixar áreas disponíveis para essas culturas. Houve outros também que para fazer face à seca, tiveram que vender uma parte dos efetivos pra alimentar os outros. Agora, aquilo que já aqui foi falado, no caso do Alentejo, que tem oito deputados em 230, que é a região com maior concentração do pastoreio extensivo.

Está sobrerrepresentada, na sua opinião.

Ainda por cima, no último governo, era o último lugar daquilo do governo, que representava que não tinha qualquer prioridade para a política que estava a ser implementada. Agora subiu um lugar também, passou do 16º para o 15º lugar.

Mas resolveria alguma coisa na agricultura portuguesa ter mais deputados eleitos do chamado mundo rural ou do interior?

Pelo menos levaria a falar-se mais, a atender mais aos problemas. E agora ainda outra coisa. Houve agora as eleições para o Parlamento Europeu, não há um único deputado, estive a ver as listas todas, de todos os partidos que elegeram deputados, não há um único que seja ligado ao setor agrícola. No último Parlamento Europeu havia um que era o do PAN. Ora, veja lá como é que a representação portuguesa no Parlamento Europeu e nas instâncias europeias, enfim, que tínhamos lá o deputado José Manuel Fernandes, que agora é ministro.

Há de vir aqui esta tarde.

Que ainda lutou pela agricultura e pela pecuária nacional.

Posso deduzir que está muito pessimista em relação ao mandato dos próximos eurodeputados portugueses.

Achei que não houve a devida atenção ao setor primário, à pecuária extensiva e aos restantes setores da agricultura. Não houve, porque senão, isso tinha que se repercutir em alguma pessoa que tivesse conhecimentos para nos representar.

O que é que deveria ter sido feito e o que é que tem que ser feito nos próximos tempos?

Olha, primeiro de tudo, é rever o PEPAC. O PEPAC foi um atentado ao setor do sequeiro.

O PEPAC 23/27.

Ao setor do sequeiro. O setor agro-silvo-pastoril representa 64% da área agrícola útil do país. E foi desprezada. Como disse o Luís Miguel Bagulho, 15% é o regadio, mas regadio são pequenas parcelas, pequenas zonas, é o Vale do Mondego, é o Vale do Sorraia, é o Alqueva, é a zona do Odemira, onde há umas culturas mais de estufa. Agora, a grande área é o sequeiro e é isso que foi totalmente desprezado. As ajudas da PAC foram muito reduzidas e a única solução que temos é valorizar os nossos produtos, se ainda houver gente com coragem e com a capacidade para o fazer.

Luís Miguel Bagulho, vamos entrar aqui num novo ciclo político, no que à Europa diz respeito, o que é que espera e o que é que tem que ser feito em benefício da pecuária extensiva, enfim, também dos agricultores portugueses?

Eu acho que tem que haver uma mudança de paradigma e perceber o que é que os agricultores do extensivo oferecem à sociedade. E a verdade é que os agricultores do extensivo, muitos deles com raças autóctones, não, mas são pessoas que tratam da paisagem, tratam do ambiente. Porque já caímos no ridículo de ter uma vaca toda encartilhada num outdoor ao pé do aeroporto, onde estão os combustíveis fósseis e cada avião daqueles que consome e emite uma série de emissões que não tem comparação. As vacas agora são o grande problema, não é as vacas, são todos os ruminantes. Eu tenho dúvidas que isso seja um problema, porque o número de animais está a diminuir. E hoje não há mais animais, não há mais ruminantes do que havia há 100 anos atrás. Nem em Portugal, nem em África, nem nos outros continentes. E a verdade é que a atmosfera é só uma, não é só de Portugal. Nós tínhamos um ministro do Ambiente que achava que aquilo era um túnel e que estava lá acima só a nossa emissão, mas não é bem assim. Feliz ou infelizmente, porque os grandes poluidores estão fora de tudo quanto é acordos. Quer dizer, os Estados Unidos, a Rússia, a China, a Índia, estão fora de tudo, a Europa é que agora é a mãe de todos os problemas. E temos que explicar às pessoas o que é que faz a agricultura extensiva. É que não é só isso. É que os animais, e nomeadamente raças autóctones, quando agora estamos a assistir no Vale do Foz Côa os tauros, e agora vêm bisontes não sei de onde. É pá, liguem um bocadinho às raças autóctones que elas fazem esse serviço e fazem um serviço muito importante para a comunidade.

Está a falar da introdução de bisontes em Portugal.

Eu acho fantástico. Podem ir buscar gnus à África, também ganham as mesmas, mas enfim. Há raças autóctones que as pessoas não têm noção. Enquanto estamos preocupados com a extinção do elefante e não sei o quê, que as raças domésticas da Europa, no final do século XIX e no princípio do século XX, extinguiu mais de 60% das raças de galinhas, de porcos, de vacas. Enfim, esses são animais que comem, os ruminantes, nomeadamente, têm grandes virtudes, não é só emissores de metano. É que comem alimentos fibrosos, comem palhas, pastos que não tinham nenhuma aptidão para alimentação humana ou de outras espécies, e conseguem, a partir desses alimentos fibrosos, criar proteína de grande qualidade e não competem com os seres humanos pelo consumo dos cereais, que é o grande problema que já está na fome das pessoas. É que há uns anos produzíamos alimentos suficientes para o mundo, para os seus habitantes, mas eram mal distribuídos. Hoje em dia, no dia 30 de maio, acabaram-se os alimentos que nós fomos capazes de produzir para este ano, portanto, estamos a viver das reservas. Isto tem que levar a algum lado. Essa capacidade de produzir proteína de excelente qualidade a partir de alimentos fibrosos é uma riqueza que só os ruminantes conferem à sociedade. Depois temos a fixação das populações, temos a história que foi muito bem referida dos incêndios, pelos meus dois companheiros de painel, e temos uma série de reservas do património genético. Portugal, agora veio uma notícia ontem por causa das sementes, na parte animal é exatamente o mesmo. O banco de germoplasma animal também é muito importante. Com as alterações climáticas, sob evidência, houve também uma série de vetores. O que é que são os vetores? São os insetos, são as carraças, são os mosquitos, são as moscas, que vieram trazer uma série de doenças que estavam extintas na Europa. Isto é perigoso, até para os humanos, vamos ter dengue e vamos ter aquelas doenças que só apareciam ali no Uganda e na África Central. E esses animais têm reservas de genes que lhes permitem, provavelmente, porque não é a primeira vez que estão a enfrentar isto, resistir a esse tipo de alterações. Isso é um problema que se põe todos os dias.

Temos que valorizar esse património genético, como dizia. Nuno Faustino, sente o mesmo, os criadores de porco alentejano sentem as mesmas dificuldades?

Sim, o porco alentejano, neste momento, pra lhe dar uma ideia, está no grau de maior ameaça a nível das raças autóctones, ou seja, está com o efetivo reduzido, com menos de 5 mil animais reprodutores no efetivo nacional

Quando uma população autóctone atinge esse nível, neste caso do porco, o grau de ameaça é máximo de extinção. O prémio é o maior para apoiar a raça, o prémio a nível da medida agroambiental das raças autóctones, para tentar combater este desinteresse que houve na raça. E este desinteresse que houve na raça teve a ver, sobretudo, com questões de mercado, muito na questão do Covid e da guerra da Ucrânia, em que houve variadíssimos problemas, sobretudo no Covid, com quebras de consumo, porque esta raça maioritariamente é exportada para a Espanha, para a indústria espanhola de presuntos de alta qualidade, e também com o facto do aumento do custo de produção. Basicamente, isto esmagou um bocado a raça e fez os criadores serem forçados a reduzir efetivos. Aumento do custo de produção, baixa de interesse por parte da indústria, porque não conseguia escoar presuntos, não havia necessidade de repor estoques e houve aqui uma conjugação de fatores negativa para extinção da raça. Mas dizendo-lhe aqui, relativamente às políticas agrícolas. De facto, é lamentável que em todos os debates que houve relativamente às várias forças políticas que concorreram agora à Europa, que não houvesse preocupação com o mundo rural e com o setor agrícola. Isto revela, de facto, o pouco interesse que os nossos dirigentes têm para o setor. E depois temos a repercussão disso. Se não há interesse por parte dessa gente, não há políticas agrícolas que olhem para o território, para as diferenças dos territórios e que apoiem os setores mais carenciados, onde faz falta mais verba, onde é necessário mais apoio. Isto não pode ser tudo chapa cinco ou não devia ser chapa cinco, deveria-se diferenciar os apoios consoante as necessidades do território e as especificidades dos territórios.

Muito bem. Temos poucos minutos até ao final deste debate. Gostava de vos ouvir a todos. Nós vamos ter aqui o ministro da Agricultura em direto, a partir da Feira Nacional de Agricultura, neste estúdio que nós montamos para fazer a emissão hoje. Nuno Paulo, que pergunta faria ao novo ministro da Agricultura e que garantia gostava que o novo ministro deixasse aqui em direto para os produtores de raça mirandesa?

A questão acho que é muito simples. Reveja, por favor, o PEPAC. Acho que isso que é algo crucial para o futuro da agricultura, para a valorização de todo o setor e, em particular, o setor da agricultura pecuária, da agropecuária extensiva. Essa é a grande questão. Espero que o ministro tenha essa sensibilidade, porque corremos sérios riscos de o abandono, que já foi aqui referido, que anda neste momento acima dos 40%, segundo os números que vão chegando. No caso concreto da nossa raça, anda nos 20% e todos os investimentos que foram feitos, todos os produtores que estão no ativo, vai ser difícil terem uma atividade produtiva que seja competitiva e consigam manter geracionalmente a atividade.

Joaquim Capolas, tem a oportunidade de fazer uma pergunta ao ministro da Agricultura ou de fazer um pedido, qual é?

Um deles era a revisão do PEPAC, o que é que está previsto. Sabemos que há medidas que estão a ser e que já foram propostas, pelo menos pela CAP, e em que medidas estão a ser aceites. E depois também, algo que nos preocupa muito, que é sabermos se uma promessa que nos foi feita, que era a reversão das direções regionais da agricultura, que foram incluídas na CCGDR, se isso ainda há alguma hipótese de acontecer ou, como diz o ministro, que agora não me recordo do nome, da Coesão. É um caso arrumado e nós preocupamo-nos muito pela questão da gestão dos fundos comunitários. Eu entendo que nós, produtores pecuários, temos que valorizar os nossos produtos, temos que saber valorizá-los, porque penso que no futuro isto vai ser uma parte importante do nosso rendimento. Mas também, como disse o Luís Miguel Bagulho, nós prestamos um serviço à população, defendemos o ecossistema, ocupamos e defendemos o território e esse serviço de ecossistema também deve ser reconhecido que não é um subsídio, é uma ajuda para nós conseguirmos fazer aquele trabalho de proteção do ambiente.

Luís Miguel Bagulho, o que o ministro deve decidir já amanhã em benefício dos produtores pecuários no regime?

As duas coisas já faladas, a revisão do PEPAC, a volta das direções regionais da agricultura, conforme foi prometido durante a campanha eleitoral pelo senhor prime ministro, e sobretudo uma coisa: nós queremos políticas amigas do ambiente, políticas amigas da sustentabilidade, temos políticas amigas de tudo e mais alguma coisa. Nós queremos ter um ministro amigo dos agricultores e que o senhor ministro, o seu ministério, os seus funcionários, não se esqueçam que sem agricultores e contra os agricultores, não vale a pena haver ministério.

Nuno Faustino, a mesma pergunta.

Concordo plenamente. A revisão do PEPAC, a questão das direções regionais voltarem, a direção regional tem um papel determinante na questão da gestão do território agrícola. E uma questão para nós mais a sul é essencial é a água. As últimas secas dos últimos anos vieram demonstrar claramente que a tendência é de seca. Este ano, felizmente, a coisa correu bem, foi um ano excelente em termos de precipitação, houve boas pastagens, mas as regiões mais a sul têm, de facto, um problema, uma tendência de seca. Portanto, para haver continuidade da agricultura extensiva nestes territórios, é necessário que alguma água chegue a estes territórios para permitir um mínimo a nível de produção forrageira nessas explorações. Obviamente, não será possível regar todas as explorações do Sequeiro.

Não terão o microclima de Montemor-o-Novo, mas pelo menos alguma água no chão.

Infelizmente, não temos. Gostaríamos de ter, mas não temos. De facto, chove muito menos em Ourique e no sul do que chove em Montemor. Mas era necessário fazer aquilo que se chama o Sequeiro ajudado, ou seja, não é fazer regadio puro e duro com os problemas de rega, mas sim dotar as explorações de sequeiro de alguma água para ajudar uma cultura forrageira, para poder produzir fenos, para poder fazer pastagem, para ser mais resiliente para os anos de grandes secas.

Muito bem. Estamos em direto. É muito provável que o ministro esteja a vir aqui para Santarém ouvir esta emissão em direto da Rádio Observador. Portanto, espero que tenha tomado nota dos vossos pedidos e das vossas reivindicações. Muito obrigado a todos por terem deslocado aqui.

Muito obrigado.

E foi muito rico este debate. Muito obrigado.

Muito obrigado.