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Temos ao telefone agora o economista António Nogueira Leite para nos ajudar a olhar para esta decisão. Boa tarde, António, muito obrigado por se juntar também a nós. Como é que analisa esta escolha do governo por Álvaro Santos Pereira para governador do Banco de Portugal?

Boa tarde. Eu acho que é uma pessoa que reúne as capacidades necessárias para o exercício da função. Não tem, nem de perto nem de longe, qualquer espécie de potenciais conflitos de interesse, o que também é bom. Vem de uma reputada organização internacional da qual Portugal historicamente faz parte numa posição muito importante, Chief Economist. Mostrou ser uma pessoa bastante independente, de cabeça, mesmo quando esteve no governo. E, portanto, nesse sentido, parece que ele reúne as condições necessárias para poder vir a ser um bom governador.

Receia que se levante aqui a mesma questão que aconteceu com o Mário Centeno, sendo que, no caso de Mário Centeno, transitou praticamente de forma direta das finanças para governador. Álvaro Santos Pereira foi ministro ainda que há uma década. Teme que se coloque aqui também a questão da independência neste cargo de governador do Banco de Portugal?

Não, se colocar neste caso a questão da independência, então temos que ir a Marte buscar alguém, partindo do princípio que lá existe alguém. Porque Álvaro Santos Pereira foi ministro de uma pasta que não tem relação direta com o Banco de Portugal, ao contrário das finanças, e depois dele já houve vários governos, vários ministros da economia. Portanto, nós devemos ser muito cuidadosos com os conflitos de interesse, mas também não devemos exagerar, sob pena de não conseguirmos nunca mais contratar ninguém com o mínimo de capacidades para qualquer lugar relevante. Sendo que muitas das pessoas neste momento já não estão sequer dispostas ao escrutínio, porque sabem que ele é feito muitas vezes com base em suposições que até podem passar bem nos mídia, mas que não fazem sentido profissionalmente e, portanto, não estão para se expor. Ainda bem que pelo menos o professor Álvaro Santos Pereira estava disponível, porque tem capacidade para o lugar.

E como é que olha para o fato de Mário Centeno não ter sido reconduzido, sendo que ainda há pouco ouvimos também José Luís Carneiro lembrar que é a primeira vez que um governador do Banco de Portugal não é reconduzido para um segundo mandato?

Se fosse como o doutor José Luís Carneiro quer, então o mandato deveria ter 10 anos. Os mandatos têm cinco anos e são nomeados pelo governo após o presidente da República, é um não assunto. E o doutor José Luís Carneiro devia ter um bocado de cuidado, porque ele foi de um governo que permitiu algo que, embora tivesse passado bem entre os banqueiros, não passou bem na comunidade acadêmica e noutros sítios, que foi o doutor Mário Centeno ter feito uma passagem direta de ministro para governador do Banco de Portugal. É certo que depois foi um bom governador, assim como já tinha sido um ministro bom dentro das circunstâncias a que estava sujeito, mas num conflito de interesses como eu não me lembro desde o tempo em que o Banco Central ainda não era independente. Neste momento, independente no euro, a entrada do Ministro das Finanças para o banco, que no regulamento que o PS fez aprovar, se mantém como possível, porque os conflitos põem-se, por exemplo, com alguém que tenha feito uma consultoria com um banco estrangeiro no âmbito do sistema monetário europeu, mas não se põem para quem é ministro. Enfim, não tem grande autoridade para vir falar das práticas do passado, até porque o que interessa é saber se o candidato é suficientemente independente, se reúne as condições, se nos dá garantias, tanto quanto é possível, pessoais, de competência e de independência para levar acabo o lugar.