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Vamos ao encontro do especialista em Direito Internacional, Francisco Pereira Coutinho, que está agora em directo nesta emissão especial da Rádio Observador. Francisco, bom dia. Tudo aponta, de facto, para uma vitória do Trump nesta altura. A confirmar-se, já falamos que o presidente dos Estados Unidos tem impacto no resto do mundo, que influência pode ter esta mudança de morador na Casa Branca?

Muito bom dia. Vamos ter uma nova administração, aliás, um regresso a uma administração que já conhecemos.

É verdade.

Temos aqui esta vantagem, que temos uma repetição de uma nova presidência de Donald Trump. Não sabemos exatamente o que isto vai significar.

Porque o mundo mudou muito entretanto também, não é, Francisco?

O mundo mudou e há um aspecto que é importante tentar explicar aquilo que aconteceu. Em primeiro lugar, temos aqui uma vitória clara, histórica dos Republicanos. Eles vão controlar o poder executivo e também o poder legislativo, porque a vitória no Senado é certa e a vitória na Câmara dos Representantes também é muitíssimo provável. E os americanos votaram nos Republicanos por razões de política interna. Portanto, aquilo que Trump falou sobre política externa não teve qualquer tipo de influência no voto das pessoas. Agora, aquilo que o Trump falou que iria fazer, vamos ver. Ele disse que iria resolver a guerra na Ucrânia antes de tomar posse, portanto antes de janeiro. Enfim, veremos o que vai acontecer.

Deixa-me interromper, Francisco, porque a CNN acaba de dar Donald Trump como vencedor no estado da Pensilvânia. Pensilvânia, estado superchave, superestado nesta corrida eleitoral e a CNN Internacional acaba de avançar com Trump como vencedor na Pensilvânia. Peço desculpa, Francisco, por ter interrompido.

É interessante essa notícia, porque ele vai ganhar em todos os swing states, muito provavelmente, neste momento.

Sim, está muito bem encaminhado para isso.

Sim, e não será hoje ou amanhã que vamos saber isso, porque, por exemplo, no Arizona vão demorar ainda vários dias a contar o voto por correspondência, mas no final, com elevada probabilidade, será aquilo que os americanos chamam um sweep, portanto, uma vitória em toda a linha.

Nós podemos traduzir por vassourada.

Sim, uma vassourada. E outra coisa, é muito provável que ele ganhe no voto popular, ou seja, a legitimidade resultante desta eleição é muito superior àquela que ele teve em 2016, em que perdeu para Hillary Clinton no voto popular. Em qualquer país normal, com um sistema democrático representativo, o presidente é escolhido pela pluralidade de votos. Não é o caso dos Estados Unidos, por razões que têm a ver com a criação do Estado no século XVIII e a impossibilidade de alterar a Constituição, mas é muito possível que ele até vença no voto popular. E isso, evidentemente, tem um enorme significado político. Estava a referir em relação às questões de política externa. Ouvimos ontem uma notícia incrível de Israel. Netanyahu demitiu o ministro da Defesa, que era a pessoa que fazia a ligação com a administração Biden, e isto conjugado com esta eleição de Donald Trump, significa que, a princípio, Netanyahu e este governo de extrema-direita de Israel vão ter aqui carta-branca para fazerem o que bem entendem no Médio Oriente, inclusivamente, continuar com estes conflitos armados ou até agravá-los. No caso europeu, para nós, isto vai ser um enorme problema. Eu imagino que nos próximos dias vamos ter aqui reuniões informais ao nível dos chefes de Estado e de governo, porque vamos ter que tomar decisões muito difíceis, porque não podemos contar com os norte-americanos nos próximos quatro anos no que diz respeito à defesa da Europa e à contenção da ameaça russa.

Ou seja, voltamos aqui, Francisco, e nessas decisões difíceis e nas decisões que os estados europeus vão ter que fazer, estamos aqui a falar, sobretudo, do envolvimento da NATO? Ou também podemos falar até de políticas econômicas, das taxas alfandegárias e de uma política mais protecionista que Donald Trump tem prometido.

Sem dúvida, as duas coisas. Em primeiro lugar, a questão da defesa europeia e da questão da guerra na Ucrânia, que é aquela que nos é e que vai ter consequências imediatas, porque é preciso perceber como é que vamos caminhar daqui pra frente. Aliás, vimos o que aconteceu quando os Republicanos, no início deste ano, suspenderam a ajuda à Ucrânia. A Ucrânia esteve imediatamente dificultada no campo de batalha. O Trump teve discursos muito inflamados em relação à NATO. Agora, é preciso perceber uma coisa, quer dizer, Trump foi o presidente americano entre 2017 e 2021, numa altura de paz, e as discussões que tínhamos na NATO diziam respeito a uma organização internacional que estava em morte cerebral, segundo o presidente Macron, porque não era assim tão necessária, porque não havia uma situação de conflito armado na Europa, não é o caso em 2025, não é? E esse é que é o ponto essencial. E Trump continua a insistir que não quer que o contribuinte americano pague a defesa da Europa, tem que ser os europeus a fazê-lo, e também não está, aparentemente, muito interessado em financiar a defesa da Ucrânia, portanto, queria fazer um acordo com Vladimir Putin. É evidente que na futura administração Trump, nós vamos encontrar pessoas como Mike Pompeo, muito favoráveis à causa ucraniana e que querem dar à Ucrânia aquilo que a administração Biden não deu, portanto, mais armas, justamente para forçar Putin a uma paz justa, que é aquilo que Zelensky exige, mas depois temos pessoas como o vice-presidente Vance, que diz exatamente o contrário, que está na altura de negociar seja lá o que for, ou de capitular.

Francisco Pereira Coutinho, esse é um ponto muito interessante, porque estamos aqui sem saber o que vai acontecer nesta Mais do que provável presidência Trump que aí vem. Por outro lado, temos a experiência de ter tido Trump como presidente, e deixe-me usar esta expressão, se calhar demasiado simplista, mas o especialista aqui internacional é o Francisco, apesar de tudo, Trump foi presidente, mas o mundo não acabou. Ou seja, nos Estados Unidos, o check and balance, os pesos e contrapesos, foram funcionando e o presidente também não faz tudo o que quer. É certo que agora tem o Congresso com ele e até o Supremo, não é?

Não, e também já teve em 2017. E atenção, os checks and balances vão continuar a existir, os chamados freios e contrapesos. Os Estados Unidos são, de facto, uma democracia constitucional desde o final do século XVIII. Mas estamos verdadeiramente a brincar com o fogo. É verdade que esses freios e contrapesos conseguiram conter os instintos mais problemáticos de Donald Trump, e tivemos discussões e continuamos a ter sobre se ele é um fascista, portanto, é a qualificação técnica dele. Agora, é evidente que ele é o presidente americano, está muito limitado pela Constituição e por outros poderes. Agora, há aqui uma diferença grande. Eu há bocado via a fotografia da tomada de posse do Congresso de 2015, em 2017, e estava o Trump, e estava lá o Mike Pence e o Paul Ryan. A diferença é que agora vamos ter nas lideranças legislativas republicanas, bajuladores. Já não vamos ter pessoas que já não estão com Trump, como o caso do Pence ou o caso do Ryan. E a administração que Trump vai, em princípio, empossar, será uma administração de bajuladores, não será aquela que ele escolheu, porque ele não conhecia muita gente, ele não tinha qualquer tipo de experiência política em 2017 e, portanto, escolheu uma série de personalidades com experiência e que rapidamente muitos deles acabou por demitir, porque não faziam aquilo que ele queria. E claro, no limite, ele encontrou também muita resistência por parte das chefias militares, que impediram que ele adotasse uma série de medidas muito complicadas. Agora, aquilo que refere é muito importante, que é a questão da guerra tarifária, porque isso é um poder executivo e toda esta campanha foi baseada numa ideia muito básica de que vamos reduzir impostos e tudo isto será pago pelo resto do mundo através de tarifas alfandegárias. Isto, evidentemente, vai levar a uma guerra comercial com a China e também com a própria União Europeia. E, portanto, tudo isto é muito problemático, além de que ele prometeu que iria deportar milhões de pessoas. Há aqui uma série de promessas que vão ser cobradas também pelo seu eleitorado. É claro que ele depois tem aquele discurso que se não está a conseguir fazer aquilo que prometeu, é porque o deep state, o Estado profundo, não o está a deixar fazer. E isso vai levar a quê? A um ataque aos tais freios e contrapesos. E por isso é que esta eleição é tão problemática e por isso é que os democratas insistiram muito, sem sucesso, aparentemente, nas últimas semanas, que era a própria república, a própria democracia, que poderia estar aqui em causa numa segunda presidência Trump. E por isso é que eu hoje acordei agoniado.

Francisco, neste grupo de bajuladores, como lhe chama, como é que vai funcionar o vice-presidente? Ele pode ser um pouco contrapeso, é visto como alguém um pouco mais sensato?

Ele já foi sensato, ele é um convertido. Maria José, como todos os convertidos, é mais radical do que o presidente neste momento. Agora, é alguém muito inteligente, muito preparado, é tido como o delfim do movimento MAGA, e isso é claro. Ontem discutia-se se hoje poderia ser o fim deste movimento MAGA. Pelo contrário, esta base eleitoral que o Trump conseguiu criar levou, pela primeira vez, a uma vitória clara. Isso parece-me evidente. Há aqui vários responsáveis, a meu ver, o primeiro é o presidente Biden, ele é o grande responsável por este desastre. Francamente, há um ano devia ter-se afastado e ter permitido a uma nova geração de democratas afirmar-se com um programa político diferente. A responsabilidade disto, a meu ver, é dele. Agora, este movimento político que o Donald Trump iniciou há 10 anos, e eu lembro-me que estava nos Estados Unidos quando anuncia, creio eu, em 2016, que vai ser candidato à presidência dos Estados Unidos, ou em 2015, e toda a gente se riu, mas agora ninguém se está a rir. E o próprio Vance, na altura, era um crítico. Ele dizia, e eu concordo, que este movimento MAGA é a heroína cultural, que Trump é um fascista, totalmente de acordo. No entanto, percebeu que, de facto, as pessoas estão muito insatisfeitas, que o que aconteceu em 2016 voltou-se a repetir em 2024, exatamente nos mesmos estados, exatamente pelas mesmas razões. E, portanto, vamos ver agora, possivelmente, essa é a minha preocupação, uma presidência Trump com steroids, com muito menos reservas e restrições do que tínhamos no passado, porque ele, entretanto, tem essa experiência de governo e provavelmente vai utilizá-la para tentar avançar com uma agenda profundamente radical e com medidas e receitas completamente populistas, mas agora tem o poder executivo e vai poder implementá-las. Estamos a falar da maior potência mundial, militar e econômica, e isto vai ter consequências a nível mundial