Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É assim todas as semanas na Rádio Observador, recebemos o maestro Martim Sousa Tavares. Ele faz conosco um passeio, que é um encontro com a beleza. Olá, Martim.

Olá, como é que estás? Vamos passear?

Vamos passear, mas eu gosto muito do tema do programa desta semana, a beleza da simplicidade, porque eu acredito muito nisto.

Eu sei. Tu gostaste de um que era less is more.

Eu gosto muito disso.

Quando menos é mais. Então olha, é mesmo isso. Eu vou contar a história desta música, porque não podia deixar de ser, mas a razão principal é mesmo porque eu quero que a ouçamos. Isto tem a ver com uma coisa que aconteceu em vários países na primeira metade do século XX, que é uma vontade de reavaliar a sua própria arte popular. Isto tem a ver com nacionalismos, tem a ver com um sentimento de patriotismo. Cá em Portugal tivemo-lo, pensamos no António Ferro, naquele folclorismo da arte tradicional e de convocar os grandes artistas, os grandes pintores, etc. O Almada Negreiros fez arte nesse género, os grandes compositores. E em Inglaterra foi o mesmo, com um elemento ainda mais exacerbante que foi a guerra. E, portanto, este esforço de guerra, o esforço patriótico, é preciso unir o povo. E o engraçado é que às vezes a arte popular ganha este toque de sofisticação, mas não deixa de ser popular. E como vamos ver hoje, ela está num equilíbrio perfeito entre sofisticada e verdadeiramente simples. Vamos falar de uma música que nasce de um poema chamado "Down by the Sally Gardens", que é um poema do Yeats, de 1889, que na verdade tenta ele mesmo reconstruir umas antigas quadras que ele tinha ouvido uma senhora camponesa velhota a cantar, e achou aquilo muito bonito, mas a senhora não se lembrava exatamente como é que era a letra. Então ele fez o poema à maneira dele, inspirado naquele. E são duas quadras, é mesmo muito simples, sobre o amor perdido. E em 1920, há um compositor que agarra naquelas duas quadras e põe-nas em música com uma melodia tradicional irlandesa. Portanto, as coisas juntam-se. A poesia irlandesa muitas vezes é cantada, era cantada antigamente e, portanto, uma velha melodia para um poema inspirado numas velhas quadras. E esta melodia ficou mesmo muito famosa e há um sem número de compositores que a abordaram, desde a clássica até à Marianne Faithfull.

E aos Waterboys.

Exatamente, se és fã, mas há muitas versões do "Down by the Sally Gardens", mas a mais famosa é mesmo a do Britten, que é um compositor que nos anos de guerra está envolvido nesta corrente do patriotismo, etc. Então o que ele faz? A melodia é a mesma, ele simplesmente escreve-lhe um acompanhamento de piano por baixo, mas um acompanhamento de uma simplicidade que eu não consigo bem descrever. Uma criança de quatro anos pode tocar isto e pode cantar também. Na verdade, até se usa esta versão do Britten como um exercício para tu aprenderes a tocar piano e a cantar, tu próprio, em que as mãos estão a tocar uma coisa, tu estás a cantar outra.

Esse exercício é sempre difícil.

O desafio já não é que as mãos toquem coisas diferentes, é que as mãos toquem coisas diferentes e tu com a voz ainda cantas uma outra coisa. Esta usa-se muito para isso. E nós vamos ouvi-la. Eu vou vos ler o poema porque há uma palavra que é maravilhosa, eu quero a vossa atenção para isso. Então o poema é mesmo muito simples, eu até vou lê-lo em inglês. Diz assim: "Down by the Sally gardens, my love and I did meet; She passed the Sally gardens with little snow-white feet. She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree; But I, being young and foolish, with her did not agree." E depois a segunda quadra parecida e diz: "In a field by the river my love and I did stand, And on my leaning shoulder she laid her snow-white hand. She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs; But I was young and foolish and now am full of tears." Portanto, encontrei-me com o meu amor duas vezes. O meu amor disse-me para eu levar o amor com calma e depois para levar a vida com calma, tal como as folhas crescem nas árvores, tal como as ervas crescem na barragem, mas eu era jovem e parvo e, portanto, não concordei e agora estou cheio de lágrimas. Portanto, a palavra foolish, young and foolish. Neste foolish está toda a chave desta música. Portanto, a vossa atenção, por favor. Vai cantar o tenor Cyril Dubois, francês, e de facto, imaginem que podem um dia tocar e cantar isto sem grandes lições.

Gostei tanto.

Gostaste?

Obrigado.

Eu ouvi esta música em loop acho que 50 vezes e até pensei muito se não devia trazer aqui uma versão um bocadinho mais especial, só que a qualidade do som não é tão boa, que é tocada ao piano pelo próprio Benjamin Britten e é cantada pelo Peter Pears, que foi o seu companheiro de toda a vida. Eles morreram ambos nos anos 70, não sei se já antes ou depois da descriminalização da homossexualidade em Inglaterra, mas eles fizeram recitais a vida toda no mundo inteiro e sabia-se que eles eram um casal, mas era daquelas coisas de "don't ask, don't tell". E esta era uma das músicas que lhes pediam sempre para tocarem. E não deixa de ser bonito veres ali um casal a tocar e a cantar sobre esta canção.

Sem dúvida. E foolish é uma palavra espetacular.

É ótima para cantar, porque a sílaba "-uuh" põe-te a boca, tipo mama, e as pessoas todas: "-uuh". Estás a ver? É aquela sílaba que...

Despoleta ali a coisa.

É, é muito boa de cantar.

Cyril Dubois era a voz que ouvíamos aqui numa interpretação também ao vivo.

É verdade.

Num espetáculo, creio que para televisão.

Exatamente, creio que para a televisão francesa.

Muito bom. Gostei muito de conhecer. Ainda há dias, há aquela frase do rock: "Nada bate uma bateria, uma guitarra e um baixo". E agora fez-me lembrar: nada bate uma boa melodia, mesmo que ela tenha vindo de, se quiseres, a tradição popular.

Completamente.

É como aquelas coisas do trango mangolo, tu não sabes de onde vem, mas são muito fáceis de memorizar e ficam ali na nossa cabeça.

E podes dar-lhe a versão que quiseres. A versão da Marianne Faithfull é completamente diferente.

Não conhecia, estava a ver aqui as outras interpretações. Há aqui uma dos Waterboys também, mas é tudo malta da grandilha.

Pois, é, sim. Exatamente.

Muito bem. Este foi o "Encontro com a Beleza" esta semana, com o Martim Sousa Tavares. Acompanhe-nos também nas plataformas de podcast. Há um novo episódio todas as semanas aqui na Rádio Observador, passa ao fim de semana, com reposição às segundas-feiras. "Beleza da Simplicidade" é o título do episódio desta semana. Martim, até dia oito dias. Um abraço.

Até para a semana.