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Já tenho comigo o maestro Martim Sousa Tavares. Vai começar o encontro com a beleza. Olá, Martim.

Olá, Nelson. Quase cedi à tua pressão.

Quase?

Quase.

Ainda bem que não o fizeste.

De sininhos.

Sininhos na música clássica. Precisamos uma hora só disso.

Querias muitos sininhos. Não vamos ter sininhos, mas vamos ter um programa que faça sentido nesta quadra. Não é música natalícia, mas é incontornável. Estamos no dia 21 de dezembro, portanto, as pessoas já estão apontadas ao Natal, muitas delas até já estarão de férias nesta fase. E eu quero alguma coisa que possa enaltecer os bonitos valores desta quadra. Não estou a falar, é claro, do seu lado mais consumista ou até do seu lado religioso, mas do seu lado de partilha, do seu lado de enaltecer a esperança na paz, no bem que há de vir. E pus-me a pesquisar e dei-me conta, passando em revista os muitos episódios que já temos aqui em arquivo, que o instrumento que menos vezes aqui apareceu, pelo menos enquanto solista, é a voz cantada. Tivemos várias vezes a voz em coro, mas raras vezes a voz a cantar música clássica como deve ser.

E o que isso diz de ti, Martim?

Diz de mim que se calhar, não sei, temos muito piano, por exemplo, mas o canto clássico, o canto lírico, tivemos um episódio sobre a Maria Callas, tivemos um sobre os castrati, mas vai sendo uma coisa rara. O que eu acho? Que se calhar, para algum público, esta forma de cantar é mais difícil de apreciar. O canto lírico, a coloratura, o falseto, e eu acho que compreendo de onde é que isso vem. E confesso que muitas vezes, apreciar este tipo de música é um gosto adquirido, é como apreciar licores. Não gostas à primeira nem à segunda, tens que cultivar o teu próprio gosto e expandir a tua capacidade de aceitar coisas que não compreendes. Em todo o caso, há um estilo de canto clássico, um pouquinho mais doméstico, um pouquinho mais íntimo, que é o das canções, que em alemão se chama lied, que em francês se chamam as mélodie, que é basicamente um piano a tocar e uma voz a cantar, a contar um belo poema ou uma história interessante, e que se fazia nas soirées, nas tertúlias, antigamente. E a história da música está cheia de exemplos incríveis. O Schubert, por exemplo, escreveu centenas de canções destas. Então, para comemorar o Natal, eu vou matar duas coisas numa cajadada, porque vou, por um, ter um belíssimo lied, uma canção alemã cantada pelo Jonas Kaufmann, que é uma das grandes vozes. E quem não gostar desta forma de cantar tem vida difícil, porque isto é do mais fácil de gostar que há no canto lírico. E ao mesmo tempo, o texto que ele está a cantar é uma belíssima mensagem de paz e felicidade, que começa no poema em questão e continua na música. E a música é de quem? É do Richard Strauss.

Eu a pensar que ias trazer o André Rieu, que gostas tanto. Eu sei que tu gostas.

Eu sei. Não é o meu guilty pleasure. Não é o meu pleasure, sequer. O Richard Strauss, isto foi, em vida dele, o seu best-seller, mas post mortem, o seu best-seller é o "Assim Falava Zaratustra", que o Stanley Kubrick usa para abrir o "2001: Uma Odisseia no Espaço". Aquela cena em que o planeta Terra começa a aparecer. Exatamente, aquela música épica. Isso é do Strauss. Mas isso é de 1969, já o homem estava a comer cenoura pela raiz. No seu tempo de vida, isto foi o seu best of. Chama-se "Morgen", que quer dizer amanhã. E a música é superatmosférica, superbonita e delicada. E depois a primeira linha que se ouve cantar diz: "E amanhã o sol irá brilhar outra vez". E é um poema muito simples em alemão, da autoria de John Henry Mackay, que é uma declaração de amor e da crença no amor e na paz das coisas. Uma coisa tão simples como amanhã nós estaremos na praia a olhar o mar e olharemos um para o outro e o amor é este mesmo.

E isso é natal, Martim.

Eu acho que sim, é paz, a serenidade, é o estar bem. A música é de 1894 e originalmente até foi um presente de casamento que ele compôs pra Pauline, que também era cantora lírica e que veio a ser sua mulher toda a vida. Foi o seu best-seller, ele fez versões instrumentais, violino e piano, violoncelo e piano, há voz e piano, há orquestra em vez do piano com a voz a cantar, e ele próprio dirigiu isto imenso ao longo da sua longa vida. Há uma gravação dele ao vivo, 1947, a dirigir já com 83 anos. A vida dele é complexa, porque ele associa-se muito ao Partido Nazi, depois a guerra acaba e ele fica naquela zona estranha.

Mas foi uma oferta pra mulher.

Isto é uma oferta pra mulher, exatamente, ainda no final do século XIX.

Ou se calhar preferia um diamante, não?

Pois, nunca ouvi dizer "songs are a girl's best friend".

Exato.

Olha, não sei.

Esse também é o artifício dele. É o superpoder dele.

Mas se ele tem dado um diamante, ninguém ia saber.

É verdade.

E compôs esta música.

Deu-lhe a eternidade.

Exatamente. Estás a ver? E ainda por cima, ela infernizou-lhe a vida bastante. Eles tiveram uma relação muito divertida, as cartas deles são hilariantes. Ela não o deixava aproximar-se de nenhuma mulher, basicamente. Todas eram inimigas. Bom, vamos deixar isso pra outras núpcias e vamos ouvir então na versão clássica do lied, que é voz e piano, com o Jonas Kaufmann a cantar, Helmut Deutsch ao piano. E meus amigos, se não gostarem disto, então dediquem-se à pesca. Und morgen wird die Sonne wieder scheinen. Und auf dem Wege, den ich gehen werde, wird uns die Glücklichen sie wieder einen. Inmitten dieser sonnenatmenden Erde. Und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen, werden wir still und langsam niederfallen. Stumm werden wir uns in die Augen schauen. Und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen.

Menos é mais, não é?

Sim, e é fácil de gostar.

É fácil de gostar.

Acho que é uma boa forma de entrar no canto.

Fiquei curioso com o poema de que falavas, porque nota-se que ele é simples.

É extremamente simples.

São duas ou três coisas que ele diz.

Eu até achei que nem valia a pena lê-lo todo, porque fica a ideia. É mesmo uma declaraçãozinha de amor, uma coisa muito simples.

É engraçado também ele ter feito esta escolha, de alguma forma tinha música, queria fazê-la desta forma e encaixava. Muito bem, gostei. Ficamos com Strauss neste episódio do "Encontro com o Problema".

Foi o ho ho ho possível. Foi o que deu.

Mas é música de esperança na felicidade.

É verdade.

E isso é Natal.

É, e precisamos.

E precisamos. Para a semana estamos de regresso já depois do Natal. Por isso, bom Natal, Martim.

Bom Natal!