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Seja muito bem-vindo a mais um encontro com a beleza aqui na Rádio Observador, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares, de quem tinha saudades.

Olá! E sempre com Lorde Nelson.

É verdade. Lorde Nelson, que está ali em Trafalgar Square.

Exatamente.

Muito bem posicionado.

Horatio Nelson.

Era o Horácio?

Era. Ele era Nelson de apelido, tu és Nelson de nome.

É verdade, tudo ao contrário. E o meu é sem acento. Não sei se o dele também é.

O dele é sem acento.

Pois, é como os bons, os bons é sem acento. Como é que estás?

Estou bem.

E vamos falar de António Fragoso hoje.

Vamos. Eu vou te dar uma lista na qual ninguém quer estar.

Já estou triste, porque ele teve uma vida curta pelo que estou a perceber.

Exatamente, é disso que vamos falar. Eu vou dizer o top 10 de grandes compositores que morreram mais jovens. Uma espécie do clube dos 27, as estrelas do rock, só que para a música clássica. Então, em décimo lugar temos Chopin, que só viveu até os 39 anos. Temos Gershwin e Mendelssohn empatados, morreram aos 38. Bizet morreu aos 36. Já aqui falamos sobre ele.

Já eram velhotes nessa altura, se calhar.

Mas mesmo assim, 36 é pouco. Mozart com 35, Bellini com 33, Schubert com 31, isto continua a descer, Pergolesi com 26, Lili Boulanger com 24, António Fragoso, o nosso, com 21 e em primeiro lugar Juan Crisóstomo de Arriaga com 19 anos. Isto é o top 10 de grandes compositores que não chegaram a velhos.

Da clássica, porque o Ritchie Valens, do "La Bamba", ainda foi mais novo.

É pá, pois.

17 acho eu.

Isto é da clássica.

Este é o top da clássica.

Sim, este é o top da clássica. E é uma lista em que ninguém quer estar.

Claro.

É tristíssimo. De facto, António Fragoso morreu aos 21 anos e eu quero falar sobre quem foi este músico que nunca chegou a ser mais do que um jovem promissor. Ele é natural da Poucarissa, que fica ali na zona de Cantanhede, e nasce até numa família abastada, com contacto com as artes. E mandaram-no para o Porto estudar, não necessariamente música, mas ele nunca se sentiu em casa. Ele era um miúdo sensível. Os da idade dele provavelmente eram muito imaturos para o gosto dele e os mais velhos não o levavam a sério. Então ele lá consegue convencer a família a deixarem-no ir para Lisboa, onde se matriculou no conservatório de piano e mostrou que tinha razão, porque diplomou-se com 20 valores, nota máxima. Portanto, o miúdo era de facto brilhante. Quando ele termina o curso, estamos no verão de 1918, ele regressa à aldeia para matar saudades e dali ele ia para Paris para continuar a estudar. Estamos em 1918, Paris é o sítio para estar. "The place to be". Está tudo a acontecer lá. E ele, como aluno brilhante, ia para Paris. O que é que acontece? Oito dias antes da sua partida, do dia em que o homem ia para Paris, ele vai morrer da chamada gripe espanhola ou pneumónica, o vírus H1N1, que foi a Covid de 1918, que ceifou várias pessoas de grande valor, como veremos. No caso da família dele, isto foi uma desgraça. Morreram vários irmãos naquela família. Salvou-se apenas uma irmã, que tinha 18 anos, mais nova, que era uma bebé, que foi levada para outra aldeia, que foi posta a salvo, e cujo filho, Eduardo Fragoso, que está vivíssimo e a quem mando um abraço, montou uma associação, que é a Associação António Fragoso, que mantém viva a memória do seu tio António Fragoso, que foi unanimemente reconhecido como alguém muito promissor, mas que pela idade, é claro, e pela experiência, nunca chegou a ensaiar-se nos grandes formatos. Ele escreveu sobretudo para coro, para voz, para piano, música de câmara, miniaturas, sobretudo, coitado. Com mais idade, ele lá chegaria, mas que ele era um génio em formação, ninguém duvida. O maestro Pedro de Freitas Branco diz que o Fragoso tinha a envergadura necessária para se tornar o maior compositor português de todos os tempos. E eu também concordo. Eu acho que ele ia mesmo ser o maior de todos. Claro que é um azar dos távoras, mas há um documentário de uma hora sobre ele, se quiserem vê-lo. A música dele é mesmo muito bonita, como vão ouvir, e ele pertence àquela geração super desafortunada de artistas portugueses que podiam ter feito de Portugal um lugar muito mais vibrante, que é a geração de Orfeu, que são todos ceifados. Olha, o Fragoso, com 21 anos, morreu de pneumónica. Tínhamos um outro grande compositor, que também morre de pneumónica no mesmo ano, que era o David de Sousa, aos 38. O Amadeo de Souza-Cardoso, talvez maior pintor português do século XX, morre aos 30 anos, em 1918, também da pneumónica. O Santa-Rita Pintor, também em 1918, morre aos 28 anos de tuberculose. O Mário de Sá-Carneiro suicida-se aos 26 anos em Paris.

Chegou a Paris.

Exatamente. Até mesmo o Pessoa e o José Pacheco não chegam sequer aos 50 anos, morrem nos anos 30. Parece que desta geração toda, só o Almada Negreiros é que chega à velhice. Num país pequeno como Portugal, isto é uma desgraça. Imagina o que seria todos estes artistas a viverem 70 e 80 anos. Enfim, vamos ouvir uma gravação de uma peça de António Fragoso, tocada pelo Artur Pizarro. Isto é uma gravação caseira. Na pandemia, toda a gente ficou sem concertos, então o pianista foi para casa e disse: "Olha, giro era tocar uma peça de um músico que também morreu vítima de uma pandemia". Portanto, se a qualidade de som não for extraordinária, é porque é uma gravação amadora da aria das três peças do século XVIII de António Fragoso.

Gostei muito.

Não é triste toda esta história?

É péssimo. Parece uma sina portuguesa qualquer.

Mesmo. É o nosso fado.

Quando escreveste isso de todos os outros, eu lembrei-me: isto é um fado português.

É uma desgraça. Eu às vezes às duas da manhã acordo com sede e penso: "A geração de Orfeu". E dói-me na alma. E em vez de beber água, vou à cozinha, vou buscar um copo de absinto e faço um brinde ao Pessoa. Apanhado em flagrante de litro. Como diz ele próprio naquela fotografia no Martim da Arcada.

Que boa história essa, de pensares na geração de Orfeu a meio da noite. Mas isso é de facto uma desgraça.

É trágico.

É trágico. Estava-me a lembrar também de um escritor que eu gosto muito, que é o Daniel Faria, que morreu também muito cedo.

De uma morte macaca, ainda por cima.

Queda de uma escada ou coisa?

Não. Esse sim, foi à casa de banho a meio da noite, escorregou, bateu com a cabeça e foi o fim.

Gosto tanto das coisas dele. Ainda por cima morreu em Chinsverga, no Mosteiro de Chinsverga.

Chinsverga, exatamente.

Onde fazem um bom licor. O licor de Chinsverga.

Se calhar ele escorregou até no licor.

Não sei.

É trágico também o Daniel Faria. Não sei que idade teria, mas era muito jovem.

28, acho eu.

Num país pequenino como o nosso, se fosse nos Estados Unidos.

Isso é engraçado, porque ele estava no seminário, não é? Morreu no seminário.

Exatamente.

E ele escreve otimamente sobre amor. Não é espetacular? O Daniel Faria tem coisas tão bonitas em relação ao amor e para alguém que se dedicado ao celibato, é estranho, porque ele descreve muito bem esses amores. Belas histórias. António Fragoso, é uma vida curta, mas que deixou muitas composições. E deixou esse gostinho de "what if?". Ia ser o nosso grande.

É isso.

Isso é que é. Obrigado por teres trazido aqui o António Fragoso. Fiquei muito contente de o conhecer ainda assim, e a sua obra. O "Encontro com a Belleza" com o Martim Sousa Tavares está disponível nas plataformas de podcast e passa aqui na Rádio U ao fim de semana, também nas manhãs 360, com reposição nas segundas-feiras à tarde. Vão acompanhando-nos.

É todo vosso.

Um abraço, Martim.

Um abraço.