Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao "Encontro com a Beleza", sempre com o maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
E também com o radialista
Nelson Ferreira.
Exatamente.
Estamos em João Costa e Silva, mas vamos tentar estar à altura.
Vamos tentar.
E vamos tentar dedicar canções.
Esta é para ti, João. Por acaso, esta não é para ti, esta é para a Maria João Pires. Não sei se estás ao corrente, Nelson, da notícia sobre a Maria João Pires.
Falamos dela há relativamente pouco tempo aqui no "Encontro com a Beleza".
Falamos dela há pouco tempo, porque ela vinha. Aliás, é curioso, porque esse episódio saiu no domingo, que era exatamente uma semana antes de ela se apresentar em Sintra. E nesse mesmo dia, após o episódio ter ido para o ar, coisa de 40 minutos depois, recebo uma comunicação da agente da Maria João Pires a dar-me a tristíssima e alarmante notícia de que a pianista tinha tido um AVC e não estava em condições de se apresentar. Na altura, a coisa foi dita de forma comedida para não lançar o pânico por todo o mundo, porque ela tinha muitos concertos marcados, mas a verdade é que pouco tempo depois a própria Maria João Pires anunciou nos seus canais que vai mesmo fazer uma pausa na carreira por motivos de saúde. Portanto, foi um balde de água fria e desejamos todos as melhoras rápidas e plenas a esta pianista.
E tens uma banda sonora para essas melhoras.
Tenho, porque lembrei-me de uma história muito parecida com a da Maria João Pires, que é a do Keith Jarrett, que é um pianista que, de resto, é só um ano mais novo do que a Maria João Pires e que em 2018 teve também dois AVCs. A história dele não é feliz, na verdade, isto truncou-lhe a carreira, não é esperado que ele volte a tocar.
É um nome mais associado ao jazz.
Completamente, embora não apenas, e é isso que vamos ver. Ele em 2020 deu uma entrevista a dizer que já não se sente um pianista e, portanto, não é expectável. Mas então quem é Keith Jarrett, que tu conheces do jazz, mas que há muitas pessoas que o conhecem da clássica. Ele começa a aprender piano antes dos três anos, o que é incrível. Tu imagina um bebê com dois anos, como é que já tem destreza para estar num teclado de piano? Enfim, é absurdo, mas vai ser tão incrível que passados dois anos, aos cinco anos, já aparece a tocar piano no programa de televisão do Paul Whiteman, que era um band leader histórico, tinha um programa chamado "TV Teen Club", que era para jovens, e pôs lá o miúdo. E a vida do Keith Jarrett, na verdade, conta a história do jazz. Ele ainda está vivo. Se ele vem do tempo do Paul Whiteman até os nossos dias, de facto, está ali tudo, porque o Paul Whiteman foi contemporâneo do Gershwin e tudo isso. Ele vai se lançar a tocar com o Art Blakey e os seus lendários Jazz Messengers, que até dá nome a uma loja de discos em Lisboa, não sei se conheces, de vinil, que é os Jazz Messengers.
Não conheço essa.
E depois dali passa para o grupo do Miles Davis, onde ele era um dos dois teclistas, sendo que o outro era também um jovem chamado Chick Corea. Portanto, estamos a falar de círculos máximos.
O suplente e o titular. Qual deles jogar.
Exatamente, alternavam. Depois dali, do grupo do Miles Davis, ele lança-se a solo e é a solo que ele vai começar a tocar concertos inteiramente improvisados, que são lendários e ficam conhecidos pelo nome das cidades onde ele tocava. Portanto, há o concerto de Bremen, há o concerto de Lausanne, há o concerto de Viena, há o concerto de Paris e, claro, o concerto de Colônia. Não sei se tens presente. Exatamente, Köln Concert.
1975.
1975, exatamente, que é até hoje o disco de piano solo mais vendido de sempre. Aquilo é uma improvisação, não está escrito em lado nenhum o que ele tocou, não há uma partitura, mas há quem tenha feito a transcrição completa, nota por nota, com todos os ritmos. Portanto, tu podes comprar a partitura do concerto de Colônia, podes estudar aquilo como se fosse uma composição, uma peça. Ele veio a Portugal algumas vezes. Ele é famoso por ser um control freak. A luz, por exemplo, a luz incomodava-o imenso no tempo em que as pessoas levavam máquinas fotográficas e fotografavam. Então ele fazia concertos às escuras. O barulho, as pessoas a tossirem, o fumo dos cigarros, inclusivamente, no tempo em que se fumava nas salas. E ele, numa das histórias que esteve em Portugal, há muita gente que ainda se lembra disto. A primeira, na verdade, foi ainda com o grupo do Miles Davis, nos anos 70, em Cascais, mas há um concerto que ficou famoso para sempre na história dos melômanos aqui em Portugal, que foi o concerto em 83, no Coliseu dos Recreios, porque foi desastroso, foi uma noite catastrófica. Muitos músicos estavam presentes e falaram sobre isso, um deles o Rui Veloso, por exemplo, que estava lá e diz que as pessoas não entenderam, estavam ali como se fosse um concerto rock e, portanto, ele recusou-se a tocar, abandonou o palco, voltou passada meia hora, na verdade, quando já estava mais silencioso, mas ao fim de meia hora as pessoas já tinham quase todas ido.
Que vândalos, em 83.
Ou seja, ele entra em palco.
Os melômanos de 83 eram uns vândalos.
Imagina, senta-se para tocar e as pessoas estão a fumar, estão a fazer barulho, e ele diz: "Não, nestas condições eu não toco".
Veio no boom do rock português.
Mas o que é que aconteceu? O público, ao vê-lo sair, disse: "Mas quem és tu para não tocar? Anda cá, volta". Portanto, começa uma pateada. E pior ainda, como é óbvio, o homem não volta. Regressou a Portugal para matar esse fantasma ao CCB em 2006, num concerto que estava repleto de avisos. Eu lembro-me disto, havia até um aviso a dizer para não tossir. E houve uma espécie de um aviso de sala, qualquer coisa do gênero: "Pede-se às pessoas que se quiserem tossam agora". E a sala toda exatamente, todos a tossir. E foi o momento da tosse. O público respeitou-o muito e ele gostou. Mas na verdade, o corpo dita os limites e, portanto, já nos anos 90 ele foi diagnosticado com síndrome da fadiga crônica, portanto tinha que descansar e grava aquele que é pra mim o seu disco mais bonito, chama-se "The Melody at Night, With You", que é um disco de standards, suave, tudo mais. E no meio disto tudo, tinha uma carreira clássica. Ele é dos poucos pianistas a serem premiados na clássica e no jazz, e vamos ouvi-lo numa gravação de 95 a tocar Händel.
Que disco é este?
Isto é um disco de 1995 de Keith Jarrett a tocar Händel, a tocar música barroca. E é maravilhoso.
Não é do tal que estavas a falar que era o teu favorito.
Não, esse chama-se The Melody at Night, With You. É jazz, é outra linguagem completa. É engraçado que ele nas gravações e também a tocar ao vivo, quando está a tocar jazz, dá uns gemidos, canta e faz contorcionismo. Não sei se já ouviste, mas faz contorcionismo. Levanta-se da cadeira e põe-se numas posições absurdas. Quando ele toca clássica, não acontece nada disso.
O Keith Jarrett era também famoso por murmurar enquanto tocava.
É isso, exactamente. Uns gemidos, uns murmúrios. O moaning.
Exato. Estava a ver também, que a propósito total, diz que falavas de Colônia 75, que há um filme chamado Colônia 75, que é deste ano e que é uma espécie de retrato.
Recordação.
Um filme ou um drama, mas que acompanha um bocado também a forma como Keith Jarrett organizou aquele concerto, pelo que percebi da sinopse.
É incrível. A internet até deve ter à venda bilhetes desse concerto.
Compras?
Não sei se comprava, porque por acaso, apesar de todo o hype que há, o concerto Colônia não é o meu favorito. Mas percebo o seu sucesso, ele é muito mellow, é muito doce.
Bem, deixamos Keith Jarrett para desejar melhoras a Maria João Pires. As melhoras à grande pianista é o título do episódio desta semana do Encontro com a Beleza, que acontece todas as semanas aqui na Rádio Observador.
Sem a Saudinhas a gente não faz nada.
É verdade. Sempre com o Martim Sousa Tavares. Um abraço.
Até para a semana.