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Este é o Encontro com a Beleza. Acontece todas as semanas na Rádio Observador, mas também pode acompanhá-lo nas plataformas de podcast. Todas as semanas há um novo episódio, sempre com a beleza e maestria de Martim Sousa Tavares. Olá, Martim, como é que estás?

Obrigado. Este é um episódio para os nossos ouvintes no Porto. É para todos, mas é especialmente para os ouvintes do Porto.

Ou que sejam do Porto e estejam em Nova York.

Não, na verdade, é para quem está no Porto. Porque está a acontecer a Feira do Livro do Porto. Começou no dia 22 de agosto e vai até 7 de setembro. E eu quero que quem está por ali vá ao stand de livros do Brasil e depois de ouvir este podcast, tenha muita vontade de comprar um livro específico que lá está. Qual é a história mirabolante que eu vos trago hoje? Nós hoje vamos ouvir música composta por um Prémio Nobel da Literatura. Ouviram bem. É um escritor que escreveu a música que vamos ouvir.

Bob Dylan?

Não. Esse escritor é o Prémio Nobel de 1958. Em 1957 ganha Camus e em 1958 ganha Boris Pasternak, um grande escritor, autor de "Doutor Jivago", um livro que é mesmo imperdível. Eu não vou "spoilar" o livro, mas vou contar-vos a história desta pessoa e o que é que o livro provocou na vida dele para vos dar vontade de o ler. O Pasternak é russo, nasce em Moscovo em 1890, numa família de artistas de renome. O pai dele é um pintor importantíssimo, a mãe é uma pianista com muito sucesso. Eles são uma família de judeus, mas muito aculturados. Um dos amigos lá de casa era o Tolstói, por exemplo. Têm outros que é o Rachmaninoff, o Scriabin, o Rilke. Mas o Tolstói, não sei se sabem, no fim da sua longa vida, tinha uma espécie de vida de santo. Tinha um culto que era o tolstoianismo, que era um culto cristão que promovia não tanto a cultura dos milagres e dos santos, mas mesmo os ensinamentos de Cristo, só isso. Uma vida simples, frugal, pela paz, eram pacifistas, eram vegetarianos, eram abstêmios, eram castos.

Foi ele que criou?

Foi, foi ele que criou e tinha milhares de pessoas que seguiam esta vida. Então a família dele, apesar de serem judeus, também seguem o tolstoianismo, porque o pai dele era muito amigo do Tolstói. Ele vai a uma escola cristã ortodoxa na Ucrânia, depois vai para Moscovo estudar composição no conservatório. Ele cresce numa família muito musical, portanto para ele tocar piano devia ser uma coisa completamente natural. E depois interrompe os estudos de composição em Moscovo e vai para a Alemanha estudar filosofia. Portanto, como ele estudou composição, nós vamos ouvir uma música que é desse período. Na Alemanha, ele vai se apaixonar pela filha de um bilionário, que tinha um império de chá, que a convence a não casar com ele, porque ela diz: "Filha, tu vais herdar uma pipa de massa e o cara é filho de artistas, portanto não faças isso".

É o industrial de Odessa?

Não, isso era o avô. Era um tipo que tinha uma marca de chá alemã, era um bilionário. Então ele volta para a Rússia, o que coincide com o início da Primeira Guerra Mundial, final do Império Russo, começa a revolução e, curiosamente, a família dele não foge nem para o estrangeiro, nem vai para o sul da Rússia, que ainda era controlada pelos brancos, portanto, guerra civil russa, brancos contra vermelhos. Eles não vão ser exilados, eles vão ser daqueles que ficam lá, para o bem ou para o mal, para ver o que é que vai acontecer. E apesar de ele ver várias pessoas que são próximas a serem executadas, ele fica por ali e até está na linha da frente dos novos futuristas bolcheviques. Ele é um daqueles poetas, ele entretanto começa a escrever, que fazem a apologia da vida frenética e soviética, tipo o Eisenstein, com aqueles filmes malucos, o Maiakovski, o Manilstam, tudo gente que acabou mal. Com a morte do Stalin e o degelo do Khrushchov, veio o momento mais importante da vida dele, porque ele já estava a ter uma vida difícil por causa da censura e muitas pressões. Várias vezes achou que ia ser executado ou que ia ser deportado. Levaram-lhe a namorada, levaram amigos, enfim, tudo isso. E na altura do degelo, quando o Khrushchov vem aliviar um bocadinho depois do stalinismo, há um jornalista comunista italiano que vai a Moscovo à procura de novidades editoriais que possam agradar à imprensa no Ocidente. E ele tinha o apoio de um importante editor italiano, também comunista, chamado Giangiacomo Feltrinelli, que cria o Império Feltrinelli, que é uma editora e tem uma rede de lojas de livros na Itália, que diz: "Quaisquer livros interessantes que tu encontres, traz para cá". E chegam ao Pasternak e ao manuscrito do "Doutor Jivago", que já estava escrito há um ano e que ele já tinha tentado publicar, mas que não conseguia, porque ele não fazia a apologia da vida soviética, pelo contrário. Eles disseram: "É mesmo isto que queremos, portanto você aceita publicar isto?" Ele diz: "Aceito, está aqui o manuscrito e este manuscrito também é um convite para você assistir ao meu encontro com o pelotão de fuzilamento". Foi isso que ele disse ao editor. O editor disse: "Bom, OK, então se é assim, eu vou levar". Mas ele pensava: se uns tipos comunistas em Itália publicam isto, fazem pressão para que o livro saia também na União Soviética. Toda a gente à volta dele dizia: "Você está maluco, não se pode negociar diretamente com o Ocidente, vão matá-lo". Mas ele estava irredutível e disse: "Eu pago o preço que for preciso, já chega de esperar, já tenho 60 anos ou 70, chega de me calar". Assim que o livro sai em Itália, é um estrondo, causa uma pressão enorme no mundo inteiro, começa a ser traduzido em todas as línguas. Passou 26 semanas seguidas em primeiro lugar na lista do New York Times e ele teria ficado rico se recebesse os direitos, claro que não recebia, porque a União Soviética não subscreveu a Convenção de Berna, mas o livro circulava na União Soviética de forma clandestina. Portanto, havia uma coisa engraçada que era: ninguém tinha lido, porque ninguém podia dizer que tinha lido, mas toda a gente condenava. Nos jornais saíam críticas, porque, de facto, não se podia. Tu eras apanhado com aquele livro, ias preso. E a verdade é que o livro é publicado em 57. Em 58, ele recebe o Prêmio Nobel e o governo soviético avisa: "Se você for à Suécia buscar este Prêmio Nobel, você não volta a entrar cá e provavelmente nunca mais vai ver a sua família. Portanto, pense." Então ele recusa o Prêmio Nobel. Morreu passados dois anos. Isto foi horrível pra ele, porque ele foi atacadíssimo por ter um livro de sucesso no Ocidente e já estava diminuído por um câncer, e isto foi literalmente o fim do mundo. Para dar a ideia, quando ele morreu, ele estava tão proscrito na União Soviética que nenhum jornal pôde dar a notícia da sua morte. Então foram as pessoas que escreveram à mão bilhetes a informar do local e da hora do funeral e espalharam pelo metrô de Moscovo, e apareceram milhares de pessoas. E o próprio funeral acabou por ser um momento de grande polêmica, em que as pessoas disseram: "Não aguentamos mais. Isto era um grande escritor e ele vai ser grande." O livro só foi publicado na Rússia em 88, portanto 30 anos depois desta história, e o filho só em 89 é que foi autorizado a ir à Suécia buscar o Prêmio Nobel, porque eles disseram: "Você pode não vir aqui, mas nós vamos atribuí-lo na mesma. Portanto, o Nobel é seu." Por isso, deste homem incrível, que escreveu "Doutor Zhivago", vamos ouvir um curto, mas tenso prelúdio para piano. Eu gostei muito disto. Gostaste? É tenso. A vida deste homem foi muito tensa. Há uma história engraçada quando o Feltrinelli está a negociar com ele e o governo soviético mandou emissários à Itália para tentarem demovê-lo. Ele dizia: "Não, pelo contrário, este livro é excelente, eu vou publicá-lo." Então eles disseram: "Não vamos matar o homem, não vamos conseguir convencê-lo. Então vamos dizer ao Pasternak que tem que recusar, que afinal já não quer publicar o livro." Portanto, foram à casa dele e disseram: "Você vai enviar um telegrama pra Itália e vai dizer ao seu editor que retira o livro." Ele diz: "Sim, senhor, vou fazer isso." Então consegue primeiro fazer chegar ao Feltrinelli uma nota que diz: "Eu vou lhe enviar um telegrama, mas você vai desconsiderar esse telegrama." Portanto, depois envia por fontes oficiais, o Feltrinelli pisca o olho e diz: "Tá bem". Mais uma vez o livro não sai. Ele tem um ar que associamos muito também ao Doutor Zhivago. Tem um ar quase de vilão James Bond também. Um bocadinho. A poeta russa Anna Akhmátova dizia que ele parece um cavalo árabe. Muito bem. Boris Pasternak, ficamos a conhecê-lo hoje no "Encontro com a Beleza", com o Martim Sousa Tavares. Que grande vida entre a música e a literatura aqui contada. Para a semana, uma outra história que vale a pena e que é um autêntico encontro com a beleza. Esperemos que sim. Um abraço. Até lá.