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Já cá temos de novo o Martim Sousa Tavares. Vem uma vez por semana à Rádio Observador e traz-nos um encontro com a beleza. Olá, Martim. Como estás?

É verdade. Olá, Nelson. Isto é tudo para ti.

Obrigado. Lembro-me que gostei muito do programa da semana passada sobre a Meredith Monk, andamos ali por Nova Iorque, ela que é uma nova-iorquina, e agora vamos até à North Carolina.

Vamos até à North Carolina, exatamente.

Quem é Caroline Shaw?

Caroline Shaw é aquilo a que em inglês se chama overachiever, que eu não sei se temos uma tradução exata em português, não é sobredotada. Overachiever no sentido de alguém que alcança muitas coisas, com muita facilidade. Para dar uma ideia, estamos a falar de uma ainda jovem, vou dizer, compositora norte-americana que nasce em 1982, que tem quatro Grammys, um Pulitzer, um doutoramento honoris causa pela Universidade de Yale, portanto não é pela universidade troco o passo, que compõe, produz, toca, canta, colabora, mas parece ser uma pessoa amorosa, porque na bio dela, em que ela diz os prémios que ganhou, diz também que a sua cor preferida é o amarelo e o seu cheiro preferido é o rosmaninho. E eu acho isto maravilhoso, porque é informação relevante também.

Diz mais dela do que se calhar mais outros prémios.

Precisamente.

Estava a pensar se haveria uma espécie de EGOT, aquela designação para quem ganha um Emmy, um Grammy.

Ela ainda não é, ainda lhe faltam alguns.

Se haveria uma coisa desses géneros para a música clássica, para quem ganha um Pulitzer.

Sim, mas ela lá chegará, porque já tem Grammy e Pulitzer, já foi nomeada também para um Emmy, portanto chegará também o Oscar a certa altura.

Está mais perto que nós.

Exatamente. E relembrando o tema da Meredith Monk, em que falámos das colaborações e da importância de colaborar, a Caroline Shaw leva o conceito da colaboração para um nível completamente absurdo. Para dar uma ideia, isto é uma compositora clássica, já se percebeu, mas fez arranjos vocais e coros para a Rosalía, para o disco "Motomami", a convite da própria Rosalía, mas também para The National, Arcade Fire, ou ainda em 2016, quando o Kanye West ainda era uma pessoa decente, para o disco dele, e tem ela própria uma banda pop chamada Ringdown. Se quiseres descobrir, é assim num género Jacob Collier. É uma banda pop de pessoas que sabem demasiado sobre música.

Exato, é uma boa definição.

Está cheio de acordes e cheio de coisas. Mas recebeu encomendas da Orquestra Filarmónica de Los Angeles, Nova Iorque, da Ópera de Berlim, enfim, os melhores solistas do mundo. Para além disso, isto só para dizer o quão overachiever ela é, ela canta no grupo Roomful of Teeth, que é um coro contemporâneo, que para além de ter um nome incrível, Roomful of Teeth, um coro em que são os dentes dos cantores, também toca violino no American Contemporary Music Ensemble, que é também um dos grupos assim, máximos.

Já está a exagerar. Já me está a fazer sentir mal.

É isso, para além da música clássica e da pop, ela também escreve bandas sonoras de filmes e séries e entrou, ela própria, no Mozart in the Jungle e foi recentemente nomeada para um Emmy pela banda sonora que fez do "Da Vinci", uma série do Ken Burns de 2024. E no tempo que ela tem livre, ela ensina na Universidade de Nova Iorque.

Como é que ela tem tempo livre?

É isso, eu não sei. Ela diz numa entrevista, uma frase que eu acho extraordinária, porque perguntam-lhe assim: "Então e agora, em que projetos é que está a trabalhar?" E ela diz o seguinte: "Estou a trabalhar em claramente demasiados projetos. Às vezes dou por mim a olhar com muita vontade para o momento da minha reforma". E de facto, eu não sei se é de admirá-la ou ter algum medo pela saúde desta pessoa, porque como é que tu consegues encaixar tanta coisa? Bom, ela começou a tocar muito cedinho, aos seis anos, e aos 11 anos recebeu um caderno de notação musical para escrever a sua música, onde ela compunha, segundo ela, com enorme detalhe, tudo, só que não mostrava aquilo a ninguém, porque ela não conhecia nenhuma mulher compositora, portanto achava que não era uma coisa que se fazia. E para além disso, também achava que ou se tocava ou se compunha. A certa altura, lá começa a escrever música e depois abriram-se as portas e é uma pessoa absolutamente genial. A música dela é caleidoscópica, portanto, terão ouvido já os arranjos dela no "Motomami" da Rosalía ou vão ouvir agora a música propriamente clássica. Eu escolhi uma peça que é inspirada numa estufa. Também não é todos os dias. Ela recebeu um convite para ir fazer uma residência artística numa casa histórica chamada Dumbarton Oaks, que pertencia a um casal muito rico, que era o casal Bliss, e que foi doada em 1940 à Universidade de Harvard, e é, por exemplo, o sítio em que em 1944 se gisou o primeiro esboço daquilo que seriam as Nações Unidas. Mas antes de isto ser de Harvard, esta casa, este casal Bliss convidava muitos artistas para estarem lá a viver e a escrever música, desde o Stravinsky a outros. Então a Universidade de Harvard continua esse programa e há um compositor que é ocasionalmente chamado para ir lá e ter ideias e escrever.

Uma residência artística.

Exatamente, numa maravilhosa casa. Então ela escreveu música para várias zonas dos jardins e da casa, e isto é da chamada Orangery, que é a estufa, no fundo, que segundo ela tem umas velhas figueiras que fazem uns jogos de luz nos vidros e, portanto, a música que vamos ouvir tem essa delicadeza da luz que passa através das folhas da figueira.

Dá mesmo a impressão de que esta pessoa tem muita coisa dentro da cabeça dela. Aquela sobreposição que há ali, está ali a acontecer muita coisa.

Completamente. E isso tem alguma coisa de música pop, porque tens aquele violino sempre a fazer o mesmo padrão de acordes.

Há uma espécie de batida. É a repetição.

Exatamente.

Achas que estas pessoas devem ser muito sozinhas, não achas?

Achas? Não sei.

Eu acho.

Por acaso, eu acho que a banda pop dela, não tenho a certeza.

Eu acho que o que a salva é a pop.

Sim, eu acho que é.

Senão ela entrava em loucura.

Aliás, ela própria diz que adoraria voltar a trabalhar com a Rosalía, diz que foi uma coisa extraordinária.

Estava a ver que fez música também para a banda sonora do "Tár".

Olha, não sabia.

Da Cate Blanchett.

Grande filme.

Que é um maestro também.

Exatamente. Esse filme é incrível.

Pois é. Identificaste-te? Vais ficar assim louco como Cate Blanchett?

Espero que não. Mas esse filme é incrível.

É verdade.

E muito acertado.

Pois, também acho.

Há ali um rigor quase obsessivo com a veracidade dos detalhes.

Mesmo musical?

Tudo. Aliás, digo-te até, quando esse filme saiu, havia tanta gente a perguntar-me o que eu achei desse filme, que eu escrevi uma newsletter que está publicada pelo Observador. Portanto, se procurarem pelo meu nome, o título é algo como: "Vi o filme, está aqui o que eu penso, escusam de perguntar mais". É mesmo muito bom esse filme.

Olha, fica aí o convite também para lerem o Martim Sousa Tavares. Caroline Shaw, dos Estados Unidos, para este programa. Mas estou a gostar que este mês vamos andar aqui com artistas vivos.

Isto foram as mulheres, agora temos dois homens nas próximas semanas.

Ok, por falar em mulheres, e também destacamos aqui o Festival Crivo que aconteceu nas últimas semanas. Pode ser que a Caroline Shaw seja uma das próximas convidadas.

Pois, ela não estava no programa deste ano, creio, mas acho que é um nome incontornável para uma próxima edição. Portanto, fica a dica. Festival Crivo, se estiverem a ouvir, Caroline Shaw, por favor.

Martim Sousa Tavares, de hoje a uma semana, com mais um encontro com a beleza. Um grande abraço.

Um abraço, até para lá.