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Seja muito bem-vindo. Este é o "Encontro com a Beleza", sempre com o maestro Martim Sousa Tavares, aqui na Rádio Observador. Olá, Martim.
E sempre com o Nelson também.
Também.
Sempre com o Nelson.
Vou cá estando, tentando aprender algumas coisas que tu tratas, que são belíssimas.
Olha, vice-versa.
Obrigado por isto, tudo que está a acontecer neste Encontro com a Beleza e nos anteriores.
Obrigado eu. Hoje temos efeméride. Eu não sei se consigo-
14 de dezembro. Pensei que tu ias começar a trazer coisas daquelas com sininhos.
Não.
Há sininhos na música clássica, claro que há.
Há, imensos. Na de hoje, não.
Calma, 14 de dezembro.
Exatamente, sim.
"Stop premature Christmas decoration".
Exatamente. Eu vi a primeira árvore de Natal num centro comercial em setembro.
A sério?
A sério.
Estava à venda ou mesmo decorada?
Não, uma loja toda só de Natal.
Ok.
"I kid you not".
Por isso já tens Natal a 14 de dezembro que chegue.
Exatamente.
Que efeméride é esta?
Algumas fontes apontam para o exato dia de hoje. É difícil saber, porque trata-se de uma publicação, mas o que é certo é que foi em 1725, portanto faz agora 300 anos que nasceu o primeiro hit da história da música. O primeiro all time hit. O que eu quero dizer com isto? É um êxito que é um êxito nonstop durante 300 anos. É a primeira vez na história da música que uma música entra para os tops, que não existem, estamos a falar de 1725, e nunca mais sai de lá. Torna-se conhecida de toda a gente. Gerações, gerações e gerações passam e esta música não sai. Estou a falar de quê? Das "Quatro Estações" de Vivaldi, cuja partitura é publicada, supostamente, no dia de hoje, em Amsterdã, e é música que está em todo o lado. Vocês todos conhecem esta música. Ela está em anúncios de carros. Eu nem fiz pesquisa, eu estou a dizer, eu lembro-me de cabeça de um anúncio da BMW que tinha. Está em atendedores de chamadas, creio que ou dos CTT ou da TAP. Recentemente passei por isso. Está em remakes, está em remixes, que também se tornam hits, às vezes. Já aqui tivemos o remix das "Quatro Estações" do Max Richter, 2012. Portanto, ela é grande o suficiente para ele e para os outros que vão atrelados a ele. E que música é esta então, que, por exemplo, em Veneza, donde eu vou regularmente e donde era o Vivaldi, há lá uma igreja, que é a Igreja de San Vidal, onde todas as noites, literalmente, de segunda a domingo, há concertos, vou dizer para turistas, porque não é para os locais, em que tens uma orquestra barroca a tocar pelo menos uma das "Quatro Estações" todas as noites há anos. Literalmente há anos. Eu vou a Veneza todos os anos desde 2006. Em 2006 vi-os lá, e é a mesma orquestra em 2025 continua a fazer isto todos os dias. Portanto, o que esta música tem que não cansa as pessoas? Por que ela é tão boa, por que ela é tão famosa? Que música é esta? Então, o Vivaldi, veneziano, publicou isto em Amsterdão, numa tipografia importante. Na altura, ele nem sequer estava a trabalhar em Veneza, estava a trabalhar na cidade de Mântua, e ele próprio não podia prever que isto ia ser um sucesso astronômico, porque à partida esta música não tinha nada fora do comum. São quatro concertos para violino solo com acompanhamento de cordas, com três andamentos cada concerto, enfim, é um formato muito comum para a época. A questão é que cada um destes quatro concertos tem um título, portanto, cada um é uma estação, tens a primavera, o verão, inverno e outono.
Mas espera lá, queres te a dizer que tecnicamente não é uma obra por aí além?
Não, também é. O que eu digo é, quando ele lança isto, ninguém podia dizer: "Epa, ele fez uma coisa extraordinária", porque nada o faria prever.
Mas achas que funciona por causa dessa associação com os nomes e tu perceberes, de facto, há uma toada que remete para aquela estação?
Sim, exatamente, porque ele tenta fazer música descritiva. Portanto, só quando tu lês o que ele escreve na partitura e percebes o que aquilo faz em música é que começas a perceber. Por exemplo, isto são 12 andamentos no total. Para cada concerto, o próprio Vivaldi escreve um soneto. Imagina, escreve um que descreve o verão. Outro que descreve o outono, e no outono é a altura das vindimas e os tipos nas aldeias estão todos contentes e depois adormecem todos embriagados. Então na música tens essa parte festiva, depois tens a parte em que eles adormecem, e a música adormece, embriagada com eles. Por exemplo, no do verão, que nós vamos ouvir, é fascinante. Ele chega a descrever moscas e moscardos num dia quente de verão. Então tens tudo, tens cães a ladrar na primavera, tens diferentes tipos de pássaro que ele identifica, isto é uma rola, isto é um cuco. Portanto, nos sítios exatos da partitura, tu percebes o que ele está a tentar descrever. Tens uma tempestade de verão, que é o que nós vamos ouvir agora, uma verdadeira borrasca. Até tens, no último de todos, que é o inverno, a sensação de caminhar sobre o gelo e escorregar. Portanto, isto é imensamente sugestivo para a imaginação. Apesar das limitações instrumentais, daquilo que os instrumentos conseguem fazer, a criatividade dele é incrível. E são imagens que não passam de moda, não estão ligadas a nada que já não faça sentido hoje.
Claro.
Portanto, escorregar no gelo continua a ser uma-
Apesar do aquecimento global, ainda há estações.
Ainda há, exatamente. E esta música é tão incrível que lá está ela, só no século XIX, porque o gosto e a estética era um pouquinho diferente, só nessa altura que ela desapareceu um pouquinho. Mas, por exemplo, o próprio Jean-Jacques Rousseau, da geração dos iluministas, que era ele próprio um compositor medíocre, em 1775 fez a sua própria versão, seu próprio arranjo para flauta e orquestra, e desde então há versões jazz, versões para orquestra chinesa, enfim, há de tudo. Nós vamos ouvir aquele que é pra mim o "non plus ultra", portanto o mais conhecido do hit, que é a tal música da tempestade de verão, que pra mim também tem um certo groove metaleiro. Ora ouve e vê lá se concordas.
Não sei, fico um bocado... Não sei o que dizer.
É intenso.
É intenso.
Mas já tinhas ouvido isto n vezes na tua vida.
Claro que sim. Estavas a dizer essa coisa mais metaleira que a própria música pode ter. A mim dá-me a ideia também de tragédia ou de acidente, ou de correria assustada.
Sim.
É muito cinematográfico nesse aspecto.
Sim, a correria assustada é uma boa ideia, porque ele antes disso descreve um pastor que adormeceu ao sol e está um dia super quente e tens um moscardo que vai voando à volta dele, e depois começam-se a fechar umas nuvens e tu percebes que vem uma tempestade de verão.
São as piores. São as piores de verão.
É a verdadeira borrasca e, portanto, o tipo, coitado, é apanhado aqui no meio desta...
Eu fiquei fascinado com essa coisa de ele deixar essas indicações nas partituras, porque acho que pode ajudar o músico também a tornar isso mais...
Sim, é fascinante. Leva-te para outro sítio.
Isso é muito giro. Estamos em dezembro, ainda não temos sininhos. Não sei se iremos ter.
Não, mas eu estou a acusar a pressão.
Mas fomos conhecer o primeiro all time hit da história da música.
Até hoje.
Concordo.
E nada indica que vai deixar de ser.
Ainda bem.
Faz hoje, supostamente, 300 anos.
Que foi publicado.
É verdade.
Vivaldi, no encontro com a beleza trazido pelo maestro Martim Sousa Tavares. Obrigado por isto, Martim.
Grande Vivaldi.