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Todas as semanas na Rádio Observador temos este encontro com a beleza e com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.

Mas só na tua presença.

Obrigado por isso.

Se tu não estiveres cá, eu recuso-me.

Olha, vamos até à Geórgia?

Vamos até à Geórgia. E é importante já dizer qual das Geórgias, porque há o estado da Geórgia.

"Night Train to Georgia".

Estava a pensar no "Georgia on My Mind" do Ray Charles. Mas sim, há essa Geórgia e há a Geórgia país. Qual dos dois será? Que é no Cáucaso.

Exato.

Aliás, quando dizemos que somos brancos caucasianos, estamos a falar da zona da Geórgia, que é um país com uma história maravilhosa à qual todos devemos muito. Olha, por exemplo, a Geórgia é o lugar onde nasceu o vinho.

Como assim?

Nasceu na Geórgia. Pensavas que era no Douro? Não. Na Geórgia. Foi ali que na antiguidade primeiro se começou a fazer vinho. A comida da Geórgia, de facto, é maravilhosa. Houve uma fase da minha vida em que eu estava muito virado pro lado eslavo das coisas. Estudei com um professor russo, fiz concertos na Rússia, etc. E a Geórgia tem um vinho, que é um vinho semidoce. Se algum dia puderes provar. Hoje já há, creio, um ou talvez até dois restaurantes georgianos em Lisboa, e também arménios. Vale muito a pena provarem o vinho semidoce. A comida é maravilhosa, as paisagens do Cáucaso. Eu não sei se as pessoas têm presente bem este lado do mundo. Ele ainda não está muito desenvolvido em termos de turismo, mas tem um pouco de tudo: lagos, montanhas, campo, neve, desertos, até. É superbonito.

O Gulbenkian era da Arménia.

Era da Arménia, exactamente. Eles estão sempre às turras, na Geórgia e na Arménia, e há uma zona no meio que é Nagorno-Karabakh, que é disputada por ambos. É um país que tem uma língua e um alfabeto próprios. O alfabeto da Geórgia também é lindo, uns desenhos maravilhosos. E é o país do Stalin. Portanto, se faltavam coisas para vos apaixonar, é onde nasceu Joseph Stalin, mas também a Katie Melua. Lembras-te da Katie Melua?

Lembro.

Cantava o "Nine Million Bicycles" e o "Just Like Heaven". Ela é da Geórgia.

Que engraçado.

Nascida e criada na Geórgia. Saiu de lá na guerra civil. E é de lá também que vem, depois deste disclaimer patrocinado pela Embaixada da Geórgia, tirando a parte do Stalin.

Georgia Council.

Exatamente. Vamos então falar do compositor que eu trago hoje, que é Gia Kantcheli, que é o grande compositor georgiano. Em agosto passado, teria feito 90 anos se estivesse vivo e, portanto, fica aqui a homenagem de um compositor que eu sei que vão adorar ouvir, porque a música dele é mesmo muito bonita e é um catálogo muito díspar. Ele ganhou a vida, até, sobretudo a fazer música para filmes. Ele assinou a banda sonora de mais de 40 filmes soviéticos e da Geórgia. Teve uma carreira longa a fazer filmes. E é preciso dizer aqui que na cultura russa e na cultura soviética, a Geórgia, aliás, a zona do Cáucaso, portanto, a Arménia, o Azerbaijão, a Geórgia, era aquela zona de onde vêm os estereótipos. Portanto, tal como nós em Portugal fazemos as anedotas com os alentejanos, por exemplo, esta era a zona para os soviéticos onde vinha esse povo mais cómico, etc, a que eles chamam os khachi. E, portanto, muitas comédias ou se passam na Geórgia, ou têm um maluquinho que é da Geórgia, ou um tipo que não percebe nada, um tolinho, e ele fazia a música para esses filmes, alguns muito divertidos, e depois, on the side, fazia a sua música dita séria, sinfónica, tudo mais. E depois ainda tinha um terceiro lado, que é maravilhoso, que era um lado minimalista e muito dedicado aos seus amigos. Ele fez uma coisa lindíssima, que eu acho que todos os artistas deviam fazer, a que ele chamou Cartas aos meus Amigos. Então, imagina, tu és meu amigo, Nelson, eu vou fazer uma música pra ti, vai se chamar Carta ao Nelson. Ele fez dezenas e os amigos dele eram os artistas da Geórgia, portanto, isto dá uma panóplia sobre os realizadores, os pintores, os músicos. É uma coisa superbonita, que eu acho que toda a gente devia fazer. O Bernstein também fazia, mas ele fazia os aniversários.

A única coisa que eu poderia fazer era gravar um áudio.

Pronto, é o que fazemos hoje em dia.

É o que fazemos hoje em dia.

Mas ele tem um catálogo super extenso destas miniaturas. Ele morreu em 2019 e era um compositor de que eu já gostava há muito tempo, por ter estudado com russos e tudo mais. E quando ele morreu, eu quis logo organizar um concerto com música dele aqui em Portugal, coisa que já só consegui em 2021, porque entretanto meteu-se a pandemia, e na altura tocámos isso, tocámos uma seleção das Cartas aos Amigos dele, e foi superbonito. Hoje vamos ouvir o quê? Vamos ouvir o tema principal da música de um dos filmes que leva a banda sonora dele, que não é uma comédia. O filme chama-se, vou tentar dizer em georgiano, "Roda ak’ vavda nushi", que quer dizer-

Perfeito.

Gostaste?

Sim, sim. Perfeito.

Obrigado. Quando as Amendoeiras Floriram, é um filme de 1972 e tem este tema tão bonito, que já é tocado em concerto. Nós vamos ouvir uma versão da pianista, também georgiana, Khatia Buniatishvili, que toca esta peça normalmente em encores e tudo mais. Portanto, apaixonem-se pela beleza da música de Gia Kantcheli.

Tão subtil.

Bonito, não é?

Super bonito, gostei muito.

Eu gosto muito. Ele dá uma entrevista quando já tem 60 e tal anos, em que diz uma coisa maravilhosa. Porque perguntam-lhe, isto a imprensa ocidental, porque ele saiu da Geórgia na guerra civil em 92, tal como a família da Katie Melua, e estavam lhe a perguntar: "Você já escreveu música assim tão sinfonias, coisas intensas, e tem estas miniaturas todas, dedica-se agora às miniaturas". E ele diz que quando tens 60 anos, já não tens a energia dos 40 e, portanto, já não te dedicas às formas gigantes. Ele diz: "Quero antes com a minha música, captar o voo de um pássaro", como se eu estivesse a ver o pássaro de outro ângulo. Eu gosto dessa ideia desta leveza, uma curva no ar e a música não tem que ser mais do que isso.

Eu acho espetacular essa ideia, porque vai de encontro a uma coisa que já falamos aqui, essa coisa do menos ser mais. Às vezes é aquele momento que tu queres captar e o momento de grande beleza, podem ser três ou quatro notas de uma certa maneira.

Completamente. Há aquela frase do Miles Davis que ouvia outros músicos e dizia: "Por que tocar tantas notas quando podes escolher só as mais bonitas?" E é mesmo isso.

Esse grande. Já estiveste em Tbilisi?

Por acaso, não.

Também não. Estava aqui a ver fotografias de Tbilisi.

Mas hei de lá ir, tenho a certeza que lá hei de ir.

E aquela grafia, as letras deles são tão-

O alfabeto é maravilhoso

Incrível

É um grupo linguístico muito interessante.

Parecem emojis, coisa mais estranha.

É uma coisa entre, não sei, percebes que junta-se ali várias culturas.

Tem aqui letras que parecem o símbolo do masculino e feminino. É estranho.

Pois, é possível.

Se calhar são.

Exato.

Gostei muito de te conhecer.

Vão à Geórgia. Obrigado à Embaixada da Geórgia por ter oferecido esta comida que entretanto chegou aqui ao estúdio.

Sim, eu não conheço comida da Geórgia, mas tenho um amigo com quem via Fórmula 1, que sempre que havia uma corrida de Fórmula 1 e nos juntávamos em casa dele, ele fazia um prato do país onde era a Fórmula 1. Pena não acontecer na Geórgia, porque havia Hungria.

Fez goulash.

Sim, ele fazia sempre assim uns pratinhos.

Engraçado. Se fosse na Geórgia, provavelmente ele iria fazer khachapuri.

É bom?

É incrível.

É de quê?

É uma espécie de pizza fofa. É assim um pão que vai ao forno e leva queijo lá dentro e depois abre-se um ovo inteiro lá para o meio e o ovo estrela no próprio do calor da coisa.

Estás a ver? Menos é mais.

É incrível.

Ovo, queijo, um bocadinho de pão.

É incrível.

Maravilha, gostei muito. Gia Kancheli.

Gia Kancheli.

Gostei muito de o conhecer. No "Encontro com a Beleza", é todas as semanas aqui na Rádio Observador, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares. Um abraço, Martim.

Cá estamos para servir.