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E na Rádio Observador caminhamos outono adentro, com o encontro com a beleza, Martim.

Começa hoje o outono, não é?

Não há sagração do outono.

Vamos fazê-la nós.

Ok.

Vamos fazê-la nós com um tipo que provavelmente gostava de beber a sua sidra no outono, e já vou explicar por quê. Este é daqueles artistas, o nome que eu hoje aqui trago, que quase certeza não conhecem, que, por um lado, queria imenso conhecê-lo, porque é uma pessoa sensível, mas por outro, acho que era melhor deixá-la em paz, porque é introvertida. Estás a ver? Tipo o Nick Drake.

Sim, tu não queres incomodá-lo.

É isso, pela música tu gostas imenso dele e parece uma pessoa amorosa, mas por outro lado, se calhar tem questões sociais, não lhe é fácil o trato.

Claro, é preciso saber ler.

Exatamente, é preciso deixá-los em paz.

As pessoas às vezes são tão...

É, mas o mundo é muito duro com estas pessoas. De quem é que eu falo? Falo do inglês Gerald Finzi. Tem nome de geladaria, não tem?

Tem.

Não existe uma marca de gelados que é Finzi.

Se calhar é o Olá noutro país qualquer.

É possível, sim, Olá muda de país. Mas não é em Itália, a Itália começa com a letra L, Gida. Gerald Finzi, que é brit, apesar do nome, nasce em 1901 e morre em 1956, portanto também não é uma vida superlonga. É natural de Londres e esta introversão, este excesso de sensibilidade, também vem muito da vida difícil que ele vai ter e que o vai marcar muito. Não é que ele nasça pobre, nada disso, mas ele tem muitas mortes na família. Por exemplo, o pai dele morre na véspera do seu próprio oitavo aniversário. Portanto, imaginemos que é a família a preparar-se para a festa e tudo isso, e na véspera de fazer oito anos, o miúdo perde o pai.

Péssimo timing.

Pouco depois, e um após o outro, perdeu os seus três irmãos enquanto era estudante. Portanto, passou de ser um de quatro irmãos com pai e mãe, para ser um filho sozinho, só com mãe. Estás a ver a desgraça que isto é?

Estou.

Ele vai estudar, toda a gente diz que ele era um miúdo tímido, mas muito sensível e cheio de poesia, o que só faz dele alguém muito frágil aos olhos de uma sociedade dura e difícil. E talvez por isso, ele tenha estudado imenso. Ele foi daquela espécie de pessoas que são os estudantes eternos. Que acaba o mestrado e vai para o doutoramento, e depois do doutoramento vai para o pós-doutoramento.

Alguns é só para andarem na tuna, não é?

Sim, tipo aquele dux de Coimbra que já ia na 17ª matrícula. Mas não, este, até aos 30 anos, o que na altura já era tarde, foi praticamente só aluno e estudou com todos os que havia para estudar. Portanto, ver o currículo dele é todos os nomes, o quem era quem na música inglesa na altura. E depois aconteceu-lhe uma coisa, que também às vezes é comum, que é passar direto de ser aluno para ser professor. Entra na própria academia, vai dar aulas três anos na Royal Academy of Music, mas ele próprio já estava a ir contra a sua natureza, porque embora fosse de Londres, não se sentia bem na cidade. Ser professor implicava um contacto com os alunos, tudo isso lhe provocava muito desgaste. Portanto, ele, entretanto, já tinha casado, recolheu-se para o campo, onde tinha uma casinha para compor e para cultivar maçãs. Lá está, por isso é que ele devia gostar de beber a sua sidra. E deve-se ao Gerald Finzi muita música incrível, mas também o facto de hoje ainda existirem algumas espécies de maçã autóctones inglesas. Ele salvou-as da extinção.

Olha que bem! É um trabalho que ninguém reconhece.

Não é?

Então.

E a Inglaterra deve ter imensos tipos de maçã diferentes e maravilhosas. Eu adoro maçãs, como praticamente todos os dias. Ele também colecionava manuscritos e livros raros e tinha uma biblioteca incrível que hoje está em depósito em duas universidades importantíssimas. E eu aqui faço um parêntesis só para dizer: esta gente vivia de quê? Isto era mesmo outros tempos. Tu a escrever umas peças de música e a cultivar maçãs, a vida devia ser mesmo barata.

Eu penso nisso.

Experimenta lá tu hoje manter uma família.

Um cotar, um bocadinho de terreno e dá para subsistir.

Completamente. Mas ele era uma paz de alma. Por exemplo, fundou uma orquestra amadora que dirigiu a vida toda. Uma orquestra de amadores. E usava essa orquestra para chamar grandes músicos ingleses, tudo na boa. Viveu de forma suave. É claro que era um pacifista, portanto, quando chega à guerra, ele tinha habilitações acadêmicas altíssimas, não foi chamado para ir para as trincheiras. Foi-lhe dado trabalho administrativo no Ministério dos Transportes de Guerra, e ele lá estava a escrever à máquina. Era vegetariano, pacifista, acolheu refugiados em casa, e pouco depois da guerra ele descobre que tinha linfoma de Hodgkin, que era uma doença para a qual não havia cura na altura, e vai morrer em 1956, já com o sistema imunitário muito frágil, portanto, ficava doente de tudo. Vamos ouvir uma música que ele escreve em 1946, logo após a guerra, para uma representação teatral do "Love's Labour's Lost", ou as "Canseiras do Amor em Vão", que é uma das primeiras comédias do Shakespeare. A música em si não tem nada de cômico, e até lembra, se quiserem puxar para trás, tivemos aqui há coisa de dois meses um episódio com música do William Walton, que tinha um título lindo, que era "Touch Her Soft Lips and Part".

Lembro disso, claro.

Que também era uma peça do Shakespeare, era o Henrique IV.

Esse senhor é ótimo a dar nomes às coisas.

Exatamente. E são músicas escritas com pouco tempo de intervalo entre elas e provavelmente o Finzi conhecia o William Walton. O que eu quero que ouçamos é esta música que é imensamente sensível e serena, tal como nós imaginamos este homem.

Nada mal para um cultivador de maçãs.

Que dirige uma orquestra amadora.

Nada mal.

Não é? Para um agricultor, queres tu dizer. Nada mal para um agricultor.

Verdade.

É verdade.

Quais são as tuas maçãs favoritas?

Eu gosto das maçãs da Beira Baixa, mas as minhas preferidas de sempre são do tempo em que eu vivia em Itália, que são as maçãs da zona do Vale d'Aosta, que é na zona norte de Itália.

É de onde vêm as osterias? Não.

Não. Talvez, não sei. Isto é Vale d'Aosta.

Eu gosto muito da Fuji. Também gosto da Spreaker.

Não, para mim a Fuji é muito crispy, muito ácida.

É? É das que eu gosto.

Bem, então a Granny Smith nem lhe toco. A sério, é muito ácida para mim. Mas eu mando abaixo duas maçãs por dia facilmente.

Eu também, é a frutinha que eu mais como.

Olha, vamos brindar com a tua maçã preferida.

Quase de certeza que ele não tinha muitas maçãs. Ainda assim, não viveu uma vida longa, mas viveu uma vida bonita e eu acho que isso se reflete na música dele. Tinha uma certa calma.

Completamente.

Um lado contemplativo, mas sereno.

É isso, eu gostava de o conhecer.

Ele não está inquieto.

Não.

Isso é giro.

Eu gostava de o conhecer, por outro lado, sinto que não o quero chatear. É aquela coisa de deixá-lo estar.

Muito bem. Gerald Finzi é inglês, apesar deste nome, tem uma história mais ou menos trágica do ponto de vista pessoal e familiar.

Exatamente.

Mas isso moldou uma personalidade que se reflete muito, pelo que percebemos também nesta peça, neste género muito contemplativo, mas pacifista.

Sim, muito nobre.

E de quem está bem com a coisa.

É isso.

Os gatos conseguem isso, não é? Parece que estão bem.

Completamente.

Com uma certa naturalidade. Ele é mais ou menos como o senhor Finzi. Obrigado, Martim.

Ora essa.

Para a semana estamos de volta com mais um encontro com a beleza. Acompanhe-nos também nas plataformas de podcast, há um episódio todas as semanas. Um abraço, Martim.

É isso. Até para a semana.