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Já temos connosco o maestro Martim Sousa Tavares. Está na hora do encontro com a beleza na Rádio Observador. Olá, Martim.
Olá, Nelson. Hora da beleza.
Vamos falar do último suspiro de Bernard Herrmann.
Exatamente.
Com tantos Rs eNs no seu apelido.
Herrmann.
Parece um senhor alemão, mas não é.
Não, é americano de descendência russa.
Mas nasceu Maximilian.
É verdade.
Que engraçado.
São coisas que acontecem. Não vamos ouvir necessariamente música clássica, embora ela use instrumentos clássicos, tem uma orquestra completa, tem uma harpa solista, só que também tem uma big band, tem um saxofone, tem percussão, etc. Por que eu trago aqui esta música? Porque ela é o derradeiro tributo a um dos grandes compositores de bandas sonoras. Música tão boa, muita dela orquestral, que se devia ouvir nas salas de concerto. Portanto, fica aqui o apelo, por favor, aos CCBs, Gulbenkians e Casas da Música da vida: esta música tem que viver também em concerto e ser tocada pelas orquestras. E eu digo que isto é o derradeiro suspiro, porque o que nós vamos ouvir, o material sonoro, foi gravado meras horas antes de o autor morrer. Nem ele mesmo chegou a ouvir isto montado. O Bernard Herrmann, autor desta música, fez isto, saiu do estúdio, foi jantar e teve um ataque cardíaco, literalmente. Portanto, isto é o canto do cisne completo. E falamos de quê? Falamos da banda sonora, e aqui vamos ouvir o tema principal, do filme "Taxi Driver".
De Martin Scorsese.
Exatamente. Uma grande vénia. É um filme incrível, sobretudo feito com um orçamento que hoje em dia nem comprava um T3 em Campolide. Portanto, como as coisas mudaram. É um filme de 1976, nesta longa declaração de amor do Scorsese à cidade de Nova York, embora o homem morreu em 75, portanto, o filme depois ainda demorou a ser montado. Quem era este Bernard Herrmann? É um compositor e maestro americano que trabalhou com vários génios da sétima arte, como Scorsese, o Orson Welles, o Hitchcock, o Truffaut, e é o imortal autor de temas como o "Psycho". Estás a ver? É dele. A banda sonora do "Vertigo", do Hitchcock, é talvez o melhor filme do Hitchcock, a do "Fahrenheit 451", do "Citizen Kane", do "Twilight Zone". Até a banda sonora de um filme dele, que é o "Twisted Nerve", vai entrar no "Kill Bill" como uma forma de homenagem. Não sei se tens presente, com um assobiozinho.
Acho que vou começar a canelar.
No momento em que a Ellen Driver vai dar uma injeção letal a Uma Thurman, está a tocar o "Twisted Nerve" dele. Enfim, o Tarantino também sempre gostou de prestar estas homenagens aos seus ídolos.
Mas é engraçado, porque tudo o que tu citaste são filmes de grande tensão.
São tudo os psycho thrillers.
E ele tem isso na música dele também?
Completamente. Aliás, o "Taxi Driver" é um filme de uma enorme tensão.
São negros e tensos.
Completamente. E sabes que é engraçado, porque ele trabalhava muito com o Hitchcock.
O bicho dá medo.
Fez a banda sonora de praticamente todos os filmes do Hitchcock, o "Pássaros", etc. E separaram-se, zangaram-se, porque o Hitchcock disse nos anos 60: "Os tempos estão a mudar, agora a malta quer menos orquestras, quer mais jazz e os discos das bandas sonoras têm que vender". E o Herrmann disse-lhe: "Olha, é assim, eu já tinha uma carreira antes de ti, portanto, se quiseres esse tipo de sonoridade, força".
Vai à tua vida.
Exatamente. E é uma pena, porque no momento em que eles se separam, as bandas sonoras do Hitchcock passam a ser completamente-
Ou o Hitchcock é que não estava a ver bem a coisa.
É, mesmo. E a história deu razão ao Bernard Herrmann. Ele, tal como muitos génios das artes, nasceu filho de russos judeus emigrados nos Estados Unidos. Portanto, obrigado, Rússia, por terem expulsado os vossos judeus. Foram tantos, o Gershwin, enfim, são carradas deles. Estudou na Juilliard e aos 33 anos entrou pra CBS como maestro. A CBS era uma transmissora rádio, na altura, e tinha um emprego que eu amava ter. Queres saber o que era?
Era o quê?
Ele tinha uma orquestra e tinha um microfone à frente. Então fazia programas radiofónicos em que falava da música e depois dirigia a própria música.
Tipo a explicar, educativo?
Sim, exatamente, vou tocar isto. E introduziu imensa música que as pessoas não faziam ideia que existia. Ele tinha carta branca e na verdade foi nos corredores da CBS que ele vai conhecer o Orson Welles. Eles colaboraram juntos em imensos programas do Orson Welles, inclusive a famosa "Guerra dos Mundos", de 1938.
Mais uma vez, uma coisa cheia de tensão.
Exatamente, essa emissão radiofónica que ia ser o fim do mundo. Bom, são sucessos atrás de sucessos. Como disseste, muitos psycho thrillers, e o "Taxi Driver" é a prova de que ele não tinha perdido o pé. É um filme dos anos 70, que tem esta sonoridade assim muito gritty, muito urbana. Portanto, é um tema que, na verdade, são dois temas. A forma é A, B, A. Vamos ouvir no início o tema do Travis, que é o taxi driver, um cara que tem que tomar N comprimidos pra dormir, porque vem traumatizado do Vietnã. E depois, no meio, o tema feminino, o tema do amor, o tema da mulher, que vai ser tocado por um saxofone, que nós até vamos derreter nas nossas cadeiras.
Adoro a forma como ele passa de um ritmo para outro.
É incrível. Mas aquele tema do saxofone. Há duas formas de derreter manteiga: podes pôr um cubo de manteiga numa frigideira ou podes tocar-lhe um tema de saxofone com acompanhamento de cordas e a manteiga derrete. O problema é que derretes tu também.
Estava aqui a ver uma história curiosa, o George Martin, o produtor dos Beatles, estava a dizer que-
A cena da Eleanor Rigby.
Da Eleanor Rigby, que a grande influência para ele tinha sido a obra do Herrmann.
Acredito. Havia uma coisa engraçada sobre ele, que era: ele soma imensos sucessos, mas era um tipo difícil de trabalhar com ele. Ele só aceitava trabalhar com realizadores que lhe dessem 100% de controle. Portanto, se eles vinham dizer: "Olha, mas..." Ele dizia: "Estou fora". "Mas podia só..." "Não, estou fora. Tchau".
Fez isso com o Hitchcock, não é?
Exatamente.
"Tu queres jazz?" "Não, estou fora".
E há uma história engraçada também, ele faz a banda sonora do "Vertigo", que é para mim a melhor banda sonora dele. É mesmo música incrível e a grande dor da vida dele. Ele próprio tinha noção que aquele era o melhor trabalho que ele já tinha feito. E ele era maestro, portanto, ele normalmente dirigia a sua própria música. Só que na altura de gravar isto, os músicos nos Estados Unidos estavam em greve, greve de músicos.
Os sindicatos.
Sim, exatamente. Então aquilo teve que ser gravado na Europa, acho que na Áustria, uma coisa assim, e não foi gravada por ele. E ele até ao fim da vida teve isto atravessado na garganta.
Dá a impressão, pela peça que nós ouvimos, imagino-o a dirigir isto.
Completamente.
Imagino como é que será dirigir uma coisa dessas. Deve ser superinteressante.
Eu ouço muitas vezes, o disco do filme tem os temas todos isolados. Há um que é só do saxofone. Eu já gastei aquela-
Está gasto.
Sim, está gasto aquilo, já não posso ouvir aquilo mais vezes.
Olha, gosto muito, principalmente desta associação entre a música e o cinema, e ficamos aqui a conhecer um dos maiores, pelo menos neste género em particular. Coisas de "Psycho", de "Three Lives".
É com ele.
E de grande tensão. Aqui está o homem, Bernard Herrmann, trazido ao "Encontro com a Beleza" pelo Martins Sousa Tavares. Gostei muito de o conhecer e espero voltar a encontrar-me com ele e contigo em breve.
Sim, mas do lado de cá, neste mundo, não no além.
Um grande abraço, até para a semana.
Um abraço, até para a semana.