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Seja bem-vindo ao "Encontro com a Beleza", com o maestro Martim Sousa Tavares. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o João Costa e Silva. Martim, como estás?
Olá, Martim.
Vamos de novo ao Japão neste episódio?
Vamos. Isto por quê? Hoje é domingo, e domingo lá em casa é dia de sushi. Não sei se vocês têm uma tradição ou um dia específico. Gostam de sushi?
Domingo à noite.
Todos os dias são bons para comer sushi.
Boa resposta. E tu, Nelson?
Domingo à noite.
Domingo à noite? É como eu.
Quando se regressa a casa, passou-se o fim de semana, e a comida de conforto de regresso à cidade é mandar vir sushi.
Olha que bem, somos dois. Mas há mais coisas para além do domingo que me fazem querer comer sushi, nomeadamente tudo que vem do Japão, cultura japonesa. Vejo um filme do Kurosawa, quero sushi. Ando num Mazda, quero sushi. Ando num Nissan, também quero sushi.
Se aplica-se a tudo, não é?
É. Tudo pode ser uma desculpa para querer sushi. E eu pergunto: será que os japoneses também têm vontade de comer comida ocidental depois de andarem num Audi? Ou depois de ouvirem uma música do Berrel, uma coisa assim?
Em Portugal era um senhor conduzir um MM e apetecer-lhe um cozido à portuguesa.
Exatamente, ou um bitoque. Vamos falar de um compositor japonês que ouviu música ocidental e nunca mais quis outra coisa na sua vida. Vamos falar de Toru Takemitsu. Não confundir com o toro, que é a barriga do atum, aquela parte mais gorda, mais marmorada.
Mas isto é apropriação cultural, Martim?
Não.
Deste senhor?
Não. Vamos ver. Quem é Takemitsu? Ele é japonês de gema, nasce em 1930 e morre em Tóquio, que é um período difícil para os japoneses, porque vai ser adolescente num dos momentos mais traumáticos da história coletiva do Japão. Estou a falar, evidentemente, da Segunda Guerra Mundial e da sua conclusão, a todos os níveis bombástica. E ele vai ser recrutado aos 14 anos. Imaginem bem, de facto, as coisas estavam a correr tão mal para o Japão que ele aos 14 é incorporado nas Forças Armadas japonesas. O que as tropas japonesas faziam? Imaginem bem, a música era proibida entre os soldados, mas eles tinham uns discos da candonga de música francesa que ouviam em gramofones inventados por eles, onde a agulha era feita em bambu. Imaginem bem.
Uau!
Sim, há aqui um grau de artesanato interessante.
Isso é querer ouvir muito música.
Exatamente. E ouviam música, que não se podia ouvir, que era toda ocidental. E ele ficou fascinado com aquilo. Entretanto, vem a guerra, tudo o que sabemos, e a seguir o Japão tem um domínio americano não indiferente, hospitais geridos por americanos, militares americanos no país, e ele vai acabar por trabalhar para os americanos, mas fica doente com tuberculose. Enfim, passa imenso tempo num hospital gerido por americanos, onde a música, evidentemente, era americana. São os anos do rock aparecer e das swing bands, e ele fascinado com aquilo tudo e diz: "Esta é a vida que eu quero fazer". Agora, como eu sou japonês, não há sítio para estudar isto no Japão. Ele vai ser completamente autodidata. Estamos a falar de um tipo que vai atingir a grandeza sem nunca fazer uma aula formal. Tudo tirado de ouvido. Ele via um piano, pedia às pessoas para tocar nesse piano. Acho que há uma história gira sobre ele, que ele andava pelas ruas em Tóquio e se ele ouvisse um piano, alguém a tocar num piano numa casa, ele tocava à porta e pedia para tocar nesse piano dessa pessoa. Enfim, um tipo com muita vontade.
Muita lata também.
Muita lata também. Começa a compor, faz alguma música experimental, música concreta, tipo sons, ruídos de coisas que ele gravava, mas ele tem a sorte de, nos anos 50, o Stravinsky faz uma visita ao Japão, vai à rádio japonesa e querem lhe mostrar os novos compositores japoneses, o que eles andam a fazer. E sem querer, por engano, metem uma composição deste tipo, um disco que estava mal catalogado. Aquilo começa a tocar e dizem: "Desculpe, não era isto que queríamos ouvir". Ele diz: "Não, deixa lá isso tocar. Isso é interessante". Então ouviu uma composição do Takemitsu, um ilustre desconhecido, e depois vai para os Estados Unidos e diz: "Olha, há um tipo no Japão bastante interessante, chamado Toru Takemitsu". E aqui começam a surgir encomendas vindas dos Estados Unidos. Ele começa a escrever mais música ocidental e quando ele chega aos Estados Unidos, descobre que americanos como John Cage estão em sentido inverso, que estão a apaixonar-se pela filosofia do zen, pelos jardins de pedra, pelo espaço, o silêncio enquanto espaço metafísico. E ele diz: "Como assim? Eu venho do Japão apaixonado pela vossa cultura e vocês estão apaixonados pela minha?" E percebe que é possível fazer uma síntese de tudo isso. E de facto, ele vai ser dos maiores praticantes de todos os gêneros musicais que existem, música clássica erudita, música quase a puxar para o pop, e pelo meio faz a banda sonora de mais de 100 filmes, apanhando toda a nouvelle vague japonesa, que também existe, nomes que eu não me vou aqui atrever a dizer, mas faz, por exemplo, não sei se conhecem o Kurosawa, o "Ran", já viram?
Não, esse não.
Ele faz a banda sonora do "Ran" e tem uma coisa incrível que é uma cena de batalha em que tu estás à espera de ouvir uma música super intensa e ele faz uma coisa quase elegíaca e depois a música desaparece no momento em que se dispara um tiro de pistola. É uma coisa muito interessante, muito densa, não é o que tu estás à espera de banda sonora de filme de ação. Vamos ouvir de um filme de nouvelle vague japonesa chamado "Face of Another", que é sobre um engenheiro que tem um acidente, queima a cara e tem que usar uma máscara a vida toda, uma valsa de sabor completamente europeu. Esta valsa podia ter sido escrita por um alemão no século XIX. Foi escrita por um japonês em 1966, chamado Toru Takemitsu, que uma vez ouviu uma canção francesa e nunca mais quis outra coisa.
Adorei isto. Também gostei muito.
Agora já queimei esta carta, mas garanto-vos que se eu fizesse uma prova cega, como se faz aos sommeliers, que vinha este de olhos fechados. Se eu desse isto a um músico clássico profissional treinado, que é entendido, ia dizer que isto era Dvořák, provavelmente, 1880, 1890, ali na zona do que é hoje a República Checa.
Eu estava aqui a ver que ele era um fã de Debussy, olhava para ele como o mentor da sua carreira.
Exatamente.
E é engraçado perceber que ele não teve essa formação.
Sim, eu próprio não consigo entender como é que um autodidata, porque uma coisa é sacar uns acordes à guitarra ou ir ali ao piano e tocar só nas teclas brancas. Outra coisa é isto. Isto está aqui um grau de sofisticação altíssimo.
Há uma coisa que esta música também me fez sentir, que é o quão bom é certo cinema japonês e quão mestres eles são a criar drama e a manter o drama.
Sim.
Mesmo sendo uma coisa que parece uma valsa europeia, eu imagino isto num filme intenso, japonês, com imagens a preto e branco e esse lado muito dramático. Os japoneses conseguem fazê-lo muito bem.
Estão não?
Pode ter sido também por essa história toda.
São incríveis. Inventaram o sushi. Para além de tudo isso, podes ver um filme japonês a comer sushi. O que pode ser melhor do que isso?
E ouvir música de um senhor chamado Toru Takemizo.
Sim, estás a ver? Takemizo.
Muito bem, "Encontro com a Beleza", esta semana com Martim Sousa Tavares a dizer que os japoneses dançam valsas. Acho que conseguimos provar que sim, dançam e fazem-na da melhor maneira. Para a semana estamos de regresso com um outro "Encontro com a Beleza". Um abraço, Martim.
É sempre assim.