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E já cá estamos para mais um encontro com a beleza, sempre na Rádio Observador, com o Martim Sousa Tavares. Como vais?

Como estás, Nelson?

Saudades tuas. Uma semana é muito tempo, devíamos encontrar-nos mais assiduamente.

Mas eu mato as saudades ouvindo o podcast duas vezes por dia, todos os dias.

Ah, é?

É.

Ok.

De diferentes dispositivos para aumentar.

Isso é bom. E com diferentes IPs.

Exatamente.

Apanho a internet do vizinho só para contar mais um play.

Ora nem mais.

Muito bem. E de que vamos falar esta semana?

Lembras-te da semana passada, Keith Jarrett, esse mago do piano, do jazz?

Numa dedicatória à Maria João Pires.

Exatamente. Vamos aprofundar o discurso desta ideia de génios que fazem coisas distintas. Tínhamos na semana passada um pianista que tem os dois pés no jazz, mas também um dedo na clássica, se quisermos. Hoje vou-te falar de um pianista norte-americano chamado Dan Tepfer, que nasceu em Paris. Ele é franco-americano, na verdade, nasceu em Paris em 82 e conheci-o recentemente. Quando digo conheci, falo conheci mesmo, porque ele veio tocar ao Festival de Sintra, um concerto muito específico, e depois fomos tomar umas cervejas. E para dar uma ideia do excêntrico que é, ou incomum, vou-te dizer que ele é um pianista, um compositor, até aqui tudo bem, e um coder. Ou seja, alguém que desenvolve o seu próprio software musical, neste caso.

Mas ele usa-o na sua música?

Ele escreve código e desenvolve software, por exemplo, um computador que reage às improvisações dele e gera uma contra música em tempo real, ou desenvolveu uma aplicação para tu poderes ensaiar, isto a propósito da pandemia, creio, para poderes ensaiar em tempo real com outros músicos por internet. Enfim, alguém que escreve código. Para mim, isto é francamente chinês.

Para mim também.

Não vou tentar falar daquilo que não sei, mas é um polímata absurdo. Para dar uma ideia, é licenciado em Astrofísica pela Universidade de Edimburgo e tem mestrado em piano pelo New England Conservatory em Boston. Eu não sabia que era possível tu ires de Astrofísica para um mestrado em piano, ou vice-versa. Portanto, isto dá ideia do tipo que é. Mas onde eu quero chegar é ao seguinte: vou dizer aqui uma coisa polêmica, mas tenho fundamento para dizer. Os músicos mais bem equipados que existem, do ponto de vista da interpretação, do pensamento criativo, do conhecimento musical, são os músicos do jazz, porque o jazz é a única escola que mantém viva a junção de duas coisas, que é aquele que compõe e aquele que toca. Que em toda a história da música, as duas funções estavam juntas na mesma pessoa. O Beethoven escrevia as suas composições e tocava-as. O Mozart, idem, o Bach, idem. Hoje em dia já não é tanto assim. Nós falámos aqui da Maria João Pires, por exemplo, Maria João Pires não compõe. Maria João Pires é intérprete. Mas o jazz é normal, tu compores, tu improvisares. E o improvisar é o exercício pleno destas duas capacidades, que é tu conseguires compor e tocar em tempo real. Portanto, no momento, tu fazes isto. Ele veio a Sintra tocar num formato que nós temos lá, que é o duelo de pianistas, que são dois pianistas um contra o outro. Era Dan Tepfer versus Daniel Bernardes. Cada um tem quatro rounds, tocam de forma intercalada, o público aplaude, nós medimos a duração do aplauso e ganha o mais aplaudido. É uma picardia, eles têm que responder um ao outro e o jazz dá-lhes uma grande preparação para isto.

Gosta sempre de cantar ao desafio, não é?

É, exatamente.

Como batalha de rap.

Ora nem mais. Conseguem ter essa espontaneidade. E este Dan Tepfer, a certa altura, pediu ao público para lhe dar todos os elementos para uma composição. Perguntou qual é a tonalidade em que querem esta música, querem lá menor, lá maior, não sei quê. O público escolheu. Qual é o tempo em que querem, querem em 4/4, em 3/4, em 7/8. O público escolheu um tempo estranhíssimo, que é o 7/8, e depois pediu uma melodia. "Agora cantem-me uma melodia". Acabei por ser eu a cantá-la, porque a sala toda estava com vergonha. E ele fez uma improvisação no momento, com a melodia que eu lhe dei, na tonalidade que o público mandou, no ritmo que o público mandou. E aquilo foi brilhante.

Gênio.

Foi de gênio. E era como se fazia há centenas de anos. E na verdade, ele tem até um disco de gravações improvisadas que preenche os espaços deixados vazios por Bach, porque o Bach tem um conjunto de composições chamadas invenções, que tem várias tonalidades, no total existem 24 tonalidades, e ele só escreveu, imagina, 15. Então ficaram vazias nove, e ele escreve essas nove ao estilo dele e improvisa, portanto, num diálogo com o Bach. E o que eu quero é que nós ouçamos esta música, que é maravilhosa, e vou vos garantir que isto é, de facto, uma improvisação. Custa a acreditar, quem é que estava lá em estúdio pode dizer que é uma-

Mas isto é Bach?

Não, isto é ele a preencher um espaço que o Bach deixou vazio.

Ok.

Portanto, o Bach podia ter feito 24 peças, só fez 15. Ele vai fazer as nove que ficaram a faltar e esta é uma delas. E garanto-vos, isto sai da cabeça dele como quem bebe água. É inacreditável.

É de génio.

É de génio. E eu vou dizer mais uma coisa polémica em cima de outra polémica. Para mim, os músicos de jazz são os músicos com o equipamento mais completo que há, sobretudo quando sabem ler partituras, porque sabem o mesmo que os da clássica sabem e mais ainda. E dentro do jazz, os pianistas são os reis.

Eu acho que há sempre um paralelismo que me parece fácil de fazer quando uma mente é genial em áreas, como tu dizias, por exemplo, a astrofísica ou código. Eu acho que há alguma semelhança entre a matemática, se quiseres, e a composição.

Sim, é um pensamento algorítmico. Tu estás a gerar funções.

Exato.

E há uma lógica muito matemática na música, que tem a ver com as regras da acústica e é física, no fundo.

Estava a ler aqui coisas sobre esse último projeto dele, o "Natural Machines".

Sim. É um portal onde ele usa aquele software. É uma coisa complexa.

Eu acho que só toca num piano.

É um disk clavier.

Um Yamaha disk clavier.

Exatamente, que é um piano que tu estás a tocar.

Está ligado a um computador.

Exatamente, ele está a enviar informação, tipo: "Olha, ele tocou esta tecla com X força, com X rapidez, portanto, responde-lhe em igual medida ou responde ao contrário".

Mas ele faz um dueto. Ele está em dueto. Está a tocar em dueto.

E o engraçado é que tu ouves aquilo e não sabes qual é a parte que ele está a tocar, a parte humana, e qual é a parte mecânica, porque o som é exatamente o mesmo.

Isso é muito confuso. Engraçado.

É aquilo que se chama um nó mental.

Gostava de ver. Dan Tepfer.

Tepfer.

Tepfer.

É brilhante o tipo.

Esteve em Portugal, perderam-no. Agora, olha, só da próxima. Gostava muito de o ver. Martim, obrigado por o teres trazido.

Ora essa.

Ao "Encontro com a Beleza" e a Portugal. Aparece mais vezes com ele para beber um copo.

Da próxima vez trago.

Um grande abraço. Até para a semana e mais um "Encontro com a Beleza".