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E cá estamos para mais um encontro com a beleza, com o maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim, bem-vindo. Bem disposto?

Olá, como é que estão? Sempre bem disposto.

Eu começo a invejar muito o Martim, mas é a forma de organização da vida dele.

Conta.

Porque eu cruzo uma esquina e dou contigo em qualquer lado.

Em cada esquina, um amigo.

Sim, em cada esquina, um Martim.

O Martim. Não, o Martim.

O Martim. Eu acho é que ele tem irmãos, e vários, para se dividir, mas não. Tenho gostado muito e tens, de facto, uma agenda cada vez mais preenchida, por isso ainda mais agradecido fico que venhas cá sempre à segunda-feira ter connosco, falar neste encontro com a beleza. Já vamos saber mais sobre essa newsletter que assinas a partir de amanhã para "O Observador", mas para já, vamos lá descobrir ou redescobrir Florence Price.

Exatamente. E por quê? Tenho várias razões e acho que estava na altura certa de trazer esta música. A primeira razão foi porque na sexta-feira passada estive a fazer uma palestra num festival de ciência de Oeiras, que era sobre música e tecnologias, e havia ali vários miúdos do conservatório que vieram ver-me, porque eu sou meio que uma figura para os miúdos que têm agora 15, 16 anos, aquele tipo que não tem a idade deles.

Um maestro fixe.

É mais ou menos uma coisa assim, é o que eu tenho reparado. Então estava lá esse crowd, vamos chamar-lhe, e eu fiz uma pergunta que gosto de fazer quando estou a fazer este tipo de palestras e vou apresentar certo tipo de conteúdos, que é vir-me para o público e digo: "Diga-me o nome de um compositor que não seja um homem branco morto". E estava à espera que alguém conseguisse dizer um nome que fosse de uma compositora ou de um compositor que não fosse.

Nada?

Nada, ninguém conseguiu. E eu olhei para aqueles miúdos e disse: "Vamos, bora", a puxar por eles e ninguém disse nada. E eu: " Raios". Depois, estou a ler um livro que é o "Go Tell It on the Mountain", do James Baldwin, e no sábado passado, portanto anteontem, também fiz um concerto em Amarante, que era no centenário da Agustina, e no fim, fiz como encore uma peça da Florence Price. Isto está tudo ligado. Ultimamente, ando um bocadinho debaixo desta bolha, que é a bolha da cultura afro-americana nas artes e no século XX, os chamados renascimentos negros, o de Chicago e o de Harlem. E pensei que era extraordinário trazer aqui a música da Florence Price, porque de facto ela é pouco conhecida e porque há uma história incrível sobre ela que eu vou deixar para o fim deste episódio. Estamos a falar de uma mulher que nasce no final do século XIX, no estado do Arkansas, e que nos anos 20, a família dela faz parte daquilo que se chama a Great Migration, das famílias negras que vão do Sul para o Norte, na era Jim Crow, porque houve lá um homem a ser linchado na cidade de Little Rock, de onde eles eram. Portanto, ela acaba por vir para Chicago e participa nesta Black Renaissance de Chicago, que é na zona Sul, onde cresceu a Michelle Obama, por exemplo, uma zona que ainda está muito ligada à cultura afro-americana e de onde saíram talentos extraordinários, entre os quais o desta Florence Price.

Isto está muito ligado também ao blues.

Exatamente.

Tropecei num documentário chamado "Born in Chicago" e era só sobre os artistas de blues, quase todos negros, e quão geograficamente eles estavam situados no sul da cidade.

Exatamente. Eu vivi dois anos em Chicago e confirmo que, de facto, ainda hoje é assim. Eu vivi na zona Norte, que era onde estava a minha universidade, mas de facto a zona Sul continua a ser uma zona extraordinariamente rica da cultura afro-americana, onde o blues, o jazz, o gospel, os spirituals e também movimentos de literatura e poesia estiveram e estão vivos por ali. E esta Florence Price atravessou a primeira metade do século XX com a enorme e dupla dificuldade de ser uma mulher compositora num mundo de homens e depois uma mulher negra num mundo da música clássica, que é o mundo do homem branco, no fundo, destas elites que governavam, e ainda governam, de certa forma, a cultura dos Estados Unidos, pelo menos esta cultura de alta craveira, vamos chamar-lhe. Portanto, ela com todo o talento que tinha, acabou por escrever imensa música para a gaveta e enviou partituras para orquestras e tudo isso, e não era aceite. Onde ela tinha sucesso era em concursos em que as pessoas enviavam as partituras em candidaturas anónimas e ela assim limpou vários primeiros prêmios, alguns com prize money bastante grande, mas depois quando ela tinha de assinar em nome próprio, não era capaz. Muitas vezes ela assinava só F. Price, na esperança de que isso conseguisse levá-la pelo menos a ter a sua música apresentada. Há uns anos eu descobri uma peça dela, que ela escreveu dois anos antes de morrer, chamada "Adoration", para órgão, porque ela tocava órgão na igreja também. E ao ler este livro do James Baldwin, que estou a ler, estou completamente na bolha destas igrejas, das comunidades sulistas afro-americanas e desta noção confessional da música e o canto é extraordinariamente importante. Então descobri esta peça que ela escreveu e resolvi transcrevê-la do órgão para a orquestra de cordas. E toquei-a já um par de vezes com a Orquestra Sem Fronteiras, é a versão que vamos ouvir. E no sábado passado, isto foi o encore que se ouviu num concerto no centenário da Agustina Bessa-Luís, em Vila Meã, terra onde ela nasceu. Eu vi o Bruno tomar imensas notas.

Mas era dos livros que estávamos a ler.

É para me dizer compositores que não são Albert Sabath mortos?

É sobre o futebol. Não, eu estava a ouvir isto e estava a pensar. Claro que há aqui uma questão racial e nos Estados Unidos há uma questão racial e de acesso. E quando estamos a falar da questão racial na música, estamos a falar de acesso e até ao reconhecimento. Aquilo que tu dizias, esta pessoa não teve a oportunidade de ver o seu trabalho reconhecido porque foi excluída. Mas tu olhares para esta partitura e ouvires esta música, tu dirias que é música negra? Há isso de música negra? Eu sei que há, não é? Há alguns géneros.

Mas na clássica pode ser mais difícil.

Por acaso, no caso da Florence Price, ela inseria muitas melodias dos spirituals que as pessoas conhecem. Isto é a música que ela escreve para aquele momento em que as pessoas já comungaram e já ouviram o sermão e vão ficar um bocadinho em silêncio. Por isso é que isto é adoração e é para refletirem sobre isso. Há ali um par de passos em que se sente, de facto, uma cor mais americana, mais do jazz, menos da clássica, mas até nem diria que é a peça mais marcadamente negra da Florence Price.

Porque é que escolheste isto numa evocação de Agustina Bessa-Luís?

Lá está, porque estávamos a celebrar uma escritora, uma mulher, e custava-me ter um programa só com música de homens, porque acho que é uma noção importante. A Agustina também foi uma mulher escritora, também atravessou um regime difícil e achei que era importante. Mas queria também que ouvíssemos isto, porque há aqui uma história que eu acho fascinante, que é: em 2009, o casal Vicky e Daryl Gatwood compraram uma casa em Centene, que fica nos arredores de Chicago, e a casa estava completamente podre, tinha sido vandalizada, tinha caído uma árvore no telhado, portanto, tinha chovido lá dentro, tinha zonas que estavam mesmo apodrecidas, mas havia uma zona da casa que ainda estava seca. E nessa zona, quando eles começaram a descascar o interior, que era entulho e lixo daquela casa, começaram a dar com imensa papelada, pautas, partituras que tinham Florence Price lá escrito sistematicamente em todas as folhas. Então eles foram google-la, isto passou-se há pouco tempo, perceberam que era a compositora que foi, ligaram à Universidade do Arkansas, que tem o arquivo da Florence Price. Os arquivistas foram lá e ficaram extasiados porque perceberam que isto era a casa da Florence Price, onde ela morreu, e estavam ali imensas partituras que se sabia que ela tinha escrito, mas que estavam perdidas há imenso tempo. Peças para orquestra, concertos para instrumento solista e tudo mais. E uma das peças que estava lá era uma sinfonia de Florence Price, que na verdade é a música que os nossos ouvintes têm ouvido mais aqui neste podcast, porque a introdução deste podcast tem música de Florence Price. Aquilo . Que nós já temos nos ouvidos.

Eu tinha lido esta história, que era uma casa tipo de férias dela, ou que era a casa de verão da Florence Price e que foi lá que foi encontrado esse grande espólio. Muito bem, ficamos a conhecer um bocadinho melhor Florence Price. Bela sugestão aqui do Martim Sousa Tavares para este "Encontro com a Beleza". Amanhã chega a nova newsletter do Observador e que é assinada precisamente pelo Martim Sousa Tavares, como se ele já não tivesse coisas com que se ocupar.

É numa lógica de quem não gosta, come mais.

Como é que se chama? Tem um nome diferente.

"A Música na Minha Cabeça".

"A Música na Minha Cabeça". Qual é a premissa para esta newsletter?

A premissa é, eu acho que em primeiro lugar, é que as pessoas tinham fome de mais música clássica, portanto, já recebem em podcast, agora recebem-na também por escrito, num formato em que dá para ter um bocadinho mais de profundidade, porque são textos para ler com algum tempo, em que eu tento estar em cima do acontecimento, portanto, a refletir sobre fenómenos culturais e musicais que estão a acontecer. E a newsletter já de amanhã é sobre isso mesmo, sobre um pianista com imenso sucesso em França, acho que é uma questão de tempo até ele também se tornar famoso em Portugal, que está a redefinir o que é que poderão ser os limites entre géneros, entre a música clássica e não. Ele chama-se Sofiane Pamart. E, no fundo, também faço sugestões de coisas interessantes que estão a acontecer agora, leituras, concertos. E o ponto de partida é a música clássica, mas o ponto de chegada será múltiplo e eclético, espero.

Ótimo. "A Música na Minha Cabeça" é a nova newsletter do Observador, assinada pelo Martim Sousa Tavares e que fica disponível todas as terças-feiras. Podem subscrevê-la no nosso site. De hoje a uma semana, está de regresso este podcast, o "Encontro com a Beleza". Martim, boa semana. Um abraço.

Obrigado. Uma boa semana.

Até para a semana.

Até para a semana. Tchau.