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Este é o Encontro com a Beleza, com o Martim Sousa Tavares. Uma vez por semana encontramo-nos aqui na Rádio Observador e nas últimas semanas temos compositores vivos. Estou a gostar desta tendência.

É verdade. A música do nosso tempo. Perceber para onde é que vamos, onde é que estamos e para onde é que vamos.

É verdade. E agora vamos à Grã-Bretanha com um senhor que nasceu em Londres, pelo que percebi.

É verdade. Thomas Adès, que é já considerado o mais importante compositor do século XXI.

E não é exagerado?

Se calhar, não. Se calhar, é acertado. É sempre difícil ter uma perspectiva sobre aquilo a que se chama history in the making, que está ainda a acontecer. Mas a verdade é que mesmo que ele falecesse agora, já deixava um legado absolutamente incontornável e o século XXI já vai bem adentro, o primeiro quartel já lá vai, de maneira que dizer isto já é um bocadinho acertado. Então, quem é este homem que nasce em Londres em 1971? Dizer que ele nasce num berço privilegiado é um bocadinho exagerado, mas ele é filho de uma historiadora de arte e de um poeta. Nasce pelo menos num contacto privilegiado com a arte. Isso é certo. Ele estudou música na Guildhall e em Cambridge, grandes escolas. E o que é engraçado é que ele atingiu o reconhecimento como compositor muito cedo. Isso quer dizer o quê? Que antes dos 40 anos, ele já tinha, por exemplo, grandes festivais de música a dedicarem-lhe retrospectivas, que é uma coisa que normalmente se faz ou quando o artista já morreu ou quando chega aos 60, 70 anos. Uma retrospetiva, Manuel Oliveira, isso faz sentido. Agora, quando tu tens 37, 38 anos, é de facto notável. A questão é que para além de ser o compositor que é, também foi um excelente pianista, chegou a ser finalista num concurso bastante importante em jovem. Hoje em dia toca menos, mas ainda toca bastante. Eu, na verdade, vi-o ao vivo na Gulbenkian há uns anos, a dar um recital, que nem sequer era com a música dele, era com outro compositor que ele adora. E no dia seguinte ele deu uma masterclass de composição na sala de ensaio da Gulbenkian e foi pena. Digo isto com muita pena, porque estavam convidados os alunos de composição da Escola Superior de Música, mas ou os alunos eram tímidos ou não estavam muito preparados sobre a música dele. Ele próprio acabou por dizer: "Eu trazia aqui coisas para vos contar da minha música, mas vocês não estão muito situados". Na parte das perguntas, acho que só lhe fizeram uma pergunta.

Devem estar cansados, foram para a queima das fitas, se calhar.

Se calhar, mas não é todos os dias que tem o Thomas Adès disponível.

Que desperdício.

É um desperdício. Ouvias três, quatro peças dele, olhavas para as partituras. Achei pena. Ele tem uma agenda extremamente intensa. Fui navegar pelo site dele e ele tem lá uma zona em que diz os sítios do mundo em que a música dele está a ser tocada. Nunca para. Ele podia provavelmente parar de escrever música e viver só dos direitos de autor. E na Gulbenkian, no próximo dia 26, por exemplo, vai-se tocar música dele, que é uma peça linda inspirada no canto dos marinheiros. Ele consegue uma coisa extraordinária, que é o sonho de todos os criadores, que é funcionar com base em grandes encomendas. Tu não vais agora para tua casa e escreves uma peça e depois vais tentar encontrar quem toque essa peça. Não. Tu esperas que o telefone toque e que te digam assim: "Boa tarde, Thomas Adès." "Sim." "Daqui fala do Festival de Salzburgo." "Muito bem." "Queríamos que escrevesse uma ópera para nós." E tu: "Muito bem, então eu escrevo a ópera." Montam-se estas estruturas de coprodução e quando ele escreve a música, ela já tem data de estreia marcada e é sempre em grandes palcos. A primeira ópera dele, lá está, foi no Festival de Salzburgo. A segunda ópera dele estreia no Metropolitan, em Nova Iorque. Quando é assim, não vou dizer que fica fácil, mas já estás naquele palco. Com as peças orquestrais é igual. E para além disso, como ele é um ótimo maestro, muitas vezes ele dirige as próprias orquestras. Daí passa para a direção artística de festivais. Eu não sei como é que ele consegue também não se dispersar. Faz lembrar a Caroline Shaw.

Da semana passada.

Mas citando o maestro Pedro Amaral, agora novo diretor artístico do São Carlos, que deu umas entrevistas recentemente, perguntaram-lhe isso também: "Você faz muita coisa, compõe, estuda, divulga, escreve e dirige. Como é que consegue não se dispersar?" Ele diz que a música é o centro de tudo. Quando é assim, ao menos as coisas emanam todas do mesmo sítio. Para além disso, ele continua também a tocar piano, toca no Carnegie Hall, etc. Eu não sei como é que isto é possível. Acho que estas pessoas são mesmo seres superiores, são polímatas. De certeza que se fôssemos medir o QI dele, estava a rebentar a escala. E para além disso, escreve música fascinante. Nós vamos ouvir uma peça pouco intensa, muito contemplativa dele, que eu acho que os nossos ouvintes vão apreciar.

Mas a obra dele não é assim tanto.

Não. A obra dele é um Technicolor 4K, com muitos efeitos, muita coisa de grande intensidade, mas esta é uma das peças mais bonitas e, na verdade, mais diferente até do catálogo dele. Vem de uma composição de 94, chamada "Arcadiana", para quarteto de cordas, que são sete andamentos. Cada andamento descreve uma visão do paraíso, com muita astrologia pelo meio, a ideia daquilo que é arcano e tudo mais. Este andamento chama-se "Oh Albion", sendo que Albion é o nome mais antigo para a ilha inglesa, era o nome que os gregos davam àquela ilha. É uma música extremamente serena e bela.

Fiquei muito curioso, porque disseste que isto era uma espécie de antítese na carreira dele.

Completamente.

Faz lembrar também o David Lynch, que tem aquele o "Straight Story", também é um filme que não tem nada a ver com a maioria dos filmes do Lynch.

Exatamente. Eu quero trazer as pessoas para o Thomas Adès, mas sinto que se fosse buscar uma das peças mais intensas dele, seria too much. E esta música é tão bonita.

Estavas a falar do Albion. Não sabia que era o nome-

Era o nome, creio que grego, para a ilha a que hoje chamamos Inglaterra.

Como é que era Lisboa? Olissipo, não era? Dos romanos.

Exatamente.

Também tinha outro, Olissipo. Estávamos a falar de Albion porque eu lembrei-me do clube de futebol, o West Bromwich Albion.

Tem que ver com isso, então.

Deve ter que ver com isso. Não sabia. Obrigado por esse detalhe.

Nada. Por acaso fiquei curioso também e descobri que Albion e Albânia têm a mesma etimologia. Deve ter que ver com o branco, com Alba, albino, também deve ter que ver com isso.

Sim, os ingleses são bem branquinhos. Os gregos chegaram à ilha e disseram: "Estão branquinhos, que é que são?"

Pronto.

Muito bem, gostei muito de conhecer Thomas Adès. Dizias que a música dele passa na Gulbenkian, não é? Ainda este mês.

É verdade, dia 26 deste mês.

Olha, boa sugestão.

Portanto, não percam. É de hoje a oito, no fundo.

Martins de Sousa Tavares, com mais um encontro com a beleza de hoje a uma semana. Temos mais um programa aqui na Rádio Observador. Grande abraço.

Pois temos.