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Todas as semanas na Rádio Observador há um encontro com a beleza e é com o Martim Sousa Tavares. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje ele traz nos um banger, Martim.
É verdade.
Que modernasso. Apesar de século XVIII.
Eu ia dizer, vamos abanar a peruca.
Aqueles caracóis.
Exatamente.
Que imagem.
Há vídeos incríveis. Sabes que há páginas de memes e de tudo, inclusive para a música clássica. Nós também somos filhos de Deus.
Porque eles também se querem divertir.
Exatamente. E há vídeos muito giros que põem esta música que vamos ouvir como se fosse a banda sonora de vídeos, tipo de rappers e coisas assim, a fazer headbanging. E é muitíssimo convidativo.
E funciona?
Funciona.
Por quê? Como é que funciona?
Porque isto é mesmo um banger. Estamos no século XVIII, mais concretamente em França. O que acontece?
Onde se passava tudo, não é?
Tudo, exactamente. Já não é o tempo do Rei Sol, já estamos com o filho, Luís XV.
Actualmente é Berlim, as toupeiras de Berlim. Na altura era isto.
Exatamente, completamente. Era Paris, era a ópera de Paris. O que acontece? Em 1725, há uma visita muito engraçada, curiosa, de encontro de povos. Por quê? Os franceses eram colonos na América do Norte. Nós hoje em dia pensamos mais nas colónias inglesas e espanholas, mas os franceses tiveram uma grande parte daquilo e venderam-na aos Estados Unidos, o estado de Louisiana, já no século XIX. Isto para dizer que também havia franceses por ali. Na zona onde fica hoje o Illinois, portanto ali no Midwest, na zona da fronteira com o Canadá, eles lá andavam e ora combatiam umas tribos nativas, ora faziam alianças com outras, e a certa altura trouxeram seis chefes nativos americanos a Paris, em 1725.
Chefes?
Chefes de tribos.
Ok. Pensei que era de cozinha.
Não. No caso destes chefes mesmo com penas, estás a ver? E profusamente pintados e tudo mais. E um deles impressionou particularmente os parisienses. Imaginas o que é trazê-los em Paris, 1725, trazes aquelas pessoas de quem só ouviram falar e viram algumas imagens, mas nunca os viram ao vivo.
Exóticos.
Exatamente. Um deles, que era o chefe Chicago, da tribo que depois vai dar origem, como é óbvio, à cidade de Chicago, que acho que quer dizer alho selvagem.
Alho?
Alho selvagem, creio que sim. Acho que aprendi isso na altura em que lá vivia. Este chefe, a quem eles chamaram Agapite, provavelmente tentando latinizar o nome para o antigo Agapito, mas na verdade chamava-se Akavia, Chicago impressionou muito Paris. E por quê? Porque ele dançava, cantava, fazia batuques, tudo isso, e os parisienses deliciados com aquilo, mostraram-no ao rei. Aliás, eles vieram a Paris para assinar um acordo de cooperação militar, coitado, uma tribo, com o Estado de França. Mas o rei recebeu-os bem, Luís XV, e disse: "Muito giro, sim, senhor. No dia seguinte, o programa sou eu que convido, vamos todos caçar coelhos". E ele ali deve ter dado cartas também, porque eles eram excelentes caçadores. Uma das pessoas que assiste a tudo isto é um compositor, que é o Rameau, Jean-Philippe Rameau, que fica fascinado e escreve logo dois anos depois uma peça inspirada nos sauvages, nestes selvagens, estes nativos que dão patadas e fazem batuques com o próprio corpo. E a música é um sucesso tão grande que ele, passados uns anos, em 1735, resolve transformá-la toda num bailado chamado "Les Indes galantes" ou as Índias galantes. Aqui, num conceito generalizado das Índias. Nós também, portugueses, fomos culpados disso, de chegar ao Brasil e dizer:"Estes são índios". A Índia neste sentido exótico, tudo o que é não ocidental, no fundo. Tanto há índios na Índia, como há índios na América do Norte, como há índios no Peru. E ele faz vários números. A ideia era mostrar o exotismo dos povos. E ele escrevia música, nem se pode falar de uma apropriação cultural, é mais uma projecção, uma imaginação, uma coisa da cabeça dele, para aquilo que seria a música dos incas do Peru, para a Pérsia, para a Turquia e para a América do Norte. Ele volta a inserir esta música que vamos ouvir. É uma ópera bailado, portanto canta-se e dança-se. É super popular desde então e sobretudo desde o século XX, quando foi redescoberta, nunca mais voltou a sair dos palcos. E há muitas versões. Esta música que vamos ouvir específica é o banger desta peça. Há muitas versões de realizadores e encenadores modernos que adoram pôr esta música, que vamos ouvir, que é barroca, com estilos de dança completamente contrastantes. Um que ficou muito famoso.
E funciona?
Funciona muito bem. Eu vi um incrível do Clément Cogitore, realizador, que fez um vídeo desta música em que a companhia de dança está a dançar krump. Não sei se sabes o que é, uma dança que nasce nos guetos de Los Angeles nos anos 90, muito agressiva. A linguagem corporal é muito agressiva. Vês as próprias pessoas, escreve-se krump com K, e eles dançam isso, são comunidades autênticas dali de Los Angeles a dançar esta música e aquilo é incrível. E quando aquele vídeo caiu, eu não sei de que é que ele fazia parte, acho que era um projeto da Ópera de Paris, foi uma coisa que viralizou, porque tens uma dança suburbana dos anos 90 ao som deste banger do século XVIII. Portanto, por que isto é um banger? Tem muito peso, vamos ouvir a música tocada de uma forma exuberantemente pesada e tem muitas notas repetidas. Sempre a mesma nota a repetir, que era um sinónimo de selvageria.
E se fosse uma música eletrónica, de um género assim mais agressivo hoje em dia?
Sim, de certa forma, um techno selvagem. Não sei, vamos ouvir e vocês dirão.
Sim, senhor.
Estás a vê-los no século XVIII a abanar a peruca?
Estou.
A peruca a cair ao chão.
Eu próprio não consegui parar quieto durante esta escuta. Está incrível.
Não é?
Agora não consigo é fazer uma associação imediata com essa iconografia dos índios.
Acho que é porque eles imaginavam-nos como uns bárbaros, que estão descalços a dar patadas no chão e tudo aquilo.
Os índios ou as índias galantes. O que quer dizer? Que são bonitos? Se calhar ele estava impressionado com eles.
Algumas são muito elegantes.
Claro.
Sim, algumas destas índias imaginárias, que não existem.
Que engraçado. Não sei se para um músico isso pode ser um objectivo, tu criares uma peça que se adequa depois a imagens tão diferentes ou até a géneros tão diferentes, como falavas, por exemplo, de uma dança moderna, poder funcionar em cima desta música.
Completamente. Eu acho que esta música é um bocadinho outlier na estética barroca, ou seja, o crump, de facto, é muito extremo.
E se calhar como isto também é.
Pela violência com que se dança e o tipo de expressão. Portanto, isto é outlier. Não podes fazer isto com qualquer peça barroca, mas com esta...
Claro.
Convido as pessoas, procurem a versão do Clément Cogitore.
Muito bem, fomos a França, século XVIII, título do episódio desta semana do "Encontro com a Beleza", um banger do século XVIII.
Olha, e posso fazer um disclaimer?
Claro.
Para a semana vamos ouvir o bisavô do heavy metal.
Estás a prometer muito. Vais cumprir?
Vou.
Ok, fica marcado.
Com o beneplácito do Fernando Ribeiro dos Moonspell.
Ok.
E mais não digo.
Então não percam o próximo episódio do "Encontro com a Beleza", aqui na Rádio Observador, nas plataformas de podcast, sempre com o Martim Sousa Tavares. Um abraço, Martim.
Até lá.