João leva na mão uma bandeira de Portugal. Entre bandeiras da União Soviética, do movimento Antifascista e de centrais sindicais, o jovem, que se descreve como um “patriota”, isola-se na frente da manifestação organizada pelo que descreve como sendo “grupos comunistas”. É nos cânticos que recordam o 25 de abril e que atingem Pedro Duarte que João mostra a maior oposição ao que se passa nas suas costas. É contra a apropriação do protesto por uns ou outros grupos políticos ou ideológicos. “A habitação”, defende, “é um problema de todos os portugueses”.
A marcha organizada pelo movimento Acampada pela Habitação do Porto começou em plena Praça da Batalha. Fruto de uma nova iniciativa autárquica, aquele espaço encontra-se vedado a todos os veículos que não sejam o 22 que vem e segue para o Carmo. Por isso, todos os fins de semana, montam-se bancas para a venda de produtos artesanais e os turistas amontoam-se para tirar fotografias à Igreja Paroquial de Santo Ildefonso e para comer um cachorrinho na Cervejaria Gazela. Porém, este sábado, a movimentação é outra. À semelhança do que aconteceu na semana passada, centenas reuniram-se inicialmente naquele largo para reivindicar o direito à habitação.
O destino final seria a Praça D. João I, aquela que tem sido a “casa” deste movimento há cerca de duas semanas. Mas, primeiro, é preciso reunir participantes. “Camaradas, precisamos de ajuda a distribuir os papéis”, ouve-se um megafone. Os papéis sinalizam o lema da marcha: “Não é esquerda nem direita, é pelo direito de todos pela habitação”. No verso, encontra-se a lista de seis reivindicações que têm sido exigidas pelos manifestantes desde que se organizou este movimento.
Nas janelas do Orfeão do Porto, curiosos acompanham o crescimento popular. Em poucos minutos, uma praça que estava repleta de turistas passou a estar preenchida por manifestantes que erguiam cartazes. “Teto, chão, direito à habitação” foi o primeiro cântico entoado pelos que seguravam o megafone. Ao som das vozes juntou-se a percussão dos tambores e, assim, começou a marcha.
Os agentes da PSP que já reforçavam a segurança da praça colocaram-se na frente do pelotão. Seis elementos da polícia começaram a caminhar e, atrás, seguiam centenas que, pelo caminho, se tornaram milhares. Logo nos primeiros minutos, os turistas foram encostados às margens da Rua de Santa Catarina. Os telefones e câmaras deixaram de captar fotografias da arquitetura portuense e dos célebres azulejos que revestem a Capela de Santa Catarina, para dar toda a sua atenção aos manifestantes que por ali passavam.
“Pedro Duarte, tem atenção, a tua casa vai virar ocupação”, ouviu-se cantado repetidamente. Tem sido um dos cânticos mais entoados nas últimas semanas — em Lisboa, o sujeito é Luís Montenegro, mas o ritmo é idêntico. Em toda aquela extensão de manifestantes, o único que não repete as palavras é João. Quando os responsáveis pelos megafones expressam que “o Povo, unido, jamais será vencido”, o portador da bandeira de Portugal não murmura o mesmo cântico.
David Oliveira
Manifestantes recordam episódio de violência policial
A marcha começou alguns minutos após as 16h, quando estava previsto o início da manifestação. Foram parando pelo caminho, para intensificar o poder da voz, mas a principal paragem foi o Mercado do Bolhão. Foi com esta construção emblemática da cidade do Porto como pano de fundo que uma dezena de manifestantes, na fila da frente, exibiu um conjunto de fotografias enquanto cantava.
Hematomas, cortes e cabeças ensanguentadas. Não há duas imagens iguais, mas todas foram captadas no mesmo momento. Nesta demonstração, que durou cerca de 10 minutos, os participantes no protesto recordam os efeitos da primeira intervenção policial que passou pela Praça D. João I, há pouco mais de uma semana. No total, 39 pessoas ficaram feridas, resultado do que foi descrito pelos manifestantes como um “abuso de força policial” e “agressões” vindas dos agentes da PSP que procuraram desmobilizar o protesto.
A segunda intervenção, na madrugada de terça-feira, foi mais pacífica, com as dezenas de manifestantes que continuavam a pernoitar em tendas a organizar com as autoridades uma dispersão sem recurso à força — ao contrário do que aconteceu em Lisboa. Não obstante, e mantendo-se a intenção de voltar a acampar na praça de betão ao lado do Rivoli, os manifestantes recordam o episódio de violência policial que está a ser investigado pelas autoridades judiciais.
David Oliveira
Lá continuaram a descer e, por volta das 17h15, os que lideravam a marcha chegaram à “sede” da acampada. A praça não estava vazia ou com o movimento turístico limitado que costuma ver. Nas imediações da Praça D. João I, estavam centenas de apoiantes, com cartazes, à espera daqueles que caminharam durante cerca de uma hora para ali chegar. O resto do conjunto só pisou aquele chão uns minutos depois, pelas 17h30, minuto em que toda a multidão explodiu numa ovação. De seguida, os manifestantes levaram para o ar os molhos de chaves que carregavam e, durante breves instantes, o tilintar do metal era o único som que dava para ouvir na praça.
A juntar-se ao cheiro das castanhas que continuaram a ser assadas na margem da praça, a organização começou a montar mesas com comida e bebida para receber os que protestavam. Os cânticos persistiram, mas agora juntavam as vozes de milhares, em uníssono, a reclamar melhores condições de acesso ao mercado de habitação. Aqui, retorna a distribuição dos panfletos. Os manifestantes reforçam as suas reivindicações, que passam pela reversão da lei do arrendamento, o aumento da habitação pública e a aplicação de um tento para o preço das rendas.
Passada menos de uma hora após a chegada dos manifestantes à Praça D. João I, começou o concerto de Miguel Araújo. O artista, que partilha o nome com um dos membros do grupo Os Azeitonas, cantou várias canções associadas ao 25 de abril. E o povo aderiu. Numa outra margem da praça, onde continuavam os cânticos reivindicativos, João encontrava-se no centro de um círculo, a erguer a bandeira nacional, em conjunto com os outros manifestantes.
David Oliveira
A resistência a uma nova noite ao relento que acabou com um novo conjunto de tendas
“A ideia é passarmos aqui a noite”, admite Pedro Manuel, um dos porta-vozes do movimento da Acampada do Porto. O material de campismo preenche a parede no fundo da praça. Entre esteiras, tendas, mantas e outros equipamentos, os manifestantes têm tudo o que necessitam para regressar às pernoitas na Praça D. João I. Ao som de “Grândola, Vila Morena”, cantada pelos participantes do protesto, o porta-voz reivindica que a praça “se tornou do povo novamente” após ter estado “morta” durante muitos anos.
Ao Observador, Pedro Manuel diz ainda que sabe que estão a ser ouvidos pela Câmara de Pedro Duarte e pelo Governo de Luís Montenegro, que têm sido os alvos de cânticos ao longo de toda a tarde, mas considera que estão a ser ignorados. “A habitação voltou a ser o foco do debate público”, considera, numa altura em que estão milhares de pessoas reunidas neste espaço. “Pedro Duarte ainda não falou com ninguém do movimento”, sublinha ainda, garantindo que não houve “qualquer tipo de comunicação” com o executivo camarário desde o início da acampada.
A decisão de voltar a montar as tendas no betão só chegou depois das 20h, ao fim de cerca de uma hora de Assembleia Popular — que, pela primeira vez, contou com uma intérprete de língua gestual portuguesa. O apelo à votação recebeu uma grande resistência dos participantes que, na sua maioria, optou por não manter a acampada com tendas. Após uma longa ronda de deliberação, onde menos de uma dezena de manifestantes apelou à permanência naquele espaço, 130 pessoas votaram favoravelmente.
Também a meio da noite, a PSP voltou a lembrar que, quer em Lisboa quer no Porto, os manifestantes que protestam pelo direito à habitação não estão autorizados a instalar tendas para passar a noite — e as forças de segurança prometem agir para retirá-las das praças. “A PSP respeita e garante o exercício do direito de reunião e de manifestação, constitucionalmente consagrado, sendo, contudo, fundamental que o mesmo decorra de forma pacífica, com respeito pelos direitos dos demais cidadãos, pela ordem e tranquilidade públicas e dentro dos limites e condicionalismos previstos na lei, incluindo os aplicáveis à utilização e ocupação do espaço público”, referiu numa nota à comunicação social.
O futuro da acampada depende dos votos populares, mas Pedro Manuel admite que “vão sempre continuar” a protestar e que continuarão a vir à praça até verem as suas reivindicações concretizadas.
Para além de ser o órgão onde se decide o destino do movimento, é também um espaço para a discussão de propostas para atualizar a lista de reivindicações. A porta-voz do grupo de trabalho responsável pela segurança dos manifestantes — que, ao longo do dia, foi distribuindo folhetos a lembrar os direitos que cada um dos que protesta tem no exercício desta atividade —, reforçou a importância da criação de um cordão humano, caso exista uma nova intervenção policial, mas lançou-se um apelo à “resistência pacífica”. “Não estamos sozinhos e não largamos a mão de ninguém”, afirmou ao microfone.
Identificada a localização da cantina popular e a lista de necessidades para continuar a manter todos os manifestantes “a lutar de barriga cheia”, bem como a tenda de primeiros socorros: as encarregadas pelos primeiros socorros físicos apresentam-se com coletes amarelos, enquanto as responsáveis pelos cuidados psicológicos têm vestes cor-de-laranja. Discutiram as propostas e reconheceram todas as condições disponíveis no perímetro da acampada, mas sublinharam que mesmo que não haja uma acampada cheia de tendas — antes de saber que seriam 130 a acampar —, pediram a permanência do máximo número de manifestantes na praça durante a noite, independentemente do frio e da chuva que está por vir.
David Oliveira
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]