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Seja muito bem-vindo ao "Encontro com a Beleza". Acontece na Rádio Observador uma vez por semana e sempre com o maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Olá, Nelson, viva a República.
Viva, porque 5 de Outubro, não é?
É verdade.
Ficas chateado quando um feriado calha a um domingo?
Por acaso tenho pena. Há países em que quando o feriado calha ao fim de semana, esse feriado passa para um dia da semana.
Onde? Quero imigrar.
Na Rússia, por exemplo.
Se calhar, já não.
Pois.
É o preço a pagar. Olha, vamos falar de Meredith Monk, que tem um ar um bocadinho à Alanis Morissette mais velha, não é?
Tem um bocadinho. E vamos falar dela por duas razões. Primeira, porque de hoje a oito ela vai estar no Teatro Circo em Braga.
Olha que bem.
Que é uma coisa bastante imperdível. Ela na verdade esteve em Lisboa também na Culturgest em fevereiro deste ano, num concerto esgotado.
O Teatro Circo é espetacular.
É espetacular.
Tão bonito.
É lindo. Eu acho que é mesmo das salas mais bonitas do país.
A minha favorita. Também gosto muito do Teatro Sá de Miranda em Viana do Castelo.
Também, mas é mais pequeno.
É mais pequenino, mas tem um certo charme também.
Portanto, corram aos bilhetes. Eu acho que por esta hora já devem sobrar muito poucos e ela merece. E este mês de outubro vamos fazer aqui um percurso com apenas criadores que estão vivos, portanto, música clássica que está viva e que está a dar cartas. Vamos ter duas compositoras e dois compositores. E começamos precisamente com a Meredith Monk, que nasce em 1942, portanto, já é uma octogenária. Vai fazer 80 e picos anos agora em novembro, acho que é em novembro. E em Nova Iorque. Pôr etiquetas numa pessoa como a Meredith Monk é muito ingrato. Portanto, o mais simples é dizer que é compositora, é cantora/vocalista, é coreógrafa, é criadora de novas óperas, de teatro musical, é também realizadora, faz instalações. No fundo, o que ela é? Uma artista multidisciplinar.
Mas é uma nova-iorquina, não é?
É uma nova-iorquina.
O trabalho está muito ligado à cidade também.
Completamente. E isso é que é a coisa fascinante, porque como todos sabemos, ao longo dos últimos 100 anos, Nova Iorque foi palco de muitas coisas que aconteceram nas vanguardas artísticas, nomeadamente musicais. Por exemplo, no início do século, a indústria da Tin Pan Alley, com os primeiros songwriters, o próprio Gershwin a trabalhar ali. Depois tens o teatro musical e a Broadway, que também se cristalizam ali. Tens as vanguardas do pós-guerra, como por exemplo, John Cage, Morton Feldman, mas depois os minimalistas, um Steve Reich, um Philip Glass, e a Meredith Monk pertence a esta genealogia, portanto, há ali um espaço para ela e é um nome fundamental. E uma das coisas interessantes desta gente que por ali andou e destes nomes, é esta natureza da experimentação que eles fazem, faz com que eles naveguem várias artes e colaborem muito entre si. Portanto, ver o percurso da Meredith Monk não é só vê-la a trabalhar sozinha, é ver as pessoas com quem ela se cruza, de um Bruce Nauman a um Julius Eastman, de um Jean-Luc Godard a um David Byrne. São percursos muito caleidoscópicos, em que ela parece que conhece toda a gente, trabalha com todos, todos trabalham com ela. E esta natureza colaborativa é mesmo fundamental. Ela funda o seu próprio grupo, chama-se Meredith Monk and Vocal Ensemble, e criou a The House, que é uma instituição, que ainda existe.
Não a Bauhaus.
Não a Bauhaus, exatamente. The House.
The House.
E é engraçado porque dizer que ela criou esta instituição, que era um espaço onde apresentava o seu trabalho, parece que ela criou uma fundação. Não, isto eram vidas imensamente precárias, na verdade, mas com muita liberdade. E os artistas destas gerações apresentavam, expunham o seu trabalho e criavam em lugares alternativos: galerias de arte, mas também igrejas, museus, bares, espaços, no fundo, a periferia urbana. E a periferia urbana, como todos sabemos, é sempre onde acontecem as coisas mais interessantes.
Verdade.
É onde está tudo mais vivo. Ela ficou muito associada ao conceito das extended techniques enquanto vocalista, portanto, usar a voz verdadeiramente como um instrumento, ir muito além do mero canto. E eu convido os nossos ouvintes, se não conhecem, a descobrir, por exemplo, o "Turtle Dreams", que é uma música maravilhosa de 18 minutos, ou a "Dolmen Music", que é um disco dela, que vai parar a um sampling do DJ Shadow. Conheces?
Sim.
O "Midnight in a Perfect World".
É do "Endtroduction", esse álbum é espetacular.
É maravilhoso.
95, não é?
96. Na verdade, a primeira vez que eu ouvi a voz da Meredith Monk foi nesse sampling.
Acho que é um disco mesmo importante.
É incrível.
Porque vai buscar muita coisa a muito lado.
É mesmo incrível.
Olha, estás-me a dar uma novidade.
São os melhores anos do house pra mim, final dos anos 90, início dos anos 2000.
Nem sabia que a Meredith Monk lá estava também.
É verdade, e o "Midnight in a Perfect World" eu acho que é o grande êxito do DJ Shadow, pelo menos contando o número de escutas. No Spotify está nos 40 milhões. E é todo à base de um sampling da voz dela e de música que está no disco "Dolmen Music". E na verdade, foi desta forma que eu a conheci. Portanto, para respeitar esta grande artista, que já teve todas as honras e prêmios possíveis, mas que lá está muito ativa, sempre com as suas características tranças, vai se apresentar em Braga e vamos ouvir dela, não uma canção vocal, mas uma peça para piano, que eu acho divertidíssima, que se chama "Railroad Travel Song", e que dá esta ideia de que estamos a viajar de comboio. Portanto, tu ouves esta música e vês de fato as coisas a passarem por ti na janela.
Estás num Alfa?
Sim, ou num Intercidades.
Ok.
Bora ver.
Vamos a ela. Espetacular isto.
"Railroad Travel Song", Meredith Monk.
Não é incrível?
Não sentes os postes a passar e as coisas?
Sim, sem dúvida.
Onde é que estavas? Na linha da Beira Alta?
Estava a chegar ao Tua. Estava a caminho do Douro.
Engraçado. Eu acho que ia ali no Alfa, na zona em que o Alfa passa por Espinho, mais ou menos, zona de São Félix, e vai muito perto do mar.
Sim, e depois começas a ver a duna de Espinho.
Exatamente, era aí que eu estava. Portanto, com um bilhete do lado do mar.
Mais um bocadinho e estás a chegar a Gaia.
É verdade.
Muito bem. Gostei muito desta canção, "Railroad Travel Song". Tem uma certa emergência também.
Completamente.
Parece que estamos ansiosos por chegar ao destino.
Completamente.
Gostei muito e fiquei curioso com "Monk in Pieces", um documentário que saiu este ano em fevereiro, e que eu ainda não vi. Estava aqui a ler sobre ele. Tem o David Byrne, a Björk e o Philip Glass.
A Björk adora. Ela é um ídolo para a Björk.
Dá para perceber.
É verdadeiramente caleidoscópica. Destas pessoas que vão à frente das definições.
Aliás, o filme diz: "Um filme sobre a Meredith Monk, compositora, performer e visionária".
Pois, lá está.
Está mesmo à frente.
Às tantas mais vale dizer: "A senhora é o quê?" "Sou visionária."
Sim, há activistas e há visionárias.
Vou liquidar as finanças como visionária.
Muito bem. Martina Sousa Tavares com mais um "Encontro com a Beleza". Belíssimo este, com Meredith Monk.
É isso, dias 2 a 8 vão ao Teatro Circo e, por favor, não percam o concerto dela.
Muito bem. Aí fica a sugestão de hoje a uma semana. O "Encontro com a Beleza" também regressa. Está sempre disponível no site do Observador, nas plataformas de podcast e passa ao domingo de manhã aqui na Rádio Observador. Um abraço.
É verdade, até lá.