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Olá, seja bem-vindo à Rádio Observador. Nos próximos minutos, numa iniciativa da Ausonia Discreet, falamos sobre um tema que afeta uma em cada três mulheres adultas com mais de 18 anos: a incontinência urinária. Mais de metade destas mulheres não fala com o médico sobre o problema, o que dificulta o processo de encontrar uma solução. Eu sou a Maria João Simões e para nos falar mais sobre as perdas de urina, quebrando tabus e mitos, está comigo Mariana Macieira Pires, é fisioterapeuta especializada em saúde pélvica. Bem-vinda, Mariana, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Obrigada eu, Maria João. É um prazer estar aqui.

O gosto é nosso. Mariana, esta pode ser uma condição médica muito solitária, os números que referi há pouco são exemplo disso, mas antes de falarmos sobre como incentivar quem vive com esta condição a procurar ajuda, pergunto-lhe quais são as principais causas. Há alguma forma de prevenir?

Acho importante primeiro definirmos o que é incontinência urinária. Ela é descrita como toda a perda de urina que acontece involuntariamente. Ela pode mesmo ser uma condição solitária, como disse. Ela afeta a qualidade de vida das pessoas, chega a restringir a prática do exercício, da vida social, até a atividade sexual. Ela é hoje em dia reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como um problema de saúde prioritário. Ela está ao mesmo nível que a tensão arterial e a diabetes. E esta incontinência pode ocorrer principalmente por dois motivos: por episódios de urgência, que é quando, por exemplo, nós temos uma vontade urgente, incontornável de urinar, mesmo que a bexiga não esteja cheia. Por exemplo, quando estamos a chegar a casa, a colocar a chave na porta e já estamos com vontade de urinar e deixamos escapar uma gota. Ou o outro motivo pode ser em episódios de esforço, e isto acontece quando está associado a um esforço como uma tosse, um espirro, um riso, um salto ou mesmo uma corrida. Falando um pouco das principais causas. Está muitas vezes associado à idade, portanto, muitas vezes associamos que as pessoas mais velhas é que têm incontinência, à menopausa, o número de gravidezes, portanto, quanto mais gravidezes a pessoa tem, maior a prevalência de ter incontinência. O parto vaginal, se for intervencionado, obesidade, uma pessoa que é sedentária, por exemplo, pessoas com doença crônica respiratória, por tossirem muito, também acabam por ter muitas perdas por este esforço contínuo. E também uma das causas pode ser as crenças e o nível socioeconômico e educação da pessoa. Ou seja, uma pessoa que acredita que a avó tem incontinência, ela acha que pode ter incontinência e a mãe também, ela acredita que também pode ter, portanto, está tudo certo em ter. Acham que é uma coisa normal de acontecer e deixam isto arrastar em vez de procurar tratamentos.

E em termos de prevenção, Mariana?

Em termos de prevenção, acima de tudo, é ter bons hábitos de vida, ter uma saúde ativa, não sedentária, esse é o número um. E tentar, por exemplo, não ignorar os sinais da bexiga quando ela está muito cheia. Sentarmos para urinar. Há muitas pessoas que não sentam, principalmente em assentos públicos, não sentam para urinar, então acabam por não esvaziar a bexiga totalmente.

Mais vale limpar bem, desinfetar bem.

Sim, sempre sentar. Evitar também terem muitos episódios de obstipação e, acima de tudo, ganhar consciência de onde é que está o nosso pavimento pélvico, como é que ele funciona e até o fortalecimento do mesmo.

Mariana, falamos das causas e em termos de sintomas da incontinência urinária, quais são os sinais de alerta a que devemos estar atentos? Já falou por alto de alguns, mas aqueles mais significativos.

Sim. O primeiro que surge é uma fragilidade para perder urina. A pessoa começa a fazer pequenos esforços ou começa a sentir esta urgência e fica com esta fragilidade que quase que parece que vamos perder urina, mas ela ainda não acontece. Esse é o primeiro sinal de que qualquer coisa não está bem. Depois temos pessoas que têm idas à casa de banho muito frequentes, pessoas que vão à casa de banho a cada 40 minutos, por exemplo, uma alta frequência urinária. O máximo que nós deveríamos ir à casa de banho era oito a 10 vezes por dia. Pessoas também começam com urgência urinária, também é um dos sinais, ou seja, aquela vontade urgente de ir à casa de banho.

Súbita.

Exatamente, súbita, difícil de adiar. O fato de a pessoa despertar durante a noite para ir urinar também. E temos, por exemplo, também a sensação de peso na zona da vagina, na zona da vulva, também pode ser um sinal de que ela pode estar para acontecer, ou a dificuldade em iniciar a micção. Parece que a pessoa hesita, que tem que esperar para começar a urinar. E por último, uma sensação de não esvaziamento da bexiga. A pessoa parece que não consegue, fica incompleto, um esvaziamento incompleto da bexiga.

Uma das mensagens desta iniciativa da Ausonia Discreet é de que quem tem incontinência urinária não se conforme, não se isole e procure ajuda, mas muitas vezes a vergonha, o medo de julgamento social impede que o façam. Mariana, que conselhos podemos dar para que procurem ajuda, aconselhamento médico?

Acima de tudo, perceber que não estão sozinhas. Tal como a Maria João disse no início, uma em cada três mulheres tem perdas de urina. E às vezes admitir que isto é um problema e que tem solução é o primeiro passo. Perceber, principalmente, que isto, mesmo sendo algo comum, se os nossos familiares já tiveram, é uma coisa muito comum, isto nunca é normal. Mesmo se a minha mãe teve, a minha avó teve, não é normal ter perdas.

Não aceitar, não se conformar.

Exatamente. Se houver alguma perda urinária persistente, mesmo que seja pequenina, porque muitas vezes as pessoas dizem: "Ah, não, mas foi só num espirro, foi só numa tosse". O ideal é mesmo consultar um especialista, um urologista, uroginecologista, porque o tratamento quando iniciado precocemente, tem muito mais eficácia.

Portanto, para despistar, não é?

Exatamente.

Ao mínimo sinal. A Mariana Macieira Pires é fisioterapeuta especializada em saúde pélvica. Este é um dos tratamentos eficazes para aligeirar todo o constrangimento que as mulheres passam no dia a dia. Mas Mariana, do que é que se trata em concreto e que outras soluções existem para diminuir o desconforto?

A fisioterapia está na primeira linha como tratamento para incontinência urinária. E só depois é que podemos evoluir para o tratamento por medicamento, por cirurgia ou outro tipo de terapias. Na fisioterapia, nós falamos muito sobre a mudança de hábitos menos saudáveis. Ensinamos a pessoa a ter mais consciência sobre o corpo e como é que ele se deve relacionar com o próprio pavimento pélvico. E focando no pavimento pélvico, porque é a fisioterapia pélvica, ensinamos anatomia básica, onde é que está, o que é que faz, o contrai e relaxa, como é que se deve comportar em relação ao resto do corpo e também nos momentos de fragilidade, onde pode haver mais perdas de urina. Isto é uma condição que traz muito constrangimento às pessoas. Mas há atos tão simples que podem trazer algum conforto e melhorar a qualidade de vida da pessoa. Como, por exemplo, contrair o pavimento pélvico ao longo do dia, principalmente quando associado a um esforço. Por exemplo, antes de espirrar, antes de tossir, contrair o pavimento pélvico, isso já pode ajudar a prevenir a incontinência. Consumir os líquidos suficientes pra não acidificar a urina, porque se nós somos uma pessoa que bebe muito pouco líquido, a nossa urina está mais ácida, vai irritar a bexiga e provocar também esta urgência urinária. Evitar consumir irritantes da bexiga. Estes irritantes são: álcool, café, chá com cafeína.

Eu gosto tanto de chá.

Mas com cafeína, principalmente. O chá verde, o chá preto. Chocolate, cítricos, limão, laranja, por exemplo, são coisas muito irritantes da bexiga e deixam-na chateada conosco. A pessoa saber usar os pensos adequados. Temos pessoas que não se adaptam aos pensos porque não os sabem escolher. Treinar, educar a nossa bexiga para uma melhor função. Por exemplo, não ceder sempre que a bexiga diz que está aflita, porque às vezes ela diz-nos que está aflita e nós não temos quase nada pra fazer.

Mas também não esperar até a última.

Exatamente. Já pode ser fisioterapeuta. Acima de tudo, manter-se fisicamente ativa. Aquelas caminhadas de 30 minutos diárias básicas que toda gente deveria fazer.

Em vez de ir ao supermercado ao lado de casa, ir àquele que fica um pouquinho mais longe.

Por exemplo.

Mariana, um dos vários mitos que existem sobre esta condição é o de que quem tem incontinência urinária deve ingerir a menor quantidade possível de líquidos. Ora, isto não é verdade, mas que outras ideias erradas importam desmistificar?

Olha, esse é um excelente exemplo. As pessoas têm mesmo tendência a beber menos líquidos para terem menos perdas. Só que reduzir os líquidos vai piorar o problema, porque a urina vai ficar mais concentrada e vamos irritar a bexiga, vamos aumentar a vontade de urinar. Então o ideal é hidratar-se adequadamente, sempre ajustando os horários de consumo. Por exemplo, não beber muito à noite, porque senão também vamos urinar muito durante a noite. Outras ideias que as pessoas têm é esta que a incontinência urinária é normal, mas como eu já disse aqui várias vezes.

É comum, mas não é normal.

Exatamente. Lição aprendida. Depois, as pessoas pensam muito que a incontinência urinária é só para pessoas mais velhas, mas na verdade, há muitos atletas, há muitas mulheres jovens que têm também esta condição e também devem ter um tratamento e um diagnóstico certo. E depois falando mais geral, as pessoas acham que os exercícios de Kegel, que é os exercícios da ativação do pavimento pélvico, acham que esses exercícios são pra toda gente e que vão curar a incontinência de todos. Mas não. Temos que avaliar cada caso e pode ser mesmo contraindicado pra algumas pessoas fazer esse tipo de exercícios, principalmente se houver muita tensão do pavimento pélvico. Outro mito é que as pessoas pensam que os pensos menstruais também servem para as perdas de urina, mas eles não têm a mesma capacidade de absorção, nem o controle do odor adequado pra estas perdas de urina.

Apenas uma em cada 10 mulheres recorre aos produtos, de fato, que são adequados pra proteção da incontinência. Isto também é revelador da profunda falha entre a realidade e o acesso à proteção adequada. Mariana, qual é a diferença entre os pensos menstruais ou diários que falava agora e os pensos de incontinência como os da Ausonia Discreet?

Nós temos as mulheres a disfarçar as perdas de urina de todas as formas imagináveis. Desde o uso duplo de calções ou calças para ir correr, para disfarçar, usar roupas escuras ou com padrões pra não notar a mancha, ou andam sempre com roupa extra para trocar sempre que houver uma perda, roupas mais espessas pra não se notar. Usam também muito as toalhitas, só que isto depois também vai aumentar a umidade da vulva e o desenvolvimento das bactérias. Então, os pensos de incontinência são desenhados pra trazer mais conforto e mais proteção a estas situações específicas das perdas de urina. Já os pensos menstruais, eles são apenas para perdas de sangue. Estas acontecem com lentidão e com espessura. Os pensos de incontinência têm diferentes características de um penso menstrual, ou seja, a maior capacidade de absorção, têm uma absorção mais rápida, têm um controle do odor, uma neutralização do odor, a prevenção de fugas. Eles têm que absorver mais rápido, porque a urina quando vem, ela vem com pressa, vem mais rápido que a menstruação. Este controle de odores, também porque rapidamente fica um cheiro intenso a perder a gota. Então a pessoa fica sempre mais constrangida. É muito importante este fator nos pensos. Esta capacidade de absorção e prevenção de fugas é essencial.

Iniciativas como esta da Ausonia Discreet são, de fato, muito importantes. Mas Mariana, a que outras fontes de informação podem as mulheres recorrer para estarem melhor informadas?

Hoje em dia há sites e redes sociais de confiança e baseadas em evidência. Mas nós devemos ter aqui alguma atenção na nossa escolha, tentar fugir daqueles sites sem referência médica, que prometem uma cura rápida, sem esforço, ou os suplementos, ou os produtos milagrosos vendidos online, ou mesmo aqueles grupos de redes sociais sem moderação profissional. Existem várias aplicações pra ensinar também os exercícios do pavimento pélvico, mas sempre com uma avaliação da fisioterapia pélvica, ou mesmo aplicações também para mudar aqui um pouquinho os hábitos da bexiga pra controlar a urgência. As associações mais importantes onde podem retirar informação: as portuguesas. Temos a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, de Urologia, a Associação Portuguesa de Neuro-urologia e Uro-ginecologia, e a nível internacional, temos a Associação Europeia de Urologia e a Sociedade de Continência Internacional.

A mensagem mesmo é procurar ajuda, não é, Mariana?

Sem dúvida, e quanto mais cedo, melhor.

Mariana Macieira Pires, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos.

Obrigada eu.

Obrigada. Eu sou a Maria João Simões e esta conversa foi uma iniciativa da Ausonia Discreet. Se tem incontinência urinária, não se isole, procure os conselhos de um médico.