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Explicador da Rádio Observador hoje sobre a campanha eleitoral em Angola. São convidados Sérgio Kalundungu, coordenador do Observatório Político Social de Angola, e António Pacheco, jornalista especialista em assuntos africanos. A moderação do Explicador é do Júlio Magalhães.
Muito bom dia, Sérgio Kalundungu e António Pacheco. Obrigado pela vossa disponibilidade, por estarem aqui no Observador. Sérgio, começo mesmo por si. A um mês das eleições em Angola, o que espera destas eleições? Nunca terá havido tanta incerteza. Não sei se estaremos a falar da incerteza do vencedor, mas, pelo menos, tanta incerteza naquilo que pode acontecer no próximo mês.
Muito obrigado. Saudar os ouvintes ou auditório da Rádio Observador. Indo diretamente para aquelas que são as minhas grandes expectativas. Nós, em Angola, é comum dizer que essas vão ser as eleições mais bem disputadas sempre do ponto de vista dos candidatos. Tivemos uma em 92, que infelizmente não acabou bem. E depois dessas, tivemos outras, mas nunca tivemos eleições tão renhidas como essas que serão as de 2022. Portanto, a grande expectativa da maior parte dos cidadãos, e até porque ainda levamos um trauma das eleições de 92, é que no final de tudo, no final do processo, saia um candidato justo, digno, que todos o reconheçam. Eu acho que esse é o grande programa aqui. Há também, pela primeira vez, uma grande surpresa. Fortes possibilidades de que o segundo maior partido da oposição, que é a UNITA, hoje coligada numa frente patriótica, venha a ter um resultado memorável.
E esse memorável, Sérgio, pode ser uma vitória?
Pode ser uma vitória. Eu acredito que eles teriam grandes possibilidades, ou nunca estiveram tão longe da vitória como agora. Obviamente, que do dia 24 em diante, de lá até esta data, muita coisa pode acontecer, mas há claramente um notável crescendo, quer do partido da UNITA enquanto partido político, mas também essas eleições são disputadas num contexto em que há uma maior maturidade da própria sociedade e um certo descontentamento sobretudo daquilo que foram os recuos verificados, sobretudo nos últimos anos da governação de João Lourenço.
António Pacheco, bom dia também. Tem esta perspectiva também, o que está a mudar no espectro político de Angola?
Bom dia.
Bom dia.
Eu acho que tudo é possível, mas há um princípio que é virtualmente impossível as oposições, em regimes autocráticos, vencerem eleições. Porque o quadro administrativo domina, de facto, o Estado. O Estado domina através do recenseamento, através da contagem e validação dos votos, até o conceito de observador muito relativo nessas funções. E eu penso que poderá ser umas eleições muito renhidas, mas há, sobretudo, que tomar em atenção a campanha, a linguagem que vai ser usada nessa campanha. A comunicação social vai ter um papel importantíssimo a favor e contra os resultados positivos. E depois, aquilo que eu temo é a leitura dos resultados entre a população urbana de Luanda, etc., que está a contar com vitórias de partidos que, à partida, têm dificuldades em obter resultados efetivos depois em concreto.
António Pacheco, explique aos ouvintes qual é o espectro, neste momento político em Angola, de partidos novos. Temos a UNITA, o MPLA e o que mais pode surgir?
São oito partidos, mas sobretudo a grande luta vai ser entre esses dois partidos, o MPLA e a UNITA.
E pode haver alguma influência de voto dos outros partidos que influenciem a luta entre os dois?
Vai ser, sem sombra de dúvida. A dispersão de votos vai favorecer também, sobretudo, o MPLA. E há aqui uma série de matérias que ainda estão em aberto. Por exemplo, nesta campanha tem que se decidir o fato de expurgar os mortos da lista das eleições, que são apontadamente cerca de 3 milhões, é um dos fatores a ser considerado e que está a ser pedido pela UNITA. Depois, há vários fatores que ainda estão em discussão. Por exemplo, o sorteio para o posicionamento no boletim de voto ainda vai ser decidido só amanhã. Tudo isso ainda está em aberto, portanto, vai ser uma campanha difícil. Agora, quanto à dispersão dos votos, eu julgo, respondendo à sua pergunta, que vai ser favorável ao MPLA.
Sérgio Kalundungu, esta luta renhida, esta aproximação da UNITA ao MPLA, tem a ver com o quê? Com uma reorganização melhor da UNITA ou com a recente liderança do presidente angolano e do que se passou em Angola nos últimos quatro, cinco anos?
Eu creio que há aqui uma conjugação de fatores. Um deles poderia ser a própria maturidade da organização. A UNITA deixou de ser vista, sobretudo nos grandes círculos urbanos, na grande praça eleitoral, como Luanda, como um simples movimento rebelde. Cada vez mais, houve um esforço muito grande de aparecer aos olhos da grande parte dos eleitores como um partido político Nós temos que também pensar que os partidos políticos deixaram de ser o elemento central na vida de muitos cidadãos angolanos. Vamos ter um eleitorado muito jovem pra quem o passado de guerra, os méritos já adquiridos enquanto libertadores, sobretudo era sobre isto que o MPLA mais capitalizava, não diz muita coisa. Também temos uma realidade muito nova, que é sobretudo o acesso dos angolanos à informação mais alternativa. Como sabem, durante muito tempo, o MPLA, sendo governo, também controlava de forma excessiva e às vezes até abusiva os meios de comunicação social. Hoje, os angolanos, através das redes sociais, estão expostos a uma série de outras realidades e também um pouco do desgaste, que é próprio de 40 e tal anos de governo, que também se vai notando um pouco por aí. Ou seja, é uma conjugação de fatores que faz com que, comparativamente às eleições passadas, não se responde a um nível em que o partido da oposição tenha audacidades claras de ter ganhado um pouco mais de terreno face ao seu maior oponente, que é o MPLA.
António Pacheco, nesta conjugação toda de fatores, onde é que entra esta polêmica da morte de José Eduardo dos Santos e a polêmica entre a família de José Eduardo dos Santos e João Lourenço?
Não sei quem vai favorecer essa situação complexa e um bocado confusa. Neste momento, inclusivamente, um dos elementos, uma das filhas, está a promover campanha a favor precisamente do elemento Adalberto Costa Júnior, que é ex-É. Isto mostra que é uma grande confusão ainda e a utilização desta imagem do Eduardo dos Santos poderá ser negativa também para o MPLA neste momento, porque vários setores da sociedade, mesmo do MPLA, estão a queixar-se do comportamento do João Lourenço nesta situação, que não teria favorecido em vida Eduardo dos Santos e agora quer receber as vantagens deste quadro terrível de situação confusa e dispersa.
Sérgio Kalundungu, qual é a sua percepção sobre a influência que esta polêmica entre a família de José Eduardo dos Santos e o governo está a ter também e pode vir a ter nestas eleições?
Isto é um facto curioso. Se reparar bem, nos primeiros anos do seu mandato, a instituição Presidente da República ganhou notável popularidade quando João Lourenço demarca-se, e de forma clara, com as frases bem abertas, de práticas que eram muito comuns e de certa forma permitidas pelo presidente José Eduardo dos Santos. Por exemplo, João Lourenço publicamente dizia ser contra a corrupção, a bajulação, o nepotismo, e dizia que ia atuar com todas as suas forças, nem que os primeiros a caírem fossem membros do seu partido. E isto, parecendo que não, funcionou de forma positiva pra ele, ou seja, os angolanos viam que João Lourenço ia ser claramente contra aquilo que de mais negativo representou os anos de governação do presidente José Eduardo dos Santos. Isto teve também outros efeitos. Não tenho recordações, talvez terá acontecido no início da independência nacional com Augustinho Neto, nenhum presidente do MPLA assumiu o poder e exerceu o mandato com forte contestação interna. Isto terá acontecido com João Lourenço. Infelizmente, na minha opinião, é que nos últimos anos do seu mandato, começaram a haver indícios de que práticas que ele havia ter dito combater junto e pertencentes ao mandato do presidente José Eduardo, começaram a repetir. Eu acho que isto o fragilizou demais. E esta tentativa de tentar capitalizar sobre aquilo que representou José Eduardo dos Santos, pessoalmente, mas é uma opinião pessoal, acho que sim, vai jogar a seu desfavor, porque é claro que a forma como morreu José Eduardo dos Santos emocionou muita gente. Os grandes detratores de João Lourenço dizem que parte do seu descrédito foi construído pelo presidente, mas eu penso que tentar voltar e fazer aqui um volte face e tentar apresentar à sociedade angolana José Eduardo dos Santos como sendo algo mais do que aquilo que é um mérito indiscutível, ter contribuído pra paz, não acredito que venha a ser bastante benéfico pro presidente João Lourenço. Se calhar, é mais uma tentativa de neutralizar forças do seu próprio partido ou tradicionais simpatizantes do MPLA, que por sentirem que o status quo ficou bastante afetado nesta luta por afirmação do presidente João Lourenço, estão dando indicações de que estão mais próximos da oposição ou têm alguma simpatia pra que João Lourenço não seja o próximo presidente de Angola.
António Pacheco, o que é que pode influenciar? Imagino José Eduardo dos Santos ainda ter um funeral de Estado em Angola antes das eleições. Pode beneficiar o MPLA, pode haver ali um aproveitamento e é por isso que a família também, de alguma maneira, está a resistir a isso, ou não?
A família quer retirar dividendos do enterro de Eduardo dos Santos Em termos jurídicos e em termos pessoais. É uma situação que o MPLA deve compreender e, nomeadamente, João Lourenço deve encerrar esse capítulo das cerimônias fúnebres antes das eleições, porque, de facto, é uma situação em aberto, em que a família vai poder discutir e disputar toda essa situação e vai demorar para mais. A imagem vai ficar degradada, a imagem do próprio presidente João Lourenço, se forçar a barra do enterro antes das cerimônias fúnebres, antes das eleições.
António Pacheco, na sua percepção, onde é que João Lourenço falhou? Há bocado o Sérgio falava disso, ganhou um grande capital quando quis combater, entrou e quis combater tudo que foi feito por José Eduardo dos Santos, e agora tem as mesmas práticas, está a ser acusado das mesmas práticas, praticamente.
Um facto é que parece que ele contestou e afastou a corrupção do seu antecessor, mas há críticas e muitas acusações de que familiares dele e próximos dele estão todos envolvidos também em situações de corrupção, e que ele está a combater a corrupção de uma forma não sistemática, mas de uma forma que favoreça uns e desfavoreça outros. Ou seja, a corrupção, a luta contra a corrupção não desapareceu de Angola, nem sequer se iniciou a luta verdadeira contra a corrupção, que continua a beneficiar muitos elementos do partido, do partidão e do governo de João Lourenço.
Sérgio, as pessoas acreditam que João Lourenço ainda pode fazer esse combate na luta contra a corrupção?
É preciso perceber que hoje a sociedade angolana não é homogênea. É claro que há pessoas que são mais resistentes, há pessoas que talvez cegamente acreditam nisso. Eu acho que o facto de ter feito, e isto é muito comum na forma de exercício do poder em Angola, uma pessoalizada ideia de que o combate à corrupção era uma agenda atual de João Lourenço, acabou por também colocá-lo numa situação delicada. Eu acho que há um entendimento, ou seja, há um grande número de cidadãos angolanos que acham que sim, a corrupção é um dos grandes males, ela não foi banida, deve ser veementemente combatida, mas cada vez mais há a diferença de que ela será feita por um homem poderoso, que não construiu instituições poderosas. Então eu acho que, aliás, aqui João Lourenço ou qualquer outro poderá combater, sempre a pensar que para isso não precisamos de homens fortes, precisamos de instituições estáveis, fortes e que atuam no estrito cumprimento da lei, que é o que não veio a acontecer. Entendo que do ponto de vista pessoal, e mesmo quando se faz a crítica de até que ponto esse combate não foi seletivo, eu sempre pergunto: temos aqui alguma figura notável angolana, contas com a justiça, que não terá feito rigorosamente nada? Não, a verdade é que todos eles terão feito alguma coisa. O grande problema põe-se porque com uns e outros não. Mas isso é, sobretudo, do meu ponto de vista, uma fragilidade das instituições. Mesmo quando se levanta a ideia de que para conseguir fazer um funeral de Estado antes das eleições, terá de negociar com a família do ex-presidente, sobretudo à volta de crimes ou atos que lhe estão imputados, não dá uma imagem muito séria de que as instituições são suficientemente fortes para garantir o primado da lei. Na minha opinião, este é o grande problema, o grande vazio desta ação.
António Pacheco, só um minuto para terminarmos. Queria só que me traçasse aqui, de alguma maneira, o que é que o líder da UNITA traz de novo à política angolana, se é que traz.
A presença dele, por exemplo, se compararmos com o João Lourenço, ele é obviamente uma presença muito mais carismática e muito mais capaz de dar a volta aos comícios do que João Lourenço, que é uma figura extremamente apagada.
Sérgio Kalundungu, queria a sua opinião, em 15 segundos também, o que é que o líder da UNITA traz de novo à política angolana?
Em primeiro, acredito que ele demarca-se muito daquela posição de que seria o líder do movimento que foi, durante muito tempo, um movimento rebelde. Eu acho que em termos de imagem e de presença na sociedade, Adalberto Costa Júnior não representa necessariamente uma figura muito ligada ao histórico líder da UNITA, que foi dos anos 80, mas também depois traz um pouco um arejamento no sentido da abertura, do diálogo e, como disse, também carismático. Eu concordo que ele é muito mais carismático do que os outros que estão a aparecer.
Vamos então aguardar. Sérgio Kalundungu, António Pacheco, muito obrigado pelos vossos esclarecimentos aqui neste "Explicador". Bom dia e até uma próxima oportunidade.