Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O presidente dos Estados Unidos anunciou novas tarifas comerciais com a União Europeia a enfrentar taxas de 20%. Como resultado, muitos países, é esse o receio, podem entrar em recessão. De manhã contámos no Explicador com o atual ministro da Economia, Pedro Reis, agora na tarde política é nosso convidado o antecessor António Costa Silva. Entrevista conduzida pela Vanessa Cruz e pela Judite França.

Bem-vindo, António Costa Silva. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Já temos informação sobre as tarifas que vão penalizar os produtos europeus. O que as empresas nacionais podem esperar?

Antes de responder a essa questão das empresas nacionais, eu acho que nós temos que compreender o que está aqui em causa e ir para além das análises superficiais. Eu estive a analisar com muito detalhe o decreto presidencial que o presidente Trump anunciou ontem e há toda uma introdução que é importante retermos, porque no fundo do que se trata aqui é de contrariar a acumulação sucessiva de déficits gêmeos nos Estados Unidos e da dívida pública que tem aumentado exponencialmente. Portanto, é essa a grande preocupação da administração americana. E alguns dos pontos que são referenciados na introdução são pontos absolutamente críticos. Portanto, ele liga tudo isto ao declínio da indústria nos Estados Unidos, da manufatura. Diz que hoje a manufatura só representa cerca de 11% do PIB americano, que a indústria de manufatura é aquela que é a máquina de inovação dos Estados Unidos da América, responsável por mais de 55% das patentes, que ela está em declínio e está também em declínio o acesso dos Estados Unidos às cadeias de abastecimento, sobretudo de matérias-primas críticas. Isso põe em causa a defesa nacional. Portanto, ele invoca no decreto presidencial uma questão de emergência nacional e de segurança. Portanto, é uma questão que é muito séria.

Deixe-me só aqui interromper, só para perguntar o seguinte: Donald Trump faz igualar o déficit comercial com cada país, depois com uma tarifa que compense esse déficit comercial?

Essa pergunta é muito importante. Por que que isso se passa? Eu acho que ele faz um bom diagnóstico, porque há anos e anos andamos a falar na explosão dos déficits gêmeos nos Estados Unidos e dos desequilíbrios que isso introduz, não só na economia americana, como na economia mundial. Há um livro que para mim é uma referência, do economista Mohamed El-Erian, que escreveu "When Markets Collide", "Quando os Mercados Colapsam", e ele explica que esta interação dos déficits americanos com o resto da economia mundial é uma das causas das crises sistêmicas. E o que ele propõe é um método de abordagem que me parece absolutamente correto, que é uma reorganização das economias mundiais com base no acordo entre os Estados Unidos, a Europa e os países asiáticos. No fundo, os Estados Unidos têm que se comprometer a reduzir os seus déficits, reduzindo o consumo. A Europa tem que, com o Japão, fazer formas estruturais para aumentar a produtividade e as economias asiáticas, sobretudo a chinesa, estimular o consumo interno. Ora, o presidente Trump parte de um diagnóstico que para mim parece-me correto, porque de facto os Estados Unidos têm que lidar com os seus déficits comerciais, mas todas as conclusões que ele tira são erradas e o método para resolver é ainda mais profundamente errado. As conclusões são erradas porque ele atribui isto às políticas comerciais dos seus parceiros, quando os Estados Unidos são um dos países que mais beneficiaram da ordem liberal internacional que está em vigor e de todas as transações, porque o dólar é a moeda fulcral do sistema financeiro internacional.

Ou seja, há déficit porque também há manipulação da moeda.

Os Estados Unidos, com o facto do dólar ser a moeda absolutamente de referência, têm custos para os seus empréstimos muito mais baixos, têm maior flexibilidade a gerir as suas dívidas e podem usar a sua moeda para impor sanções. Portanto, aí o diagnóstico está errado, mas ainda está mais errado no combate. O combate tem que se fazer por um acordo e aliás, eu tinha alguma crença no Scott Bessent, que é o secretário de Estado do Tesouro, que me parece o membro mais razoável desta administração, porque ele fez uma conferência no verão passado no Instituto Manhattan, em Nova York, que acompanhei na altura, e qual foi a formulação e a proposta que ele fez? Ele diz que tem que haver uma reorganização da economia mundial com base num acordo semelhante a uma espécie de novo Bretton Woods ou semelhante ao acordo Plaza de 1985, que foi feito no Hotel Plaza em Nova York. E este acordo, que é também a proposta do Mohamed El-Erian, é absolutamente fulcral para regularmos este problema. O presidente Trump, ao escolher a guerra comercial, vai criar, como disse a liderança chinesa ontem numa das reações que me pareceu mais profundas, que é um tsunami. Vamos ter um tsunami no comércio mundial. E atenção que o comércio, como disse há mais de 200 anos o filósofo francês Montesquieu, é um estabilizador das relações internacionais, é um pacificador das relações internacionais e é um promotor da paz, da prosperidade das nações. E o que se vai fazer? Vamos entrar num período em que vamos entrar num declínio completo do comércio mundial e para a União Europeia isso pode ser também uma questão muito crítica.

E já que pega na União Europeia e porque também é aquilo que está mais próximo de nós, como é que os líderes europeus vão agir perante esta nova ordem mundial? Têm insistido na união de países e na busca de medidas para defender os interesses económicos. Como é que devem atacar o problema? Deve haver a tal reciprocidade nas tarifas?

Não deve haver nenhuma reciprocidade nas tarifas. Eu penso que esse é o método mais errado e se a União Europeia vai por esse caminho, vai penalizar drasticamente a economia europeia.

Então o que é que deve fazer?

Já vou explicar, na minha opinião, o que é que deve fazer, mas a União Europeia está um bocado no registo de 2017, da primeira administração Trump Quando nas tarifas do aço e do alumínio, ele impôs o conjunto de tarifas da União Europeia, algo que chegava a 7 mil milhões de euros na altura. A União Europeia respondeu e escalou no sentido da resposta cerca de 3 mil milhões de euros, que considerou na altura proporcional e sobretudo dirigido às motas, à Harley Davidson, às bebidas, ao bourbon e a outros produtos americanos, no sentido de mostrar que estava ali a apostar. Eu acho que numa guerra tarifária o pior que se pode fazer é fazer um escalar nas tarifas e, portanto, aumentar ainda mais. Porquê? Porque isso vai penalizar os consumidores, quer europeus, quer americanos, e vai levar as economias à beira da recessão. O que a União Europeia deve fazer, e tem feito já com o presidente António Costa e com a Ursula von der Leyen, é construir uma grande plataforma colaborativa no mundo e sobretudo com a China, reaproximando-se fortemente da China para construir uma plataforma colaborativa de defesa do comércio internacional. A União Europeia com a China, a China é o nosso segundo maior parceiro comercial da União Europeia. A União Europeia e a China representam cerca de 30% do comércio mundial, quase 40% do PIB. São dois grandes blocos económicos e a China está extremamente interessada em defender o comércio e aprofundar as relações comerciais.

Mas devemos virar-nos também, António Costa Silva, para outros mercados, concretizar o Mercosul, também acordos com os países africanos e dessa forma até também isolar os Estados Unidos?

Era isso que eu também ia desenvolver. Portanto, primeiro que tudo, a União Europeia também tem que ter uma relação fortíssima com o Canadá, e não sei se o Canadá não deve ter uma relação preferencial com a União Europeia. E já vi na revista The Economist a proposta de integrar o Canadá como 28º estado da União Europeia. O Canadá também está extremamente interessado em entender-se. Deve também fazer o mesmo com o México, reaproximar-se, e sobretudo o Mercosul. Eu acho que é quase obsceno hoje termos a França a continuar a opor-se ao acordo do Mercosul. Os franceses realmente às vezes são fulcrais para muitos dos aspetos europeus, mas dão muitos tiros nos pés e eles estão a retardar o Mercosul. O Mercosul pode ser uma outra área para explorar a diversificação das exportações portuguesas e é absolutamente crucial. E a segunda grande área que vejo, eu estive lá na semana passada na China, em Hong Kong e depois em Macau. E em Macau participei num grande debate com professores chineses e norte-americanos por causa da geopolítica mundial. Eu vejo uma oportunidade crucial através de Macau para as empresas portuguesas entrarem na região da grande baía da China. À volta de Macau, na grande baía, representa cerca de 12% do PIB chinês. E a China, como a União Europeia, partilham muitos elementos que são cruciais sobre a luta contra as alterações climáticas, a diversificação da matriz energética, o desenvolvimento de novas soluções a nível das biotecnologias, enfim, há uma grande capacidade de cooperação aí. E depois não podemos esquecer que a União Europeia tem que se relacionar de forma diferente com África. África é o continente mais jovem do mundo hoje, vai ser cada vez mais jovem. Se olhar para Angola, cerca de 70% da população tem menos de 17 anos de vida e é muito importante construir com África grandes parcerias, não só a nível de desenvolvimento das empresas, mas também de projetos de educação, porque nós precisamos de recursos humanos, quer em África, quer nas economias europeias como a portuguesa, que estão envelhecidas, e portanto esta diversificação é fundamental. E depois, eu não defendo a retaliação contra os Estados Unidos. Os Estados Unidos é o nosso grande parceiro, mas defendo que a União Europeia tem que ser cirúrgica naquilo que também dói com os Estados Unidos e particularmente ao presidente Trump. E portanto tem que ter-

E o que é?

Exatamente. Todas as instituições financeiras americanas que operam na Europa devem ser taxadas. Todas as empresas tecnológicas americanas têm que obedecer aos regulamentos europeus antimonopólio. Repare que a chegada do Elon Musk à Casa Branca significou que nós temos um oligopólio agora instalado na Casa Branca. A primeira atitude que ele teve foi exatamente acabar com a lei antitruste. A lei antitruste vem de 1911, é a Lei Sherman, que foi na altura criada pelo governo americano para contrariar o peso grande que tinha a empresa do John Rockefeller, que era a Standard Oil, que foi dividida em função da lei antitruste, em mais de 134 companhias, de que a Exxon e depois a Mobil foram, digamos, as suas descendentes. O que se passa hoje nos Estados Unidos é a desregulação total. E na Europa nós já tivemos um caso há poucas semanas, um tribunal cível alemão que deu razão ao regulador que impõe condições de controle dos monopólios tecnológicos americanos, e eu penso que aí deve ser decisivo. E o outro terceiro vetor, que é fulcral nesta altura, é a Europa atrair os cientistas americanos. Os cientistas americanos estão em grande mal-estar. Aliás, a França já fez isso, abriu numa das suas vagas para professores das universidades francesas e nos primeiros minutos recebeu 60 candidaturas dos Estados Unidos. Nós não podemos esquecer que o vice-presidente J.D. Vance, alguns dizem que é uma estrela da política americana, mas se fosse uma estrela paleolítica, ele já declarou que as universidades é o inimigo, o que nos faz lembrar aquela famosa frase do fascista espanhol Millán Astray "venham falar de cultura e eu puxo de uma arma". E portanto, os cientistas americanos, todas as instituições de investigação estão nesta altura num grande mal-estar e a Europa deve fazer aqui uma fuga de cérebros ao contrário, captar cientistas, porque a Europa é um super gigante do ponto de vista económico. O grande problema da Europa, como dizia o doutor Mário Soares, é que é um gigante económico e um anão político. Hoje está desejado ser um anão político. Esperemos que o trabalho do presidente António Costa e da presidente Ursula von der Leyen dê os frutos, construir grandes plataformas de unidade. Mas se a Europa conseguir coligar com o Canadá, com a China, com a Índia, com a Coreia do Sul, com o Japão, com os países também do sudeste asiático, como a Indonésia, que estão a ser altamente penalizados, são daqueles que têm mais Tarifas mais significativas para defender o comércio, aprofundar as relações, diversificar os mercados e salvaguardar a economia mundial. Vai ser difícil, mas é uma luta que vale a pena.

Agora vamos olhar mais para micro, vamos olhar mais para Portugal. Consegue antecipar quais são os setores mais afetados por estas novas tarifas?

Sim, consigo. Se olhar para a evolução das nossas exportações portuguesas, e queria dizer que no governo anterior nós empreendemos várias ações para entrar no mercado norte-americano e reforçar com as nossas associações empresariais. Recordo que fizemos uma grande ação em 2023, durante mais de uma hora, a praça principal de Nova York, a Times Square, só teve imagens em todos os ecrãs de Portugal a promover o país. Nós tivemos uma resposta muito impressionante do mercado americano, não só a nível de turismo, mas também de investimento. Recordo que em 2022, 2023, o capital americano foi daqueles que mais investiu em Portugal, dos 2,5 mil milhões de euros investidos através de investimento direto estrangeiro produtivo em 2022, cerca de 19% vieram dos Estados Unidos, e depois aumentamos ainda mais mil milhões de euros no ano seguinte. E portanto o mercado americano estava a ser trabalhado, mas nesta altura há todas estas interrogações face ao comportamento desta administração americana. De qualquer maneira, os Estados Unidos são o nosso quarto parceiro, representam 7% das nossas exportações, cerca de nove mil milhões de euros. Quais são os setores que são absolutamente fundamentais? É o setor químico, é o setor da fabricação de máquinas e equipamentos, é o têxtil e o vestuário, são os combustíveis. E portanto, esses setores têm que ser radiografados, seguidos. Eu penso que o atual ministro da Economia está a fazer isso e estimo que faça um bom trabalho para tentar diagnosticar a situação com as empresas e depois reforçar aqueles mecanismos que nós já tínhamos, que já vêm do passado. Nós tínhamos linhas de apoio à internacionalização das empresas e atenção à diversificação dos mercados, que já tínhamos identificado em 2022 e 2023 como uma das grandes ameaças que poderia suceder, é o declínio das exportações para, sobretudo, o espaço europeu, em função da crise na Alemanha e na França. Recordo que 70% das nossas exportações vão para a Europa e, portanto, já tínhamos lançado essas linhas exatamente para diversificar. E penso que a América do Sul, como a Ásia e a África, podem ser mercados que nós devemos explorar e também a América do Norte, sobretudo o Canadá. E portanto, essa diversificação hoje faz muito mais sentido. Acho que há uma apetência ao nível das várias lideranças políticas para desenvolver isso. Todas as pessoas veem que hoje o que está em causa é defendermos o comércio mundial, é impedirmos que medidas protecionistas e de nacionalismo agressivo, como a da administração Trump, venham a liquidar aquilo que tem sido a prosperidade e o desenvolvimento econômico em várias partes do mundo. E é isso que hoje está em causa.

E será preciso estes setores serem subsidiados pelo Estado?

Eu não sou muito partidário dos subsídios atrás de subsídios, porque isso cria ciclos absolutamente viciosos e nós já temos empresas que são elas próprias empresas muito dinâmicas. Estas linhas de internacionalização e diversificação de exportações é para auxiliar a intervenção das empresas a explorarem os mercados, a organização de eventos, a identificação dos diferentes mercados. E aí penso com os nossos organismos públicos, nomeadamente com a AICEP, encontrarmos exatamente os nichos que possam substituir.

Só mesmo para terminar, porque o nosso tempo já chegou ao fim. O ministro da Economia, Pedro Reis, convocou 16 associações empresariais para encontros na próxima semana. Tendo em conta o contexto de transição política que o país vive, esse grupo deveria também incluir o Partido Socialista?

Não sei, eu penso que isso é uma atribuição do governo. O governo está em gestão. Recordo uma vez mais que o JP Morgan já diz que há 40% de probabilidade de existir sucessão este ano nos Estados Unidos. Quando olhamos para os principais índices bolsistas que aferem a evolução da economia americana, todos eles estão em queda e em queda catastrófica. Portanto, nós temos uma situação profundamente anômala. E numa situação profundamente anômala, penso que o governo em gestão tem todo o direito de desenvolver tudo aquilo que é capaz de fazer para auxiliar as empresas. E é evidente, eu penso que uma troca de informação entre os dois grandes partidos e os seus dirigentes é sempre saudável. Eu acho que o pior de tudo é nós entrarmos num clima de grande radicalização política, de grande polarização. Os dois grandes partidos têm que falar um com o outro.

António Costa Silva, muito obrigada por ter estado conosco neste Explicador. O Explicador regressa amanhã, por volta das nove da manhã.