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E hoje é a nossa convidada no Explicador das manhãs 360, a investigadora Paula Santana, da Universidade de Coimbra. Vamos falar das cidades pós-Covid. Paula Santana, muito bom dia, bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por estar conosco.
Muito bom dia, eu é que agradeço esta oportunidade para poder falar um pouco do que se passa no mundo e em Portugal nestes tempos difíceis.
Paula, isso quer dizer que as cidades vão ser diferentes no pós-Covid? Que mudanças são estas?
Sem dúvida que vamos ter cidades diferentes. Também temos pessoas diferentes neste momento. Tempo de mudança. Isto não é só hoje, já aconteceu noutros momentos ao longo da história podemos ver que perante crises e catástrofes, os urbanistas, os sanitaristas e também a população, mas principalmente os urbanistas, concentraram a atenção para aumentarem o compromisso para proteger as vidas nesses tempos e promover a qualidade de vida. Portanto, também agora, na cidade pós-Covid, tem que haver a reinvenção da cidade e das comunidades.
A professora Paula Santana dizia que as pessoas agora também já querem coisas diferentes, também já estão diferentes. O que entendemos é que passamos quase todos a valorizar muito mais os espaços verdes, espaços mais abertos. Vamos ter, por isso, cidades com mais parques e jardins?
Penso que sim. Aliás, internacionalmente, isso já está a acontecer. Não só mais espaços verdes, espaços verdes e espaços públicos em geral. Podem ser azuis até, beiras de rio, beiras de mar. Não só a existência desses espaços, mas também a proximidade. Por exemplo, em Paris, a presidente da Câmara, Anne Hidalgo, disse que pretende que a cidade esteja a 15 minutos, ou seja, todas as necessidades diárias da maioria das pessoas devem encontrar resposta a 15 minutos a pé, de bicicleta ou transporte público. E também, por exemplo, em Barcelona, durante este período, a presidenta Câmara, mais uma vez uma mulher, Ada Colau, anunciou um plano de 4,4 milhões de euros para tornar a cidade mais adequada aos ciclistas e às pessoas que se deslocam a pé. Mas, claro, mantendo as regras de distanciamento social. Portanto, temos presente, neste momento, que há mudanças que têm a ver com o uso do solo. Por exemplo, se falarmos na deslocalização ou na diminuição das distâncias entre o local de trabalho e da residência, mas também mais espaços livres, porque se há menos tráfego, menos carros a circular, se calhar podemos ocupar esses espaços ou essas vias de circulação e até estacionamentos por espaços públicos. Podem ser verdes ou outros.
Muitas diferenças que se começam a desenhar, mesmo porque as pessoas começam a procurar outras coisas, como referia depois desta pandemia. Mas olhando para a arquitetura da cidade e mesmo para a forma como são construídas as casas e depois também os escritórios, mas no que toca às casas, vamos ter que ter aqui uma adaptação. As varandas e os pátios passaram a ter um destaque, passaram a ser mais valorizadas durante esta pandemia, tal como, por exemplo, ter um espaço mais dedicado ao trabalho, uma espécie de escritório em casa. Portanto, temos aqui também mudanças a nível de casas e naquilo que é o pensamento a nível arquitetônico da cidade.
Sim. Não há dúvida que vamos ter necessidade e também a oportunidade de fazer alterações a esse nível. É interessante verificar, por exemplo, em Londres, o teletrabalho ocupava antes do Covid, cerca de 5%. Com o Covid, cerca de 50% passou a ter essa forma de ligação ao seu local de emprego. E será muito difícil, dizem os investigadores, voltar a ter a mesma forma. Portanto, vai ser um processo lento, de retoma do trabalho sem ser em teletrabalho e possivelmente nunca mais será como dantes. Trabalhar em casa pode ser muito atraente ou pode não ser, se as pessoas, como diz, não tiverem condições em casa, se as casas forem pequenas. O que acontece é que se pode encontrar também nesses países oportunidades diferentes. Ou seja, as pessoas não precisam necessariamente de trabalhar em casa, ou seja, transformar a sua casa no local de trabalho, mas pode a cidade reorganizar-se. Geralmente, poderá haver próximo da residência de um conjunto de pessoas, edifícios que vão ser desocupados porque deixaram de ter a função emprego, esses edifícios podem ser ocupados agora por pessoas que residem a cinco a 10 minutos desse local a pé E que vão desenvolver uma nova geração de espaço de trabalho com o coworking, que já existe, mas que vai intensificar. Portanto, há uma mudança de cenário muito necessária a quem trabalha em casa. Pode trabalhar em casa, mas se não tiver essas condições, a cidade pode começar a se reorganizar. E em alguns casos, por exemplo, áreas de habitação monofuncional, portanto, de habitação, pode encontrar-se nessa área uso misto, agora incluindo estas áreas de coworking, onde também pode ser interessante haver um espaço público para os filhos brincarem ou outras atividades ao ar livre.
São, de facto, muitas transformações que se adivinham e muitas que já estão a acontecer e que podem agora ganhar um impulso novo. A Paula Santana já tinha falado um pouco na questão dos transportes públicos, deu o exemplo da autarquia de Paris, que quer a cidade a 15 minutos. Isto implica também grandes mudanças nos transportes públicos, e até no conceito de hora de ponta.
Sim, em princípio, se o teletrabalho se intensificar, também poderá a circulação ser menos intensa em determinadas horas do dia, o que promoverá uma melhor qualidade do ar, menos ruído, portanto, uma segurança ambiental maior e também a possibilidade da cidade ser dada às pessoas, no sentido de ser apropriada pelas deslocações a pé, de bicicleta, porque o espaço de circulação fica desimpedido, livre de obstáculos. E isso é, de facto, um aspecto muito positivo, que acontece, e isto é bom que também se refira, tanto mais quando a cidade for compacta, ou seja, numa cidade dispersa, difusa, é difícil nós termos capacidade de encontrar níveis de agregação e de efeitos de vizinhança que possam promover estas redes de suporte comunitário, estas capacidades de ter a praça ou a rua ou o espaço de encontro próximo da sua residência. Isso é um aspecto muito importante. As pessoas passando a estar mais tempo em casa, vão precisar também de utilizar o espaço público mais frequentemente e, portanto, precisam de o ter próximo da sua residência. Um espaço público seguro, limpo, um espaço de encontro com os vizinhos, em segurança, com conforto. Portanto, a cidade transformada, mas para que seja possível esta transformação, temos que ter presente que as pessoas têm que ser ouvidas. O que importa para aquele lugar? Portanto, a participação da população nesta nova cidade é obrigatória, e até na governação urbana.
Paula Santana, já referiu exemplos em Paris, Barcelona, também em Londres. Em Portugal, nas cidades portuguesas, que mudanças é que já estamos a assistir? Em que aspectos é que isso já é mais notório depois desta situação epidémica?
Lisboa e o Porto também já estavam antecipando, de algum modo, porque de facto, estas transformações que a cidade tem que sofrer, também são uma consequência de algo que já estava a acontecer. Portanto, já havia uma devolução do espaço público para a cidade. E nós vemos isso em Lisboa, é bem evidente em Lisboa. No Porto também, com mais ciclovias, com mais ecovias, com mais espaço público conquistado a terrenos abandonados, terrenos devolutos. Portanto, há, de facto, uma oportunidade que se intensifica agora, porque os interesses são diferentes. Portanto, é uma oportunidade de mudança. Esta crise, de facto, é como sempre, crise/mudança, e à semelhança das crises anteriores, porque já tivemos outras situações de crise semelhante, até em termos de saúde pública. Portanto, essa ameaça do Covid-19 representa um momento decisivo para estas cidades, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, mas Coimbra, fundamentalmente, está num processo também de grande transformação. Portanto, acreditamos que as cidades podem ressurgir mais fortes, por um aspecto muito interessante, que geralmente não é falado, mas que eu gostava também de trazer aqui, que é a atração da população mais jovem e mais criativa ao centro da cidade. A cidade expulsou a população, fundamentalmente a população jovem, em Lisboa, Porto, Coimbra e outras cidades, porque o preço do espaço construído era extremamente caro e, portanto, os mais jovens não tinham capacidade para isso. E então, se, de facto, o teletrabalho for intensificado As empresas ou os edifícios ocupados pelo local de trabalho dessas pessoas vão se deslocar ou vão encerrar e, portanto, há uma oportunidade de haver espaços considerados vazios, que poderão ser oportunidade de esta população ter uma residência a preços mais acessíveis. Portanto, pode haver um aumento da densidade de talentos nestes centros das cidades.
E no movimento inverso, pode também haver uma tendência para o regresso ao campo, sobretudo se pensarmos no risco de uma segunda vaga?
Pode sempre, mas eu penso que a população pode encontrar o refúgio e o sossego no campo durante algum tempo, mas não durante muito tempo, principalmente a população urbana, que criou determinado tipo de necessidades ou de exigências, de estar próximo de um centro de cultura, de estar próximo de um centro de informação, etc. Não falo tanto em comércio, porque esse é móvel e também segue, de facto, as novas tecnologias, mas falo mais dos espaços que são mais físicos e que são eminentemente urbanos e que só existem por causa da agregação de indivíduos. Portanto, eu diria que a baixa densidade ou áreas que têm pouca agregação provocam isolamento social, e o isolamento social é um denominador comum para maior número de doenças e óbitos. Por exemplo, o suicídio. Onde é que há mais suicídio? É exactamente nas áreas de maior isolamento social, nas áreas rurais. Ou, por exemplo, as mortes que podiam ser evitadas se tivesse havido um acesso tempestivo aos serviços de emergência médica. Portanto, essas áreas ficam distantes e muitas vezes a situação de acesso é dificultada. A cidade compacta tem muito mais vantagens do que desvantagens, mesmo em período de crise. Estas redes de suporte comunitário da cidade compacta, que precisam de lugares físicos, como espaços de encontro, locais de convívio, esses lugares onde os idosos se podem encontrar e as crianças podem brincar em segurança. Hoje já existem, claro, mas têm que ser ampliados para que, de facto, as pessoas não tenham que sair da cidade para encontrarem tranquilidade, refúgio, em determinados momentos do seu dia.
Paula Santana, estamos a chegar ao fim desta entrevista, mas queria falar ainda um pouco sobre a questão ambiental. Esta nova cidade, depois da pandemia, este exercício de repensar a cidade, consegue ser mais amiga do ambiente? Podemos esperar uma marca humana menos agressiva na cidade?
Sem dúvida nenhuma. Do meu ponto de vista e dos cientistas que têm estudado essas questões, o ambiente é quem fica mais a ganhar, seja pela diminuição dos gases com efeito estufa, seja pela diminuição do ruído, etc. De facto, o ambiente físico melhora. Agora é preciso melhorar também o ambiente social. Portanto, o ambiente social tem que ser melhorado e de forma equitativa, ou seja, não vamos melhorar só o ambiente físico ou social das pessoas que vivem em locais mais aprazíveis, onde já a poluição era menor e que agora ainda diminui mais. Por exemplo, de um trabalho que fizemos, de um questionário que correu entre 15 de março e 15 de abril, no mundo inteiro, mas falando em Portugal ou na Europa, ou até no Brasil, os dados são muito semelhantes e cerca de metade da população que tem espaço exterior verde, próprio ou próximo da sua residência, seja público ou privado, continuou a manter a sua atividade física. E isto é muito importante, porque comparando este grupo com os que não têm acesso a esse espaço, eles ficam em situação de vantagem, porque quatro em cada 10 diz que não se sentiu enclausurado, que continuou a dormir bem, que não se sentem ansiosos, neste caso dois terços não se sentem ansiosos, nem estão fartos de estar em casa. Ou seja, de facto, quem vive em áreas com melhores condições neste momento, durante a pandemia, quando comparados com os que responderam que estão afastados e não utilizam os espaços verdes, mesmo no período de confinamento, eles estão em situação de vantagem. Agora, o que precisamos é de dar a todos a mesma possibilidade.
Muito bem, Paula Santana, da Universidade de Coimbra, muito obrigado por ter sido nossa convidada aqui no Explicador das manhãs 360 e bom fim de semana.
Muito obrigada. Bom dia.
Estivemos nos últimos minutos a olhar para esta questão das cidades pós-Covid. São, de facto, muitas as mudanças que se aproximam.
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