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Explicador da Rádio Observador. O governo aprovou em Conselho de Ministros o PTRR, que só deverá ficar fechado no início de abril. O governo quer reunir contributos de todos os partidos, empresários, academia, contributos também regionais e das autarquias. Quanto ao valor global previsto para este pacote, só depois de definidas as medidas, ou seja, primeiro escolhem-se e elencam-se as medidas e depois é preciso ver quanto custam e quanto será dado. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite de França. Judite, quem é o nosso convidado para uma primeira reação a este PTRR?

Horácio Mota, é presidente da Associação Empresarial do Conselho de Pombal. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Deixe-me começar por lhe perguntar se estava à espera de mais.

Olhe, eu, por acaso, ainda não conheço muito bem essas medidas, só conheço assim muito por alto e eu ainda continuo a viver aqui num território que temos acesso muito limitado às comunicações, à internet, ainda não temos internet. Eu não conheço muito bem essas medidas. No entanto, posso dizer que gostaria que a origem dessas medidas fosse aqui do território para fora, ou seja, porque nós é que sentimos realmente as grandes dificuldades que é viver e ter uma atividade econômica nestes territórios, que ainda continuam a haver empresas sem luz, que as comunicações de internet praticamente não existem e daí que eu também não tenha grandes informações que possa dar.

Mas, na prática, o governo não fez o anúncio de um pacote de medidas, fez mais de linhas mestras orientadoras deste PTRR, daí também esta pergunta, se estava à espera de algo mais concreto. Mas o governo diz que quer ouvir até o início de abril, precisamente para tentar encontrar e elencar uma série de medidas que considera necessárias para acudir a todo o país. Em sua opinião, e se tiver essa oportunidade de contribuir também para este PTRR, que medidas mais urgentes seriam necessárias para acudir aí à sua área de influência no Conselho de Pombal?

Neste momento, para ter uma ideia, nós estamos a fazer uma sessão de esclarecimento aqui com empresários do Conselho de Pombal. Estão aqui cerca de 150 empresários a ouvir os apoios que o governo tem e os empresários estão a questionar e a tirar informações. Aquilo que eu acho mais importante são as medidas para reativar a atividade. Há situações muito dramáticas, não só aquelas que a gente vê na televisão, em que há prejuízos gigantescos, mas há todo um conjunto de pequenas empresas, de microempresas, principalmente nas aldeias onde não há internet e a maior parte delas ainda continuam sem luz, que têm muita dificuldade em reiniciar a sua atividade. Eu estive agora a ouvir aqui nesta sessão uma gráfica que ficou sem telhado, que a água inundou completamente o estoque era papel, destruiu-se tudo, as máquinas não funcionam. E esta empresa, por exemplo, estava a dizer que não tem interesse em aderir às linhas de financiamento, porque só vai criar dívida, como se estivesse a começar uma empresa de novo. Portanto, eu penso que as primeiras medidas e as mais importantes seriam realmente as medidas para reativar a empresa, embora eu considere que as medidas que tenham sido apresentadas pelo governo até são medidas robustas.

Exato, aquelas que já estão, não é? Que o governo disse que as que já estão é para manter.

Sim, e foram feitas em tempo recorde. Eu penso que isso foi uma medida excelente, mas há casos muito dramáticos no território que é preciso ver.

Esses casos, por exemplo, como essa gráfica de que falou, acha que seria possível, enfim, desejável, com certeza, mas acha que seria possível para essa empresa e outras que houvesse ajudas a fundo perdido?

Sim, considero importante. Eu percebo que essas linhas de crédito são muito mais fáceis de ativar, sem dúvida nenhuma, mas eu acho que as medidas a fundo perdido, mesmo que tivessem um limite máximo que não fosse muito alto, são muito importantes, porque as empresas, e nós recebemos imensas informações aqui na Associação Empresarial, empresas que ainda estão a pagar as prestações do Covid e já vão ter mais uma prestação pra pagar a seguir. É que isto é mesmo dramático. Acho que muitas vezes as pessoas de fora destes territórios ainda não perceberam muito bem o dramatismo que isto é, que é ter dívidas pra pagar do Covid, agora vão ter dívidas pra pagar da tempestade. Eu bem sei que o governo não é culpado da tempestade, mas precisamos de um apoio muito mais musculado e muito mais criativo para ajudar empresas. E eu falo muito nas microempresas, são aquelas que não têm acesso fácil a banco, que não têm fundo de maneio, que não têm cashflow. Essas precisam ser ajudadas. Essas precisam muito ser ajudadas.

E o Horácio Mota conhece, obviamente, muito bem o Conselho de Pombal, e são estas empresas que fixam pessoas, não é? Porque dão trabalho, dão emprego. Podemos estar aqui a falar de uma situação muito complicada aqui no médio prazo, se elas não conseguirem recuperar, não é?

Sim, podemos. Estas empresas e estas pessoas é que criam aqui esta resiliência dos territórios, que habitam o território, que dão vida a este território. Isto pode se tornar uma coisa com efeito de arrastamento grande, muito grande.

Tem noção de quantas empresas estaremos a falar, dessas pequenas empresas?

Assim, nós não temos ainda muito bem quantificado. Temos imensa informação já, mas há muitas empresas que a gente nem sequer consegue telefonar ainda. Mas eu diria que nós estamos a falar em 80% ou 90% das empresas do território. Todas foram afetadas.

E são quantos postos de trabalho?

Não consigo precisar ao certo.

O Horácio Mota falava aí na questão das comunicações. Hoje em dia, e para quem nos ouve e não está tão familiarizado com isto, mas hoje em dia qualquer empresa tem que ter uma ligação à internet. Há uma série de procedimentos nas empresas que obrigam a ter comunicações e isso torna ainda mais difícil a recuperação, imagino.

Sim. Não é estar a dizer mal de ninguém, mas eu penso que, por exemplo, as pessoas que estão fora deste território não fazem a mínima ideia do que é viver neste território. O banco da minha aldeia só abriu ontem.

Ontem.

O banco. Nós queremos ir pôr gasóleo, não tem internet, não tem multibanco. Depois vamos ao caixa multibanco, o banco está fechado, não tem dinheiro. Temos que fazer não sei quantos quilómetros para ir levantar dinheiro, para ir pagar. Ou seja, as pessoas não têm noção do que se passa três semanas depois.

Mas vê pessoas a recuperar as linhas elétricas, as linhas de comunicações.

Muitas pessoas, sim, sem dúvida. Muitos. Eles têm feito um trabalho incrível, a E-Redes. É verdade que se calhar devia ter pedido ajuda a países estrangeiros para nos ajudar a reparar a linha elétrica, mas nós que andamos aqui neste território, é fios e fios, e postes e postes completamente partidos, e era impossível a E-Redes também arranjar isto de um dia para o outro. Era impossível.

E no que diz respeito às telecomunicações?

Olhe, eu na minha aldeia, concelho de Pombal, continuo a não ter internet.

Qual é a sua aldeia, já agora?

Meirinhas, Pombal. E telefone, é com muitas falhas, com muitos cortes.

E não há uma explicação, nem uma previsão de quando é que tudo isso poderá estar restabelecido.

Sim, não temos essa informação.

Horácio Mota, eu imagino que isto, três semanas depois, para a semana vamos fazer um mês da passagem da tempestade Cristina, tudo isto seja muito desanimador. O senhor é presidente da Associação Empresarial do Conselho de Pombal. O que é que diz aos associados? Como é que os traz para cima?

Olhe, tenho que dizer que têm que ter muita esperança e têm que continuar a ser empreendedores como sempre foram, mas eles estão muito desanimados. Porque sentem todos que realmente há medidas, e há medidas extraordinárias do IEFP e da Segurança Social, mas de facto, as pessoas já não querem ter mais dívidas, já estão cansadas das dívidas do Covid, agora as dívidas do Cristina e as pessoas não estão interessadas, estão muito cansadas.

Horácio Mota, muito obrigado por ter estado aqui em direto na Rádio Observador. Também ajudou-nos aqui a traçar um retrato da situação no Conselho de Pombal. Horácio Mota é presidente da Associação Empresarial do Conselho de Pombal e esteve aqui no Explicador da Rádio Observador.