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Não conseguiu ser eleito deputado desta vez pela Iniciativa Liberal nas legislativas do mês passado e agora vê o partido sem líder. André Brandt Amaral, vogal da Comissão Executiva, é o convidado deste Explicador da tarde política, uma entrevista conduzida pela Raquel Bagasis e pelo Miguel Cordeiro.
André Brandt Amaral, bem-vindo à Rádio Observador.
Obrigado.
Ficou surpreendido com a saída de Rui Rocha da liderança do partido ou já tinha conhecimento dessa intenção de Rui Rocha?
Não, fiquei surpreendido na medida que a decisão foi pessoal e foi dele. Depois, se me perguntarem se vai ao encontro daquilo que sempre conheci do Rui, e percebendo todo o contexto e explicações dele, acaba por não ser surpreendente, porque o Rui sempre foi uma pessoa bastante rigorosa e consistente, e a sua decisão demonstrou uma vez mais isso mesmo, ou seja, uma pessoa que é consistente, ponderada, que analisou de uma forma muito racional e fria, não só os resultados, mas principalmente o novo contexto político, ciclo político em que o país se encontra, e tomou a decisão e a partir daí, o ter sido surpreendido ou não acaba por ser secundário. O que é importante é respeitar a decisão do Rui Rocha relativamente à sua demissão de presidente da Iniciativa Liberal.
Na comunicação, no e-mail que mandou aos militantes, Rui Rocha diz que o partido não mostrou a preponderância política que a Iniciativa Liberal desejava. Considera que Rui Rocha é o principal culpado destes resultados eleitorais da IL?
Não. Os resultados da Iniciativa Liberal têm que ser analisados em dois contextos diferentes. Um é a nível internacional, e isto é bastante importante nós fazermos essa distinção. É que a nível internacional, com os movimentos sociais coletivistas de identidade nacionalista a crescerem em todo o Ocidente, em que estamos a ver muitos partidos liberais a terem significativamente reduzido o seu eleitorado ou até mesmo desaparecerem, o facto de a Iniciativa Liberal ter crescido é até um feito. Agora também é necessário ver as circunstâncias em nível nacional e estas são: nós tínhamos um partido que estava unido, ao contrário do que acontecia anteriormente, há um ano. Tínhamos uma boa imprensa, ao contrário do que aconteceu há um ano, e isto é importante para todos os efeitos. O partido neste momento era bastante credível e não foi só o voto favorável à moção de confiança, o seu trabalho parlamentar, o rigor, o trabalho que tinha sido feito, foi sendo feito ao longo destes dois anos e meio, foi extremamente consistente e sentia-se que as pessoas tinham uma boa impressão da Iniciativa Liberal relativamente a este aspecto. E tudo isto, das circunstâncias hoje em 2025 serem muito melhores do que há um ano, é fruto da ação do Rui Rocha. Quer dizer, é fruto da ação de todo o partido, da comissão executiva, sem dúvida, mas sob a batuta do Rui. Ele era o presidente, era o líder do partido e foi ele que deu essas orientações, foi ele que liderou o partido para esta transição. E nessa medida, o que eu posso ver é, apesar do resultado a nível nacional, dadas as circunstâncias nacionais, ter ficado aquém daquilo que nós desejávamos e esperávamos, é esta consistência e este trabalho que o Rui Rocha fez durante estes dois anos e praticamente meio, que permitiu que a Iniciativa Liberal seja um partido liberal, que seja exceção a todos os partidos liberais europeus.
André Brandt Amaral, o que está a dizer parece que não havia possibilidade da IL crescer mais. Queria perceber se é nessa linha que está a ir e se nesse sentido, nesse caso, Rui Rocha devia manter-se. Acha que Rui Rocha devia continuar?
Não, porque a decisão do Rui, a expectativa foi criada. O facto de o Rui ter decidido sair foi: nós estabelecemos uma meta, não foi quantificada, mas toda a gente percebeu, isso era perfeitamente público, era ter um resultado superior àquele que foi obtido. A Iniciativa Liberal tem esta cultura, tem sido dito, ouvi desde a demissão do Rui no sábado, que a Iniciativa Liberal não consegue ter lideranças duradouras. Isso é uma perspectiva. A outra é: somos um partido que tem lideranças que são ambiciosas. Esse trabalho é um trabalho árduo, é um trabalho difícil e somos exigentes. E as pessoas que mais exigentes são, são os próprios líderes do partido. E neste caso, foi o próprio Rui que estabeleceu esse grau de exigência para ele próprio.
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta que tem que ver com a estratégia que a Iniciativa Liberal seguiu. Tudo isso que nos disse há bocado, que a Iniciativa Liberal conseguiu no último ano criar uma imagem diferente, uma imagem de unidade, uma imagem de responsabilidade. Depois, chegados a estas eleições, houve uma proposta em cima da mesa da Iniciativa Liberal poder ir coligada com a AD a estas eleições e há quem diga que se isso tivesse acontecido, o resultado teria sido bem diferente, sobretudo também para a Iniciativa Liberal e para a sua capacidade de influência no próximo governo. E por outro lado, há também críticas. Ouvimos já aqui na antena da Rádio Observador o Bernardo Blanco a dizer que a Iniciativa Liberal, tendo optado por ficar de fora da AD, contudo, ao longo da campanha não conseguiu diferenciar-se o suficiente da AD para conseguir o tal resultado que era ambicionado. Olhando agora para trás, as decisões foram tomadas lá atrás, mas o que acha que deveria ter sido feito diferente olhando para os resultados?
Sim, é um equilíbrio difícil ter conseguido isso, e eu vou explicar. Para já, era extremamente importante que a Iniciativa Liberal concorresse sozinha, que não houvesse nenhuma coligação pré-eleitoral, principalmente porque um dos grandes objetivos das duas comissões executivas do Rui Rocha foi que a Iniciativa Liberal tivesse uma autonomia estratégica. E era importante não só pelo partido, mas pelas ideias que nós defendemos. E foi com isso que nós fomos a eleições. Todos estes atos eleitorais que tiveram lugar sob a presidência do Rui, que foram muitos, e isto foi de facto duas comissões executivas com muito trabalho neste sentido, foram sempre para apresentarmos as nossas ideias e com isso conseguimos, na medida do possível, influenciar o futuro político e governativo do país.
Mas olhando para trás, não tiveram sucesso.
Nessa medida, e foi por isso que o Rui decidiu sair da presidência.
Mas a minha pergunta é: sabendo o que sabe hoje, não teria feito mais sentido outra opção?
Não, de prescindir da autonomia estratégica, não. A questão aqui, e isto é o meu ponto de vista pessoal, vamos ver se consigo explicar bem, é que poderá ter faltado transmitir a ideia de que nós, Iniciativa Liberal, num acordo de governo com a AD, estaríamos dispostos a negociar, mas seríamos exigentes nessa negociação. E possivelmente aí poderá ter sido uma falha de comunicação, não sei. Quer dizer, tudo isto é muito bonito dizermos. E essa é a minha perspectiva pessoal. Agora, é verdade, veja-se o que aconteceu na Madeira, em que a Iniciativa Liberal recusou-se a fazer parte de um futuro governo de entendimento com o PF, com Miguel Albuquerque, e o resultado foi negativo. Ou seja, a Iniciativa Liberal conseguiu manter a sua representação no Parlamento Regional, mas perdeu votação, coisa que não aconteceu aqui. Portanto, é verdade que podemos fazer esta análise para trás para saber o que é que correu bem e o que correu mal, mas também temos que perceber que o ir por outro caminho não teria obrigatoriamente um resultado positivo, poderia até ter um resultado negativo. Portanto, isto são todas incógnitas, nós nunca sabemos o que é que teria acontecido e na altura também não saberíamos qual dos outros resultados teríamos caso tivéssemos ido por outro caminho. Agora, julgo que aqui, isto é a minha opinião mais objetiva e pessoal, poderíamos ter sido mais firmes na comunicação de que seríamos exigentes numa possível negociação com a AD para o governo, para fazer separar aqui as águas no sentido de: "Sim, senhor, o partido está disposto a isso numa questão de estabilidade, mas nunca deixa de pôr uma ênfase reformista e, de facto, um governo com a Iniciativa Liberal será sempre um governo muito mais reformista do que será, ou seria muito mais reformista do que será um governo só com a AD."
André Abrantes Amaral, vamos aqui falar da questão dos timings. A saída acontece no meio de um exigente ano eleitoral. Temos agora as legislativas, vamos ter autárquicas daqui a sensivelmente três meses, presidenciais daqui a sete meses. Isto compromete os objetivos da Iniciativa Liberal, esta discussão em torno da liderança?
Não vejo porquê. As eleições autárquicas são locais. Eu nunca tinha estado na política até estar aqui na Iniciativa Liberal e na comissão executiva. Foi algo que de facto me dei conta e que aprendi na campanha que fiz no distrito de Leiria, em que tive muito contacto com as pessoas dos núcleos e dos concelhos do distrito de Leiria, e há uma enorme diferença entre o mundo local e aquilo que é a política nacional. Essa política local continua e não tem grandes consequências com o que está a acontecer agora.
Mas a IL é um partido com pouca representação local ainda nesta altura. A mensagem que é deixada a nível nacional por uma liderança acaba por ter o seu impacto para essas eleições que são daqui a três meses.
Sim, possivelmente, mas não creio que seja uma coisa definitiva. E depois é o seguinte, nós temos que ver. É verdade que a Iniciativa Liberal tem pouco peso a nível local, mas as últimas eleições autárquicas foram em 2021, quando a Iniciativa Liberal era um partido muitíssimo mais pequeno do que é hoje. Eu não estou a dizer que se vai tornar agora num gigante autárquico, não é nada disso, mas é preciso também dizer que a presença autárquica neste momento é diferente da de 2021, não é propriamente a de 2025.
Então, pondo aqui a questão de outra forma, a IL tem oito anos, vai para a quinta liderança. Isto tem impacto naquilo que é a estratégia do partido e na afirmação da IL nos diferentes panoramas da política portuguesa?
Se me perguntam a fazer a comparação com o Chega, que também surgiu mais ou menos na mesma altura e fez um percurso ao mesmo tempo que entrámos os dois partidos com deputado único na mesma altura, são coisas completamente diferentes. O Chega seguiu uma estratégia muitíssimo diferente da Iniciativa Liberal. O objetivo do Chega é chegar o mais rapidamente possível ao poder, não é o de transformar o país. Aliás, o Chega cresceu, mas vendeu a alma ao diabo. Porque prometeu tudo e mais alguma coisa este mundo e o outro aos portugueses, e portanto comprometeu-se com isso. E há um dia em que o povo português lhe vai cobrar essas promessas. A Iniciativa Liberal tem um caminho completamente diferente. Aplicou rigor, apresentou medidas que considera que são as necessárias para o país. Muitas vezes não são as mais populares. É verdade que são complexas, podem ter sido difíceis de explicar, mas a verdade seja dita, que nunca ninguém nos pode apontar o dedo de termos falhado à verdade E se alguma vez chegássemos ao governo, aquilo que as pessoas vão ver foi aquilo que nós propusemos e aquilo que nós explicamos. Não há aqui nenhum engano, sequer, não há qualquer alguma falsidade. E nesse sentido, a Iniciativa Liberal só se pode orgulhar do trabalho feito até agora. E eu devo dizer, não é por ser o meu partido, mas prefiro mil vezes ter nove deputados da Iniciativa Liberal com as propostas que nós fizemos, com o trabalho que foi apresentado, a ter os 60 deputados do Chega nas condições em que foram obtidos.
Muito bem, André Abrantes Amaral, pedia-lhe aqui uma resposta rápida para uma última pergunta, que o nosso tempo está a chegar ao fim. Havia uma ideia de candidatar Mariana Leitão à Presidência da República. Face à situação atual da Iniciativa Liberal, à mudança de liderança, até ao facto da própria Mariana Leitão ser apontada como uma possível sucessora de Rui Rocha, faz sentido manter esta candidatura em cima da mesa?
Depende muito da vontade da Mariana e passa pela sua vontade ou não, disponibilidade ou não, de se candidatar à liderança da Iniciativa Liberal. No momento não sabemos e essa é a pergunta que eu não consigo responder. Julgo que se a Mariana não for candidata e tiver disponibilidade de se candidatar, de continuar e concorrer à Presidência da República, sem dúvida nenhuma, tem todas as condições, elas mantêm-se, não há qualquer tipo de razão para desistir disso mesmo. Agora, tudo depende da vontade da Mariana e que está muito dependente até da sua decisão de concorrer ou não à liderança da Iniciativa Liberal.
Mas André Abrantes Amaral, tem algum nome que possa apontar?
Eu não vou apontar nomes. Julgo que qualquer membro pode ser o candidato. É mais do que importante, é indispensável que seja um deputado, pelas razões óbvias. Os nomes são aqueles que têm sido referidos, não tenho nenhuma duvidade quanto a isso. A Mariana, o Mário, o Carlos Guimarães Pinto, Rodrigo Saraiva, são pessoas que são perfeitamente capazes de se candidatar e que seriam excelentes presidentes do partido.
André Abrantes Amaral, vogal da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal, muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador.
Obrigado.