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Este é o Explicador da Rádio Observador, esta manhã sobre a primeira encíclica do pontificado de Leão XIV e para isso é nosso convidado o padre João Basto. A conduzir esta conversa vai estar o jornalista Luís Soares.

Bem-vindo, padre João Basto, a este Explicador. Este é o primeiro grande documento programático de Leão XIV, tem vários capítulos, cinco capítulos, um foco importante na inteligência artificial. Por que o Papa está preocupado com a forma como usamos a inteligência artificial?

Olá, bom dia outra vez. Obrigado pelo convite. Realmente, o nome Leão XIV já é em si programático, porque o último papa Leão tinha sido Leão XIII, que tinha feito um documento muito importante porque ele apanhou a Segunda Revolução Industrial e faz ali um documento chamado "Rerum Novarum", "coisas novas" em latim. E realmente o Papa Leão XIV parece quando intui o nome, também o intui porque entende que nós estamos a passar aqui uma transição de época semelhante à que o seu antecessor, Rerum Novarum, passou, portanto, a inteligência artificial é claramente aqui--

A Revolução Industrial dos nossos tempos.

Exato. A quarta Revolução Industrial, a terceira, como já foi denominada.

E portanto, há aqui algumas preocupações que o Papa Leão XIV levanta sobre a forma como usamos esta ferramenta.

E que antecedem até a própria ideia de regulação. Hoje em dia na Europa e Estados Unidos falamos muito de regulação da inteligência artificial, o Papa Leão XIV chega certamente a dizer que isto não tem nada a ver necessariamente com a regulação, é algo anterior, do género: que ser humano e que estilo de sociedade nós queremos construir? Ele é agostiniano, ele é um papa que está dentro da ordem de Santo Agostinho e ele parece retomar logo ao início, ao que Santo Agostinho já tinha dito na Idade Média, que nós temos duas possibilidades: ou construímos a cidade de Deus ou construímos a cidade dos homens. Essa é uma metáfora, uma analogia célebre de Santo Agostinho num livro de ciência política chamado precisamente "Cidade de Deus" e o Papa retoma isso para falar precisamente da inteligência artificial. Isto não é só uma questão ética e moral, é acima de tudo que humanidade queremos construir. E daí a ideia do título, "A Magnífica Humanidade". Mas também marca, aliás, uma rutura com o seu antecessor, porque na "Rerum Novarum" fala realmente das questões do trabalho e da Revolução Industrial e critica tanto uma sociedade totalmente capitalista, o sistema liberal, como critica a sociedade comunista. Neste momento, a encíclica, pelo aquilo que já pude ler, não tem esta dimensão bilateral. Realmente, o foco está nos produtores da inteligência artificial, não fala aqui claramente do outro lado e isso creio que também é sintomático para o mundo que vivemos.

De certa forma, podemos dizer que Leão XIV tenta, com este documento, adaptar a doutrina da Igreja aos tempos que vivemos? É também um pouco isto que é feito?

Logo no início ele diz isso, ou seja, a ideia de que a doutrina da Igreja Católica também tem uma dimensão de elasticidade e de compreensão dos novos tempos. Ele cita, para darmos dois exemplos, "O Senhor dos Anéis" e cita Hannah Arendt, em "As Origens do Totalitarismo", quando ela fala dos súbditos leais. Há uma certa altura do texto em que ele faz uma reflexão sobre a questão da democracia e claramente o Papa diz que o problema não é termos demasiadas máquinas. A certa altura, e acho que todos nós sentimos isso, se calhar há neste momento pais a levar filhos à escola, a ideia de que o nosso trabalho e as máquinas são o modelo que nós imitamos através do nosso trabalho e da nossa humanidade e através do qual o nosso trabalho é medido. O Papa critica muito a lógica da eficácia, a ideia de que o mundo se rege unicamente por uma ideia de produtividade excessiva, que a inteligência artificial parece que vem alimentar, além de, noutro ponto também é claro, uma ideia de novas escravidões e de uma nova colonização do pensamento, da economia e até do ramo militar.

Há aqui também uma crítica. No fundo, a crítica é ao uso da ferramenta em si e não à existência. Ou seja, a crítica é à forma como colocamos nas mãos da inteligência artificial aquilo que devia estar nas mãos das pessoas, é um pouco isso?

Sim, ou seja, o Papa diz claramente que a técnica em si não é uma força antagónica à humanidade e que isso seria até uma certa ideia disparatada, muito embora o Papa reforce logo a seguir que todas as revoluções técnicas e tecnológicas tiveram algo de ambíguo e nós temos também de estar despertos para não ser inocentes e um bocadinho nabos, entre aspas, quando olhamos para tudo isto. Às vezes temos um olhar demasiado deslumbrado e o Papa alerta para uma ilusão que hoje é cada vez mais premente, que é a ilusão de uma técnica que nos pode libertar de toda a fragilidade e de todos os erros humanos. O Papa logo no início diz claramente isto: a humanidade é frágil, mas isso é bom, não é algo que deva ser corrigido por uma técnica e nenhuma técnica irá corrigir isso. E portanto precisamos também ter cuidado para cuidar da humanidade tal como ela é e não criar aqui uma espécie de segunda humanidade, que seria uma ilusão.

Tem ideia, padre João Basto, se a Igreja Católica, se no Vaticano se usa inteligência artificial?

Eu não sei se se usa inteligência artificial. Aquilo que eu lhe posso dizer neste momento é que nós temos dos maiores especialistas em inteligência artificial no Clero. Há um padre franciscano chamado Paolo Benitti, que é claramente um dos grandes especialistas em inteligência artificial, é conselheiro do Papa para estes assuntos, trabalha para a Microsoft e nós também temos, neste momento, não a viver em Portugal, mas um padre português nos Estados Unidos, na Universidade de St. Louis, em Chicago, jesuíta, o padre Afonso Seixas Nunes, que trabalha muito na área do direito e tem trabalhado com a NATO sobre se nós devemos ou não usar dronesEm conflitos armados, quais são os limites da dita guerra justa que o Papa também refere aqui nesta carta. Portanto, nós, neste momento, não sei se usam ChatGPT, Gemini ou Claude, mas claramente nós estamos bem informados.

Mas existem usos possíveis de inteligência artificial para a Igreja Católica?

Sim, existem usos possíveis. Acho que também é ingénuo, seria ingénuo da nossa parte dizer que isto não é uma ferramenta que pode ser utilizada para o bem. Isso claramente, sim.

Há aqui outro dado, padre João Bastos. Este texto foi apresentado numa cerimónia que contou com a participação do cofundador da Anthropic, uma das empresas mais influentes nesta área. Tendo em conta aquilo que tem sido a guerra de palavras entre o Papa e Donald Trump, por exemplo, é significativo que isso tenha acontecido desta forma com esta presença também?

Eu não sei se é significativo por isso. Acho que é significativo do processo que leva esta encíclica. Aliás, o Papa refere isso e algumas pessoas nessa mesma cerimónia referem isso. Ou seja, são anos de reflexão da Igreja. Nós estamos habituados que, para o bem ou para o mal, a Igreja demora muito tempo a pronunciar-se e a refletir sobre certos temas. E este processo que leva a esta carta, este pronunciamento do Papa, é um processo muito longo, onde se ouviram várias pessoas e claramente o fundador da Anthropic foi uma dessas pessoas, e a sua presença é significativa por isso. Ou seja, a Igreja quando faz um processo, não faz um processo contra a realidade e contra o mundo, nem contra as pessoas que são especialistas na área. O Papa refere isso. Ou seja, a Igreja não quer substituir a sua reflexão àquela que é a reflexão dos especialistas. Quer é imputar a sua dimensão cristã do evangelho, porque isso também faz parte daquilo que nós somos.

De uma certa forma, não querendo colocá-lo enquanto comentador de política internacional, mas pode, por exemplo, o presidente norte-americano sentir-se melindrado com estas conclusões, com esta carta?

Se o problema é que o presidente norte-americano se sente ou não melindrado com o que é complicado decidir qual era o limite do melindre. Portanto, creio que é melhor seguirmos com a nossa vida.

Exatamente. Padre João Bastos, embora a inteligência social seja o tema forte desta encíclica, vai além, como dizia desta questão, aborda questões que a humanidade vem enfrentando, nomeadamente há aqui uma revisitação desse conceito de guerra justa. Por que houve esta necessidade de voltar a abrir este conceito e, de certa forma, de o atualizar, se percebo bem?

Sim, ontem houve um pouquinho a ideia de que o Papa teria eliminado o conceito de guerra justa. Preferi ler o texto com mais cuidado e claramente não me parece que seja isso que o Papa propõe. Ou seja, o Papa propõe, diante dos novos desafios éticos, um novo limite para o conceito de guerra justa. O Papa nessa altura está a falar das questões dos sistemas automáticos, até mesmo dos drones, de tudo o que tem a ver com drones não tripulados, que podem fazer uma espécie de guerra limpa e que essa guerra limpa corresponderia a uma espécie de guerra justa. E o Papa diz que isso não é claro. A guerra justa não é necessariamente uma guerra limpa. E retoma algumas coisas em nota de rodapé, é verdade, algumas daquelas que são as características da guerra justa e uns critérios para que nós possamos fazer uma guerra justa, que o Papa claramente não elimina. Mas parece-me também importante por outro motivo, porque nós neste momento vemos muita gente a falar de uma guerra em nome de Deus, de uma guerra em nome da civilização ocidental, e isso só por si não é uma guerra santa, não é uma guerra justa, e é preciso uma reflexão moral muito antes disso. Não é um título que faz de uma guerra ou não é um objetivo que faz de uma guerra, uma guerra justa.

Mas é importante no momento em que vivemos tantos conflitos, ter aqui uma palavra também para este conceito.

A referência não é muito longa. Num parágrafo, aliás, como eu disse, há questões que ficaram mesmo para nota de rodapé. Agora, parece-me que é muito importante hoje em dia, em que muitas vezes o apelo às guerras é feito através de uma ideia de nós somos puros moralmente e vamos punir quem não é puro moralmente, usando meios que me parecem muitas vezes não morais.

Padre João Bastos, volto a descer um pouquinho atrás naquilo que poderia ter sido a minha primeira pergunta nesta conversa. O que são as encíclicas e qual a importância das encíclicas para a Igreja Católica?

Explicar. Exatamente. As encíclicas são pronunciamentos públicos dos papas que começaram mais ou menos no século XVIII. Não é mais ou menos, é mesmo no século XVIII. Há aqui problemas de aproximação a nível de datação. Mas nós estamos a falar de, eu não sei se teria o equivalente ao documento do Estado, ao Estado português, mas os documentos do Estado português têm uma espécie de grau de importância. E o Papa, quando se pronuncia, também tem graus de importância. Uma coisa é o Papa diz numa entrevista no avião, outra coisa é o que o Papa diz numa homilia, outra coisa, que é o grau mais elevado, é o que o Papa diz numa carta encíclica. Portanto, aquilo que o Papa diz aqui é o ponto mais elevado, só depois uma outra coisa muito excepcional é que ele poderia recorrer ainda mais elevado do que isto, mas claramente a carta encíclica é: eu estou a falar enquanto Papa, em nome da Igreja, para todos, não só para os cristãos, para toda a humanidade, e portanto, isto é o máximo do ponto que eu posso falar. E isso significa também que o facto de ele ter elegido a inteligência artificial como tema de um documento destes, como aliás João Paulo I já tinha elegido, por exemplo, a questão da ecologia, é porque claramente é uma preocupação importante e não propriamente uma coisa de caserna ou de sadistia

Já falou dessa do Papa Francisco. Que encíclicas são mais significativas, mais relevantes, pelo menos nos últimos anos, que tenham marcado o percurso da Igreja Católica?

Claramente, do Papa Francisco, duas: a "Fratelli Tutti", que é sobre a questão da humanidade, da fraternidade, que estava muito ligada à questão da migração. Temos também a "Samaritas Vigiles", das migratórias, da questão do perdão, da pena de morte, em que o Papa Francisco faz uma reformulação do conceito de pena de morte, mostrando que o conceito de pena de morte não é legítimo, que é uma atualização da doutrina. Tínhamos também a "Laudato Si", que trata da questão da ecologia, e já tinha havido no Papa Bento XVI uma encíclica muito forte, que às vezes é esquecida, porque parece que o Papa Francisco foi um comunista de Buenos Aires que veio a dançar tango pelo Atlântico acima, mas Bento XVI tinha feito uma encíclica muito forte chamada "Caritas in Veritate", a caridade na verdade, em que ele tinha criticado claramente, na altura da crise financeira, o mundo económico e financeiro que tinha gerado e tinha combatido muitas vezes aquela crise financeira.

Ou seja, verificamos que são sempre documentos que estão muito ligados ao momento que se vive em cada altura.

Sim, enquanto exortações apostólicas, que é o nível, a gama de cargo abaixo, a nível de pronunciamentos, são muito sobre o mundo da Igreja em si, as encíclicas são mais relativas ao mundo que nos rodeia.

E elas têm uma consequência prática, têm um efeito prático?

Sim, hoje Lisboa recebe o Bad Bunny e realmente há uma relação que se pode tirar, porque neste último álbum do Bad Bunny, ele fala muitas vezes da gentrificação de Porto Rico e claramente este texto é contra uma certa gentrificação da forma como nós pensamos. O Papa diz: "É preciso desarmar a inteligência artificial, mas não só a nível militar, nem a nível económico, é na nossa própria forma de conhecer e de lidar com o mundo." E isso tem uma ligação com o Bad Bunny.

Claro. Padre João Barros, muito obrigado por ter vindo.

Obrigado.

Até à próxima. Obrigado.